Convocamos a poesia para ouvir o futuro.
De novo a descobrimos
como discreto rumor do universo,
como íntimo sabor das coisas,
ligeiro perfume do tempo e da saudade.
Podemos procurá-la no vento
como simples murmúrio,
punhal de alegria no coração da aventura.
Rui Namorado
domingo, 13 de julho de 2008
sábado, 12 de julho de 2008
JOAQUIM NAMORADO (1914-1986)

Joaquim Namorado
Poeta e ensaísta português licenciado em Ciências Matemáticas e durante décadas compulsivo professor particular e doméstico, exerceu a seguir, desde 25 de Abril de 1974 até à aposentação, as funções de professor da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra.
Poeta do primeiro neo-realismo que trouxe para a poesia a dureza, a raiva e a revolta contra a miséria e a vergonha do Portugal salazarista, não deixando de dar ao verso uma músicalidade, um ritmo e um tom que viria a fazer escola.
CARIDADE
As senhoras da sociedade
deram um baile a rigor
para vestir a pobreza
e a pobreza horas a fio
cortou, coseu, enfeitou
os vestidos deslumbrantes
que a caridade exibiu.
Depois das contas bem feitas
bem tiradas as despesas
arranjou um namorado
a mais nova das Fonsecas;
esteve bem a viscondessa,
veio o nome e o retrato
da comissão nos jornais,
e o Doutor, o Menezes,
o senhor desembargador,
estiveram muito engraçados,
dançaram o tiro-liro
já meio-tombados...
Parece que ainda sobrou
algum dinheiro para chita
para vestir a pobreza
numa festa comovente
com discursos de homenagem
e uma missa...
a que assistiu toda a gente
Joaquim Namorado
deram um baile a rigor
para vestir a pobreza
e a pobreza horas a fio
cortou, coseu, enfeitou
os vestidos deslumbrantes
que a caridade exibiu.
Depois das contas bem feitas
bem tiradas as despesas
arranjou um namorado
a mais nova das Fonsecas;
esteve bem a viscondessa,
veio o nome e o retrato
da comissão nos jornais,
e o Doutor, o Menezes,
o senhor desembargador,
estiveram muito engraçados,
dançaram o tiro-liro
já meio-tombados...
Parece que ainda sobrou
algum dinheiro para chita
para vestir a pobreza
numa festa comovente
com discursos de homenagem
e uma missa...
a que assistiu toda a gente
Joaquim Namorado
quinta-feira, 10 de julho de 2008
PEDRO OOM (1926-1974)

Pedro Oom
Pertenceu ao acidentado Movento Surrealista Português por onde passaram e de onde saíram poetas tão importantes como Alexandre O'Neill, Mário Cesariny, António Maria Lisboa, António Pedro, Artur Cruzeiro Seixas e vários outros.
Como um pouco por todo o mundo, o Surrealismo foi uma explosão de criatividade por vezes radical onde ainda hoje podemos ir beber muito boa poesia que às vezes ficou presa na gaveta da circunstância ou em edições perdidas.
Há um pequeno livro de Pedro Oom que ainda se encontra por aí para quem souber procurar.´Chama-se "Actuação escritA" E é um desses maravilhosos e por vezes loucos livrinhos das edições &etc.
Pedro Oom morreu no duia 26 de Abril de 1974 durante um jantar que comemorava o 25 de Abril Viveu a alegria e evitou esta amarga ressaca que calhou aos que ficaram.
ACTUAÇÃO ESCRITA
Pode-se escrever
Pode-se escrever sem ortografia
Pode-se escrever sem sintaxe
Pode-se escrever sem português
Pode-se escrever numa língua sem saber essa língua
Pode-se escrever sem saber escrever
Pode-se pegar na caneta sem haver escrita
Pode-se pegar na escrita sem haver caneta
Pode-se pegar na caneta sem haver caneta
Pode-se escrever sem caneta
Pode-se sem caneta escrever caneta
Pode-se sem escrever escrever plume
Pode-se escrever sem escrever
Pode-se escrever sem sabermos nada
Pode-se escrever nada sem sabermos
Pode-se escrever sabermos sem nada
Pode-se escrever nada
Pode-se escrever com nada
Pode-se escrever sem nada
Pode-se não escrever
Pedro Oom
Pode-se escrever sem ortografia
Pode-se escrever sem sintaxe
Pode-se escrever sem português
Pode-se escrever numa língua sem saber essa língua
Pode-se escrever sem saber escrever
Pode-se pegar na caneta sem haver escrita
Pode-se pegar na escrita sem haver caneta
Pode-se pegar na caneta sem haver caneta
Pode-se escrever sem caneta
Pode-se sem caneta escrever caneta
Pode-se sem escrever escrever plume
Pode-se escrever sem escrever
Pode-se escrever sem sabermos nada
Pode-se escrever nada sem sabermos
Pode-se escrever sabermos sem nada
Pode-se escrever nada
Pode-se escrever com nada
Pode-se escrever sem nada
Pode-se não escrever
Pedro Oom
UMA FORMA DE VIAJAR
A propósito deste desfilar por alguns poetas que não estão na moda ou/e que são menos conhecidos, o meu amigo Samuel, O Cantigueiro, deixou-me estas palavras num post:
"É uma bela forma de viajar, esta tua. Ir avançando, passo a passo, parando aqui e ali, falando com quem está, apanhando uma ou outra flor mais escondida, fazendo grandes desvios da estrada principal...
Bela forma de viajar!"
Comoveu-me, o malandro. Porque é mesmo uma viagem de um amante da poesia, gato com o rabo escaldado das oficialidades, dos opinantes, dos academistas, dos rapazes dos lobies... Sei lá.
Sempre andei por margens. Mas também sempre guardei memória das paixões, das vivências e das convicções.
Por isso faço deste blog um lugar de recordar coisas e pessoas. Recordar alguns que por isto ou po aquilo têm sido injustamente esquecidos. E assim me vou recordando de mim, como fui, como vou sendo, como serei enquanto a teimosia me der chama.
A verdade é que gosto de poesia. Gosto muito de poesia e de a partilhar. Tenho passeado pela poesia portuguesa até aos recantos mais remotos. É muito rica a arca da poesia portuguesa e, sobretudo, da poesia portuguesa desde o último quartel do séc. XIX até finais do séc. XX.
Fico feliz quando dou a conhecer um poema ou um poeta a alguém que não o conhecia e que fica a sentir-se de súbito preso por essa mágica teia de palavras (Olá licínia). Essa partilha fica a ligar-nos e o tempo da solidão e do desalento torna-se mais doce e traz-nos mais alguma promessa de consolo.
Pelas tuas palavras, Samuel, e ainda pela tua arte, também ela a viver na margem mais fraterna da vida, um grande abraço, meu amigo, um grande abraço!
"É uma bela forma de viajar, esta tua. Ir avançando, passo a passo, parando aqui e ali, falando com quem está, apanhando uma ou outra flor mais escondida, fazendo grandes desvios da estrada principal...
Bela forma de viajar!"
Comoveu-me, o malandro. Porque é mesmo uma viagem de um amante da poesia, gato com o rabo escaldado das oficialidades, dos opinantes, dos academistas, dos rapazes dos lobies... Sei lá.
Sempre andei por margens. Mas também sempre guardei memória das paixões, das vivências e das convicções.
Por isso faço deste blog um lugar de recordar coisas e pessoas. Recordar alguns que por isto ou po aquilo têm sido injustamente esquecidos. E assim me vou recordando de mim, como fui, como vou sendo, como serei enquanto a teimosia me der chama.
A verdade é que gosto de poesia. Gosto muito de poesia e de a partilhar. Tenho passeado pela poesia portuguesa até aos recantos mais remotos. É muito rica a arca da poesia portuguesa e, sobretudo, da poesia portuguesa desde o último quartel do séc. XIX até finais do séc. XX.
Fico feliz quando dou a conhecer um poema ou um poeta a alguém que não o conhecia e que fica a sentir-se de súbito preso por essa mágica teia de palavras (Olá licínia). Essa partilha fica a ligar-nos e o tempo da solidão e do desalento torna-se mais doce e traz-nos mais alguma promessa de consolo.
Pelas tuas palavras, Samuel, e ainda pela tua arte, também ela a viver na margem mais fraterna da vida, um grande abraço, meu amigo, um grande abraço!
terça-feira, 8 de julho de 2008
ANTÓNIO REBORDÃO NAVARRO (1933)

António Rebordão Navarro
Natural do Porto, advogado, poeta ligado ao chamado 2º neo-reAlismo esteve muito ligado a uma notável revista de poesia dos anos 50, "Notícias do Bloqueio".
Cruzámo-nos durante alguns anos nas reuniões da direcção da SPA. Ficou-me a afabilidade, o calor, a simpatia aberta e a promessa nunca cumprida, mea culpa, de o visitar no Porto.
A sua obra é vasta e abrange vários géneros, romance, teatro, memórias, viagens. Mas é da poesia que falo aqui. Fui dando com ela em várias pubicações por aqui e por ali. Relê-la hoje pode ser uma supresa inesperada. Uma breve antologia foi publicada há meia dúzia de anos pela ASA.
ESTACIONAMENTO PROIBIDO
Circulem, senhores, circulem.
Não parem junto aos mortos,
não estacionem no silêncio,
não se detenham ante o sangue.
Circulem, senhores, circulem.
Não interrompam o tráfico,
não deixem de cumprir ordens,
não deixem de ser neutros
e desapiedados.
Circulem, senhores, circulem.
Há muita gente que tem horas,
há muita gente que tem pressa,
há muita gente que deve esquecer.
Circulem, senhores, circulem.
Façam de conta,
fechem os olhos,
tapem os ouvidos.
Circulem, senhores, circulem.
Deviam já estar habituados,
deviam não ter lágrimas,
nem espanto, nem irmãos.
Circulem, senhores, circulem.
António Rebordão Navarro
Não parem junto aos mortos,
não estacionem no silêncio,
não se detenham ante o sangue.
Circulem, senhores, circulem.
Não interrompam o tráfico,
não deixem de cumprir ordens,
não deixem de ser neutros
e desapiedados.
Circulem, senhores, circulem.
Há muita gente que tem horas,
há muita gente que tem pressa,
há muita gente que deve esquecer.
Circulem, senhores, circulem.
Façam de conta,
fechem os olhos,
tapem os ouvidos.
Circulem, senhores, circulem.
Deviam já estar habituados,
deviam não ter lágrimas,
nem espanto, nem irmãos.
Circulem, senhores, circulem.
António Rebordão Navarro
MANUEL CINTRA (1956)

Mnuel Cintra
O meu querido amigo Manuel Cintra também anda de poesia às costas. Como eu. Talvez por isso, ou talvez não, gosto da poesia dele. gosto da emoção que transpira. Gosto de o ouvir a dizer poesia. Gosto de o ver a representar.
O Manel sempre viveu numa certa margem, mantendo saudável distância de opinantes e fazedores de modas. Vive a poesia. Atira-a por aí. Semeia livros por várias editoras. Vale a pena apanhá-los e ouvir-lhe o verso.
INFINITO O SILÊNCIO
MANUEL CINTRA (1956)
2.
Fez-se outono em janeiro, Pázinho,
e uma a uma, as gotas dela caem como folhas.
Agora o tempo e o tormento estão de braço dado
e eu que nunca paro dei comigo mais parado
do que ela que ao parar só luta
contra a corrente que toda a vida a inundou
de vida e contra-vida e de lutar
e de não querer que a morte fosse morte
nem houvesse despedida dos que partem
e se calhar ficam, perto de nós
a descansar.
Veio uma rajada mais fria, Pázinho,
e pôs-lhe os cabelos loiros
no sítio mais precioso da lembrança.
Agora caminhar vai ser difícil.
Tu vais sentir-te mais pesada,
e passo a passo e devagar e quase sem querer
vais reviver toda uma vida iluminada
por essa luz estranha essa alquimia particular
que se afasta agora, segundo a segundo
como quem previne que vem aí a escuridão.
E sei que te vai doer
como já a mim me dói tudo isto
esta luta absurda contra a própria luta
este correr parado contra o tempo
esta angústia de a ver assim deitada
e nada poder senão sorrir, com tristeza,
e mesmo assim para dentro,
que cá fora tudo flui num mar de lágrimas
e numa certeza grande enraizada.
Vai fazer-se outono outra vez,
um dia, Pázinho, e não haverá folhas
tal como agora.
Não se ouvirá cair um galho, nem cantar
gente ou pássaros ou céu ou chuva,
nada disto que nos confunde e atrapalha
quando no fundo o que queríamos
era apenas sofrer em paz.
Nem um dedo se moverá. Nem tu,
nem eu, nem a implacável corrente
dos minutos.
Aí,
que mais poderei fazer além de dar-te a mão
e partilhar contigo a cor da morte
a caminho do dia, a caminho do canto
pois nada do que parte se recusa a cá ficar
e toda ela é nossa, e nós dela somos,
e isso, Pázinho, ninguém o pode evitar.
Manuel Cintra
2.
Fez-se outono em janeiro, Pázinho,
e uma a uma, as gotas dela caem como folhas.
Agora o tempo e o tormento estão de braço dado
e eu que nunca paro dei comigo mais parado
do que ela que ao parar só luta
contra a corrente que toda a vida a inundou
de vida e contra-vida e de lutar
e de não querer que a morte fosse morte
nem houvesse despedida dos que partem
e se calhar ficam, perto de nós
a descansar.
Veio uma rajada mais fria, Pázinho,
e pôs-lhe os cabelos loiros
no sítio mais precioso da lembrança.
Agora caminhar vai ser difícil.
Tu vais sentir-te mais pesada,
e passo a passo e devagar e quase sem querer
vais reviver toda uma vida iluminada
por essa luz estranha essa alquimia particular
que se afasta agora, segundo a segundo
como quem previne que vem aí a escuridão.
E sei que te vai doer
como já a mim me dói tudo isto
esta luta absurda contra a própria luta
este correr parado contra o tempo
esta angústia de a ver assim deitada
e nada poder senão sorrir, com tristeza,
e mesmo assim para dentro,
que cá fora tudo flui num mar de lágrimas
e numa certeza grande enraizada.
Vai fazer-se outono outra vez,
um dia, Pázinho, e não haverá folhas
tal como agora.
Não se ouvirá cair um galho, nem cantar
gente ou pássaros ou céu ou chuva,
nada disto que nos confunde e atrapalha
quando no fundo o que queríamos
era apenas sofrer em paz.
Nem um dedo se moverá. Nem tu,
nem eu, nem a implacável corrente
dos minutos.
Aí,
que mais poderei fazer além de dar-te a mão
e partilhar contigo a cor da morte
a caminho do dia, a caminho do canto
pois nada do que parte se recusa a cá ficar
e toda ela é nossa, e nós dela somos,
e isso, Pázinho, ninguém o pode evitar.
Manuel Cintra
domingo, 6 de julho de 2008
ALBANO MARTINS (1930)

O meu amigo Albano Martins foi professor do Ensino Secundário de 1956 a 1976. Tendo ingressado, em 1980, nos quadros da Inspecção-Geral de Ensino, passou, em 1993, à situação de aposentado. Presentemente, é professor na Universidade Fernando Pessoa, do Porto.
A sua vasta obra poética oferece-nos uma contensão rara na poesia portuguesa e um lirismo minimal e intensíssimo. Muitos dos seus pomeas são pequenas pérolas que pousam nos ombros do leitor e ficam a iluminar-lhe o olhar.
A sua obra como tradutor é brilhante e vasta e permito-me destacar as suas magníficas e numerosas traduções de Neruda.
PARA O MUSEU DO HOMEM – 2
E o homem, então,
olhou em seu redor
e disse
às árvores: eu sou
a folha maior.
E as aves
do crepúsculo fizeram
ninho na sua boca.
Albano Martins
olhou em seu redor
e disse
às árvores: eu sou
a folha maior.
E as aves
do crepúsculo fizeram
ninho na sua boca.
Albano Martins
SIDÓNIO MURALHA (1920 – 1982)

Sidónio Muralha
Poeta do "Novo Cancioneiro" e do neo-realismo com forte marca político-social e com uma obra significativa e várias vezes premiada no campo da literatura para crianças.
Economista e gestor de empresas, vive no Congo Belga, na Bélgica, corre vários países como consultor de uma multinaciona e acaba por se fixar no Brasil.
SONETO IMPERFEITO DA CAMINHADA PERFEITA
Já não há mordaças, nem ameaças, nem algemas
que possam perturbar a nossa caminhada,
em que os poetas são os próprios versos dos poemas
e onde cada poema é uma bandeira desfraldada.
Ninguém fala em parar ou regressar.
Ninguém teme as mordaças ou algemas,
- o braço que bater há-de cansar
e os poetas são os próprios versos dos poemas.
Versos brandos... Ninguém mos peça agora.
Eu já não me pertenço: Sou da Hora.
E não há mordaças, nem ameaças, nem algemas
que possam perturbar a nossa caminhada,
onde cada poema é uma bandeira desfraldada
e os poetas são os próprios versos dos poemas.
Sidónio Muralha
que possam perturbar a nossa caminhada,
em que os poetas são os próprios versos dos poemas
e onde cada poema é uma bandeira desfraldada.
Ninguém fala em parar ou regressar.
Ninguém teme as mordaças ou algemas,
- o braço que bater há-de cansar
e os poetas são os próprios versos dos poemas.
Versos brandos... Ninguém mos peça agora.
Eu já não me pertenço: Sou da Hora.
E não há mordaças, nem ameaças, nem algemas
que possam perturbar a nossa caminhada,
onde cada poema é uma bandeira desfraldada
e os poetas são os próprios versos dos poemas.
Sidónio Muralha
sexta-feira, 4 de julho de 2008
CARLOS QUEIROZ (1907 – 1949)

Carlos Queiroz
Poeta do segundo modernismo Português, identificado como um dos grandes nomes da Revista Presença.
É Carlos Queiroz,num número especial da Presença de homenagem a Fernando Pessoa, que dá a conhecer os amores de Fernando Pessoa por Ofélia Queiroz, sua tia. Publicando nesse número diversas cartas de amor de Pessoa escritas a Ofélia.
A sua obra é curta como curta foi a sua vida. Cabe em dois livros. Mas a elegância, a musicalidade e a contida emoção ressaltam de cada verso.
Vale muito a pena visitá-lo num tempo em que grande parte da jovem poesia portuguesa anda tão afastada da música da língua e da grandeza da emoção verdadeira.
CANÇÃO GRATA
Por tudo o que me deste:
- Inquietação, cuidado,
(Um pouco de ternura? É certo, mas tão pouco!)
Noites de insónia, pelas ruas, como louco...
- Obrigado, obrigado!
Por aquela tão doce e tão breve ilusão.
(Embora nunca mais, depois que a vi desfeita,
Eu volte a ser quem fui), sem ironia: aceita
A minha gratidão!
Que bem me faz, agora, o mal que me fizeste!
- Mais forte, mais sereno, e livre, e descuidado...
Sem ironia, amor: - Obrigado, obrigado
Por tudo o que deste!
Carlos Queiroz
- Inquietação, cuidado,
(Um pouco de ternura? É certo, mas tão pouco!)
Noites de insónia, pelas ruas, como louco...
- Obrigado, obrigado!
Por aquela tão doce e tão breve ilusão.
(Embora nunca mais, depois que a vi desfeita,
Eu volte a ser quem fui), sem ironia: aceita
A minha gratidão!
Que bem me faz, agora, o mal que me fizeste!
- Mais forte, mais sereno, e livre, e descuidado...
Sem ironia, amor: - Obrigado, obrigado
Por tudo o que deste!
Carlos Queiroz
quarta-feira, 2 de julho de 2008
RAUL DE CARVALHO (1920-1984)

Natural do Alvito, Alentejo, Raúl de Carvalho foi colaborador das revistas Távola Redonda e Árvore e Cadernos de Poesia, que, na década de 50, conglomeravam de forma irregular, mas activa, poetas de várias sensibilidades.
Irreverente,iconoclasta, marginal, ignorado, habitante da solidão mas carregado de humanidade, solidário com os mais pobres e desfavorecidos, Raúl de Carvalho é um poeta que vale a pena ler e reler com muita atenção.
A sua obra completa está publicada na Caminho e deveremos sempre destacar um poema longo e excepcionalmente belo intitulado "Serenidade és minha" que assim começa:
"Vem, serenidade!
Vem cobrir a longa
fadiga dos homens,
este antigo desejo de nunca ser feliz
a não ser pela dupla humidade das bocas.
Vem serenidade!
Faz com que os beijos cheguem à altura dos ombros
e com que os ombros subam à altura dos lábios,
faz com que os lábios cheguem à altura dos beijos.
Carrega para a cama dos desempregados
todas as coisas verdes, todas as coisas vis
fechadas no cofre das águas:
os corais, as anémonas, os monstros sublunares,
as algas, porque um fio de prata lhes enfeita os cabelos.
..."
CANÇÃO BURGUESA
Consolo e delícia
Da vida burguesa...
Sete horas em ponto
O jantar na mesa;
Café bem quentinho,
Conversa tranquila,
E um lençol de linho
Esperando o seu dono
Para um belo sono...
Que bom não ter sonhos,
Dormir sossegado!
Já estou acordado,
Já salto da cama,
- Maria, Maria,
Traga os meus chinelos,
Traga o meu pijama...
A alma lavada,
O corpo limpinho.
- Bom dia vizinha!
- Bom dia vizinho!
Consolo e delícia
Da vida burguesa...
Se isto continua,
Morro, com certeza!
Raúl de Carvalho
Da vida burguesa...
Sete horas em ponto
O jantar na mesa;
Café bem quentinho,
Conversa tranquila,
E um lençol de linho
Esperando o seu dono
Para um belo sono...
Que bom não ter sonhos,
Dormir sossegado!
Já estou acordado,
Já salto da cama,
- Maria, Maria,
Traga os meus chinelos,
Traga o meu pijama...
A alma lavada,
O corpo limpinho.
- Bom dia vizinha!
- Bom dia vizinho!
Consolo e delícia
Da vida burguesa...
Se isto continua,
Morro, com certeza!
Raúl de Carvalho
terça-feira, 1 de julho de 2008
MARIA ALBERTA MENÉRES (1930)

A minha muito querida amiga Maria Alberta Menéres foi professora, tradutora, jornalista, e é poetisa e escritora de livros infanto-juvenis.
Formou-se em Ciências Histórico-Filosóficas. A sua primeira obra data de 1952 e intitula-se Intervalo, tendo sido premiada, em 1960, com o seu livro Água-Memória, no Concurso Internacional de Poesia Giacomo Leopardi.
De 1965 a 1973 foi professora do Ensino Técnico, Preparatório e Secundário nas disciplinas de Língua Portuguesa e História. Colaborou com vários jornais e revistas literárias - Diário de Notícias, Tábula Redonda, Cadernos do Meio Dia e Diário Popular. Neste último foi responsável pela secção de iniciação à literatura.
De 1974 a 1986, dirigiu o Departamento de Programas Infantis e Juvenis da Rádio Televisão Portuguesa (RTP). Em colaboração com Ernesto de Melo e Castro, organizou, em 1979, uma Antologia da Novíssima Poesia Portuguesa.
Em 1986, recebeu o Grande Prémio Calouste Gulbenkian de Literatura para Crianças, "pelo conjunto da sua obra literária e pela manutenção de um alto nível de qualidade".
A sua obra infanto-juvenil inclui poesia, contos, BD, teatro, novelas e a adaptação de clássicos da literatura.
Entre 1990 e 1993 dirigiu a revista Pais. Entretanto, na Provedoria da Justiça, foi-lhe dada a responsabilidade Provedora de Justiça de Crianças.
Trabalhou com outros autores literários ligados à literatura infanto-juvenil, como António Torrado.
A importãncia da sua obra no campo da literatura infanto-juvenil ofuscou a sua curta mas belíssima obra poética.
POR ENTRE O CREPITAR DOS AUTOMÓVEIS
Por entre o crepitar dos automóveis
o bulício inquebrável da cidade
o relincho das nuvens quando imóveis
me oferecem na garupa a liberdade,
por entre o que hoje sei e nunca sei
deste abrupto silêncio que me invade
sem que uma nesga azul do que inventei
deixe de ser mentira ou ser verdade,
pudera um dia alguém ter leve imagem
de mim que fico e parto sem vontade
ao sabor de um destino de viagem,
pudera eu querer parar em minha idade,
aperceber-me enfim da percentagem
que sobrando me está de eternidade.
Maria Alberta Menéres
o bulício inquebrável da cidade
o relincho das nuvens quando imóveis
me oferecem na garupa a liberdade,
por entre o que hoje sei e nunca sei
deste abrupto silêncio que me invade
sem que uma nesga azul do que inventei
deixe de ser mentira ou ser verdade,
pudera um dia alguém ter leve imagem
de mim que fico e parto sem vontade
ao sabor de um destino de viagem,
pudera eu querer parar em minha idade,
aperceber-me enfim da percentagem
que sobrando me está de eternidade.
Maria Alberta Menéres
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