quinta-feira, 2 de outubro de 2008

MISSÃO EM HAPPY-COSMOS

Hoje, dia 2 de Outubro, chega às livrarias a minha última aventura literária feita, desta vez, de parceria com a minha amiga Luísa Beltrão.

Destina-se a jovens dos 14 anos em diante, embora estas divisões etárias sejam sempre muito pouco estanques. Enquanto escrevíamos pensávamos que o nosso leitor ideal teria 15 anos e estava no 10º ano.

Trata-se de uma aventura de 4 jovens que atravessam o tempo e o espaço numa viagem simbólica que os vai fazer confrontar-se com um universo aparentemente (mas só aparentemente) maravilhoso, onde a felicidade é obrigatória, a mmória é apagada e a imperfeição é eliminada.

Trata-se do primeiro de uma série de sete livros que constituirão em conjunto uma grande viagem iniciática destes quatro jovens que vão crescer confrontando-se com as grandes questões do Homem.




E o nosso romance começa assim:

- Uma árvore que fala? Que fala???? - O João Maria, a Emília e a Patanisca desataram a rir, cada um à sua maneira. Eram tão diferentes que até no riso tinham estilos próprios.
Furioso, o Vasco puxou o cabelo preto, muito liso e brilhante:
- Juro! É verdade! Aquela árvore falou comigo! – A voz tremia-lhe num soluço contido. Ele sabia que um homem não chora, mas ele não era um homem, apenas um rapazinho de doze anos a quem os amigos espetavam farpas em vez de ajudarem.
“O que é que eu faço agora?”

terça-feira, 30 de setembro de 2008

OS LIVROS



A avó

Tinha ao colo o gato velho
cansadamente passando
a sua branca mão pelo
pêlo dele preto e brando

Sentada ao pé da janela
olhando a rua ou sonhando-a
todo o passado passando
a passos lentos por ela

Dormiam ambos enquanto
a tarde se ia acabando
o gato dormindo por fora
a avó dormindo por dentro



Manuel António Pina

domingo, 28 de setembro de 2008

RILKEANA




Eines ist, die geliebte zu singen


Como cantar o amado?

Quem ama
fica cheio de não-saber
não pára de procurar

Entrevendo o fulgor do êxtase
percorre o rio de sangue
conhece os horrores da guerra íntima
toda vermelha e crua
fértil em rupturas
incessante nos ataques

Não
nenhum rosto materno sobre o nosso debruçado
nos consolaria
se houvesse esse rosto
essa ternura impossível de entender

Nada nos pode consolar
do excessivo peso do amor
que oprime como a noite
cheia de não-saber
como tudo o que é divino
e inventado

De facto
não amamos como as flores
totalmente simples na sua entrega
Quando amamos
deixamos de ser o que somos
transfigurados pelo desejo
que mata
destrói
violenta tudo

E perscrutando a noite
que a si própria se escava e aplaina
amando
fitamos a intermitência das estrelas
deslumbrados por um brilho extinto
que fere com lentidão sideral
o ermo íntimo do nosso coração

Inatingível sempre
e como tal desejado
o verdadeiro amado


Ana Hatherly

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

IMAGIAS





POEMA QUE SE DEVIA

Este poema devia ser para ti, devia
falar de carrosséis ou sinos (as palavras
que aqui me conduziram e me obrigaram
à angústia).
O ponto mais pretérito da angústia
devia estar neste poema, que seria
para ti.

Nele, eu embrulharia muitas coisas:
calendários indóceis, facturas por pagar,
livros deixados por ler à mesa da cabeceira,
anúncios recortados de nuvens
ou jornais.

Acrescentando também os carrosséis, os tais
de que falava acima, e os sinos
que todavia teimam em tocar a horas renitentes.
Tudo isto eu deveria dizer
Neste poema: ternuras por pensar e muitas dívidas
impensáveis e doces.

Usaria então breve vocabulário sempre igual,
as mesmas palavras que há anos têm sido
as minhas metáforas idênticas
em ponto mais pretérito de angústia.

Seria então um poema que se devia
a toda a gente, especialmente a ti,
um pequeno berlinde que eu nunca soube jogar,
porque, no tempo em que vivi, o que se usava
era canções de roda e bonecas
de tranças a fingir.

Escrito no ponto mais pretérito
da angústia,
aspiraria à linguagem mais simples
das coisas menos simples,
como facturas de vida,
contas de hospital – ou ainda um abat-.jour
de impossível partilha.

Pensando bem, com um perfil assim, este poema
nem devia ser um poema, mas um grito,
ou uma voz em branco,
escrito no pretérito mais que perfeito
de tudo, a sua angústia a concordar com tempo
e modo. E os sinos reticentes
em música de fundo.


Ana Luísa Amaral

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

NA ESTRANHA CASA DE UM OUTRO



POEMAS DO ELÉCTRICO
´
PARAGEM II

A cidade é imóvel e o eléctrico
avança alheio
pela preguiça amarela que o sustenta

Mas se chove,
cola-se-lhe o peso da cidade ao corpo
partilha velada de um movimento baço.

Idênticos a cidade e o eléctrico
no mesmo lento vagar molhado:

a água arrasta a calçada pelo carril
folhas e pombos pingam dos fios
e há sempre uma estátua ou outra
a escorrer no vidro


Rita Taborda Duarte

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

QUERIDAS BIBLIOTECAS: UM ANO JÁ LÁ VAI

Faz hoje um ano que comecei esta aventura chamada “Queridas Bibliotecas”. Começou sem programa definido. Fui desfiando memórias, partilhando poesia, leituras, imagens, canções…

Fui descobrindo que a necessidade de comunicar faz com que as pessoas se juntem em volta de sonhos, de ideias, de imagens, de desabafos e que, mesmo a blogosfera acaba por ser uma rua de janelas abertas por onde os afectos crescem, a partilha floresce, as ideias permanecem vivas.

Encontrei aqui companheiros antigos e novos.

17.800 visitantes num ano, cerca de 50 por dia. É obra.

Alguns deixaram posts. E que bom que é receber um abraço, um beijo, uma palavra doce de tantas e tantos amigos que passam por aqui, ás vezes apenas para desejar Boa Semana!

Sei também que muito me visitaram professores e alunos de escolas, gente da maravilhosa aventura das bibliotecas onde se lêem os meus livros e onde vou passando para deixar palavras, emoções, gargalhadas, sementinhas que talvez venham a dar flor num futuro mais breve ou mais longo

Todos nós formamos um grupo fantástico que nem sabe exactamente os seus contornos. Gente que acredita que a raiz do pensamento não pode ser cortada, que a palavra ilumina, que os amigos trazem sempre outro amigo também.

Por tudo isso e muito mais espero continuar a fazer deste cantinho uma casa de porta aberta boa para se visitar de vez em quando.

E já agora, deixo um poema aos que, como eu, são e sempre foram sonhadores insubordinados e inquietos no mais belo sentido da palavra.

BALANÇO PROVISÓRIO

Estamos mais gordos mais magros
talvez mais denso
ou mais pesado o nosso olhar
temos pressa de ternura
angústias de vez em quando
e umas contas de telefone atrasadas
para pagar.

Temos falta de cabelo
três ou quatro cicatrizes
sofremos de inquietação.
Muitas vezes nos disseram
como é rápido o deslize
mesmo assim nunca deixámos
de dar corda ao coração.

Daqueles que já partiram
guardamos silêncio e nome
e uma improvável mistura
de amargura e rebeldia
nas palavras desordeiras
que dizem redizem cantam
relembrando dia a dia
como é feita de azinheiras
a capital da alegria.

Muitas ondas já morreram
outras tantas vão nascer
muitos rios já se cansaram de correr até á foz
águas claras que se foram
outras águas se turvaram
e agora restamos nós.

Somos muitos somos poucos
calmamente radicais
sabemos vozes antigas
trazemos a lua ao peito
amamos sempre demais.

Neste caminho tomado
fomos traídos trocados
vendidos ao deus dará.
Nem por isso desistimos
e assim nos vamos achando
perdidos de andar às voltas
nas voltas que a vida dá.

Somos uns bichos teimosos
peixes loucos aves rindo
plantas poetas palhaços
e portanto resumindo
somos mais do que nos querem
estamos vivos
somos lindos!


José Fanha

sábado, 20 de setembro de 2008

QUANDO NÃO SOUBERES COPIA




A linha do horizonte faz uma curva perigosa e está fora de mão.
A linha do horizonte, afinal, é um embuste linear e um veículo mal conduzido.
Quem lhe deu toda esta grandeza esqueceu-se de que lhe
estava a dar todo o poder. Ouviste, Deus?, é contigo.
Ou será que te enganaste e não percebeste que o horizonte
não é para ver de cima? Já não é a primeira vez que te apanho em falso.
Repara nos homens.
Nas guerras.
Na fome.
Nos incêndios e nas cheias.
Queres pior?
Repara na mentira.
Queres um resumo? Repara em ti.
Já sei, já sei. Para estes casos tu não és nenhuma entidade
superior, tu és dentro de cada um de nós.
Mas a multa do horizonte fora de mão, pagas tu.


Fernando Tordo

sexta-feira, 19 de setembro de 2008

LIÇÕES DE MESTRES




Comecei a ler e logo fiquei apaixonado. Primeiro pelo delicioso prefácio do José Gomes Ferreira. Depois, pela viagem pelos primeiros anos do século na volta da monarquia para a república com maçons, republicanos, carbonários, polícias e padres, prisões e fugas. Um fartote. Finalmente, pelo prazer da prosa adornada, excessiva, colorida mas extraordinariamente saborosa de mestre Aquilino. Prosa de mastigar lentamente como o vinho forte. Prosa para leituras de outro tempo, um tempo em que alguns tinham tempo para ler.

Quando entrei para Belas-Artes nos finais dos anos 60, aprendi que havia os professores e havia os mestres. Os mestres eram homens de letras ou artes reconhecidos pela substância do seu ofício e pela dimensão ética e humana da sua figura.

Mestre Aquilino, mestre Almada Negreiros, mestre Abel Manta, mestre Sá Nogueira, mestre Lagoa Henriques, mestre Frederico George… Conheci pessoalmente ou fui aluno de alguns. Outros via-os passar e seguia-lhes os passos com o respeito e admiração.

Eram mestres. E essa ideia de mestria no oficio conferia-lhes uma condição excepcional no acto do ensino, fazendo com que também como professores fossem considerados mestres, homens que sabiam fazer, que conheciam por dentro as traves com que se cosia a arquitectura da sabedoria e que faziam convergir a sabedoria do fazer e a do reflectir sobre esse fazer.

Esta ideia de mestre estava intimamente ligada à ideia da dúvida como método, da questionação permanente, da excelência, conceito tão contrário ao de banalização dos saberes de pacotilha que reina no nosso ensino com as devidas e honrosas excepções.

Talvez já aqui tenha colocado esta afirmação de Georges Steiner. Seja como for, vale a pena repetir:

"Para se ser professor é preciso ser-se um dador, ser-se um pouco louco, é preciso estar-se nu e não ter vergonha da nudez.”

É assim que são os verdadeiros mestres. Um pouco loucos, nus perante o mundo e orgulhosos de tudo questionarem através dessa nudez.~

Cá para mim, um professor deve ser uma pessoa que esteja a arder de amor por cada palavra e pronto a ajudar os seus alunos a sair pela janela na rota das andorinhas.

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

Lacoonte, rimas várias, andamentos graves



como a sentir a tua cara rente

como a sentir a tua cara rente
à minha e as tuas mãos nas minhas, ou
como se a dança amarguradamente
nos desse nesta noite ainda um slow

levado a medo, apenas a ternura
a conduzir de leve os nossos passos
e o corpo estremecendo-te à procura
do seu lugar na grade dos meus braços,

e a luz, fina película de vidros
por entre a frialdade de Janeiro,
a trespassar os corações partidos
estranhamente, e o meu sendo o primeiro,

como se não desse o que doía
na própria dor tingida de alegria.

Vasco Graça Moura

terça-feira, 16 de setembro de 2008

ANALOGIA E DEDOS



NOÉ

Pronto, pronto, eu faço. Dá um trabalhão
mas faço. Corto madeira, arranjo pregos,
gasto o martelo. E o pior também:
correr o mundo a recolher os bichos
coisas de nada como formigas magras,
e os outros, os grandes, os que mordem
e rugem. E sei lá quantos são!
Em que assados me pões. Tu
gastaste seis dias, e eu nunca mais acabo.
Andar por esse mundo, a pé enxuto ainda,
e escolher os melhores, os de melhor saúde,
que o mundo que tu queres não há-de nascer torto.
Um por um, e por uma, é claro, é aos pares
- o espaço que isso ocupa.

Mas não é ser carpinteiro,
não é ser caminheiro,
não é ser marinheiro o que mais me inquieta.
Nem é poder esquecer
a pulga, o ornitorrinco.
O que mais me inquieta, Senhor,
é não ter a certeza de não valer a pena
é partir já vencido para outro mundo igual.

Pedro Tamen

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

ASAS

Começam hoje as aulas pelo país fora. Alguns professores vão ajudar meninos a ganhar asas. Outros vão apenas cumprir o programa e aceitar, bem comportadinhos, todas as palermices que os mandarem fazer. Tenho pena destes últimos porque nunca ganharão asas nem ajudarão ninguém a aprender a voar.

Aos primeiros envio um beijo, um abraço e este poema. Eles sabem, ou pelo desconfiam, que ensinar é um acto mágico que está para lá de todas as burocracias, um acto em que cresce o aluno e o mestre e em que ambos aprendem a soltar as asas.


ASAS

Nós nascemos para ter asas, meus amigos.
Não se esqueçam de escrever por dentro do peito: nós
nascemos para ter asas.
No entanto, em épocas remotas, vieram com dedos
pesados de ferrugem para gastar as nossas asas como
se gastam tostões.
Cortaram-nos as asas para que fôssemos apenas
operários obedientes, estudantes atenciosos, leitores ingénuos
de notícias sensacionais, gente pouca, pouca e seca.
Apesar disso, sábios, estudiosos do arco-íris e de coisas
transparentes, afirmam que as asas dos homens crescem
mesmo depois de cortadas, e, novamente cortadas,
de novo voltam a ser.
Aceitemos esta hipótese, apesar não termos dela
qualquer confirmação prática.
Por hoje é tudo. Abram as janelas. Podem sair.

José Fanha

domingo, 14 de setembro de 2008

A MATÉRIA DO POEMA



POÉTICA

Quero que o meu poema fale de barcos e de azul, fale
do mar e do corpo que o procura, fale de pássaros e
do céu em que habitam. Quero um poema puro, limpo
do lixo das coisas banais, das contaminações de quem
só olha para o chão; um poema onde o sublime nos
toque, e o poético seja a palavra plena. É este poema
que escrevo na página branca com a parede que
acabou por ser caiada,com as suas imperfeições
apagadas pela luz do dia, e um reflexo de sol
a gritar pela vida. E quero que este poema desça
as caves onde a miséria se acumula, aos bancos onde
dormem os que não têm tecto nem esperança,
as mesas sujas dos restos da madrugada, às
esquinas onde a mulher da noite espera o último
cliente, ao desespero dos que não sabem para onde
fugir quando a morte lhes bate à porta. E canto
a beleza que sobrevive ás frases comuns, às
palavras sujas pelo quotidiano dos medíocres,
aos versos deslavados de quem nunca ouviu
o grito do anjo. E digo isto para que fique, no
poema, como a pedra esculpida por um fogo divino.

Nuno Júdice

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

A CRIANÇA EM RUÍNAS





na hora de pôr a mesa, éramos cinco:
o meu pai, a minha mãe, as minhas irmãs
e eu. depois, a minha irmã mais velha
casou-se. depois, a minha irmã mais nova
casou-se. depois, o meu pai morreu. hoje,
na hora de pôr a mesa, somos cinco,
menos a minha irmã mais velha que está
na casa dela, menos a minha irmã mais
nova que está na casa dela, menos o meu
pai, menos a minha mãe viúva. cada um
deles é um lugar vazio nesta mesa onde
como sozinho. Mas irão estar sempre aqui.
na hora de pôr a mesa, seremos sempre cinco.
enquanto um de nós estiver vivo, seremos
sempre cinco.


José Luís Peixoto

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

LISBOAS




PRAÇA DAS FLORES





Foi na Praça das Flores que eu perdi o meu império,
numa tarde morna e com um gato preto
a tirar medidas ao desastre.
Que pracinha bela, quando se tem amantes, dinheiro
e um pouco de melancolia verde
e leviana.
Durante muito tempo fui um colono
dos seus arrabaldes.
Escrevia por conta e portava-me mal com quem queria
pagar-me a autoridade das palavras.
Mas sempre era um império dos sentidos.

De dia a praça não havia, só havia o príncipe
real com a sua cuidada freguesia
de paus-santos e artes da restauração.
Eu vivia num império de frases, sem noite,
como sempre quiseram que fossem os impérios,
talvez para que rutilem mais as fardas
que os sabem defender.

Mas nessa tarde, depois de uma decadência arrastada
e muito inglesa, lembrei-me de chorar,
pois não havia mais lugar para tanto súbdito
oculto nos sentimentos banais
do território.

A Praça das Flores com o seu jardim minúsculo
e as suas grades cobertas de alegria mansa
era o melhor pedestal para a minha estátua deposta
já passava das três e até tinha chovido.

Como se fosse agora, lembrava-me do gato preto
e da minha perda de poderes absolutos.

Nunca ouvi dizer que o choro fosse a melhor arma da revolta,
mas houve uma batalha.
Sentia o corpo dividido em dois países,
a lutar com as mesmas munições.
E eu fui por mim de mim
destituído.

Sereníssima praça sem ruídos nem desassossegos,
área campal de soluços que outrora
eu bebi como se fossem balas:
vim hoje visitar-te.
Sem armas nem bagagens,
sento-me num banco evidentemente velho
e sem governo.

E devagar, ao longe, com a mesma negra
medida do destino,
eu vejo aproximar-se novamente
o gato.


Armando Silva Carvalho

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

O LIVRO BRANCO DA MELANCOLIA




QUANDO EU FOR PEQUENO

Quando eu for pequeno, mãe,
quero ouvir de novo a tua voz
na campânula de som dos meus dias
inquietos, apressados, fustigados pelo medo.
Subirás comigo as ruas íngremes
com a ceteza dócil de que só o empedrado
e o cansaço da subida
me entregarão ao sossego do sono.

Quando eu for pequeno, mãe,
os teus olhos voltarão a ver
nem que seja o fio do destino
desenhado por uma estrela cadente
no cetim azul das tardes
sobre a baía dos veleiros imaginados.

Quando eu for pequeno, mãe,
nenhum de nós falará da morte,
a não ser para confirmarmos
que ela só vem quando a chamamos
e que os animais fazem um círculo
para sabermos de antemão que vai chegar.

Quando eu for pequeno, mãe,
trarei as papoilas e os búzios
para a tua mesa de tricotar encontros,
e então ficaremos debaixo de um alpendre
a ouvir uma banda a tocar
enquanto o pai ao longe nos acena
com um lenço branco com as iniciais bordadas
anunciando que vai voltar porque eu sou pequeno
e a orfandade até nos olhos deixa marcas.


José Jorge Letria

sábado, 6 de setembro de 2008

O CANTO DO VENTO NOS CIPRESTES





Mãe, eu quero ir-me embora – a vida não é nada
daquilo que disseste quando os meus seios começaram
a crescer. O amor foi tão parco, a solidão tão grande,
murcharam tão depressa as rosas que me deram –
se é que me deram flores, já não tenho a certeza, mas tu
deves lembrar-te porque disseste que isso ia acontecer.

Mãe, eu quero ir-me embora - os meus sonhos estão
cheios de pedras e de terra; e, quando fecho os olhos,
só vejo uns olhos parados no meu rosto e nada mais
que a escuridão por cima. Ainda por cima, matei todos
os sonhos que tiveste para mim – tenho a casa vazia,
deitei-me com mais homens do que aqueles que amei
e o que amei de verdade nunca acordou comigo.

Mãe, eu quero ir-me embora – nenhum sorriso abre
caminho no meu rosto e os beijos azedam na minha boca.
Tu sabes que não gosto de deixar-te sozinha, mas desta vez
não chames pelo meu nome, não me peças que fique –
as lágrimas impedem-me de caminhar e eu tenho de ir-me
embora, tu sabes, a tinta com que escrevo é o sangue
de uma ferida que se foi encostando ao meu peito como
uma cama se afeiçoa a um corpo que vai vendo crescer.

Mãe, eu vou-me embora – esperei a vida inteira por quem
nunca me amou e perdi tudo, até o medo de morrer. A esta
hora as ruas estão desertas e as janelas convidam à viagem.
Para ficar, bastava-me uma voz que me chamasse, mas
essa voz, tu sabes, não é a tua – a última canção sobre
o meu corpo já foi há muito tempo e desde então os dias
foram sempre tão compridos, e o amor tão parco, e a solidão
tão grande, e as rosas que disseste que um dia chegariam
virão já amanhã, mas desta vez, tu sabes, não as verei murchar.



Maria do Rosário Pedreira

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

SENHORA DAS TEMPESTADES






QUARTO POEMA DO PESCADOR

Sei agora que Deus rola nas ondas
vem na última onda ei-lo na espuma
é reflexo brilho incandescência.
Se vou à pesca é para o procurar
se lanço a linha é para ver se o pesco
quando pesco um robalo eu pesco Deus
e é com ele que falo em frente ao mar
ele é seixo a alga o vento leste
a nuvem que lentamente cobre a lua
ele é a minha dispersão e a minha comunhão
o fragmento de estrela que se vê ainda
a tainha que salta
ele é o grão de areia e a imensidão da noite
o finito e o infinito
vai na corrente corre-me no sangue
não sei que nome dar-lhe
digo Deus
ele é o laço que me prende e me desprende
o que palpita em mim e o que em mim morre
vem na sétima onda e bate no meu pulso

ele é o aqui o agora o nunca mais
a morte que está dentro
rola na onda
bate na sétima costela do meu corpo
chamo-lhe Deus porque ele é o tudo e é o nada
eternidade que não dura sequer o eu dizê-la
ei-lo na espuma na lua no reflexo
de repente um esticão a cana curva-se
é talvez um robalo de seis quilos
isto é a pesca
o meu falar com Deus ou com ninguém
sozinho frente ao mar.

Ele é o vento a noite a solidão
O robalo que luta contra a morte
E é a minha ligação magnética com Deus
Esse umbigo do mundo
Que rola sobre as ondas e cai do firmamento
Com sua espuma e sua luz e sua noite
Chamo-lhe Deus porque não sei como chamar
Ao meu ser e não ser
De noite junto ao mar
Quando regulo a amostra e sua fluorescência
Pescando robalos
Ou talvez Deus
E sua ausência.


Manuel Alegre

LIVROS INDISPENSÁVEIS

Depois dos “Poetas Fora de Moda” pareceu-me interessante assinalar alguns dos livros que, quanto a mim, marcam fortemente a minha forma de ver e amar a poesia portuguesa.

São livros que leio repetidamente, verdadeiras luzes que julgo virão a assinalar no futuro o que de melhor se tem escrito neste período que vai do final de um século aos primeiros anos de outro século.

São por certo grandes momentos do ofício, do talento e da inspiração dos poetas.

Não pretendo que sejam os únicos. São a minha escolha. São os que julgo que deviam estar na mesa de cabeceira de todos aqueles para quem a poesia é indispensável para se encontrarem e se perderem, para se questionarem, para respirarem nessa língua que é o melhor da arte de ser português.

domingo, 31 de agosto de 2008

JOSÉ CARLOS ARY DOS SANTOS (1937 - 1984)



José Carlos Ary dos Santos


Esive ao lado dele em muitas ocasiões. Em convívios universitários antes do 25 de Abeil, em muitas sessões e comemorações pelo país em tempos de revolução e pós-revolução.

Devo-lhe palavras muito caras de estímulo e amizade.

Como toda a gente fui tocado pelas suas boutades de enfant terrible, mas também pela força da sua presença e pela música dos seus versos.

Terei sempre um cravo junto à memória comovida que guardo do homem, do amigo e do poeta.

OS CÃES DA INFÂNCIA

São os cães da infância os cães dementes
ladrando-me às canelas do passado
cães mordendo-me a vida com os dentes
ferrados no meu sexo atormentado.

Paguei cada minuto do presente
com vergões de amor próprio vergastado
porém só fala quem se não consente
vencido temeroso ou amarrado.

Contra os cães uivo. Não me fico assim.
Não tenho pai nem mãe. Nasci de mim
macho e fêmea gerando o desespero.

Lutar é tudo quanto sou capaz.
Não me pari para viver em paz.
Tudo o que sou é menos do que eu quero.



José Carlos Ary dos Santos

A POESIA PORTUGUESA DO SÉC. XX

A Poesia portuguesa do séc. XX tem uma riqueza e uma variedade impressionantes. A quantidade de grandes poetas é extraordinária. Basta lembrar os primeiríssimos, Pessoa, Pascoaes, Florbela, Régio, Gedeão, Torga, Nemésio, Sena, Sophia, Eugénio, Natália, David, O´Neill, Cesariny, Herberto, Pedro Tamen, Ruy Belo, Fiama, Fernando Assis Pacheco, Manuel Alegre, LUísa Neto Jorge, Vasco Graça Moura… Podia ainda juntar Sá-Carneiro, Almada Negreiros, José Gomes Ferreira, Botto, Ruy Cinatti, Manuel da Fonseca, Natércia Freire, Reinaldo Ferreira, Sebastião da Gama,António Maria Lisboa, Ana Hatterly, Teresa Horta, Fernando Assis Pacheco, Gastão Cruz, Armando Silva Carvalho, Manuel Aberto Pina, Nuno Júdice, Joaquim Pessoa, Al Berto.

Publiquei aqui 36 poetas pouco conhecidos e pouco visitados mesmo pelos que gostam de poesia. Com uma excepção (Manuel Cintra) fiquei pelos que nasceram na primeira metade do século (ou ainda em finais do século XIX). Poderia acrescentar mais uns 20 ou 30. Fora os mais novos, nascidos na segunda metade do séc. XX.

Alguns desses poetas terão escrito um poema deslumbrante e só por isso merecem a nossa admiração. Outros só publicaram um livro. Uns passaram pela vida brevemente ou em bicos de pés e a sua obra é póstuma. Outros tiveram muito sucesso num tempo e num determinado meio e depois foram completamente esquecidos.

Infelizmente não temos publicações de poesia que divulguem esta riqueza da nossa cultura. Infelizmente também já desapareceram aqueles que eram leitores especialmente apaixonados por poesia e que faziam da sua arte de ler uma luz que nos iluminava e ajudava a separar o trigo do joio. Estou a falar de João Gaspar Simões, David Mourão-Ferreira, Eugénio Lisboa (que ainda temos o prazer de ler de vez em quando) e poucos mais.

Fiquei muito satisfeito por ter aberto estas portas a quem por elas soube entrar. Agradeço do fundo do coração aos que, com os seus posts, fizeram com que uma ideia de trazer à baila meia dúzia de poetas pouco conhecidos, acabasse por me levar à quase obrigação de fazer um trabalho mais extenso.

Um blog é, ou pode ser, um espaço de convívio e partilha e só faz sentido pela convergência de vozes, às vezes mínimas, mas sempre generosas e amigas.

Agradeço profundamente aos posts (falharei muitos muitos nomes por certo) Licínia, Júlio Pego, Paulinha Caçadora de Emoções, Margarida Graça, Samuel, Rita Carrapato, Maria, Mariam, Eufrázio Filipe, Lena, Tiago Carvalho… Tantos mais.

Termino esta série com aquele que é o mais amado dos poetas fora de moda. O mais popular, o mais cantado, declamado e copiado de todos: o José Carlos Ary dos Santos. E se digo que ele foi e é um poeta fora de moda, quero falar das modas literárias, das “bem pensâncias”, daqueles que julgam que a poesia se suja quando desce à rua, que me menoriza quando assume causas, que se banaliza quando quer oferecer a sua música e as suas palavras àqueles que mais precisam delas.

Mas também quero dizer que o justificado amor de muitas pessoas pelo mais fácil e público do trabalho poético do Zé Carlos, acabou por deixar na obscuridade a sua poesia mais pessoal, mais torturada e, muitas vezes, mais elaborada. É essa poesia que quero lembrar aqui e deixar sinal de uma grande saudade por um homem cuja arte e coragem fazem muita falta a todos nós e à literatura portuguesa.

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

MARIA JUDITE DE CARVALHO (1921-1988)



Maria Judite de Carvalho

Nasceu em Lisboa. Entre 1949 e 1955 viveu em França e na Bélgica. Prosadora de notória qualidade embora menos divulgada do que mereceria.
A sua poesia resume-se a um livrinho póstumo intitulado "A Flor Que Havia na Água Parada". Vale a pena visitá-lo.

As portas que batem

As portas que batem
nas casas que esperam.
Os olhos que passam
sem verem quem está.
O talvez um dia
Aos que desesperam.
O seguir em frente.
O não se me dá.

O fechar os olhos
a quem nos olhou.
O não querer ouvir
quem nos quer dizer.
O não reparar
que nada ficou.
Seguir sempre em frente
E nem perceber.


Maria Judite de Carvalho

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

POLÍBIO GOMES DOS SANTOS (1911-1939)






Políbio Gomes dos Santos

Nasceu em Ancião e frequentou o Curso Superior de Letras em Coimbra. Faleceu muito jovem vítima de tuberculose. Começou por publicar na Presença mas tornou-se depois numa das vozes mais intensas da primeira geração do neo-realismo no Novo Cancioneiro.

VITORINO NEMÉSIO - À MEMÓRIA DE POLÍBIO GOMES DOS SANTOS

O poeta que morreu entrou agora,
Não se sabe bem onde, mas entrou,
Todo coberto de demora,
No bocado de noite em que ficou.
As ervas lhe desenham
Seu espaço devido:
Depressa, venham
Lê-lo no chão os que o não tinham lido
Que o sorriso que o veste
Já galga como um potro
As coisas tenebrosas,
E esquecido – só outro:
Este
Nem precisa de rosas.


Vitorino Nemésio

POEMA DA VOZ QUE ESCUTA

Chamam-me lá em baixo.
São as coisas que não puderam decorar-me:
As que ficaram a mirar-me longamente
E não acreditaram;
As que sem coração, no relâmpago do grito,
Não puderam colher-me.
Chamam-me lá em baixo,
Quase ao nível do mar, quase à beira do mar,
Onde a multidão formiga
Sem saber nadar.
Chamam-me lá em baixo
Onde tudo é vigoroso e opaco pelo dia adiante
E transparente e desgraçado e vil
Quando a noite vem, criança distraída,
Que debilmente apaga os traços brancos
Deste quadro negro – a Vida.
Chamam-me lá em baixo:
Voz de coisas, voz de luta.
É uma voz que estala e mansamente cala
E me escuta.

Políbio Gomes dos Santos

sábado, 23 de agosto de 2008

CABRAL DO NASCIMENTO (1897-1978)



Cabral do Nascimento

Nasceu no Funchal. Estudou Direito em Lisboa e Coimbra.
Professor e tradutor. Poeta elegante e discreto. A obra completa foi há pouco publicada pela ASA sob orientação de Vasco Graça Moura.

CANÇÃO

O lenço com que me acena
Tudo o que está para trás,
É coisa já tão pequena
Que me faz chorar a pena
E rir de espanto me faz.


Vejo-o ao longe, a se perder,
A se apagar, a sumir,
Mas não sei, a bem-dizer,
Se ele é que vai a morrer,
Se eu é que vou a fugir.


E o lenço, com que a distância
Me diz adeus lá do seio
Do mar, rasga abismos de ânsia
Entre mim e a minha infância,
Sem deixar nada no meio.

Cabral do Nascimento

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

JOÃO APOLINÁRIO (1924-1988)



Joãio Apolinário

Nasceu em Belas. Poeta, advogado e jornalista.

Foi para a França como correspondente da Agência Logos onde viveu os terríveis últimos tempos da Segunda Guerra Mundial

De regresso a Portugal foi co-fundador do Teatro Experimental do Porto. Anti-fascista, preso, acaba por procurar o exílio no Brasil em 1963. Com a ditadura dos coroneis volta a ser perseguido no país de adopção.

Em Portugal é quase desconhecido embora alguns dos seus poemas tenham sido musicados pelo filho, o músico João Ricardo, fundador do grupo "Secos & Molhados" onde também começou a sua carreira Ney Matogrosso.

SECOS & MOLHADOS

CARROCEL

O meu circo imaginário
com palhaços de papel
piruetas e brinquedos
viagens no carrocel
girando sempre ao contrário
quando dava corda nele

O meu circo imaginário
feito de pano e cordel
e mil pequenos segredos
(fantasias de papel)
ficando sempre ao contrário
do sonho que eu punha nele

O meu circo imaginário
e o meu belo corcel
cavalgando nos meus dedos
(fantasias de cordel)
sempre fazendo o contrário
daquilo que eu queria dele

O meu circo imaginário
meu brinquedo de papel
de magias e bruxedos
(fantasias de cordel)
da infância ao contrário
que vivi para sempre nele

João Apolinário

segunda-feira, 18 de agosto de 2008

HENRIQUE RISQUES PEREIRA (1930)





Henrique Risques Pereira

Nasceu em Lisboa em 1930. Aproxima-se dos surrealistas e participa em 1949 nas suas actividades.

Desaparecido das actividades artísticas e literárias, fez-se há pouco uma exposição da sua obra plástica na Fundação Cupertino de Miranda e a edição de toda a sua obra poética sob o título de "Transparência do Tempo", organizada por Perfecto E. Cuadrado, especialista na história do surrealismo português.

É curioso como o carácter efémero que era atribuído à própria obra por muitos dos que circularam à volta do Movimento Surrealista Português nos traga, ao abrir dos baús, algumas belissímas surpresas como é o caso deste poeta.

HENRIQUE RISQUES PEREIRA



hENRIQUE rISQUES pEREIRA

PAI

com a saudade do teu filho


Pai do menino do triciclo ingénuo
Pai do menino doente
Pai amigo dos meus amigos
Pai avô
Pai conselho refúgio e amparo
Pai já não há sol amanhã
Pai que frio ficou neste mundo
Adeus Pai
para sempre
Pai ficou o céu mais vazio
nem uma nuvem nesta imensidão
Pai que frio

Henrique Risques Pereira

sábado, 9 de agosto de 2008

FERNANDO LEMOS (1926)



Fernando Lemos

“Fui estudante, serralheiro, marceneiro, estofador, impressor de litografia, desenhador, publicitário, professor, pintor, fotógrafo, tocador de gaita, emigrante, exilado, director de museu, assessor de ministros, pesquisador, jornalista, poeta, júri de concursos, conselheiro de pinacotecas, comissário de eventos internacionais, designer de feiras industriais, cenógrafo, pai de filhos, bolseiro, e tenho duas pátrias, uma que me fez e outra que ajudo a fazer. Como se vê, sou mais um português à procura de coisa melhor. “

Fernando Lemos nasceu em Lisboa, em 1926. Actualmente, reside em São Paulo, no Brasil. Frequentou a Escola de Artes Decorativas António Arroio e o curso livre da Sociedade Nacional de Belas-Artes.

Com um percurso profissional ligado às artes gráficas e à publicidade, Fernando Lemos circula por muitos territórios da arte ao longo do seu percurso. A sua obra multifacetada estende-se ao domínio da pintura, do desenho, da ilustração e à fotografia, campo que alcançou maior visibilidade pública nos últimos anos.

A ligação de Lemos à fotografia tem lugar na passagem da década de 40 para a de 50, no período em que desenvolve a sua actividade artística junto do Grupo Surrealista de Lisboa.

Em 1952, não obstante a qualidade do seu trabalho fotográfico, Fernando Lemos abandona a fotografia. No ano seguinte, emigra para o Brasil, tendo aí prosseguido a sua produção no domínio do design gráfico, do desenho e da pintura, e realizado diversas exposições individuais e colectivas.

A sua poesia iconoclasta e surrealizante dá notícia de uma admirável voz livre e encantadoramente selvagem.

AUTORETRATO



Fotografia de Fwernando Lemos

HINO TRISTE SEM MELODIA

Uma tarde no Museu das Janelas Verdes
Lisboa 1975



Nós heróis do mar eis
nobre povo sempre as naus
na frente dos reis.
Primeiro a moldura depois
a pintura após o retrato
a epopeia depois do relato.

Às armas...Às armas...
Nuno Gonçalves primitivo
educado colectivo passaporte
nobre povo mas mísera sorte.
Onde pousaram às pressas
retornados não idos sentados
nos projectos
como se já fossem
esmaecidos abandonados.

Almada imortal plantel
Negreiros atrás da tábua
que no painel falta
para justificar a malta.

Levantai hoje de novo
todo o esplendor de Portugal
galinha após o ovo já que
primeiro Colombo depois
Cabral.

Azar mas...Azar mas...
pela pátria lutar.
Depois da casa roubada
as portas trancar.
Somar os séculos de Império
e Salazar pelos dedos 48 anos
detrito familiar.
Contar os trajectos
navegar navegar voltar
após vinhetas de sangue
fazer o mosteiro
capacho de choro milenar.

Chamar Nuno Gonçalves para pintar
Almada para reconstituir
murais para a nação destilar.
Quem vê caras não vê brasões
daí os retratos
e as condecorações.

É assim somos assim meu irmão
primeiro vítima depois
o Dom de Sebastião.
Para nós a Humanidade
é uma lotaria.
Fomos grandes por fora
colonos do riso sem alegria.

Primeiro a República
avental da Monarquia depois
maçónica a Ditadura
com selvajaria cheia de Peros
de Vazes de Escrivaninha.

Camões que precisou
naufragar para o original
dos Lusíadas na tormenta editar.

Nação sem dúvida valente e imortal
na emigrância per capita
fundamentar.

Azar mas...Azar mas...
unha por cunha coisa por loisa
casamento por procuração depois
por Brasil a noiva.

Fernando Pessoa que foi Ser
português voltou
para conferir a língua desolado
fiscal do produto viciado.

25 de Abril
apoteose de revista
todos os bons restantes
com os maus de antes
sem pontos de vista.
agora sem medo enredo
sem uma história prevista.

Agora o fado espanta
nosso retiro e desespero
talvez nos paguem a conta
ou só irónico o tempero.
Talvez se aprenda o ovo
depois da galinha depois do óbvio
da adivinha.

Levantai hoje de novo
o esplendor da galinha
o imortal povo
ovo pai da rainha.
Mas primeiro país depois
Portugal.

Pobreza em pó orgulho
pre-conceito generoso
e desfeito.
Viva meu irmão do coração
azar mas...às armas...
pela pátria lutar depois
sem mar
só com chão Recomeçar!

Fernando Lemos

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

RUI KNOPFLI (1932-1997)



Rui Knopfli

Nasceu em Inhambane, Moçambique e fez os seus estudos na África do Sul..
Entre 1958 e 1974 foi delegado de propaganda médica. Publicou o primeiro livro, O País dos Outros, em 1959. Foi director do jornal A Tribuna entre Maio de 1974 e Fevereiro de 1975. Co-dirigiu, com Eugénio Lisboa, os suplementos literários desse jornal e do A Voz de Moçambique. Lançou, com João Pedro Grabato Dias, os cadernos de poesia Caliban (1971-72), que reuniram colaboradores como Jorge de Sena, Herberto Helder, António Ramos Rosa, Fernando Assis Pacheco, José Craveirinha, Sebastião Alba, etc. Dirigiu o caderno Letras & Artes (1972-75), da revista Tempo, ali tendo publicado traduções de inúmeros poetas. Deixou Moçambique em Março de 1975, onde voltaria uma única vez - em Outubro de 1989.

Deixou Moçambique em 1975, mantendo nacionalidade portuguesa com alma assumidamente africana. Fez parte de uma geração de moçambicanos espalhados pelo mundo, que incluiu os poetas Alberto de Lacerda, Helder Macedo e Virgílio de Lemos, o cineasta Ruy Guerra, os filósofos Fernando Gil e José Gil, o arquitecto Pancho Miranda Guedes, o fotógrafo Pepe Diniz, a pintora Bertina Lopes e o ensaísta Eugénio Lisboa. Radicou-se em Londres em 1975. Aí exerceu, durante vinte e dois anos consecutivos, o cargo de conselheiro de imprensa (1975-97) junto da Embaixada de Portugal. Em 1984 recebeu o prémio de poesia do PEN Clube. Faleceu em Lisboa no ano de 1997.

Sempre me comoveram pessoas que nasceram em pátrias de cujas raízes físicas se perdem, por vezes, para sempre. O poema que abaixo publico fala disso mesmo. O que é a pátria? O que era a pátria para um português cujo território estava noutro continente?

PÁTRIA

Um caminho de areia solta conduzindo a parte
nenhuma. As árvores chamavam-se casuarina,
eucalipto, chanfuta. Plácidos os rios também
tinham nomes por que era costume designá-los.
Tal como as aves que sobrevoavam rente o matagal
e a floresta rumo ao azul ou ao verde mais denso
e misterioso, habitado por deuses e duendes
de uma mitologia que não vem nos tomos e tratados
que a tais coisas é costume consagrar-se. Depois,
com valados, elevações e planuras, e mais rios
entrecortando a savana, e árvores e caminhos,
aldeias, vilas e cidades com homens dentro,
a paisagem estendia-se a perder de vista
até ao capricho de uma linha imaginária. A isso
chamávamos pátria. Por vezes, de algum recesso
obscuro, erguia-se um canto bárbaro e dolente,
o cristal súbito de uma gargalhada, um soluço
indizível, a lasciva surdina de corpos enlaçados.
Ou tambores de paz simulando guerra. Esta
não se terá feito anunciar por tal forma
remota e convencional. Mas o sangue adubou
a terra, estremeceu o coração das árvores
e, meus irmãos, meus inimigos morriam. Uma
só e várias línguas eram faladas e a isso,
por estranho que pareça, também chamávamos pátria.

Rui Knopfli

terça-feira, 5 de agosto de 2008

JOSÉ CARLOS GONZÁLEZ (1937-2000)




José Carlos González

Filho de pais galegos imigrados, nasceu em Lisboa e viveu vários anos exilado em Paris, regressando em 1974. Morreu em Kerlaz, na Bretanha, seu local de residência após a aposentação.

Poeta, de origem galega, de raiz surrealista, e nunca fazendo "tábua rasa" dessa experiência, como nos explica João Rui de Sousa, "o seu discurso foi sendo contaminado pela alusão aos factos comuns do dia a dia, com predomínio notório do flash citadino".
Estudou Direito em Lisboa e Românicas e Ciências Políticas na Sorbonne em Paris. Escritor e tradutor, foi técnico da Biblioteca Nacional, onde teve a seu cargo os espólios de Raul Brandão e de Vitorino Nemésio e Raul Proença. Organizou, prefaciou e anotou as obras António Sérgio – Correspondência para Raul Proença (1987). Traduziu obras de Albert Camus, André Malraux, Marguerite Duras e Julien Green, entre outros. Colaborou em vários jornais e revistas.

Um dia, lá por 84, escreveu-me uma carta a dizer que eu tinha copiado o título de um seu livro intitulado "Cantigas de mar e ar". O meu livrinho chamava-se "Cantigas de marear". Eslarecido o equívoco, trocámos mais uma ou duas cartas amáveis. Cruzámo-nos depois algures e trocámos um abraço de amizade que, infelizmente, não teve mais ocasião para se consolidar.

Gosoto muito do tom algo insubordinado de alguns dos seus poemas.

MEMÓRIA DE MINHA MÃE

Por que razão pensei que fosses
mulher fria hierática distante
igual aos teus antepassados de Covadonga
aos Celtas híbridos de Ibéricos
e que os teus cabelos muito jovens brancos
sinal fossem de tudo isso?

Por que razão sempre te amei tão pouco
quando amar-te era o meu mais fundo desejo
saber quando rias era verdade
como as rias da nossa Galiza
e os recifes abruptos da velha Astúrica?

Agora que estás longe longe demais
os teus olhos secos a tua pele com algumas sardas
o teu andar vagaroso mas vivo
agora que tudo isso é uma ideia um repouso
forçado num pequeno cemitério chamado Xiesteira

talvez comece a saber que não eras uma mulher fria
e que me amavas porventura muito
à tua hierática maneira.

José Carlos González

domingo, 3 de agosto de 2008

ROSA ALICE BRANCO (1950)




Rosa Alice Branco

Natural de Aveiro.Licenciada em farmácia pela Universidade do Porto. Licenciada e doutorada em Filosofia pela Universidade do Porto. Professora e investigadora universitária.

Poeta do amor e da intensidade. É preciso lê-la.

FLOR DE TINTA

O poema é o desenho desta letra
inclinada pelo rumor do vento
quando lhe peço abrigo
e vejo nele o espelho do meu corpo
repousando nos teus braços de ontem.

A tinta ainda não acabou de secar.
O cheiro fresco da página vira-se para a página seguinte
e a minha voz ouve-se melhor ao vento
quando conspiramos silêncio
a próxima letra
e a exactidão do seu desenho.

Agora há mimosas nas árvores
e lá em baixo o rio já não é como era
nem saberia sê-lo.
Esqueci como se bebe a água pela mão
ou como se bebe a mão
do rio.

Eu existia nessa transparência,
na flor espiritual e líquida
da tinta
que retoca no papel a sua vida.
Esta letra é o meu nome soletrado por ti,
o meu nome que ainda não está seco
e te olha nas acácias florindo em amarelo
no rigor do inverno.

Qualquer palavra tua me desenha
e assim começa qualquer coisa
que me estava destinada desde sempre.


Rosa Alice Branco

sábado, 2 de agosto de 2008

INÊS LOURENÇO (1942)




Inês Lourenço

Nasceu no Porto É licenciada em Línguas e Literaturas Modernas (Estudos Portugueses) pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Trabalhou nos CTT e no Ensino Secundário.

Participou em diversos eventos dedicados à Poesia, entre os quais se destaca: - La Poèsie Portugaise Après Pessoa, Bibliothéque Faidherbe, Paris, 2000; - Encontros com Poetas, Fundação Eugénio de Andrade, 2000; - Vozes e Olhares no Feminino, Porto 2001, Biblioteca Almeida Garrett, com Teolinda Gersão e Isabel Allegro de Magalhães, 2001; - 4º Encontro Internacional de Poetas, Coimbra, Biblioteca Joanina, 2001;

Coordenou e editou desde 1987, os magníficos CADERNOS DE POESIA –HÍFEN, com 13 números editados, na sua maioria temáticos, publicação de carácter inter-geracional, em que participam, com colaborações inéditas, grande parte dos poetas portugueses actuais, bem como poetas de outras línguas.

O trabalho poético de Inês Lourenço anda em torno do quotidiano. Pega num pormenor, num momento, num quase nada e acende-lhe o verso que o transforma numa luz maior.

RUA DE CAMÕES

A minha infância
cheira a soalho esfregado a piaçaba
aos chocolates do meu pai aos Domingos
à camisa de noite de flanela
da minha mãe


Ao fogão a carvão
à máquina a petróleo
ao zinco da bacia de banho


Soa a janelas de guilhotina
a desvendar meia rua
surgia sempre o telhado
sustentáculo da mansarda
obstáculo da perspectiva


Nele a chuva acontecia
aspergindo ocres mais vivos
empapando ervas esquecidas
cantando com as telhas liquidamente
percutindo folhetas e caleiras
criando manchas tão incoerentes nas paredes
de onde podia emergir qualquer objecto


E havia a Dona Laura
senhora distinta
e a sua criada Rosa
que ao nosso menor salto
lesta vinha avisar
que estavam lá em baixo
as pratas a abanar no guarda-louça


O caruncho repicava nas frinchas
alongava as pernas
a casa envelhecia


Na rua das traseiras havia um catavento
veloz nas turbulências de Inverno
e eu rejeitava da boneca
a imutável expressão


A minha mãe fazia-me as tranças
antes de ir para a escola
e dizia-me muitas vezes


Não olhes para os rapazes
que é feio.


Inês Lourenço

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

ANTÓNIO JOSÉ FORTE (1931-1988)



António José Forte


Nasceu na Póvoa de Santa Iria. Ligado ao movimento surrealista, integrou o chamado grupo do Café Gelo. Foi funcionário da Fundação Calouste Gulbenkian, onde, durante mais de 20 anos desempenhou as funções de Encarregado das Bibliotecas Itinerantes.

A sua poesia é tensa, intensa, subverte imagens, parte o vidro das palavras e faz-nos abanar e interrogar o mundo do quotidiano à nossa volta.

A sua obra está reunida em Uma Faca nos Dentes (Parceria A. M. Pereira), com prefácio de Herberto Helder. António José Forte faleceu em Lisboa no dia 15 de Dezembro de 1988.

LIBERTAÇÃO

Descerão por paredes sangrentas
e subirão do asfalto
ganindo com um prego na língua
com os pulsos atados às patas
sobre pulmões raivosos em barcos de esterco
e não olharão nem para baixo nem para o alto
mas para a frente
para o horizonte de fatias vermelhas
e para trás
para os afogados sem mar sem terra natal sem paisagens marinhas
cada um com um buraco em seu peito
esguichando palavras estridentes
descerão atravessando gargantas
e subirão pela espinha a golpes de jejum
descerão empurrando palavras
transportando-as ao pescoço como cintos de salvação
abrindo crateras nas cabeças queridas
e olhos nos olhos dos aflitos
subirão do asfalto
transparentes e feridos
com os olhos nas mãos
a cabeça no sangue
chegarão aos pares ligados pela boca
com um estandarte negro seguro nos dentes
e descerão sempre cada vez mais e cada vez mais alto
até chegarem á orla do inferno chorarem as últimas lágrimas e partirem de vez.


António José Forte

quinta-feira, 31 de julho de 2008

SAÚL DIAS (1902-1983)



Saúl Dias

Saúl Dias é o pseudónimo poético do Júlio Maria dos Reis Pereira, irmão de José Régio.

Viveu na cidade do Porto onde se licenciou em engenharia civil pela Faculdade de Engenharia. Colaborou em vários jornais e cultivou o desenho e a pintura. Existe uma relação muito próxima entre a sua produção poética e a sua actividade como artista plástico.

Como artista plástico colaborou frequentemente na revista "Presença".

Não será um poeta desconhecido mas é certamente um poeta atirado para o limbo dos descartáveis (honra seja feita à Editora Quasi que pelo livro de homenagem que publicou).

Às vezes sabe bem e limpa a alma conviver com essa simplicidade lírica que caracteriza tanto a sua pintura como a sua poesia.

TODOS OS DIAS

Todos os dias
nascem pequenas nuvens,
róseas umas,
aniladas outras,
nacaradas espumas…

Todos os dias
nascem rosas,
também róseas
ou cor de chá, ou veludo…

Todos os dias
nascem violetas,
as eleitas
dos pobres corações…

Todos os dias
nascem risos, canções…

Todos os dias
os pássaros acordam
nos seus ninhos de lãs…

Todos os dias
nascem novos dias,
nascem novas manhãs…

Saúl Dias