quarta-feira, 30 de julho de 2008

MANUEL ALBERTO VALENTE (1945)



Manuel Alberto Valente


Nasceu em Vila Nova de Gaia, licenciou-se em Direito pela Universidade de Lisboa e foi jornalista na revista Vida Mundial.

Começou a trabalhar na edição no final dos anos 60, na Inova. Tem corrido diversas editoras, nomeadamente a D. Quixote e a Asa, onde tem contribuido para a edição em Portugal de algumas das mais importantes obras da literatura mundial bem como para a divulgação de alguns dos mais destacados escriores portugueses.

É actualmente director da Divisão Editorial de Lisboa da Porto Editora.

Recentemente foi nomeado Cavaleiro da Ordem das Artes e das Letras pelo governo francês.

O Manuel, amigo de encontros esparsos, não gosta especialmente de relembrar o seu trabalho poético que parou pelos anos 70.

Eu gosto muito deste poema que publico abaixo e que foi editado em 1970.

LADAÍNHA PARA O TEU ADORMECER

um velho muito velho a sonhar com a Soraya
um padre muito padre a dizer que é ateu
um prédio quase novo que se espera que caia
uma homenagem póstuma a alguém que não morreu

uma canária virgem que abandonou o ninho
uma fonte com água quase a morrer de sede
a dez tostões esticadores p’ró colarinho
um ginasta atrevido que trabalha sem rede

uma pomada mágica do próximo oriente
um macaco sem rabo que foi de foguetão
um bébé sem cabelo a chorar por um pente
uma tia doente a arder no fogão

uma cautela em branco na roda de amanhã
um nariz muito sujo sem ter onde se assoe
um ramo de camélias a estrelar na sertã
e que deus nosso senhor vos abençoe

Manuel Alberto Valente

terça-feira, 29 de julho de 2008

EDGAR CARNEIRO (1913)




Edgar Carneiro

Licenciado em Ciências Histórico-Filosóficas pela Universidade de Coimbra. Foi professor em Chaves, Lisboa, Porto, Vila Real, Fiães e Espinho, cidade onde vive desde 1967
.
Fez parte do Orfeão Académico de Coimbra e foi um dos fundadores do TEP - Teatro Experimental do Porto.

É pai do poeta, já falecido, Eduardo Guerra Carneiro.

Poeta claro, conciso e musical que vale muito a pena conhecer. Não é fácil encontrar os seus livros, a não ser o último, "Depois de amanhã", publicado pela Campo das letras.

Às vezes trocamos algumas palavras por escrito. previlégio meu. A sua amével verticalidade está tão presente nas cartas como nos versos.

ROTEIRO

De mar a mar e sempre
Ao sabor da maré
Até chegar feliz
À praia, ao porto, à ilha,
Ao alegre país
Da maravilha,
Ao longínquo sertão,
A qualquer céu possível
Ou local
Onde o Sol nos dê o pão
E o amor lhe ponha o sal.

Edgar Carneiro

segunda-feira, 28 de julho de 2008

EDUARDO GUERRA CARNEIRO (1942-2004)



Eduardo Guerra Carneiro

Nascido em Chaves, foi escritor e jornalista. Trabalhou ou colaborou em jornais tão diversos como o Diário Popular, Século, Se7e, Portugal Hoje, Match Magazine, O Primeiro de Janeiro, ABC, Europeu ou Tempo, e em diversos programas de rádio.

Foi homem da noite e da boémia serena, de conversa demorada e sem destino, vivendo sempre à margem dos sistemas.

Cruzámo-nos bastas vezes. Gostávamos de ficar à palheta. Falámos ao telefone pouco tempo antes de se cansar disto e sair pela janela com inveja dos pássaros.

Os seus livros, «Isto Anda Tudo Ligado», «Contra a Corrente», ou «Dama de Copas», todos publicados pela "&ETC" merecem ser lidos e bem mastigados.

FRAGMENTOS DE UMA ELEGIA – 1

Descansa, borboleta branca,
em minhas mãos abertas e retoma
o teu breve voar de um só dia.
Vens da noite misteriosa, espírito
de outro corpo. Que luz
de súbito se faz nesta loucura?
Melancolia, talvez, morte
chorada. Lanço-te ao vento.
Para que o fogo não volte
a queimar-te as asas.
A medo, terror mesmo, horas passadas,
olho-te tombada nesta sala.
Regressaste aqui, para morrer.
Mas à vida te devolvo. Voa, borboleta!

Eduardo Guerra Carneiro

domingo, 27 de julho de 2008

EDMUNDO DE BETTENCOURT (1899-1973)



EDMUNDO DE BETTENCOURT

Nasceu no Funchal e foi em 1927 um dos fundadores da revista literária Presença

Foi a música e o fado de Coimbra que o popularizaram, de tal modo que mesmo gerações posteriores o aclamaram; José Afonso, cujo pai fora contemporâneo de Bettencourt, considerava-o o "maior cantor de fados de todos os tempos".

Parece hoje claro que, para a qualidade artística de Edmundo Bettencourt, muito contribuiu o facto de ter sido acompanhado à guitarra por Artur Paredes.

Manuel Alegre reconhece que Bettencourt constitui uma "grande figura do fado de Coimbra ao lado de Artur Paredes"; que "trouxe algumas das mais belas canções populares e um lirismo mais forte". E acrescenta: "Lembro-me que os cantores da minha geração queriam todos cantar como Bettencourt, uma oitava acima".

Rui Pato, outro dos notáveis do fado de Coimbra, recorda Bettencourt como "o primeiro grande inovador"; "o percursor da linha que foi depois seguida por Zeca Afonso, ao introduzir no fado temas dos Açores, da Beira Baixa, de várias regiões". E "é também um poeta, um progressista que rompeu com a tradição seguida nos anos 20/30"; "aprendi a gostar de Bettencourt com José Afonso, que, aliás, lhe dedicou um dos seus discos de fado de Coimbra".

Segundo Herberto Helder, "Cabe a Bettencourt a honra de ser uma das pouquissimas vozes modernas entre o milagre do 'Orfeu' e o breve momento surrealista português".

ADEUS

- Quando aqui estou, estou no Céu!
Ela dizia.
E eu ficava melancólico a pensar
como seria
aquele céu, tão simples,
aonde não chegava
o meu sonho mais alto de alegria!

Como seria?

Nesse tempo de tão calmo
sem um começo nem um fim,
seus belos olhos tristes,
quando olhavam para mim
fugiam logo.

Que envergonhados e descidos,
eram bem um adeus
lá do remoto paraíso
cuja plena felicidade
miravam, adormecidos...

Como eu seguia ausente
e cada vez mais distante
da vida,
até chegar subtilmente
ao instante
em que já era um véu de morte
a presença daquela despedida!

O ar então,
pelo terraço,
fechava-se doirado, como num salão,
e ela adormecia...

Dum recanto do Azul
um raio de luz descia
até à luz do seu sorriso
ainda de donzela.
Atraídas,
chegavam borboletas,
coloridas,
que tombavam tontas e inocentes
por sobre ela.

E numa janela
que ali se desenhava,
que breve se fechava
sem rumor,
vinha por fim roçar a asa
um corvo branco anunciador!

Ela dormia a sono solto,
sob a minha vigília,
que para Ela, a enamorada,
seria
a vigília temerosa do seu Deus.
Dormia,
os olhos bem cerrados
no mais cerrado adeus.

E a sua boca de morta-viva,
saudosa das palavras sonhadoras,
sorria sempre, sorria.

- Quando aqui estou, estou no Céu!

Era agora o sorriso que dizia...

Edmundo Bettencourt

sábado, 26 de julho de 2008

ANTÓNIO FEIJÓ (1859-1917)




António Feijó


Nasceu em Ponte de Lima e morreu em Estocolmo, 20 de Junho de 1917)

Formou-se em Direito na Universidade de Coimbra e tornou-e diplomata.

Como poeta é habitualmente ligado ao Parnasianismo.

O poema de António Feijó que publico em baixo, à semelhança de alguma poesia de António Nobre, é de um lirismo excessivo, quase pingão, mas resiste na linha limite que separa a chorqaminquice supostamente poética da verdadeira emoção das grandes obras.

PÁLIDA E LOIRA

Morreu. Deitada no caixão estreito,
Pálida e loira, muito loira e fria,
O seu lábio tristíssimo sorria
Como num sonho virginal desfeito.

- Lírio que murcha ao despontar do dia,
Foi descansar no derradeiro leito,
As mãos de neve erguidas sobre o peito,
Pálida e loira, muito loira e fria...

Tinha a cor da rainha das baladas
E das monjas antigas maceradas,
No pequenino esquife em que dormia...

Levou-a a morte na sua graça adunca!
E eu nunca mais pude esquecê-la,nunca!
Pálida e loira, muito loira e fria...


António Feijó

quinta-feira, 24 de julho de 2008

YVETTE K. CENTENO (1940)



Yvette K. Centeno

De família de origem germano-polaca, Yvette K. Centeno licenciou-se em Filologia Germânica pela Faculdade de Letras de Lisboa em 1963, tendo começado a leccionar como assistente na mesma faculdade no ano seguinte. Em 1974, passa a leccionar na Universidade Nova de Lisboa, onde é actualmente professora catedrática na área de Literatura Comparada e Coordenadora do Departamento de Estudos Alemãe da Universidade Nova de Lisboa.

Fundou e dirige o Gabinete de Estudos de Simbologia, assim como um núcleo de estudos Teatro e Sociedade.

Foi co-fundadora do CITAC, um dos mais importantes grupos de teatro universitário, de Coimbra.

Tem desempenhado cargos como consultora e comissária em várias iniciativas governamentais e de âmbito cultural.

A incursão nos domínios do simbólico constitui um campo especial do seu trabalho de investigação.

Na obra ensaística, destacam-se as várias obras sobre aspectos da vida e da poesia de Fernando Pessoa.

É autora de traduções para português de obras de, entre outros, Stendhal, Goethe, Shakespeare, Brecht, Celan e René Char.

É Chevalier dans l'Ordre des Palmes Académiques por decreto do Primeiro-ministro Francês (1997) e foi condecorada com a Verdienstkreuz 1. Klasse, atribuída pelo Presidente da República Federal da Alemanha (1994).

É uma poeta que sabe bem ler e reler.

MULHER

MULHER


quando o ventre é o mar
quando o ventre é a água
salgada
numa boca
quando o ventre é a fonte
quando o ventre é a forca



Yvette K. Centeno

quarta-feira, 23 de julho de 2008

CARLOS EURICO DA COSTA (1928-1998)



Carlos Eurico da Costa

Carlos Eurico da Costa nasceu em Viana do Castelo. Foi, com Mário Cesariny, António Maria Lisboa e Cruzeiro Seixas, fundador do Grupo Surrealista português, tendo participado, como artista plástico, na Primeira Exposição dos Surrealistas com um conjunto de desenhos intitulado Grafoautografia. Dentre as actividades a que se dedicou, contam-se a poesia, a tradução, o jornalismo, a crítica cinematográfica, a edição, as relações públicas e a publicidade. Tem colaboração dispersa por diversas revistas, nomeadamente Árvore (1951-1953), Seara Nova, A Serpente (1951) e Colóquio/Letras. Foi presidente da Associação Portuguesa de Escritores.

"A cidade de Palaguin", que aqui vem por baixo é dos poemas que sempre me tocaram pela força, pela raiva, pelo disparar do vidro das imagens em todas as direcções.

Conheci brevemente o Carlos Eurico da Costa num almoço com a comum amiga Maria velho da Costa. Fiquei com pena de não me ter cruzado mais com ele. Fica a poesia para lhe conhecer a asa.

A CIDADE DE PALAGUIN

Na cidade de Palagüin
o dinheiro corrente eram olhos de crianças.
Em todas as ruas havia um bordel
e uma multidão de prostitutas
frequentava aos grupos casas de chá.
Havia dramas e histórias de era uma vez
havia hospitais repletos:
o pus escorria da pora para as valetas.
Havia janelas nunca abertas
e prisões descomunais sem portas.
Havia gente de bem a vagabundear
com a barba crescida.
Havia cães enormes e famélicos
a devorar mortos insepultos e voantes.
Havia três agências funerárias
em todos os locais de turismo da cidade.
Havia gente a beber sofregamente
a água dos esgotos e das poças.
Havia um corpo de bombeiros
que lançava nas chamas gasolina.

Na cidade de Palagüin
havia crianças sem braços e desnudas
brincando em parques de pântanos e abismos.
Havia ardinas a anunciar
a falência do jornal que vendiam;
havia cinemas: o preço de entrada
era o sexo de um adolescente
(as mães cortavam o sexo dos filhos
para verem cinema).
Havia um trust bem organizado
Para a exploração do homossexualismo.
Havia leiteiros que ao alvorecer
distribuíam sangue quente ao domicíio.
Havia pobres a aceitar como esmola
Sacos de ouro de trezentos e dois quilos.
E havia ricos pelos passeios
implorando misericórdia e chicotadas.


Na cidade de Palagüin
havia bêbados emborcando ácidos
retorcendo-se em espasmos na valeta.
Havia gatos sedentos
a sugar leite nos seios das virgens.
Havia uma banda de música
que dava concertos com metralhadoras;
havia velhas suicidas
que se lançavam das paredes para o meio da multidão.
Havia balneários públicos
Com duches de vitríolo – quente e frio
- a população banhava-se frequentes vezes.

Na cidade de Palagüin
havia Havia HAVIA ...

Três vezes nove um milhão.


Carlos Eurico da Costa

terça-feira, 22 de julho de 2008

FERNANDA BOTELHO (1926-2007)



Fernanda Botelho

Nasceu no Porto, em 1926, filha de uma família aristocrática com um sentido de austeridade com o qual iria romper.

Quis entrar em Direito, mas tal foi-lhe proibido pela mãe, que conseguiu levá-la a um "curso de mulheres", em Coimbra. Depois de ter iniciado os estudos, considerou que o meio coimbrão era demasiado conservador e muda-se para Lisboa.

"Quando cheguei a Lisboa, à estação do Rossio, parecia que tinha chegado ao paraíso", diz Fernanda Botelho. Os testemunhos de autores como António Manuel Couto Viana ou Urbano Tavares Rodrigues contam o percurso da escritora e explicam a influência de David Mourão-Ferreira, que se tornou um "mentor espiritual".

Apesar de se ter estreado como poetisa na revista literária Távola Redonda, Fernanda Botelho quis dedicar-se à prosa, lançando a sua carreira com O Enigma das Sete Alíneas, em 1956, mas é no Lourenço é nome de Jogral, de 1971, que a própria confessa haver uma forte nota autobiográfica. O seu último livro, Os Gritos da Minha Dança, foi editado em 2003.

QUOTIDIANO

Sou eu. Sabes quem sou?
Não, não digas nada.
Sei apenas que estou
Acabrunhada.
E se inclino o rosto,
Se pareço uma pirâmide truncada
com sobrecasaca de frio,
é porque não gosto
de puxar o fio
à meada.

(Escadas escuras
subidas dia a dia.
Pernas cansadas
e solas gastas.
Harmonias acabadas
num gesto torvo.
Tremenda nostalgia
de iluminações vastas
e de calçado novo).

Pernas cansadas? Sim.
Magras? Talvez.
Aqui, onde me vês,
já fui assim
… roliça,
como bocejo na hora da preguiça…

Aqui, onde me vês,
não é a mim que me vês.
É a magricela
que sobe aquela
escada de sonhos desiguais
que me constrangem.

- E ainda para mais
os meus sapatos rangem.

Fernanda Botelho

domingo, 20 de julho de 2008

MENDES DE CARVALHO (1927 - 1988)



Mendes de Carvalho

"O autor nasceu no Alcaide, pequena aldeia que aparece nos mapas decentes. Ali aprendeu as primeiras letras. Na capital, as segundas, as terceiras e outras. Mas foi de facto em Lisboa que, tendo começado a sonetar antes de romper a barba, se tornou afinal anti-sonetista".

Neste texto fala Mendes de Carvalho de si próprio com a ironia e o gosto pela sátira que colocou em muito da sua obra que teve especial expressão no teatro e na poesia.

Foi um homem de sete instrumentos, sempre muito próximo de grupos teatrais ("Casa da Comédia", "Teatro Estúdio de Lisboa e "Clube Palco"), orientou páginas literárias e colaborou em jornais e revistas literárias com poemas, artigos e ensaios sobre literatura e artes plásticas.

A "Cantiga dos ais" que abaixo publico conhecia-a na voz certeira do Mário Viegas.

Fotografia do Mendes de Carvalho não consegui encontrar. Mas encontrei um blog cujo título se inspira no título de um dos seus livros ("Poemas de Ponta & Mola"): pontaymola.blogspot.com , que tem como epígrafe um verso do poeta: "...neste país tudo é fado doa a quem doer até o pessoa dá para gemer."

CABTIGA DOS AIS

Os ais de todos os dias
os ais de todas as noites
ais do fado e do folclore
o ai do ó ai ó linda

Os ais que vêm do peito
ai pobre dele coitado
que tão cedo se finou

Os ais que vêm da alma
ais d’amor e de comédia
ai pobre da rapariga
que se deixou enganar
ai a dor daquela mãe

Os ais que vêm do sexo
os ais do prazer na cama
os ais da pobre senhora
agarrada ao travesseiro
ai que saudades saudades
os ais tão cheios de luto
da viúva inconsolável

Ai pobre daquele velhinho
ai que saudades menina
ai a velhice é tão triste

Os ais do rico e do pobre
ai o espinho da rosa
os ais do António Nobre
ais do peito e da poesia
e os ais doutras coisas mais
ai a dor que tenho aqui
ai o gajo também é
ai a vida que tu levas
ai tu não faças asneiras
ai mulher és o demónio
ai que terrível tragédia
ai a culpa é do antónio


Ai os ais de tanta gente
ai que já é dia oito
ai o que vai ser de nós

E os ais dos liriquistas
a chorar compreensão

Ai que vontade de rir

E os ais do D.Dinis
ai Deus e u é

Triste de quem der um ai
sem achar eco em ninguém

Os ais da vida e da morte
ai os ais deste país


Mendes de Carvalho

sexta-feira, 18 de julho de 2008

AFONSO DUARTE (1884-1958)

Afonso Duarte


Afonso Duarte participa em tudo o que de novo, poética e literariamente importante, vai marcando a vida cultural do país na primeira metade do sé. XX.

Professor da Escola Normal Primária de Coimbra, onde foi colocado em 1919, a uma extraordinária e inovadora experiência pedagógica, a partir de desenhos infantis. Os seus trabalhos são enviados ao Congresso Internacional de Educação Nova, em Lucarna, e alcançam repercussão europeia. Professores de diversos países europeus vêm a Coimbra para os estudar.

Com a instauração da ditadura, são afastados das suas cátedras alguns dos mais ilustres professores portugueses. Afonso Duarte não abdica das suas convicções democráticas. E em 1932 é compelido à aposentação.


"Prodígio de poesia, prodígio de portugalidade." é como Manuel Alegre se refere a Afonso Duarte num texto publicado em:

http://www.manuelalegre.com/index.php?area=1420&id=887

O soneto que segue aqui por baixo é, certamente, dos grandes momentos da poesia portuguesa dos últimos cem anos.

ROSAS E CANTIGAS

Eu hei-de despedir-me desta lida,
Rosas? – Árvores! hei-de abrir-vos covas
E deixar-vos ainda quando novas?
Eu posso lá morrer, terra florida!

A palavra de adeus é a mais sentida
Deste meu coração cheio de trovas...
Só bens me dê o céu! Eu tenho provas
Que não há bens que pague o desta vida.

E os cravos, manjerico, e limonete,
Oh! que perfume dão às raparigas!
Que lindos são nos seios do corpete!

Como és, nuvem dos céus, água do mar,
Flores que eu trato, rosas e cantigas,
Cá, do outro mundo, me fareis voltar.


Afonso Duarte

quinta-feira, 17 de julho de 2008

ISABEL MEYRELLES (1929)



Isabel Meyrelles


Escultora e poetisa portuguesa nascida em 1929, em Matosinhos.

Aos 16 anos iniciou os estudos de escultura no Porto, mas decidiu ir para Lisboa onde encontrou Mário de Cesariny e Cruzeiro Seixas, e assistiu ao surgimento do Grupo Surrealista Português ao qual ficou sempre, de alguma forma, ligada.

Foi viver e estudar para França, seu país de adopção e com o qual se identifica.

Em Paris continuou os estudos, desta vez não só de Escultura, na Ecole National Supérieure des Beaux-Arts, como também de Literatura, na Universidade de Sorbonne.

Conhecia apenas um poema seu publicado nas velhas “Líricas Portuguesas” da Portugália Ediora. Descobri com surpresa e entusiasmo o resto a sua poesia publicada recentemente pela Quasi.

ESCULTURA



Isabel Meyrelles

Tu já me arrumaste

Tu já me arrumaste no armário dos restos
eu já te guardei na gaveta dos corpos perdidos
e das nossas memórias começamos a varrer
as pequenas gotas de felicidade
que já fomos.
Mas no tempo subjectivo
tu és ainda o meu relógio de vento
a minha máquina aceleradora de sangue
e por quanto tempo ainda
as minhas mãos serão para ti
o nocturno passeio do gato no telhado?


Isabel Meyrelles

quarta-feira, 16 de julho de 2008

EMANUEL FÉLIX (1936-2004)



Emanuel Félix

Nasceu e morreu em Angra do Heroísmo. Poeta, ensaísta, autor de contos e crónicas, crítico literário e de artes plásticas.

Especialista em restauração de obras de arte e, especialmente, de arte sacra, estudou no Instituto Francês de Restauro de Obras de Arte (Paris), na Escola Superior de Belas-Artes do Anderlecht e na Universidade Católica de Lovaina, onde se especializou no Laboratório de Estudo de Obras de Arte por Métodos Científicos do Instituto Superior de Arqueologia e História da Arte da mesma Universidade.

Cruzei-me com ele nalgumas infelizmente poucas noites de boémia, copo e petisco. A sua afabilidade, a cultura vasta, o gosto pela conversa vadia, deixou-me uma imensa pena de não o ter conhecido melhor e não ter privado mais com ele.

Visito-lhe os versos e, na minha gavetinha das dos tesouros precisos, guardo
este poema raro intitulado "AS RAPARIGAS LÁ DE CASA".

AS RAPARIGAS LÁ DE CASA

Como eu amei as raparigas lá de casa

Discretas fabricantes da penumbra
Guardavam o meu sono como se guardassem
O meu sonho
Repetiam comigo as primeiras palavras
Como se repetissem os meus versos
Povoavam o silêncio da casa
Anulando o chão os pés as portas por onde
Saíam
Deixando sempre um rastro de hortelã
Traziam a manhã
Cada manhã
O cheiro do pão fresco da humidade da terra
Do leite acabado de ordenhar

(se voltassem a passar todas juntas agora
veríeis como ficava no ar o odor doce e
materno
das manadas quando passam)

aproximavam-se as raparigas lá de casa
e eu escutava a inquieta maresia
dos seus corpos
umas vezes duros e frios como seixos
outras vezes tépidos como o interior dos frutos
no outono
penteavam-me
e as suas mãos eram leves e frescas como as folhas
na primavera
não me lembro da cor dos olhos quando olhava
os olhos das raparigas lá de casa
mas sei que era neles que se acendia
o sol
ou se agitava a superfície dos lagos
do jardim com lagos a que me levavam de mãos
dadas
as raparigas lá de casa
que tinham namorados e com eles
traíam
a nossa indefinível cumplicidade

eu perdoava sempre e ainda agora perdoo
às raparigas lá de casa
porque sabia e sei que apenas o faziam
por ser esse o seu lado mau de sua inexplicável
bondade
o vício da virtude da sua imensa ternura
da ternura inefável do meu primeiro amor
do meu amor pelas raparigas lá de casa


Emanuel Félix

terça-feira, 15 de julho de 2008

TERESA RITA LOPES (1937)




Teresa Rita Lopes

Nasceu em Faro. Licenciada em Filologia Românica pela Faculdade de Letras de Lisboa. Viveu 13 anos em Paris onde foi professora na Sorbonne e defendeu a tese de doutoramento "Fernando Pessoa et le drame symboliste – héritage et création". É Professora Catedrática da Universidade Nova de Lisboa. Ensaísta, ficcionista, dramaturga e poeta.

É um dos maiores especialistas contemporâneos em Fernando Pessoa. Tem centrado o seu trabalho académico na obra deste poeta e dedica-se especialmente à divulgação da parte inédita da sua obra.

Pessoalmente tenho uma grande ternura pela sua poesia que se situa do lado luminoso da literatura. A qualidade não tem que ser sinónimo de obscuridade. Por isso é tão importante que a poesia dos poetas claros e solares como Teresa Rita Lopes não fique sempre fora de moda (ou das modas).

ESTA CASA NOVA

Esta casa nova começa a afeiçoar-se a mim
e eu a ela:
já desabrocham flores em inesperados
sítios
e no jardim em frente do meu olhar
as árvores já perceberam que as espreito
continuamente
e por isso se enfeitam para mim.
Acabo de descobrir num quintal das traseiras
um pinheiro que nunca antes tinha visto
e que
ali engorda como um gato.
Então dá-me para
dizer: “Olá casa!”
como quem diz: “olá gato!”
e ela ronrona.

Terea Rita Lopes

domingo, 13 de julho de 2008

RUI NAMORADO (1941)



Rui Namorado

Cooperativista e jurista, é professor da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra.

Rui Namorado é sobrinho de Joaquim Namorado e pertence à geração académica de 62. A sua obra insere-se numa tradição poética coimbrã em que o lirismo dá o braço á indignação cívica e que inclui outros poetas como Manuel Alegre e Fernando Assis Pacheco.

É um amigo. À distância. Mas não são as distâncias que quebram os laços entre os poetas que "rimam" para o mesmo lado.

O seu blog vale bem a pena ser visitado. Chama-se "O Grande Zoo" e o endereço é:
http://ograndezoo.blogspot.com/

Convocamos a Poesia

Convocamos a poesia para ouvir o futuro.

De novo a descobrimos
como discreto rumor do universo,
como íntimo sabor das coisas,
ligeiro perfume do tempo e da saudade.

Podemos procurá-la no vento
como simples murmúrio,
punhal de alegria no coração da aventura.


Rui Namorado

sábado, 12 de julho de 2008

JOAQUIM NAMORADO (1914-1986)



Joaquim Namorado

Poeta e ensaísta português licenciado em Ciências Matemáticas e durante décadas compulsivo professor particular e doméstico, exerceu a seguir, desde 25 de Abril de 1974 até à aposentação, as funções de professor da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra.

Poeta do primeiro neo-realismo que trouxe para a poesia a dureza, a raiva e a revolta contra a miséria e a vergonha do Portugal salazarista, não deixando de dar ao verso uma músicalidade, um ritmo e um tom que viria a fazer escola.

CARIDADE

As senhoras da sociedade
deram um baile a rigor
para vestir a pobreza
e a pobreza horas a fio
cortou, coseu, enfeitou
os vestidos deslumbrantes
que a caridade exibiu.
Depois das contas bem feitas
bem tiradas as despesas
arranjou um namorado
a mais nova das Fonsecas;
esteve bem a viscondessa,
veio o nome e o retrato
da comissão nos jornais,
e o Doutor, o Menezes,
o senhor desembargador,
estiveram muito engraçados,
dançaram o tiro-liro
já meio-tombados...
Parece que ainda sobrou
algum dinheiro para chita
para vestir a pobreza
numa festa comovente
com discursos de homenagem
e uma missa...

a que assistiu toda a gente

Joaquim Namorado

quinta-feira, 10 de julho de 2008

PEDRO OOM (1926-1974)



Pedro Oom

Pertenceu ao acidentado Movento Surrealista Português por onde passaram e de onde saíram poetas tão importantes como Alexandre O'Neill, Mário Cesariny, António Maria Lisboa, António Pedro, Artur Cruzeiro Seixas e vários outros.

Como um pouco por todo o mundo, o Surrealismo foi uma explosão de criatividade por vezes radical onde ainda hoje podemos ir beber muito boa poesia que às vezes ficou presa na gaveta da circunstância ou em edições perdidas.

Há um pequeno livro de Pedro Oom que ainda se encontra por aí para quem souber procurar.´Chama-se "Actuação escritA" E é um desses maravilhosos e por vezes loucos livrinhos das edições &etc.

Pedro Oom morreu no duia 26 de Abril de 1974 durante um jantar que comemorava o 25 de Abril Viveu a alegria e evitou esta amarga ressaca que calhou aos que ficaram.

ACTUAÇÃO ESCRITA

Pode-se escrever

Pode-se escrever sem ortografia
Pode-se escrever sem sintaxe
Pode-se escrever sem português
Pode-se escrever numa língua sem saber essa língua
Pode-se escrever sem saber escrever
Pode-se pegar na caneta sem haver escrita
Pode-se pegar na escrita sem haver caneta
Pode-se pegar na caneta sem haver caneta
Pode-se escrever sem caneta
Pode-se sem caneta escrever caneta
Pode-se sem escrever escrever plume
Pode-se escrever sem escrever
Pode-se escrever sem sabermos nada
Pode-se escrever nada sem sabermos
Pode-se escrever sabermos sem nada
Pode-se escrever nada
Pode-se escrever com nada
Pode-se escrever sem nada

Pode-se não escrever



Pedro Oom

UMA FORMA DE VIAJAR

A propósito deste desfilar por alguns poetas que não estão na moda ou/e que são menos conhecidos, o meu amigo Samuel, O Cantigueiro, deixou-me estas palavras num post:

"É uma bela forma de viajar, esta tua. Ir avançando, passo a passo, parando aqui e ali, falando com quem está, apanhando uma ou outra flor mais escondida, fazendo grandes desvios da estrada principal...
Bela forma de viajar!"

Comoveu-me, o malandro. Porque é mesmo uma viagem de um amante da poesia, gato com o rabo escaldado das oficialidades, dos opinantes, dos academistas, dos rapazes dos lobies... Sei lá.

Sempre andei por margens. Mas também sempre guardei memória das paixões, das vivências e das convicções.

Por isso faço deste blog um lugar de recordar coisas e pessoas. Recordar alguns que por isto ou po aquilo têm sido injustamente esquecidos. E assim me vou recordando de mim, como fui, como vou sendo, como serei enquanto a teimosia me der chama.

A verdade é que gosto de poesia. Gosto muito de poesia e de a partilhar. Tenho passeado pela poesia portuguesa até aos recantos mais remotos. É muito rica a arca da poesia portuguesa e, sobretudo, da poesia portuguesa desde o último quartel do séc. XIX até finais do séc. XX.

Fico feliz quando dou a conhecer um poema ou um poeta a alguém que não o conhecia e que fica a sentir-se de súbito preso por essa mágica teia de palavras (Olá licínia). Essa partilha fica a ligar-nos e o tempo da solidão e do desalento torna-se mais doce e traz-nos mais alguma promessa de consolo.

Pelas tuas palavras, Samuel, e ainda pela tua arte, também ela a viver na margem mais fraterna da vida, um grande abraço, meu amigo, um grande abraço!

terça-feira, 8 de julho de 2008

ANTÓNIO REBORDÃO NAVARRO (1933)



António Rebordão Navarro

Natural do Porto, advogado, poeta ligado ao chamado 2º neo-reAlismo esteve muito ligado a uma notável revista de poesia dos anos 50, "Notícias do Bloqueio".

Cruzámo-nos durante alguns anos nas reuniões da direcção da SPA. Ficou-me a afabilidade, o calor, a simpatia aberta e a promessa nunca cumprida, mea culpa, de o visitar no Porto.

A sua obra é vasta e abrange vários géneros, romance, teatro, memórias, viagens. Mas é da poesia que falo aqui. Fui dando com ela em várias pubicações por aqui e por ali. Relê-la hoje pode ser uma supresa inesperada. Uma breve antologia foi publicada há meia dúzia de anos pela ASA.

ESTACIONAMENTO PROIBIDO

Circulem, senhores, circulem.
Não parem junto aos mortos,
não estacionem no silêncio,
não se detenham ante o sangue.
Circulem, senhores, circulem.
Não interrompam o tráfico,
não deixem de cumprir ordens,
não deixem de ser neutros
e desapiedados.
Circulem, senhores, circulem.
Há muita gente que tem horas,
há muita gente que tem pressa,
há muita gente que deve esquecer.
Circulem, senhores, circulem.
Façam de conta,
fechem os olhos,
tapem os ouvidos.
Circulem, senhores, circulem.
Deviam já estar habituados,
deviam não ter lágrimas,
nem espanto, nem irmãos.
Circulem, senhores, circulem.



António Rebordão Navarro

MANUEL CINTRA (1956)




Mnuel Cintra

O meu querido amigo Manuel Cintra também anda de poesia às costas. Como eu. Talvez por isso, ou talvez não, gosto da poesia dele. gosto da emoção que transpira. Gosto de o ouvir a dizer poesia. Gosto de o ver a representar.

O Manel sempre viveu numa certa margem, mantendo saudável distância de opinantes e fazedores de modas. Vive a poesia. Atira-a por aí. Semeia livros por várias editoras. Vale a pena apanhá-los e ouvir-lhe o verso.

INFINITO O SILÊNCIO

MANUEL CINTRA (1956)


2.

Fez-se outono em janeiro, Pázinho,
e uma a uma, as gotas dela caem como folhas.
Agora o tempo e o tormento estão de braço dado
e eu que nunca paro dei comigo mais parado

do que ela que ao parar só luta
contra a corrente que toda a vida a inundou
de vida e contra-vida e de lutar
e de não querer que a morte fosse morte
nem houvesse despedida dos que partem
e se calhar ficam, perto de nós
a descansar.

Veio uma rajada mais fria, Pázinho,
e pôs-lhe os cabelos loiros
no sítio mais precioso da lembrança.
Agora caminhar vai ser difícil.
Tu vais sentir-te mais pesada,
e passo a passo e devagar e quase sem querer
vais reviver toda uma vida iluminada
por essa luz estranha essa alquimia particular
que se afasta agora, segundo a segundo
como quem previne que vem aí a escuridão.

E sei que te vai doer
como já a mim me dói tudo isto
esta luta absurda contra a própria luta
este correr parado contra o tempo
esta angústia de a ver assim deitada
e nada poder senão sorrir, com tristeza,
e mesmo assim para dentro,
que cá fora tudo flui num mar de lágrimas
e numa certeza grande enraizada.

Vai fazer-se outono outra vez,
um dia, Pázinho, e não haverá folhas
tal como agora.
Não se ouvirá cair um galho, nem cantar
gente ou pássaros ou céu ou chuva,
nada disto que nos confunde e atrapalha
quando no fundo o que queríamos
era apenas sofrer em paz.
Nem um dedo se moverá. Nem tu,
nem eu, nem a implacável corrente
dos minutos.

Aí,
que mais poderei fazer além de dar-te a mão
e partilhar contigo a cor da morte
a caminho do dia, a caminho do canto
pois nada do que parte se recusa a cá ficar
e toda ela é nossa, e nós dela somos,
e isso, Pázinho, ninguém o pode evitar.


Manuel Cintra

domingo, 6 de julho de 2008

ALBANO MARTINS (1930)




O meu amigo Albano Martins foi professor do Ensino Secundário de 1956 a 1976. Tendo ingressado, em 1980, nos quadros da Inspecção-Geral de Ensino, passou, em 1993, à situação de aposentado. Presentemente, é professor na Universidade Fernando Pessoa, do Porto.

A sua vasta obra poética oferece-nos uma contensão rara na poesia portuguesa e um lirismo minimal e intensíssimo. Muitos dos seus pomeas são pequenas pérolas que pousam nos ombros do leitor e ficam a iluminar-lhe o olhar.

A sua obra como tradutor é brilhante e vasta e permito-me destacar as suas magníficas e numerosas traduções de Neruda.

PARA O MUSEU DO HOMEM – 2

E o homem, então,
olhou em seu redor
e disse
às árvores: eu sou
a folha maior.
E as aves
do crepúsculo fizeram
ninho na sua boca.


Albano Martins

SIDÓNIO MURALHA (1920 – 1982)



Sidónio Muralha

Poeta do "Novo Cancioneiro" e do neo-realismo com forte marca político-social e com uma obra significativa e várias vezes premiada no campo da literatura para crianças.

Economista e gestor de empresas, vive no Congo Belga, na Bélgica, corre vários países como consultor de uma multinaciona e acaba por se fixar no Brasil.

SONETO IMPERFEITO DA CAMINHADA PERFEITA

Já não há mordaças, nem ameaças, nem algemas
que possam perturbar a nossa caminhada,
em que os poetas são os próprios versos dos poemas
e onde cada poema é uma bandeira desfraldada.

Ninguém fala em parar ou regressar.
Ninguém teme as mordaças ou algemas,
- o braço que bater há-de cansar
e os poetas são os próprios versos dos poemas.

Versos brandos... Ninguém mos peça agora.
Eu já não me pertenço: Sou da Hora.
E não há mordaças, nem ameaças, nem algemas
que possam perturbar a nossa caminhada,
onde cada poema é uma bandeira desfraldada
e os poetas são os próprios versos dos poemas.

Sidónio Muralha

sexta-feira, 4 de julho de 2008

CARLOS QUEIROZ (1907 – 1949)



Carlos Queiroz


Poeta do segundo modernismo Português, identificado como um dos grandes nomes da Revista Presença.

É Carlos Queiroz,num número especial da Presença de homenagem a Fernando Pessoa, que dá a conhecer os amores de Fernando Pessoa por Ofélia Queiroz, sua tia. Publicando nesse número diversas cartas de amor de Pessoa escritas a Ofélia.

A sua obra é curta como curta foi a sua vida. Cabe em dois livros. Mas a elegância, a musicalidade e a contida emoção ressaltam de cada verso.

Vale muito a pena visitá-lo num tempo em que grande parte da jovem poesia portuguesa anda tão afastada da música da língua e da grandeza da emoção verdadeira.

CANÇÃO GRATA

Por tudo o que me deste:
- Inquietação, cuidado,
(Um pouco de ternura? É certo, mas tão pouco!)
Noites de insónia, pelas ruas, como louco...
- Obrigado, obrigado!

Por aquela tão doce e tão breve ilusão.
(Embora nunca mais, depois que a vi desfeita,
Eu volte a ser quem fui), sem ironia: aceita
A minha gratidão!

Que bem me faz, agora, o mal que me fizeste!
- Mais forte, mais sereno, e livre, e descuidado...
Sem ironia, amor: - Obrigado, obrigado
Por tudo o que deste!


Carlos Queiroz

quarta-feira, 2 de julho de 2008

RAUL DE CARVALHO (1920-1984)




Natural do Alvito, Alentejo, Raúl de Carvalho foi colaborador das revistas Távola Redonda e Árvore e Cadernos de Poesia, que, na década de 50, conglomeravam de forma irregular, mas activa, poetas de várias sensibilidades.

Irreverente,iconoclasta, marginal, ignorado, habitante da solidão mas carregado de humanidade, solidário com os mais pobres e desfavorecidos, Raúl de Carvalho é um poeta que vale a pena ler e reler com muita atenção.

A sua obra completa está publicada na Caminho e deveremos sempre destacar um poema longo e excepcionalmente belo intitulado "Serenidade és minha" que assim começa:



"Vem, serenidade!
Vem cobrir a longa
fadiga dos homens,
este antigo desejo de nunca ser feliz
a não ser pela dupla humidade das bocas.

Vem serenidade!
Faz com que os beijos cheguem à altura dos ombros
e com que os ombros subam à altura dos lábios,
faz com que os lábios cheguem à altura dos beijos.

Carrega para a cama dos desempregados
todas as coisas verdes, todas as coisas vis
fechadas no cofre das águas:
os corais, as anémonas, os monstros sublunares,
as algas, porque um fio de prata lhes enfeita os cabelos.
..."

CANÇÃO BURGUESA

Consolo e delícia
Da vida burguesa...

Sete horas em ponto
O jantar na mesa;
Café bem quentinho,
Conversa tranquila,
E um lençol de linho
Esperando o seu dono
Para um belo sono...

Que bom não ter sonhos,
Dormir sossegado!
Já estou acordado,
Já salto da cama,
- Maria, Maria,
Traga os meus chinelos,
Traga o meu pijama...
A alma lavada,
O corpo limpinho.
- Bom dia vizinha!
- Bom dia vizinho!

Consolo e delícia
Da vida burguesa...
Se isto continua,
Morro, com certeza!


Raúl de Carvalho

terça-feira, 1 de julho de 2008

MARIA ALBERTA MENÉRES (1930)




A minha muito querida amiga Maria Alberta Menéres foi professora, tradutora, jornalista, e é poetisa e escritora de livros infanto-juvenis.

Formou-se em Ciências Histórico-Filosóficas. A sua primeira obra data de 1952 e intitula-se Intervalo, tendo sido premiada, em 1960, com o seu livro Água-Memória, no Concurso Internacional de Poesia Giacomo Leopardi.

De 1965 a 1973 foi professora do Ensino Técnico, Preparatório e Secundário nas disciplinas de Língua Portuguesa e História. Colaborou com vários jornais e revistas literárias - Diário de Notícias, Tábula Redonda, Cadernos do Meio Dia e Diário Popular. Neste último foi responsável pela secção de iniciação à literatura.

De 1974 a 1986, dirigiu o Departamento de Programas Infantis e Juvenis da Rádio Televisão Portuguesa (RTP). Em colaboração com Ernesto de Melo e Castro, organizou, em 1979, uma Antologia da Novíssima Poesia Portuguesa.

Em 1986, recebeu o Grande Prémio Calouste Gulbenkian de Literatura para Crianças, "pelo conjunto da sua obra literária e pela manutenção de um alto nível de qualidade".

A sua obra infanto-juvenil inclui poesia, contos, BD, teatro, novelas e a adaptação de clássicos da literatura.

Entre 1990 e 1993 dirigiu a revista Pais. Entretanto, na Provedoria da Justiça, foi-lhe dada a responsabilidade Provedora de Justiça de Crianças.

Trabalhou com outros autores literários ligados à literatura infanto-juvenil, como António Torrado.

A importãncia da sua obra no campo da literatura infanto-juvenil ofuscou a sua curta mas belíssima obra poética.

POR ENTRE O CREPITAR DOS AUTOMÓVEIS

Por entre o crepitar dos automóveis
o bulício inquebrável da cidade
o relincho das nuvens quando imóveis
me oferecem na garupa a liberdade,

por entre o que hoje sei e nunca sei
deste abrupto silêncio que me invade
sem que uma nesga azul do que inventei
deixe de ser mentira ou ser verdade,

pudera um dia alguém ter leve imagem
de mim que fico e parto sem vontade
ao sabor de um destino de viagem,

pudera eu querer parar em minha idade,
aperceber-me enfim da percentagem
que sobrando me está de eternidade.


Maria Alberta Menéres

segunda-feira, 30 de junho de 2008

POETAS FORA DE MODA

A poesia tem sido uma companheira imprescindível nos bons e nos maus momentos da vida.

Poetas há que me iluminaram, que me encheram de música, que me inquietaram, que me fizeram revoltar e arder, que me irritaram, que…!

Nunca me foram indiferentes. Nenhum me foi indiferente. Nem o mais humilde. Nem o mais desajeitado. Nem o mais presunçoso. Porque todos têm uma ferida e essa é a matéria de que se faz o poema. Alguns conseguem transformar em luz a sua dor e fazem uma ponte entre si e o outro.

Outros fazem negócio e vestem-se de banalidade ou lágrima de fancaria, ou desespero prêt-à-porter, ou pompa literária de grande efeito e pouca consistência.

Na poesia também existem modas com todos os equívocos que as modas provocam. Há poetas que andam hoje na moda e qualquer dia são esquecidos. E outros cujo nome desaparece da ribalta mas que, com o passar do tempo, volta a aparecer aqui e ali quando procuramos as colunas sólidas que sustentam a casa do poesia.

Começo hoje uma pequena viagem por poetas que não estão na moda, poetas que é bom lembrar, poetas em que podemos beber alguma da melhor água da poesia portuguesa.

LUÍS VEIGA LEITÃO (1912-1987)




Luís Veiga Leitão


Foi escriturário da 7.ª Brigada Cadastral da Federação dos Vinicultores da Região do Douro, mas foi demitido por ser contra o regime salazarista. Foi delegado de informação médica de vários laboratórios farmacêuticos.

Para além de poesia, escreveu crónicas de viagens e de costumes. Foi também artista plástico, dedicando-se ao desenho.

Existe uma placa na casa onde nasceu em Moimenta da Beira.

Tem a sua obra publicada na Editora "Campo das Letras".

A UMA BICICLETA DESENHADA NA CELA

Nesta parede que me veste
da cabeça aos pés, inteira,
bem hajas, companheira,
as viagens que me deste.

Aqui,
onde o dia é mal nascido,
jamais me cansou
o rumo que deixou
o lápis proibido...

Bem haja a mão que te criou!

Olhos montados no teu selim
pedalei, atravessei
e viajei
para além de mim.

Luís Veiga Leitão

quinta-feira, 26 de junho de 2008

A LIRA O POVO




Eu e o Zé Jorge Letria continuamos neste trabalho de dar a ler através de antologias temáticas algunsa caminhos que atravessa a poesia portuguesa.

Agora juntámos 500 quadras populares.

Uma quadra é uma pérola de palavras feita. Pode pensar-se que é fácil, mas exige uma muito hábil carpintaria da palavra.

Com um poder de síntese que permite em quatro versos tudo, ou quase tudo, dizer sobre o modo como um povo lida com a adversidade, com a alegria, com o ciúme, com o sagrado, com a vida e com a morte, constituindo, assim, no seu todo, uma poderosa crónica do nosso viver em comunidade ao longo dos séculos.

QUADRAS POPULARES

Se quiseres ver o meu peito
Desaperta o meu colete.
Lá verás meu coração
Na ponta de um alfinete.

Minha mãe p’ra eu casar
Prometeu-me três ovelhas,
Uma manca a outra cega,
Outra mouca, sem orelhas.

Mostrai-me os vossos pezinhos
Ó meu Menino Jesus;
De joelhos vou beijá-los
Antes que os preguem na Cruz.

Laranja, laranja azeda,
Oh laranjinha, limão,
O pai quer, a mãe consente,
E a filha não diz que não.

Não te encostes à parreira,
Que a parreira deita pó;
Encosta-te á minha cama,
Sou solteira e durmo só.

Não vi ribeira sem água,
Nem praça sem pelourinho,
Nem donzela sem amores,
Nem padre sem beber vinho.

Passei a raia de Espanha
A cavalo num mosquito;
Disseram-me as espanholas:
- Que cavalo tão bonito!

Duas horas tem o dia,
Duas horas nada mais,
É uma quando tu chegas,
A outra quando te vais.

terça-feira, 24 de junho de 2008

DE NOVO PRÉVERT



E cá vem de novo este poeta que não me cansa e cujas palavras me correm no sangue há muitos anos.

JACQUES PRÉVERT foi autor de letras de canções, de guiões de cinema, de peças de teatro, de colagem. Em tudo o que fez há sempre um bocadinho de nostalgia, uma brisa de ternura, um grãozinho de loucura. A poesia nele, está em toda a parte, em todo o gesto.

Ficaram famosas entre outras obras a canção LES FEUILLES MORTES (Autumn Leaves) com música de Joseph Kosma e que se tornou num standard do Jazz.

Nos guiões que fez para filmes realizados por Marcel Carné ficaram famosos vários entre os quais LE QUAI DES BRUMES e LES ENFANTS DU PARADIS (título que para portuiguês teve uma tradução completamente idiota - As crianças do paraíso - quando a tradução deveria ser OS MIÚDOS DO GALINHEIRO, já que Paradis é o lugar mais alto e mais barato dos teatros, lugar que em português é conhecido por Galinheiro)

PARA TI MEU AMOR

Fui ao mercado dos pássaros
E comprei pássaros
Para ti
Meu amor
Fui à loja das flores
E comprei flores
Para ti
Meu amor
Fui ao ferro-velho
E comprei correntes
Pesadas correntes
Para ti
Meu amor
Depois fui ao mercado dos escravos
E procurei-te
Mas não te encontrei
Meu amor

JACQUES PRÉVERT

(Tradução José Fanha)

POETA TAMBÉM DE IMAGENS



JACQUES PRÉVERT, Colagem

JACQUES PRÉVERT



Outro dos poetas da minha vida.

Pelos 16 anos apaixonei-me pela sua poesia clara, luminosa, irreverente, terna e louca.

Ainda hoje o visito de quando em vez para matar saudades e redescobrir o imenso prazer desse grande ofício da palavra que Prévert exercia.

BAIRRO LIVRE

BAIRRO LIVRE


Pus o barrete na gaiola
e saí com o pássaro na cabeça.
Então
Já não se faz a continência
perguntou o comandante.
Não
Já não se faz a continência
respondeu o pássaro.
Ah! Bom
desculpe julguei que se fazia a continência
disse o comandante.
Está desculpado toda a gente se pode enganar
disse o pássaro.

Jacques Prévert

(Tradução: José fanha)

segunda-feira, 23 de junho de 2008

O MEU AMIGO JÚLIO PEGO

Outro poeta. Poeta das formas, da pintura, da escultura, do ferro. Sobretudo, outro grande amigo.

Conhecemo-nos por volta de 69 no meio das lutas estudantis, RIAS, grupos de teatro universitário, sessões culturais, sei lá que mais.

O Júlio andava com a malta de Medicina que se juntara ao grupo de Teatro de Direito, encenado pelo argentino Adolfo Gutkin (que expulso do país pela PIDE e que para cá veio viver depois do 25 de Abril).

Eu era de Arquitectura e andava no Gupo de Teatro do Técnico.

O Júlio tinha uma casa em S. Domingos de Benfica. Porta aberta, casa livre, disponível a todas as artes e a todos os convívios, a todos os sonhos.

Sempre foi um espíriro inquieto, o Júlio. Ligou-se a inúmeros projectos culturais e cívicos. Escreveu poesia. Tornou-se médico psiquiatra. Andou pelo tango. E um dia, resolveu pintar, primeiro,e, depois, fazer escultura em ferro.

Da produção intensa pode ver-se aqui um bocadinho e mostra que um homem, como diz o Fernando Assis Pacheco, "tem de viver com um pé na Primavera".

Ao longo destes 39 anos acompanhámo-nos sempre. Mais perto ou mais longe. Agora, nesta idade madura, cada vez mais perto.

É bom ter amigos destes com quem as memórias não pesam para trás. Pelo contrário. Puxam sempre para a frente. Para o lado dos sonhos e das utopias que é o país onde sempre quisemos viver.

PINTURA NA ORDEM DOS MÉDICOS



JÚLIO PEGO

Exposição na ORDEM DOS MÉDICOS, Março de 2008

ESCULTURA EM TOMAR



JÚLIO PEGO

Exposição de esculturas no CONVENTO de CRISTO TOMAR em Setembro de 2007

sábado, 21 de junho de 2008

O MEU AMIGO TIAGO

Há pessoas que escrevem poesia e há pessoas que vivem a poesia.

O meu muito querido amigo TIAGO CARVALHO é dos que a escreve, ás vezes, mas, sobretudo, dos que a vivem.

A nossa amizade vem de há uns vinte e qualquer coisa anos quando ele foi meu aluno de História de Arte e outras disciplinas da área das Artes na Esc. Secundária José Afonso de Loures.

Pertencia á melhor turma que já tive na minha vida. Um grupo de alunos fantásticos. Aprendemos muito uns com os outros. Digo-o com todo o orgulho porque professor que não saiba aprender também não sabe ensinar.

Andávamos apaixonados pela pintura do Miró, pela música do Tom Waits, pela poesia de Neruda, entre muitos outros.

Nesse grupo de alunos, o Tiago distinguia-se pela sua fome de aprender, pela forma deslumbrada como ia entrando pelo mundo das artes dentro, por ser muito grande e desençonçado, e por não gostar de ler.

Formou-se em Design e hoje é professor do 2º Ciclo em Aveiro, tem vários blogs, tornou-se num leitor fervoroso e escreve de uma forma tão límpida e clara que chega a comover.

É casado e tem uma filha especial como é especial o amor que lhe dedica. Continua apaixonado pela arte, pelas pessoas, pela vida.

Reencontrámo-nos há pouco tempo e a amizade voltou a ferver. Ontem enviou-me um texto que quero muito partilhar com os que fazem o favor de me visitar neste sítio.

Um blog é também isto: falar dos amigos e, sobretudo, daqueles que mais do que escrever vivem ou procuram viver em estado de poesia.

FELICIDADE DAS HIENAS

Para as hienas foi um ano de grande felicidade.
Encontraram um elefante morto na entrada da cidade.
Encontraram um elefante em decomposição à entrada da cidade.
Comeram que se fartaram, a carne estava um pouco podre, mas comeram que se fartaram à entrada da cidade.
Foi um momento raro de felicidade na vida vazia das hienas.
Foi um grande momento para recordar sempre que entrarem na cidade.
Dizem uma para as outras "lembram-se naquele ano, tanta carne à entrada da cidade".
Agora terão que esperar pelo próximo ano lectivo, talvez outro elefante morra à entrada da cidade.
E eu estou por um fio, estou à entrada da cidade.
Eu estou a ficar um pouco louco, ainda bem, porque senão serei comido mesmo aqui na entrada desta cidade.

Tiago Carvalho

http://minimagens.blogspot.com/2008/06/entrada-da-cidade.html

quarta-feira, 18 de junho de 2008

CANTIGAS DA DÚVIDA E DO PERGUNTAR




O meu primeiro livro de poemas. 1970. Editado pela Associação de Estudantes da Faculdade de Ciências de Lisboa.

Em boa parte foi apreendido pela PIDE.

ESTE ERA O NOSSO POEMA

(Este foi um dos primeiríssimos poemas que disse em público, corria o ano de 69, em que entrei para a Faculdade - Escola Superior de Belas Artes de Lisboa -, apanhei a chamada Crise Académica e me integrei rapidamente na luta dos estudantes que foi crescendo e teve um papel destacado na criação de condições para que se desse o 25 de Abril.)

Leia-se em tom progressivamente bonzinho, monótono e, finalmente, provocatório.



ESTE É O NOSSO POEMA



Este é o poema do tédio
e da apatia

Este é o poema repetido
dia-a-dia
e já esquecido

Este é o poema do sono
da indiferença
do vazio
Este é o poema sem dor
sem fome
e sem frio

Este é o poema dos relógios
sem ponteiros
este é o poema que nunca chegou
a sair do tinteiro

Este é o poema repetido
nos mesmos sítios
nos mesmos sons
Este é o poema do destino
de quem o segue
dos «homens bons»

Este é o poema lento
quase parado
Este é o poema cinzento
mas agasalhado

Este é o poema com gravata e peúgas
da mesma cor

Este é o poema de entrar e sair
«bom dia» «boa tarde»
Este é o poema do desamor

Este é o poema dos truques
consentidos
pequenas batotas
Este é o poema da morte a conta-gotas

Este é o poema da vida inteira
frente à televisão
Este é o poema da pasmaceira
Este é o poema sem discussão

Este poema é um esquema
Este poema é uma máquina
Este poema é uma festa
Este poema porta-se bem
não contesta nada

Este é o poema que percorre livremente
o caminho permitido
Este é o poema que canta
o amor instituído
Este é o poema do discreto beija-mão
Este é um bonito poema,
batam palmas
porque este poema
não diz que não

Este é o nosso poema
Este é o poema
Este é o nosso poema

ESTE POEMA NÃO ESTÁ PROIBIDO




jOSÉ FANHA

(in, "Cantigas da Dúvida e do Perguntar", 1970, reeditado em "Eu sou Português aqui", 1998, Ulmeiro)

DIAGRAMA



Séc XVI

Diagrama colorido. A figura triangular contém sentenças tiradas das sagradas Escrituras. No interior um planisfério com o sistema Ptolomaico.

Da colecção pessoal de Elias Ashmole (séc. XVII), cientista, alquimista e coleccionador de antiguidades e livros antigos.

Ver BIBLIODISSEY.

A AMENDOEIRA

A AMENDOEIRA


Desce a nostalgia sobre os olhos da tarde
semeando véus de neblina
searas indistintas
sílabas cinzentas.

Só a amendoeira resiste
e diz:
a mim tu não me apagas
noite.

Não me seduzes com o canto
dos teus pássaros nocturnos.

Não me contaminas com as tuas sombras
e fantasmas.

Tenho o coração fechado a sete brancos.


José Fanha

(in "Tempo Azul")

domingo, 15 de junho de 2008

MÃE E FILHO



Pablo Picasso

FIM DE TARDE

FIM DE TARDE

Não agites o silêncio
não toques a limalha
da matéria luminosa
não ofendas essa longa
etérea rosa
que tacteia
o linho da toalha
ao fim do dia.

Exausta de alegria
a criança vem
derramando mil pedrinhas
borboletas
pétalas marinhas
sobre as pálpebras da mãe.

Não desvendes o mistério
desse redondo hemisfério
não inventes outro céu.

No novelo aconchegado
do centro do seu império
a criança adormeceu.


José Fanha

(in, "Breve tratado das coisas da arte e do amor")

sábado, 14 de junho de 2008

PABLO NERUDA




Há uma limpeza muito clara em quase toda a sua poesia. Há uma atenção enorme às pequenas coisas do mundo. Há uma humanidade simples e palpitante em cada verso seu.

É um dos grandes poetas da minha vida. Volto sempre a ele como se voltasse a uma casa imprescindível.

UMA VASSOURA

O CULPADO

Declaro-me culpado de não ter
feito, com estas mãos que me deram,
uma vassoura.

Porque é que não fiz uma vassoura?

Porque é que me deram mãos?

Para que é que me serviram
se só vi o rumor do cereal,
se só tive ouvidos para o vento
e não apanhei a cerda
da vassoura,
ainda verde na terra,
e não pus a secar os talos tenros
e não os pude unir
num rosto dourado
e não juntei um cabo de madeira
à saia amarela
até dar uma vassoura aos caminhos?

Assim foi:
não sei como
a vida foi-se
sem que eu aprendesse, sem ver,
sem recolher e unir
os elementos.

Não nego nesta hora
que tive tempo,
tempo,
mas não tive mãos,
e assim, como podia
aspirar com razão à grandeza
se não fui capaz
de fazer
uma vassoura,
uma só,
uma?


PABLO NERUDA

Traduçao de José Fanha

quinta-feira, 12 de junho de 2008

1969



Conheci o Zeca por estes dias há 39 anos num espectáculo nocturno na Escola Superior de Agronomia de Lisboa.

Com ele estavam o Adriano, o Xico Fanhais, talvez o Barata Moura, o Zé Jorge Letria, o Denis Cintra e muitos mais de que já não me lembro.

O AP Braga, também cantor, conhecia os meus poemas e, quase à força, atirou-me para o palco. A partir daí passei a andar de poema às costas por Seca e Meca. Parece que ainda não parei.

O exemplo do Zeca e as suas canções nunca me deixam.

PARA CONTAR AOS MAIS NOVOS QUEM ERA O ZECA

O ZECA AFONSO


Foi um grande cantor, um grande músico e, acima de tudo, um grande ser humano que viveu a maior parte da vida durante a ditadura fascista de Salazar e, devido às suas ideias livres, democráticas e populares, foi muitas vezes preso, proibido de ser professor, que era a sua profissão, e proibido de cantar, que era a sua paixão.

Apesar de tudo, o Zeca não se deixava ir abaixo. Misturava as suas palavras e as suas melodias com as palavras e as melodias do povo, para compor cantigas de uma grande originalidade. E era com essas cantigas que andava pelo país fora a juntar pessoas e a dizer-lhes que era possível ser feliz e era possível acabar com a ditadura e viver numa terra livre, alegre, sem prisões e sem guerra.

Tinha 18 anos quando conheci o Zeca. Eu escrevia e dizia poemas e juntei-me a ele e a outros que faziam da poesia e da canção uma forma de resistir à ditadura, à repressão e à infâmia que é uma palavra que quer dizer falta de honra, que era o que faltava a todos os que seguiam a ditadura do Salazar.

Como se não bastasse, o Zeca era mais que tudo isto. Era um homem bom, de espinha direita, sempre desejoso de saber e de aprender com todos. Queria saber notícias de outras paragens, dos homens que sofriam em África, na América do Sul, no Brasil e noutros países, mesmo nos mais longínquos. Lia e estudava permanentemente para saber mais e poder ensinar melhor, porque ele gostava muito de ensinar mesmo depois que a ditadura o tivesse proibido de ser professor.

Fazia amigos em toda a parte e à sua volta juntava-se sempre muita gente, músicos, poetas, artistas. Onde o Zeca estava havia sempre uma porta aberta, uma mesa posta e um canto para quem quisesse descansar.

Era assim o Zeca e ainda hoje as suas canções fazem parte da minha vida e da vida dos muitos homens, jovens e meninos que encontram na sua poesia e na sua música um alento para tentar tornar o mundo num lugar mais justo e mais feliz para todos.

José Fanha

terça-feira, 10 de junho de 2008

MAGIA DAS PALAVRAS




A imagem e o texto que se segue, do meu amigo Bartolomeu Campos de Queirós, foram "roubados" ao interessante blog brasileiro:

http://leonorcordeiro.blogspot.com

Vale a pena visitar. Para quem gosta da magia das palavras.

LIVRE TERRA IRMÃO

"Querido Mateus


Palavras que amamos tanto, há muitos anos, dormem em dicionário. Hoje tirei do sono três palavras para dar de presente a você: Livre, Terra e Irmão.
Quando escritas, lê-se poesia; se faladas, são melodia; somadas, fazem novo dia.

Com saudades, despede a
Ana "


Correspondência


Bartolomeu Campos Queirós
Editora Miguilim

domingo, 8 de junho de 2008

1900 - TÃO LONGE, TÃO PERTO



Continua a haver gente que precisa de poesia, tanto como de pão para a boca. Todos nós precisamos. Alguns não sabem. Mas também precisam.

sábado, 7 de junho de 2008

O QUE É A POESIA QUE NÃO SALVA?

“O que é a poesia que não salva

Nações ou pessoas?

Um conluio com mentiras oficiais,

Uma canção de bêbados cujas gargantas serão cortadas num momento,

Leitura para raparigas de liceu.”


Czeslaw Milosz, poeta polaco, prémio Nobel em 1980, “Dedicatória” (tradução Jorge Gomes Miranda, ed. Cavalo de Ferro

quarta-feira, 4 de junho de 2008

ESCOLAS E BIBLIOTECAS

Mais algumas recordações de momentos muito especiais ligados a esta actividade calorosa que é a de andar com histórias e poesia às costas por escolas e bibliotecas.

ALBUFEIRA



No Auditório Municipal de Albufeira com o meu querido amigo Luís Abreu,maravilhoso apaixonado pela poesia, pelo ensino e pelos seres humanos.

ÉVORA




EB1 da Av. Heróis do Ultramar

ÉVORA




EB1 da Av. Heróis do Ultramar, uma escola muito especial e uma sala muitíssimo especial, em tudo, pela emoção dos meninos e pela qualidade humana e pedagógica da Professora Rita Carrapato. Uma amizade comovida que me vai ficar no coração para o resto da minha vida.

terça-feira, 3 de junho de 2008

ULISSES

Ulisses

Não teria Ulisses
conhecido
os versos de Machado
e no entanto
também ele
não sabia
outro caminho
que o seu próprio caminhar.

Era grego
marinheiro
e é fácil encontrá-lo
á hora da sesta
à sombra das oliveiras.

Dizem os mais
competentes
batoteiros
que um dia o sentiram
de passagem
numa taberna de Cádis.
Outros em Tunes.
Numa janela em Palermo.
Num recanto de Lisboa.

De tudo só dou por certo
que um rasto da sua sombra
fica a pairar
sobre as pedras
onde se acendem os sonhos
de todos
os caminheiros.

José Fanha, in "Elogio dos peixes, das pedras e dos simples"

sábado, 31 de maio de 2008

DESOBEDIÊNCIA COMO CIDADANIA

Volto ao livro de Laborinho Lúcio quando ele sublinha a posição de José Manuel Pureza ao bater-se pela "valorização da desobediência", e afirmando ser esse o "mandamento fundamental da educação para a cidadania democrática: educar para a desobediência crítica" (in, "Por um contrato Socio-Educativo Pela Cidadania, Qualidade e Avaliação da Educação, CNE, 2002)

Educar para a liberdade, digo eu agora, é também educar para o direito, ou seja, para a o direito à diferença e para o diálogo entre diferenças.

Isto implica que uma escola não possa ser um armazém de crianças e jovens a quem se ministram freneticamente uma vasta lista de saberes mas um espaço de crescimento mútuo e partilha. É aí que entra a arte e a criação como infraestrutura fundamental ao processo verdaeiramente educativo.

Para mais, vale a pena ler o livro todo. E reler. E pensar. E discuti-lo.

sexta-feira, 30 de maio de 2008

EDUCAÇÃO, ARTE E CIDADANIA

COMPETÊNCIA E COMPETÊNCIAS

Há quase 30 anos que me tornei amigo de Álvaro Laborinho Lúcio. Vários foram os laços que teceram esta amizade e um deles foi certamente a convicção profunda e comum de que sem arte não há Homem e de que o futuro só poderá nascer através da arte e da cidadania, ou seja, do reconhecimento da diversidade, da complexidade e da alteridade.

A inteligência e o olhar arguto deste homem tranquilo e intenso são um desafio permanente ás nossas convicções.

Estive ontem a ouvi-lo no lançamento deste livrinho pequeno e notável. "EDUCAÇÃO ARTE E CIDADANIA". Como de costume fiquei encantado e senti-me profundamente levado a questionar-me sobre um ror de motivos relacionados com o ensino e a forma como o vemos hoje em dia.

Laborinho Lúcio falou de coisas simples. A liberdade, os direitos de cada um, os direitos dos outros. Coisas que muitas vezes só olhamos de um dos lados.

No final da sessão, traçou dois grandes caminhos para o ensino, o ensino para a competência, para o saber fazer, por um lado, e por outro, o ensino para a alteridade, a cidadania, o saber ser, onde, sem ingnorar o saber fazer, a arte e as humanidades terão um papel determinante e onde é fundamental aprender a pensar e a escolher.

Laborinho deixou-nos com uma provocação final apontando para o caso de maior competência conhecido nos últimos anos: a destruição das torres gémeas. O objectivo foi plenamente atingido. Mas será que os que o executaram tinham desenvolvido as outras competências, o pensar e o escolher? E que tinham desenvolvido uma relação construtiva com o conceito de alteridade?

quarta-feira, 28 de maio de 2008

E PORQUE AINDA É MAIO...

AL-GUANTANAMO

Mão amiga fez-me chegar este texto que creio circular por aí há algum tempo. Fica bem nos 40 anos do Maio de 68.





“MOVIMENTO FECHA PORTUGAL”


Boletim informativo


AL - GUANTANAMO

O ALGARVE PODE VOLTAR A MUDAR DE NOME


AL - GUANTANAMO é o nome com que o Algarve poderá ser baptizado no caso de ser aprovado o novo plano de ocupação turística do Sul de Portugal.

Um estudo recente encomendado à empresa Narnett Clesius de Michigan trouxe-nos um conceito absolutamente revolucionário que poderá ajudar a uma ocupação extensiva do nosso parque hoteleiro. Trata-se de receber entre nós agentes subversivos árabes, coreanos e de outros países para períodos mais ou menos prolongados de terapias intensivas anti-stress.

Em breve veremos aparecerem o Guantanamo Village, o Guantanamo Inn, os Terraços de Guantanamo, etc, etc.

Além de implicar uma rentabilização plena das infraestruturas turísticas algarvias mesmo nas épocas baixas, este projecto permitirá ainda pôr um ponto final sobre a questão do transporte de prisioneiros de guerra através do espaço aéreo português. O governo deixará de se engasgar com tais notícias e de dar respostas pouco convincentes.

Os aviões militares norte-americanos deixarão de atravessar o nosso espaço aéreo porque os pacientes candidatos às ditas terapias passarão a estar cá em permanência. Não sobrevoam, já cá estarão.

Terapeutas e massagistas estarão já a ser recrutados entre antigos profissionais das polícias chilena, brasileira, argentina e uruguaia.

Caso se confirme este grande projecto, por meras razões de segurança, será necessário deslocar toda a população algarvia para o Sul de Espanha, o que constituiria um passo em frente naquilo que o "Movimento Fecha Portugal" tem vindo a reclamar há bastante tempo: o fecho integral do país.

Já se fecharam centros de saúde, escolas primárias, postos de trabalho, etc, etc. É preciso ter a coragem de levar esta política até às suas últimas consequências e exigir o fecho do país.

Grita connosco: “FECHA PORTUGAL”!*





*
“MARIA MIQUELINA”, produção de textos, notícias falsas e verdadeiras, discursos para todas as ocasiões, argumentos para comédias, palpites para a localização de aeroportos, organização de eventos patrióticos, casamentos e baptizados, dietas de emagrecimento, boatos, pareceres jurídicos contraditórios, piadas ranhosas sobre primeiros-ministros não especificados, processos disciplinares avulso, receitas culinárias, marcação de cama nos nossos melhores motéis, organização de orgias com meninas esculturais brasileiras para políticos de todas as cores, comentários futebolísticos sérios, palpites seguros sobre candidatos a secretários gerais, etc, etc, etc.

NÃO FUI EU QUE DISSE!

“O Público” de 25.05.08



“… Manuela Ferreira Leite representa o que há de mais genuíno e profundo no partido: a tradição autoritária que vem de Salazar e Marcelo e que Sá Carneiro e depois Cavaco manifestamente receberam.”

VASCO PULIDO VALENTE

segunda-feira, 26 de maio de 2008

O MILAGRE DOS PROFESSORES

“O Público” de 25.05.08


“Se queremos reformas na área da saúde ou educação, não podemos separar-nos completamente dos protagonistas que estão no terreno porque são eles que vão dar corpo ao que se pretende fazer.
Temos um conjunto de professores que fazem todos os dias o milagre de fazer funcionar muito bem as escolas públicas e privadas. Para que esses professores mantenham a sua capacidade e empenho no que fazem têm de ter estabilidade.”

PROFESSOR MARÇAL GRILO (ex-Ministro da Educação)