Estamos mais gordos mais magros
talvez mais denso
ou mais pesado o nosso olhar
temos pressa de ternura
angústias de vez em quando
e umas contas de telefone atrasadas
para pagar.
Temos falta de cabelo
três ou quatro cicatrizes
sofremos de inquietação.
Muitas vezes nos disseram
como é rápido o deslize
mesmo assim nunca deixámos
de dar corda ao coração.
Daqueles que já partiram
guardamos silêncio e nome
e uma improvável mistura
de amargura e rebeldia
nas palavras desordeiras
que dizem redizem cantam
relembrando dia a dia
como é feita de azinheiras
a capital da alegria.
Muitas ondas já morreram
outras tantas vão nascer
muitos rios já se cansaram de correr até á foz
águas claras que se foram
outras águas se turvaram
e agora restamos nós.
Somos muitos somos poucos
calmamente radicais
sabemos vozes antigas
trazemos a lua ao peito
amamos sempre demais.
Neste caminho tomado
fomos traídos trocados
vendidos ao deus dará.
Nem por isso desistimos
e assim nos vamos achando
perdidos de andar às voltas
nas voltas que a vida dá.
Somos uns bichos teimosos
peixes loucos aves rindo
plantas poetas palhaços
e portanto resumindo
somos mais do que nos querem
estamos vivos
somos lindos!
José Fanha
segunda-feira, 22 de setembro de 2008
sábado, 20 de setembro de 2008
QUANDO NÃO SOUBERES COPIA

A linha do horizonte faz uma curva perigosa e está fora de mão.
A linha do horizonte, afinal, é um embuste linear e um veículo mal conduzido.
Quem lhe deu toda esta grandeza esqueceu-se de que lhe
estava a dar todo o poder. Ouviste, Deus?, é contigo.
Ou será que te enganaste e não percebeste que o horizonte
não é para ver de cima? Já não é a primeira vez que te apanho em falso.
Repara nos homens.
Nas guerras.
Na fome.
Nos incêndios e nas cheias.
Queres pior?
Repara na mentira.
Queres um resumo? Repara em ti.
Já sei, já sei. Para estes casos tu não és nenhuma entidade
superior, tu és dentro de cada um de nós.
Mas a multa do horizonte fora de mão, pagas tu.
Fernando Tordo
sexta-feira, 19 de setembro de 2008
LIÇÕES DE MESTRES

Comecei a ler e logo fiquei apaixonado. Primeiro pelo delicioso prefácio do José Gomes Ferreira. Depois, pela viagem pelos primeiros anos do século na volta da monarquia para a república com maçons, republicanos, carbonários, polícias e padres, prisões e fugas. Um fartote. Finalmente, pelo prazer da prosa adornada, excessiva, colorida mas extraordinariamente saborosa de mestre Aquilino. Prosa de mastigar lentamente como o vinho forte. Prosa para leituras de outro tempo, um tempo em que alguns tinham tempo para ler.
Quando entrei para Belas-Artes nos finais dos anos 60, aprendi que havia os professores e havia os mestres. Os mestres eram homens de letras ou artes reconhecidos pela substância do seu ofício e pela dimensão ética e humana da sua figura.
Mestre Aquilino, mestre Almada Negreiros, mestre Abel Manta, mestre Sá Nogueira, mestre Lagoa Henriques, mestre Frederico George… Conheci pessoalmente ou fui aluno de alguns. Outros via-os passar e seguia-lhes os passos com o respeito e admiração.
Eram mestres. E essa ideia de mestria no oficio conferia-lhes uma condição excepcional no acto do ensino, fazendo com que também como professores fossem considerados mestres, homens que sabiam fazer, que conheciam por dentro as traves com que se cosia a arquitectura da sabedoria e que faziam convergir a sabedoria do fazer e a do reflectir sobre esse fazer.
Esta ideia de mestre estava intimamente ligada à ideia da dúvida como método, da questionação permanente, da excelência, conceito tão contrário ao de banalização dos saberes de pacotilha que reina no nosso ensino com as devidas e honrosas excepções.
Talvez já aqui tenha colocado esta afirmação de Georges Steiner. Seja como for, vale a pena repetir:
"Para se ser professor é preciso ser-se um dador, ser-se um pouco louco, é preciso estar-se nu e não ter vergonha da nudez.”
É assim que são os verdadeiros mestres. Um pouco loucos, nus perante o mundo e orgulhosos de tudo questionarem através dessa nudez.~
Cá para mim, um professor deve ser uma pessoa que esteja a arder de amor por cada palavra e pronto a ajudar os seus alunos a sair pela janela na rota das andorinhas.
quinta-feira, 18 de setembro de 2008
Lacoonte, rimas várias, andamentos graves

como a sentir a tua cara rente
como a sentir a tua cara rente
à minha e as tuas mãos nas minhas, ou
como se a dança amarguradamente
nos desse nesta noite ainda um slow
levado a medo, apenas a ternura
a conduzir de leve os nossos passos
e o corpo estremecendo-te à procura
do seu lugar na grade dos meus braços,
e a luz, fina película de vidros
por entre a frialdade de Janeiro,
a trespassar os corações partidos
estranhamente, e o meu sendo o primeiro,
como se não desse o que doía
na própria dor tingida de alegria.
Vasco Graça Moura
terça-feira, 16 de setembro de 2008
ANALOGIA E DEDOS

NOÉ
Pronto, pronto, eu faço. Dá um trabalhão
mas faço. Corto madeira, arranjo pregos,
gasto o martelo. E o pior também:
correr o mundo a recolher os bichos
coisas de nada como formigas magras,
e os outros, os grandes, os que mordem
e rugem. E sei lá quantos são!
Em que assados me pões. Tu
gastaste seis dias, e eu nunca mais acabo.
Andar por esse mundo, a pé enxuto ainda,
e escolher os melhores, os de melhor saúde,
que o mundo que tu queres não há-de nascer torto.
Um por um, e por uma, é claro, é aos pares
- o espaço que isso ocupa.
Mas não é ser carpinteiro,
não é ser caminheiro,
não é ser marinheiro o que mais me inquieta.
Nem é poder esquecer
a pulga, o ornitorrinco.
O que mais me inquieta, Senhor,
é não ter a certeza de não valer a pena
é partir já vencido para outro mundo igual.
Pedro Tamen
segunda-feira, 15 de setembro de 2008
ASAS
Começam hoje as aulas pelo país fora. Alguns professores vão ajudar meninos a ganhar asas. Outros vão apenas cumprir o programa e aceitar, bem comportadinhos, todas as palermices que os mandarem fazer. Tenho pena destes últimos porque nunca ganharão asas nem ajudarão ninguém a aprender a voar.
Aos primeiros envio um beijo, um abraço e este poema. Eles sabem, ou pelo desconfiam, que ensinar é um acto mágico que está para lá de todas as burocracias, um acto em que cresce o aluno e o mestre e em que ambos aprendem a soltar as asas.
ASAS
Nós nascemos para ter asas, meus amigos.
Não se esqueçam de escrever por dentro do peito: nós
nascemos para ter asas.
No entanto, em épocas remotas, vieram com dedos
pesados de ferrugem para gastar as nossas asas como
se gastam tostões.
Cortaram-nos as asas para que fôssemos apenas
operários obedientes, estudantes atenciosos, leitores ingénuos
de notícias sensacionais, gente pouca, pouca e seca.
Apesar disso, sábios, estudiosos do arco-íris e de coisas
transparentes, afirmam que as asas dos homens crescem
mesmo depois de cortadas, e, novamente cortadas,
de novo voltam a ser.
Aceitemos esta hipótese, apesar não termos dela
qualquer confirmação prática.
Por hoje é tudo. Abram as janelas. Podem sair.
José Fanha
Aos primeiros envio um beijo, um abraço e este poema. Eles sabem, ou pelo desconfiam, que ensinar é um acto mágico que está para lá de todas as burocracias, um acto em que cresce o aluno e o mestre e em que ambos aprendem a soltar as asas.
ASAS
Nós nascemos para ter asas, meus amigos.
Não se esqueçam de escrever por dentro do peito: nós
nascemos para ter asas.
No entanto, em épocas remotas, vieram com dedos
pesados de ferrugem para gastar as nossas asas como
se gastam tostões.
Cortaram-nos as asas para que fôssemos apenas
operários obedientes, estudantes atenciosos, leitores ingénuos
de notícias sensacionais, gente pouca, pouca e seca.
Apesar disso, sábios, estudiosos do arco-íris e de coisas
transparentes, afirmam que as asas dos homens crescem
mesmo depois de cortadas, e, novamente cortadas,
de novo voltam a ser.
Aceitemos esta hipótese, apesar não termos dela
qualquer confirmação prática.
Por hoje é tudo. Abram as janelas. Podem sair.
José Fanha
domingo, 14 de setembro de 2008
A MATÉRIA DO POEMA

POÉTICA
Quero que o meu poema fale de barcos e de azul, fale
do mar e do corpo que o procura, fale de pássaros e
do céu em que habitam. Quero um poema puro, limpo
do lixo das coisas banais, das contaminações de quem
só olha para o chão; um poema onde o sublime nos
toque, e o poético seja a palavra plena. É este poema
que escrevo na página branca com a parede que
acabou por ser caiada,com as suas imperfeições
apagadas pela luz do dia, e um reflexo de sol
a gritar pela vida. E quero que este poema desça
as caves onde a miséria se acumula, aos bancos onde
dormem os que não têm tecto nem esperança,
as mesas sujas dos restos da madrugada, às
esquinas onde a mulher da noite espera o último
cliente, ao desespero dos que não sabem para onde
fugir quando a morte lhes bate à porta. E canto
a beleza que sobrevive ás frases comuns, às
palavras sujas pelo quotidiano dos medíocres,
aos versos deslavados de quem nunca ouviu
o grito do anjo. E digo isto para que fique, no
poema, como a pedra esculpida por um fogo divino.
Nuno Júdice
sexta-feira, 12 de setembro de 2008
A CRIANÇA EM RUÍNAS

na hora de pôr a mesa, éramos cinco:
o meu pai, a minha mãe, as minhas irmãs
e eu. depois, a minha irmã mais velha
casou-se. depois, a minha irmã mais nova
casou-se. depois, o meu pai morreu. hoje,
na hora de pôr a mesa, somos cinco,
menos a minha irmã mais velha que está
na casa dela, menos a minha irmã mais
nova que está na casa dela, menos o meu
pai, menos a minha mãe viúva. cada um
deles é um lugar vazio nesta mesa onde
como sozinho. Mas irão estar sempre aqui.
na hora de pôr a mesa, seremos sempre cinco.
enquanto um de nós estiver vivo, seremos
sempre cinco.
José Luís Peixoto
quarta-feira, 10 de setembro de 2008
LISBOAS

PRAÇA DAS FLORES
Foi na Praça das Flores que eu perdi o meu império,
numa tarde morna e com um gato preto
a tirar medidas ao desastre.
Que pracinha bela, quando se tem amantes, dinheiro
e um pouco de melancolia verde
e leviana.
Durante muito tempo fui um colono
dos seus arrabaldes.
Escrevia por conta e portava-me mal com quem queria
pagar-me a autoridade das palavras.
Mas sempre era um império dos sentidos.
De dia a praça não havia, só havia o príncipe
real com a sua cuidada freguesia
de paus-santos e artes da restauração.
Eu vivia num império de frases, sem noite,
como sempre quiseram que fossem os impérios,
talvez para que rutilem mais as fardas
que os sabem defender.
Mas nessa tarde, depois de uma decadência arrastada
e muito inglesa, lembrei-me de chorar,
pois não havia mais lugar para tanto súbdito
oculto nos sentimentos banais
do território.
A Praça das Flores com o seu jardim minúsculo
e as suas grades cobertas de alegria mansa
era o melhor pedestal para a minha estátua deposta
já passava das três e até tinha chovido.
Como se fosse agora, lembrava-me do gato preto
e da minha perda de poderes absolutos.
Nunca ouvi dizer que o choro fosse a melhor arma da revolta,
mas houve uma batalha.
Sentia o corpo dividido em dois países,
a lutar com as mesmas munições.
E eu fui por mim de mim
destituído.
Sereníssima praça sem ruídos nem desassossegos,
área campal de soluços que outrora
eu bebi como se fossem balas:
vim hoje visitar-te.
Sem armas nem bagagens,
sento-me num banco evidentemente velho
e sem governo.
E devagar, ao longe, com a mesma negra
medida do destino,
eu vejo aproximar-se novamente
o gato.
Armando Silva Carvalho
segunda-feira, 8 de setembro de 2008
O LIVRO BRANCO DA MELANCOLIA

QUANDO EU FOR PEQUENO
Quando eu for pequeno, mãe,
quero ouvir de novo a tua voz
na campânula de som dos meus dias
inquietos, apressados, fustigados pelo medo.
Subirás comigo as ruas íngremes
com a ceteza dócil de que só o empedrado
e o cansaço da subida
me entregarão ao sossego do sono.
Quando eu for pequeno, mãe,
os teus olhos voltarão a ver
nem que seja o fio do destino
desenhado por uma estrela cadente
no cetim azul das tardes
sobre a baía dos veleiros imaginados.
Quando eu for pequeno, mãe,
nenhum de nós falará da morte,
a não ser para confirmarmos
que ela só vem quando a chamamos
e que os animais fazem um círculo
para sabermos de antemão que vai chegar.
Quando eu for pequeno, mãe,
trarei as papoilas e os búzios
para a tua mesa de tricotar encontros,
e então ficaremos debaixo de um alpendre
a ouvir uma banda a tocar
enquanto o pai ao longe nos acena
com um lenço branco com as iniciais bordadas
anunciando que vai voltar porque eu sou pequeno
e a orfandade até nos olhos deixa marcas.
José Jorge Letria
sábado, 6 de setembro de 2008
O CANTO DO VENTO NOS CIPRESTES

Mãe, eu quero ir-me embora – a vida não é nada
daquilo que disseste quando os meus seios começaram
a crescer. O amor foi tão parco, a solidão tão grande,
murcharam tão depressa as rosas que me deram –
se é que me deram flores, já não tenho a certeza, mas tu
deves lembrar-te porque disseste que isso ia acontecer.
Mãe, eu quero ir-me embora - os meus sonhos estão
cheios de pedras e de terra; e, quando fecho os olhos,
só vejo uns olhos parados no meu rosto e nada mais
que a escuridão por cima. Ainda por cima, matei todos
os sonhos que tiveste para mim – tenho a casa vazia,
deitei-me com mais homens do que aqueles que amei
e o que amei de verdade nunca acordou comigo.
Mãe, eu quero ir-me embora – nenhum sorriso abre
caminho no meu rosto e os beijos azedam na minha boca.
Tu sabes que não gosto de deixar-te sozinha, mas desta vez
não chames pelo meu nome, não me peças que fique –
as lágrimas impedem-me de caminhar e eu tenho de ir-me
embora, tu sabes, a tinta com que escrevo é o sangue
de uma ferida que se foi encostando ao meu peito como
uma cama se afeiçoa a um corpo que vai vendo crescer.
Mãe, eu vou-me embora – esperei a vida inteira por quem
nunca me amou e perdi tudo, até o medo de morrer. A esta
hora as ruas estão desertas e as janelas convidam à viagem.
Para ficar, bastava-me uma voz que me chamasse, mas
essa voz, tu sabes, não é a tua – a última canção sobre
o meu corpo já foi há muito tempo e desde então os dias
foram sempre tão compridos, e o amor tão parco, e a solidão
tão grande, e as rosas que disseste que um dia chegariam
virão já amanhã, mas desta vez, tu sabes, não as verei murchar.
Maria do Rosário Pedreira
quinta-feira, 4 de setembro de 2008
SENHORA DAS TEMPESTADES

QUARTO POEMA DO PESCADOR
Sei agora que Deus rola nas ondas
vem na última onda ei-lo na espuma
é reflexo brilho incandescência.
Se vou à pesca é para o procurar
se lanço a linha é para ver se o pesco
quando pesco um robalo eu pesco Deus
e é com ele que falo em frente ao mar
ele é seixo a alga o vento leste
a nuvem que lentamente cobre a lua
ele é a minha dispersão e a minha comunhão
o fragmento de estrela que se vê ainda
a tainha que salta
ele é o grão de areia e a imensidão da noite
o finito e o infinito
vai na corrente corre-me no sangue
não sei que nome dar-lhe
digo Deus
ele é o laço que me prende e me desprende
o que palpita em mim e o que em mim morre
vem na sétima onda e bate no meu pulso
ele é o aqui o agora o nunca mais
a morte que está dentro
rola na onda
bate na sétima costela do meu corpo
chamo-lhe Deus porque ele é o tudo e é o nada
eternidade que não dura sequer o eu dizê-la
ei-lo na espuma na lua no reflexo
de repente um esticão a cana curva-se
é talvez um robalo de seis quilos
isto é a pesca
o meu falar com Deus ou com ninguém
sozinho frente ao mar.
Ele é o vento a noite a solidão
O robalo que luta contra a morte
E é a minha ligação magnética com Deus
Esse umbigo do mundo
Que rola sobre as ondas e cai do firmamento
Com sua espuma e sua luz e sua noite
Chamo-lhe Deus porque não sei como chamar
Ao meu ser e não ser
De noite junto ao mar
Quando regulo a amostra e sua fluorescência
Pescando robalos
Ou talvez Deus
E sua ausência.
Manuel Alegre
LIVROS INDISPENSÁVEIS
Depois dos “Poetas Fora de Moda” pareceu-me interessante assinalar alguns dos livros que, quanto a mim, marcam fortemente a minha forma de ver e amar a poesia portuguesa.
São livros que leio repetidamente, verdadeiras luzes que julgo virão a assinalar no futuro o que de melhor se tem escrito neste período que vai do final de um século aos primeiros anos de outro século.
São por certo grandes momentos do ofício, do talento e da inspiração dos poetas.
Não pretendo que sejam os únicos. São a minha escolha. São os que julgo que deviam estar na mesa de cabeceira de todos aqueles para quem a poesia é indispensável para se encontrarem e se perderem, para se questionarem, para respirarem nessa língua que é o melhor da arte de ser português.
São livros que leio repetidamente, verdadeiras luzes que julgo virão a assinalar no futuro o que de melhor se tem escrito neste período que vai do final de um século aos primeiros anos de outro século.
São por certo grandes momentos do ofício, do talento e da inspiração dos poetas.
Não pretendo que sejam os únicos. São a minha escolha. São os que julgo que deviam estar na mesa de cabeceira de todos aqueles para quem a poesia é indispensável para se encontrarem e se perderem, para se questionarem, para respirarem nessa língua que é o melhor da arte de ser português.
domingo, 31 de agosto de 2008
JOSÉ CARLOS ARY DOS SANTOS (1937 - 1984)

José Carlos Ary dos Santos
Esive ao lado dele em muitas ocasiões. Em convívios universitários antes do 25 de Abeil, em muitas sessões e comemorações pelo país em tempos de revolução e pós-revolução.
Devo-lhe palavras muito caras de estímulo e amizade.
Como toda a gente fui tocado pelas suas boutades de enfant terrible, mas também pela força da sua presença e pela música dos seus versos.
Terei sempre um cravo junto à memória comovida que guardo do homem, do amigo e do poeta.
OS CÃES DA INFÂNCIA
São os cães da infância os cães dementes
ladrando-me às canelas do passado
cães mordendo-me a vida com os dentes
ferrados no meu sexo atormentado.
Paguei cada minuto do presente
com vergões de amor próprio vergastado
porém só fala quem se não consente
vencido temeroso ou amarrado.
Contra os cães uivo. Não me fico assim.
Não tenho pai nem mãe. Nasci de mim
macho e fêmea gerando o desespero.
Lutar é tudo quanto sou capaz.
Não me pari para viver em paz.
Tudo o que sou é menos do que eu quero.
José Carlos Ary dos Santos
ladrando-me às canelas do passado
cães mordendo-me a vida com os dentes
ferrados no meu sexo atormentado.
Paguei cada minuto do presente
com vergões de amor próprio vergastado
porém só fala quem se não consente
vencido temeroso ou amarrado.
Contra os cães uivo. Não me fico assim.
Não tenho pai nem mãe. Nasci de mim
macho e fêmea gerando o desespero.
Lutar é tudo quanto sou capaz.
Não me pari para viver em paz.
Tudo o que sou é menos do que eu quero.
José Carlos Ary dos Santos
A POESIA PORTUGUESA DO SÉC. XX
A Poesia portuguesa do séc. XX tem uma riqueza e uma variedade impressionantes. A quantidade de grandes poetas é extraordinária. Basta lembrar os primeiríssimos, Pessoa, Pascoaes, Florbela, Régio, Gedeão, Torga, Nemésio, Sena, Sophia, Eugénio, Natália, David, O´Neill, Cesariny, Herberto, Pedro Tamen, Ruy Belo, Fiama, Fernando Assis Pacheco, Manuel Alegre, LUísa Neto Jorge, Vasco Graça Moura… Podia ainda juntar Sá-Carneiro, Almada Negreiros, José Gomes Ferreira, Botto, Ruy Cinatti, Manuel da Fonseca, Natércia Freire, Reinaldo Ferreira, Sebastião da Gama,António Maria Lisboa, Ana Hatterly, Teresa Horta, Fernando Assis Pacheco, Gastão Cruz, Armando Silva Carvalho, Manuel Aberto Pina, Nuno Júdice, Joaquim Pessoa, Al Berto.
Publiquei aqui 36 poetas pouco conhecidos e pouco visitados mesmo pelos que gostam de poesia. Com uma excepção (Manuel Cintra) fiquei pelos que nasceram na primeira metade do século (ou ainda em finais do século XIX). Poderia acrescentar mais uns 20 ou 30. Fora os mais novos, nascidos na segunda metade do séc. XX.
Alguns desses poetas terão escrito um poema deslumbrante e só por isso merecem a nossa admiração. Outros só publicaram um livro. Uns passaram pela vida brevemente ou em bicos de pés e a sua obra é póstuma. Outros tiveram muito sucesso num tempo e num determinado meio e depois foram completamente esquecidos.
Infelizmente não temos publicações de poesia que divulguem esta riqueza da nossa cultura. Infelizmente também já desapareceram aqueles que eram leitores especialmente apaixonados por poesia e que faziam da sua arte de ler uma luz que nos iluminava e ajudava a separar o trigo do joio. Estou a falar de João Gaspar Simões, David Mourão-Ferreira, Eugénio Lisboa (que ainda temos o prazer de ler de vez em quando) e poucos mais.
Fiquei muito satisfeito por ter aberto estas portas a quem por elas soube entrar. Agradeço do fundo do coração aos que, com os seus posts, fizeram com que uma ideia de trazer à baila meia dúzia de poetas pouco conhecidos, acabasse por me levar à quase obrigação de fazer um trabalho mais extenso.
Um blog é, ou pode ser, um espaço de convívio e partilha e só faz sentido pela convergência de vozes, às vezes mínimas, mas sempre generosas e amigas.
Agradeço profundamente aos posts (falharei muitos muitos nomes por certo) Licínia, Júlio Pego, Paulinha Caçadora de Emoções, Margarida Graça, Samuel, Rita Carrapato, Maria, Mariam, Eufrázio Filipe, Lena, Tiago Carvalho… Tantos mais.
Termino esta série com aquele que é o mais amado dos poetas fora de moda. O mais popular, o mais cantado, declamado e copiado de todos: o José Carlos Ary dos Santos. E se digo que ele foi e é um poeta fora de moda, quero falar das modas literárias, das “bem pensâncias”, daqueles que julgam que a poesia se suja quando desce à rua, que me menoriza quando assume causas, que se banaliza quando quer oferecer a sua música e as suas palavras àqueles que mais precisam delas.
Mas também quero dizer que o justificado amor de muitas pessoas pelo mais fácil e público do trabalho poético do Zé Carlos, acabou por deixar na obscuridade a sua poesia mais pessoal, mais torturada e, muitas vezes, mais elaborada. É essa poesia que quero lembrar aqui e deixar sinal de uma grande saudade por um homem cuja arte e coragem fazem muita falta a todos nós e à literatura portuguesa.
Publiquei aqui 36 poetas pouco conhecidos e pouco visitados mesmo pelos que gostam de poesia. Com uma excepção (Manuel Cintra) fiquei pelos que nasceram na primeira metade do século (ou ainda em finais do século XIX). Poderia acrescentar mais uns 20 ou 30. Fora os mais novos, nascidos na segunda metade do séc. XX.
Alguns desses poetas terão escrito um poema deslumbrante e só por isso merecem a nossa admiração. Outros só publicaram um livro. Uns passaram pela vida brevemente ou em bicos de pés e a sua obra é póstuma. Outros tiveram muito sucesso num tempo e num determinado meio e depois foram completamente esquecidos.
Infelizmente não temos publicações de poesia que divulguem esta riqueza da nossa cultura. Infelizmente também já desapareceram aqueles que eram leitores especialmente apaixonados por poesia e que faziam da sua arte de ler uma luz que nos iluminava e ajudava a separar o trigo do joio. Estou a falar de João Gaspar Simões, David Mourão-Ferreira, Eugénio Lisboa (que ainda temos o prazer de ler de vez em quando) e poucos mais.
Fiquei muito satisfeito por ter aberto estas portas a quem por elas soube entrar. Agradeço do fundo do coração aos que, com os seus posts, fizeram com que uma ideia de trazer à baila meia dúzia de poetas pouco conhecidos, acabasse por me levar à quase obrigação de fazer um trabalho mais extenso.
Um blog é, ou pode ser, um espaço de convívio e partilha e só faz sentido pela convergência de vozes, às vezes mínimas, mas sempre generosas e amigas.
Agradeço profundamente aos posts (falharei muitos muitos nomes por certo) Licínia, Júlio Pego, Paulinha Caçadora de Emoções, Margarida Graça, Samuel, Rita Carrapato, Maria, Mariam, Eufrázio Filipe, Lena, Tiago Carvalho… Tantos mais.
Termino esta série com aquele que é o mais amado dos poetas fora de moda. O mais popular, o mais cantado, declamado e copiado de todos: o José Carlos Ary dos Santos. E se digo que ele foi e é um poeta fora de moda, quero falar das modas literárias, das “bem pensâncias”, daqueles que julgam que a poesia se suja quando desce à rua, que me menoriza quando assume causas, que se banaliza quando quer oferecer a sua música e as suas palavras àqueles que mais precisam delas.
Mas também quero dizer que o justificado amor de muitas pessoas pelo mais fácil e público do trabalho poético do Zé Carlos, acabou por deixar na obscuridade a sua poesia mais pessoal, mais torturada e, muitas vezes, mais elaborada. É essa poesia que quero lembrar aqui e deixar sinal de uma grande saudade por um homem cuja arte e coragem fazem muita falta a todos nós e à literatura portuguesa.
quarta-feira, 27 de agosto de 2008
MARIA JUDITE DE CARVALHO (1921-1988)
As portas que batem
As portas que batem
nas casas que esperam.
Os olhos que passam
sem verem quem está.
O talvez um dia
Aos que desesperam.
O seguir em frente.
O não se me dá.
O fechar os olhos
a quem nos olhou.
O não querer ouvir
quem nos quer dizer.
O não reparar
que nada ficou.
Seguir sempre em frente
E nem perceber.
Maria Judite de Carvalho
nas casas que esperam.
Os olhos que passam
sem verem quem está.
O talvez um dia
Aos que desesperam.
O seguir em frente.
O não se me dá.
O fechar os olhos
a quem nos olhou.
O não querer ouvir
quem nos quer dizer.
O não reparar
que nada ficou.
Seguir sempre em frente
E nem perceber.
Maria Judite de Carvalho
segunda-feira, 25 de agosto de 2008
POLÍBIO GOMES DOS SANTOS (1911-1939)
VITORINO NEMÉSIO - À MEMÓRIA DE POLÍBIO GOMES DOS SANTOS
O poeta que morreu entrou agora,
Não se sabe bem onde, mas entrou,
Todo coberto de demora,
No bocado de noite em que ficou.
As ervas lhe desenham
Seu espaço devido:
Depressa, venham
Lê-lo no chão os que o não tinham lido
Que o sorriso que o veste
Já galga como um potro
As coisas tenebrosas,
E esquecido – só outro:
Este
Nem precisa de rosas.
Vitorino Nemésio
Não se sabe bem onde, mas entrou,
Todo coberto de demora,
No bocado de noite em que ficou.
As ervas lhe desenham
Seu espaço devido:
Depressa, venham
Lê-lo no chão os que o não tinham lido
Que o sorriso que o veste
Já galga como um potro
As coisas tenebrosas,
E esquecido – só outro:
Este
Nem precisa de rosas.
Vitorino Nemésio
POEMA DA VOZ QUE ESCUTA
Chamam-me lá em baixo.
São as coisas que não puderam decorar-me:
As que ficaram a mirar-me longamente
E não acreditaram;
As que sem coração, no relâmpago do grito,
Não puderam colher-me.
Chamam-me lá em baixo,
Quase ao nível do mar, quase à beira do mar,
Onde a multidão formiga
Sem saber nadar.
Chamam-me lá em baixo
Onde tudo é vigoroso e opaco pelo dia adiante
E transparente e desgraçado e vil
Quando a noite vem, criança distraída,
Que debilmente apaga os traços brancos
Deste quadro negro – a Vida.
Chamam-me lá em baixo:
Voz de coisas, voz de luta.
É uma voz que estala e mansamente cala
E me escuta.
Políbio Gomes dos Santos
São as coisas que não puderam decorar-me:
As que ficaram a mirar-me longamente
E não acreditaram;
As que sem coração, no relâmpago do grito,
Não puderam colher-me.
Chamam-me lá em baixo,
Quase ao nível do mar, quase à beira do mar,
Onde a multidão formiga
Sem saber nadar.
Chamam-me lá em baixo
Onde tudo é vigoroso e opaco pelo dia adiante
E transparente e desgraçado e vil
Quando a noite vem, criança distraída,
Que debilmente apaga os traços brancos
Deste quadro negro – a Vida.
Chamam-me lá em baixo:
Voz de coisas, voz de luta.
É uma voz que estala e mansamente cala
E me escuta.
Políbio Gomes dos Santos
sábado, 23 de agosto de 2008
CABRAL DO NASCIMENTO (1897-1978)
CANÇÃO
O lenço com que me acena
Tudo o que está para trás,
É coisa já tão pequena
Que me faz chorar a pena
E rir de espanto me faz.
Vejo-o ao longe, a se perder,
A se apagar, a sumir,
Mas não sei, a bem-dizer,
Se ele é que vai a morrer,
Se eu é que vou a fugir.
E o lenço, com que a distância
Me diz adeus lá do seio
Do mar, rasga abismos de ânsia
Entre mim e a minha infância,
Sem deixar nada no meio.
Cabral do Nascimento
Tudo o que está para trás,
É coisa já tão pequena
Que me faz chorar a pena
E rir de espanto me faz.
Vejo-o ao longe, a se perder,
A se apagar, a sumir,
Mas não sei, a bem-dizer,
Se ele é que vai a morrer,
Se eu é que vou a fugir.
E o lenço, com que a distância
Me diz adeus lá do seio
Do mar, rasga abismos de ânsia
Entre mim e a minha infância,
Sem deixar nada no meio.
Cabral do Nascimento
quinta-feira, 21 de agosto de 2008
JOÃO APOLINÁRIO (1924-1988)

Joãio Apolinário
Nasceu em Belas. Poeta, advogado e jornalista.
Foi para a França como correspondente da Agência Logos onde viveu os terríveis últimos tempos da Segunda Guerra Mundial
De regresso a Portugal foi co-fundador do Teatro Experimental do Porto. Anti-fascista, preso, acaba por procurar o exílio no Brasil em 1963. Com a ditadura dos coroneis volta a ser perseguido no país de adopção.
Em Portugal é quase desconhecido embora alguns dos seus poemas tenham sido musicados pelo filho, o músico João Ricardo, fundador do grupo "Secos & Molhados" onde também começou a sua carreira Ney Matogrosso.
CARROCEL
O meu circo imaginário
com palhaços de papel
piruetas e brinquedos
viagens no carrocel
girando sempre ao contrário
quando dava corda nele
O meu circo imaginário
feito de pano e cordel
e mil pequenos segredos
(fantasias de papel)
ficando sempre ao contrário
do sonho que eu punha nele
O meu circo imaginário
e o meu belo corcel
cavalgando nos meus dedos
(fantasias de cordel)
sempre fazendo o contrário
daquilo que eu queria dele
O meu circo imaginário
meu brinquedo de papel
de magias e bruxedos
(fantasias de cordel)
da infância ao contrário
que vivi para sempre nele
João Apolinário
com palhaços de papel
piruetas e brinquedos
viagens no carrocel
girando sempre ao contrário
quando dava corda nele
O meu circo imaginário
feito de pano e cordel
e mil pequenos segredos
(fantasias de papel)
ficando sempre ao contrário
do sonho que eu punha nele
O meu circo imaginário
e o meu belo corcel
cavalgando nos meus dedos
(fantasias de cordel)
sempre fazendo o contrário
daquilo que eu queria dele
O meu circo imaginário
meu brinquedo de papel
de magias e bruxedos
(fantasias de cordel)
da infância ao contrário
que vivi para sempre nele
João Apolinário
segunda-feira, 18 de agosto de 2008
HENRIQUE RISQUES PEREIRA (1930)

Henrique Risques Pereira
Nasceu em Lisboa em 1930. Aproxima-se dos surrealistas e participa em 1949 nas suas actividades.
Desaparecido das actividades artísticas e literárias, fez-se há pouco uma exposição da sua obra plástica na Fundação Cupertino de Miranda e a edição de toda a sua obra poética sob o título de "Transparência do Tempo", organizada por Perfecto E. Cuadrado, especialista na história do surrealismo português.
É curioso como o carácter efémero que era atribuído à própria obra por muitos dos que circularam à volta do Movimento Surrealista Português nos traga, ao abrir dos baús, algumas belissímas surpresas como é o caso deste poeta.
PAI
com a saudade do teu filho
Pai do menino do triciclo ingénuo
Pai do menino doente
Pai amigo dos meus amigos
Pai avô
Pai conselho refúgio e amparo
Pai já não há sol amanhã
Pai que frio ficou neste mundo
Adeus Pai
para sempre
Pai ficou o céu mais vazio
nem uma nuvem nesta imensidão
Pai que frio
Henrique Risques Pereira
Pai do menino do triciclo ingénuo
Pai do menino doente
Pai amigo dos meus amigos
Pai avô
Pai conselho refúgio e amparo
Pai já não há sol amanhã
Pai que frio ficou neste mundo
Adeus Pai
para sempre
Pai ficou o céu mais vazio
nem uma nuvem nesta imensidão
Pai que frio
Henrique Risques Pereira
sábado, 9 de agosto de 2008
FERNANDO LEMOS (1926)

Fernando Lemos
“Fui estudante, serralheiro, marceneiro, estofador, impressor de litografia, desenhador, publicitário, professor, pintor, fotógrafo, tocador de gaita, emigrante, exilado, director de museu, assessor de ministros, pesquisador, jornalista, poeta, júri de concursos, conselheiro de pinacotecas, comissário de eventos internacionais, designer de feiras industriais, cenógrafo, pai de filhos, bolseiro, e tenho duas pátrias, uma que me fez e outra que ajudo a fazer. Como se vê, sou mais um português à procura de coisa melhor. “
Fernando Lemos nasceu em Lisboa, em 1926. Actualmente, reside em São Paulo, no Brasil. Frequentou a Escola de Artes Decorativas António Arroio e o curso livre da Sociedade Nacional de Belas-Artes.
Com um percurso profissional ligado às artes gráficas e à publicidade, Fernando Lemos circula por muitos territórios da arte ao longo do seu percurso. A sua obra multifacetada estende-se ao domínio da pintura, do desenho, da ilustração e à fotografia, campo que alcançou maior visibilidade pública nos últimos anos.
A ligação de Lemos à fotografia tem lugar na passagem da década de 40 para a de 50, no período em que desenvolve a sua actividade artística junto do Grupo Surrealista de Lisboa.
Em 1952, não obstante a qualidade do seu trabalho fotográfico, Fernando Lemos abandona a fotografia. No ano seguinte, emigra para o Brasil, tendo aí prosseguido a sua produção no domínio do design gráfico, do desenho e da pintura, e realizado diversas exposições individuais e colectivas.
A sua poesia iconoclasta e surrealizante dá notícia de uma admirável voz livre e encantadoramente selvagem.
HINO TRISTE SEM MELODIA
Uma tarde no Museu das Janelas Verdes
Lisboa 1975
Nós heróis do mar eis
nobre povo sempre as naus
na frente dos reis.
Primeiro a moldura depois
a pintura após o retrato
a epopeia depois do relato.
Às armas...Às armas...
Nuno Gonçalves primitivo
educado colectivo passaporte
nobre povo mas mísera sorte.
Onde pousaram às pressas
retornados não idos sentados
nos projectos
como se já fossem
esmaecidos abandonados.
Almada imortal plantel
Negreiros atrás da tábua
que no painel falta
para justificar a malta.
Levantai hoje de novo
todo o esplendor de Portugal
galinha após o ovo já que
primeiro Colombo depois
Cabral.
Azar mas...Azar mas...
pela pátria lutar.
Depois da casa roubada
as portas trancar.
Somar os séculos de Império
e Salazar pelos dedos 48 anos
detrito familiar.
Contar os trajectos
navegar navegar voltar
após vinhetas de sangue
fazer o mosteiro
capacho de choro milenar.
Chamar Nuno Gonçalves para pintar
Almada para reconstituir
murais para a nação destilar.
Quem vê caras não vê brasões
daí os retratos
e as condecorações.
É assim somos assim meu irmão
primeiro vítima depois
o Dom de Sebastião.
Para nós a Humanidade
é uma lotaria.
Fomos grandes por fora
colonos do riso sem alegria.
Primeiro a República
avental da Monarquia depois
maçónica a Ditadura
com selvajaria cheia de Peros
de Vazes de Escrivaninha.
Camões que precisou
naufragar para o original
dos Lusíadas na tormenta editar.
Nação sem dúvida valente e imortal
na emigrância per capita
fundamentar.
Azar mas...Azar mas...
unha por cunha coisa por loisa
casamento por procuração depois
por Brasil a noiva.
Fernando Pessoa que foi Ser
português voltou
para conferir a língua desolado
fiscal do produto viciado.
25 de Abril
apoteose de revista
todos os bons restantes
com os maus de antes
sem pontos de vista.
agora sem medo enredo
sem uma história prevista.
Agora o fado espanta
nosso retiro e desespero
talvez nos paguem a conta
ou só irónico o tempero.
Talvez se aprenda o ovo
depois da galinha depois do óbvio
da adivinha.
Levantai hoje de novo
o esplendor da galinha
o imortal povo
ovo pai da rainha.
Mas primeiro país depois
Portugal.
Pobreza em pó orgulho
pre-conceito generoso
e desfeito.
Viva meu irmão do coração
azar mas...às armas...
pela pátria lutar depois
sem mar
só com chão Recomeçar!
Fernando Lemos
Lisboa 1975
Nós heróis do mar eis
nobre povo sempre as naus
na frente dos reis.
Primeiro a moldura depois
a pintura após o retrato
a epopeia depois do relato.
Às armas...Às armas...
Nuno Gonçalves primitivo
educado colectivo passaporte
nobre povo mas mísera sorte.
Onde pousaram às pressas
retornados não idos sentados
nos projectos
como se já fossem
esmaecidos abandonados.
Almada imortal plantel
Negreiros atrás da tábua
que no painel falta
para justificar a malta.
Levantai hoje de novo
todo o esplendor de Portugal
galinha após o ovo já que
primeiro Colombo depois
Cabral.
Azar mas...Azar mas...
pela pátria lutar.
Depois da casa roubada
as portas trancar.
Somar os séculos de Império
e Salazar pelos dedos 48 anos
detrito familiar.
Contar os trajectos
navegar navegar voltar
após vinhetas de sangue
fazer o mosteiro
capacho de choro milenar.
Chamar Nuno Gonçalves para pintar
Almada para reconstituir
murais para a nação destilar.
Quem vê caras não vê brasões
daí os retratos
e as condecorações.
É assim somos assim meu irmão
primeiro vítima depois
o Dom de Sebastião.
Para nós a Humanidade
é uma lotaria.
Fomos grandes por fora
colonos do riso sem alegria.
Primeiro a República
avental da Monarquia depois
maçónica a Ditadura
com selvajaria cheia de Peros
de Vazes de Escrivaninha.
Camões que precisou
naufragar para o original
dos Lusíadas na tormenta editar.
Nação sem dúvida valente e imortal
na emigrância per capita
fundamentar.
Azar mas...Azar mas...
unha por cunha coisa por loisa
casamento por procuração depois
por Brasil a noiva.
Fernando Pessoa que foi Ser
português voltou
para conferir a língua desolado
fiscal do produto viciado.
25 de Abril
apoteose de revista
todos os bons restantes
com os maus de antes
sem pontos de vista.
agora sem medo enredo
sem uma história prevista.
Agora o fado espanta
nosso retiro e desespero
talvez nos paguem a conta
ou só irónico o tempero.
Talvez se aprenda o ovo
depois da galinha depois do óbvio
da adivinha.
Levantai hoje de novo
o esplendor da galinha
o imortal povo
ovo pai da rainha.
Mas primeiro país depois
Portugal.
Pobreza em pó orgulho
pre-conceito generoso
e desfeito.
Viva meu irmão do coração
azar mas...às armas...
pela pátria lutar depois
sem mar
só com chão Recomeçar!
Fernando Lemos
quinta-feira, 7 de agosto de 2008
RUI KNOPFLI (1932-1997)

Rui Knopfli
Nasceu em Inhambane, Moçambique e fez os seus estudos na África do Sul..
Entre 1958 e 1974 foi delegado de propaganda médica. Publicou o primeiro livro, O País dos Outros, em 1959. Foi director do jornal A Tribuna entre Maio de 1974 e Fevereiro de 1975. Co-dirigiu, com Eugénio Lisboa, os suplementos literários desse jornal e do A Voz de Moçambique. Lançou, com João Pedro Grabato Dias, os cadernos de poesia Caliban (1971-72), que reuniram colaboradores como Jorge de Sena, Herberto Helder, António Ramos Rosa, Fernando Assis Pacheco, José Craveirinha, Sebastião Alba, etc. Dirigiu o caderno Letras & Artes (1972-75), da revista Tempo, ali tendo publicado traduções de inúmeros poetas. Deixou Moçambique em Março de 1975, onde voltaria uma única vez - em Outubro de 1989.
Deixou Moçambique em 1975, mantendo nacionalidade portuguesa com alma assumidamente africana. Fez parte de uma geração de moçambicanos espalhados pelo mundo, que incluiu os poetas Alberto de Lacerda, Helder Macedo e Virgílio de Lemos, o cineasta Ruy Guerra, os filósofos Fernando Gil e José Gil, o arquitecto Pancho Miranda Guedes, o fotógrafo Pepe Diniz, a pintora Bertina Lopes e o ensaísta Eugénio Lisboa. Radicou-se em Londres em 1975. Aí exerceu, durante vinte e dois anos consecutivos, o cargo de conselheiro de imprensa (1975-97) junto da Embaixada de Portugal. Em 1984 recebeu o prémio de poesia do PEN Clube. Faleceu em Lisboa no ano de 1997.
Sempre me comoveram pessoas que nasceram em pátrias de cujas raízes físicas se perdem, por vezes, para sempre. O poema que abaixo publico fala disso mesmo. O que é a pátria? O que era a pátria para um português cujo território estava noutro continente?
PÁTRIA
Um caminho de areia solta conduzindo a parte
nenhuma. As árvores chamavam-se casuarina,
eucalipto, chanfuta. Plácidos os rios também
tinham nomes por que era costume designá-los.
Tal como as aves que sobrevoavam rente o matagal
e a floresta rumo ao azul ou ao verde mais denso
e misterioso, habitado por deuses e duendes
de uma mitologia que não vem nos tomos e tratados
que a tais coisas é costume consagrar-se. Depois,
com valados, elevações e planuras, e mais rios
entrecortando a savana, e árvores e caminhos,
aldeias, vilas e cidades com homens dentro,
a paisagem estendia-se a perder de vista
até ao capricho de uma linha imaginária. A isso
chamávamos pátria. Por vezes, de algum recesso
obscuro, erguia-se um canto bárbaro e dolente,
o cristal súbito de uma gargalhada, um soluço
indizível, a lasciva surdina de corpos enlaçados.
Ou tambores de paz simulando guerra. Esta
não se terá feito anunciar por tal forma
remota e convencional. Mas o sangue adubou
a terra, estremeceu o coração das árvores
e, meus irmãos, meus inimigos morriam. Uma
só e várias línguas eram faladas e a isso,
por estranho que pareça, também chamávamos pátria.
Rui Knopfli
nenhuma. As árvores chamavam-se casuarina,
eucalipto, chanfuta. Plácidos os rios também
tinham nomes por que era costume designá-los.
Tal como as aves que sobrevoavam rente o matagal
e a floresta rumo ao azul ou ao verde mais denso
e misterioso, habitado por deuses e duendes
de uma mitologia que não vem nos tomos e tratados
que a tais coisas é costume consagrar-se. Depois,
com valados, elevações e planuras, e mais rios
entrecortando a savana, e árvores e caminhos,
aldeias, vilas e cidades com homens dentro,
a paisagem estendia-se a perder de vista
até ao capricho de uma linha imaginária. A isso
chamávamos pátria. Por vezes, de algum recesso
obscuro, erguia-se um canto bárbaro e dolente,
o cristal súbito de uma gargalhada, um soluço
indizível, a lasciva surdina de corpos enlaçados.
Ou tambores de paz simulando guerra. Esta
não se terá feito anunciar por tal forma
remota e convencional. Mas o sangue adubou
a terra, estremeceu o coração das árvores
e, meus irmãos, meus inimigos morriam. Uma
só e várias línguas eram faladas e a isso,
por estranho que pareça, também chamávamos pátria.
Rui Knopfli
terça-feira, 5 de agosto de 2008
JOSÉ CARLOS GONZÁLEZ (1937-2000)

José Carlos González
Filho de pais galegos imigrados, nasceu em Lisboa e viveu vários anos exilado em Paris, regressando em 1974. Morreu em Kerlaz, na Bretanha, seu local de residência após a aposentação.
Poeta, de origem galega, de raiz surrealista, e nunca fazendo "tábua rasa" dessa experiência, como nos explica João Rui de Sousa, "o seu discurso foi sendo contaminado pela alusão aos factos comuns do dia a dia, com predomínio notório do flash citadino".
Estudou Direito em Lisboa e Românicas e Ciências Políticas na Sorbonne em Paris. Escritor e tradutor, foi técnico da Biblioteca Nacional, onde teve a seu cargo os espólios de Raul Brandão e de Vitorino Nemésio e Raul Proença. Organizou, prefaciou e anotou as obras António Sérgio – Correspondência para Raul Proença (1987). Traduziu obras de Albert Camus, André Malraux, Marguerite Duras e Julien Green, entre outros. Colaborou em vários jornais e revistas.
Um dia, lá por 84, escreveu-me uma carta a dizer que eu tinha copiado o título de um seu livro intitulado "Cantigas de mar e ar". O meu livrinho chamava-se "Cantigas de marear". Eslarecido o equívoco, trocámos mais uma ou duas cartas amáveis. Cruzámo-nos depois algures e trocámos um abraço de amizade que, infelizmente, não teve mais ocasião para se consolidar.
Gosoto muito do tom algo insubordinado de alguns dos seus poemas.
MEMÓRIA DE MINHA MÃE
Por que razão pensei que fosses
mulher fria hierática distante
igual aos teus antepassados de Covadonga
aos Celtas híbridos de Ibéricos
e que os teus cabelos muito jovens brancos
sinal fossem de tudo isso?
Por que razão sempre te amei tão pouco
quando amar-te era o meu mais fundo desejo
saber quando rias era verdade
como as rias da nossa Galiza
e os recifes abruptos da velha Astúrica?
Agora que estás longe longe demais
os teus olhos secos a tua pele com algumas sardas
o teu andar vagaroso mas vivo
agora que tudo isso é uma ideia um repouso
forçado num pequeno cemitério chamado Xiesteira
talvez comece a saber que não eras uma mulher fria
e que me amavas porventura muito
à tua hierática maneira.
José Carlos González
mulher fria hierática distante
igual aos teus antepassados de Covadonga
aos Celtas híbridos de Ibéricos
e que os teus cabelos muito jovens brancos
sinal fossem de tudo isso?
Por que razão sempre te amei tão pouco
quando amar-te era o meu mais fundo desejo
saber quando rias era verdade
como as rias da nossa Galiza
e os recifes abruptos da velha Astúrica?
Agora que estás longe longe demais
os teus olhos secos a tua pele com algumas sardas
o teu andar vagaroso mas vivo
agora que tudo isso é uma ideia um repouso
forçado num pequeno cemitério chamado Xiesteira
talvez comece a saber que não eras uma mulher fria
e que me amavas porventura muito
à tua hierática maneira.
José Carlos González
domingo, 3 de agosto de 2008
ROSA ALICE BRANCO (1950)
FLOR DE TINTA
O poema é o desenho desta letra
inclinada pelo rumor do vento
quando lhe peço abrigo
e vejo nele o espelho do meu corpo
repousando nos teus braços de ontem.
A tinta ainda não acabou de secar.
O cheiro fresco da página vira-se para a página seguinte
e a minha voz ouve-se melhor ao vento
quando conspiramos silêncio
a próxima letra
e a exactidão do seu desenho.
Agora há mimosas nas árvores
e lá em baixo o rio já não é como era
nem saberia sê-lo.
Esqueci como se bebe a água pela mão
ou como se bebe a mão
do rio.
Eu existia nessa transparência,
na flor espiritual e líquida
da tinta
que retoca no papel a sua vida.
Esta letra é o meu nome soletrado por ti,
o meu nome que ainda não está seco
e te olha nas acácias florindo em amarelo
no rigor do inverno.
Qualquer palavra tua me desenha
e assim começa qualquer coisa
que me estava destinada desde sempre.
Rosa Alice Branco
inclinada pelo rumor do vento
quando lhe peço abrigo
e vejo nele o espelho do meu corpo
repousando nos teus braços de ontem.
A tinta ainda não acabou de secar.
O cheiro fresco da página vira-se para a página seguinte
e a minha voz ouve-se melhor ao vento
quando conspiramos silêncio
a próxima letra
e a exactidão do seu desenho.
Agora há mimosas nas árvores
e lá em baixo o rio já não é como era
nem saberia sê-lo.
Esqueci como se bebe a água pela mão
ou como se bebe a mão
do rio.
Eu existia nessa transparência,
na flor espiritual e líquida
da tinta
que retoca no papel a sua vida.
Esta letra é o meu nome soletrado por ti,
o meu nome que ainda não está seco
e te olha nas acácias florindo em amarelo
no rigor do inverno.
Qualquer palavra tua me desenha
e assim começa qualquer coisa
que me estava destinada desde sempre.
Rosa Alice Branco
sábado, 2 de agosto de 2008
INÊS LOURENÇO (1942)

Inês Lourenço
Nasceu no Porto É licenciada em Línguas e Literaturas Modernas (Estudos Portugueses) pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Trabalhou nos CTT e no Ensino Secundário.
Participou em diversos eventos dedicados à Poesia, entre os quais se destaca: - La Poèsie Portugaise Après Pessoa, Bibliothéque Faidherbe, Paris, 2000; - Encontros com Poetas, Fundação Eugénio de Andrade, 2000; - Vozes e Olhares no Feminino, Porto 2001, Biblioteca Almeida Garrett, com Teolinda Gersão e Isabel Allegro de Magalhães, 2001; - 4º Encontro Internacional de Poetas, Coimbra, Biblioteca Joanina, 2001;
Coordenou e editou desde 1987, os magníficos CADERNOS DE POESIA –HÍFEN, com 13 números editados, na sua maioria temáticos, publicação de carácter inter-geracional, em que participam, com colaborações inéditas, grande parte dos poetas portugueses actuais, bem como poetas de outras línguas.
O trabalho poético de Inês Lourenço anda em torno do quotidiano. Pega num pormenor, num momento, num quase nada e acende-lhe o verso que o transforma numa luz maior.
RUA DE CAMÕES
A minha infância
cheira a soalho esfregado a piaçaba
aos chocolates do meu pai aos Domingos
à camisa de noite de flanela
da minha mãe
Ao fogão a carvão
à máquina a petróleo
ao zinco da bacia de banho
Soa a janelas de guilhotina
a desvendar meia rua
surgia sempre o telhado
sustentáculo da mansarda
obstáculo da perspectiva
Nele a chuva acontecia
aspergindo ocres mais vivos
empapando ervas esquecidas
cantando com as telhas liquidamente
percutindo folhetas e caleiras
criando manchas tão incoerentes nas paredes
de onde podia emergir qualquer objecto
E havia a Dona Laura
senhora distinta
e a sua criada Rosa
que ao nosso menor salto
lesta vinha avisar
que estavam lá em baixo
as pratas a abanar no guarda-louça
O caruncho repicava nas frinchas
alongava as pernas
a casa envelhecia
Na rua das traseiras havia um catavento
veloz nas turbulências de Inverno
e eu rejeitava da boneca
a imutável expressão
A minha mãe fazia-me as tranças
antes de ir para a escola
e dizia-me muitas vezes
Não olhes para os rapazes
que é feio.
Inês Lourenço
cheira a soalho esfregado a piaçaba
aos chocolates do meu pai aos Domingos
à camisa de noite de flanela
da minha mãe
Ao fogão a carvão
à máquina a petróleo
ao zinco da bacia de banho
Soa a janelas de guilhotina
a desvendar meia rua
surgia sempre o telhado
sustentáculo da mansarda
obstáculo da perspectiva
Nele a chuva acontecia
aspergindo ocres mais vivos
empapando ervas esquecidas
cantando com as telhas liquidamente
percutindo folhetas e caleiras
criando manchas tão incoerentes nas paredes
de onde podia emergir qualquer objecto
E havia a Dona Laura
senhora distinta
e a sua criada Rosa
que ao nosso menor salto
lesta vinha avisar
que estavam lá em baixo
as pratas a abanar no guarda-louça
O caruncho repicava nas frinchas
alongava as pernas
a casa envelhecia
Na rua das traseiras havia um catavento
veloz nas turbulências de Inverno
e eu rejeitava da boneca
a imutável expressão
A minha mãe fazia-me as tranças
antes de ir para a escola
e dizia-me muitas vezes
Não olhes para os rapazes
que é feio.
Inês Lourenço
sexta-feira, 1 de agosto de 2008
ANTÓNIO JOSÉ FORTE (1931-1988)

António José Forte
Nasceu na Póvoa de Santa Iria. Ligado ao movimento surrealista, integrou o chamado grupo do Café Gelo. Foi funcionário da Fundação Calouste Gulbenkian, onde, durante mais de 20 anos desempenhou as funções de Encarregado das Bibliotecas Itinerantes.
A sua poesia é tensa, intensa, subverte imagens, parte o vidro das palavras e faz-nos abanar e interrogar o mundo do quotidiano à nossa volta.
A sua obra está reunida em Uma Faca nos Dentes (Parceria A. M. Pereira), com prefácio de Herberto Helder. António José Forte faleceu em Lisboa no dia 15 de Dezembro de 1988.
LIBERTAÇÃO
Descerão por paredes sangrentas
e subirão do asfalto
ganindo com um prego na língua
com os pulsos atados às patas
sobre pulmões raivosos em barcos de esterco
e não olharão nem para baixo nem para o alto
mas para a frente
para o horizonte de fatias vermelhas
e para trás
para os afogados sem mar sem terra natal sem paisagens marinhas
cada um com um buraco em seu peito
esguichando palavras estridentes
descerão atravessando gargantas
e subirão pela espinha a golpes de jejum
descerão empurrando palavras
transportando-as ao pescoço como cintos de salvação
abrindo crateras nas cabeças queridas
e olhos nos olhos dos aflitos
subirão do asfalto
transparentes e feridos
com os olhos nas mãos
a cabeça no sangue
chegarão aos pares ligados pela boca
com um estandarte negro seguro nos dentes
e descerão sempre cada vez mais e cada vez mais alto
até chegarem á orla do inferno chorarem as últimas lágrimas e partirem de vez.
António José Forte
e subirão do asfalto
ganindo com um prego na língua
com os pulsos atados às patas
sobre pulmões raivosos em barcos de esterco
e não olharão nem para baixo nem para o alto
mas para a frente
para o horizonte de fatias vermelhas
e para trás
para os afogados sem mar sem terra natal sem paisagens marinhas
cada um com um buraco em seu peito
esguichando palavras estridentes
descerão atravessando gargantas
e subirão pela espinha a golpes de jejum
descerão empurrando palavras
transportando-as ao pescoço como cintos de salvação
abrindo crateras nas cabeças queridas
e olhos nos olhos dos aflitos
subirão do asfalto
transparentes e feridos
com os olhos nas mãos
a cabeça no sangue
chegarão aos pares ligados pela boca
com um estandarte negro seguro nos dentes
e descerão sempre cada vez mais e cada vez mais alto
até chegarem á orla do inferno chorarem as últimas lágrimas e partirem de vez.
António José Forte
quinta-feira, 31 de julho de 2008
SAÚL DIAS (1902-1983)

Saúl Dias
Saúl Dias é o pseudónimo poético do Júlio Maria dos Reis Pereira, irmão de José Régio.
Viveu na cidade do Porto onde se licenciou em engenharia civil pela Faculdade de Engenharia. Colaborou em vários jornais e cultivou o desenho e a pintura. Existe uma relação muito próxima entre a sua produção poética e a sua actividade como artista plástico.
Como artista plástico colaborou frequentemente na revista "Presença".
Não será um poeta desconhecido mas é certamente um poeta atirado para o limbo dos descartáveis (honra seja feita à Editora Quasi que pelo livro de homenagem que publicou).
Às vezes sabe bem e limpa a alma conviver com essa simplicidade lírica que caracteriza tanto a sua pintura como a sua poesia.
TODOS OS DIAS
Todos os dias
nascem pequenas nuvens,
róseas umas,
aniladas outras,
nacaradas espumas…
Todos os dias
nascem rosas,
também róseas
ou cor de chá, ou veludo…
Todos os dias
nascem violetas,
as eleitas
dos pobres corações…
Todos os dias
nascem risos, canções…
Todos os dias
os pássaros acordam
nos seus ninhos de lãs…
Todos os dias
nascem novos dias,
nascem novas manhãs…
Saúl Dias
nascem pequenas nuvens,
róseas umas,
aniladas outras,
nacaradas espumas…
Todos os dias
nascem rosas,
também róseas
ou cor de chá, ou veludo…
Todos os dias
nascem violetas,
as eleitas
dos pobres corações…
Todos os dias
nascem risos, canções…
Todos os dias
os pássaros acordam
nos seus ninhos de lãs…
Todos os dias
nascem novos dias,
nascem novas manhãs…
Saúl Dias
quarta-feira, 30 de julho de 2008
MANUEL ALBERTO VALENTE (1945)

Manuel Alberto Valente
Nasceu em Vila Nova de Gaia, licenciou-se em Direito pela Universidade de Lisboa e foi jornalista na revista Vida Mundial.
Começou a trabalhar na edição no final dos anos 60, na Inova. Tem corrido diversas editoras, nomeadamente a D. Quixote e a Asa, onde tem contribuido para a edição em Portugal de algumas das mais importantes obras da literatura mundial bem como para a divulgação de alguns dos mais destacados escriores portugueses.
É actualmente director da Divisão Editorial de Lisboa da Porto Editora.
Recentemente foi nomeado Cavaleiro da Ordem das Artes e das Letras pelo governo francês.
O Manuel, amigo de encontros esparsos, não gosta especialmente de relembrar o seu trabalho poético que parou pelos anos 70.
Eu gosto muito deste poema que publico abaixo e que foi editado em 1970.
LADAÍNHA PARA O TEU ADORMECER
um velho muito velho a sonhar com a Soraya
um padre muito padre a dizer que é ateu
um prédio quase novo que se espera que caia
uma homenagem póstuma a alguém que não morreu
uma canária virgem que abandonou o ninho
uma fonte com água quase a morrer de sede
a dez tostões esticadores p’ró colarinho
um ginasta atrevido que trabalha sem rede
uma pomada mágica do próximo oriente
um macaco sem rabo que foi de foguetão
um bébé sem cabelo a chorar por um pente
uma tia doente a arder no fogão
uma cautela em branco na roda de amanhã
um nariz muito sujo sem ter onde se assoe
um ramo de camélias a estrelar na sertã
e que deus nosso senhor vos abençoe
Manuel Alberto Valente
um padre muito padre a dizer que é ateu
um prédio quase novo que se espera que caia
uma homenagem póstuma a alguém que não morreu
uma canária virgem que abandonou o ninho
uma fonte com água quase a morrer de sede
a dez tostões esticadores p’ró colarinho
um ginasta atrevido que trabalha sem rede
uma pomada mágica do próximo oriente
um macaco sem rabo que foi de foguetão
um bébé sem cabelo a chorar por um pente
uma tia doente a arder no fogão
uma cautela em branco na roda de amanhã
um nariz muito sujo sem ter onde se assoe
um ramo de camélias a estrelar na sertã
e que deus nosso senhor vos abençoe
Manuel Alberto Valente
terça-feira, 29 de julho de 2008
EDGAR CARNEIRO (1913)

Edgar Carneiro
Licenciado em Ciências Histórico-Filosóficas pela Universidade de Coimbra. Foi professor em Chaves, Lisboa, Porto, Vila Real, Fiães e Espinho, cidade onde vive desde 1967
.
Fez parte do Orfeão Académico de Coimbra e foi um dos fundadores do TEP - Teatro Experimental do Porto.
É pai do poeta, já falecido, Eduardo Guerra Carneiro.
Poeta claro, conciso e musical que vale muito a pena conhecer. Não é fácil encontrar os seus livros, a não ser o último, "Depois de amanhã", publicado pela Campo das letras.
Às vezes trocamos algumas palavras por escrito. previlégio meu. A sua amével verticalidade está tão presente nas cartas como nos versos.
ROTEIRO
De mar a mar e sempre
Ao sabor da maré
Até chegar feliz
À praia, ao porto, à ilha,
Ao alegre país
Da maravilha,
Ao longínquo sertão,
A qualquer céu possível
Ou local
Onde o Sol nos dê o pão
E o amor lhe ponha o sal.
Edgar Carneiro
Ao sabor da maré
Até chegar feliz
À praia, ao porto, à ilha,
Ao alegre país
Da maravilha,
Ao longínquo sertão,
A qualquer céu possível
Ou local
Onde o Sol nos dê o pão
E o amor lhe ponha o sal.
Edgar Carneiro
segunda-feira, 28 de julho de 2008
EDUARDO GUERRA CARNEIRO (1942-2004)

Eduardo Guerra Carneiro
Nascido em Chaves, foi escritor e jornalista. Trabalhou ou colaborou em jornais tão diversos como o Diário Popular, Século, Se7e, Portugal Hoje, Match Magazine, O Primeiro de Janeiro, ABC, Europeu ou Tempo, e em diversos programas de rádio.
Foi homem da noite e da boémia serena, de conversa demorada e sem destino, vivendo sempre à margem dos sistemas.
Cruzámo-nos bastas vezes. Gostávamos de ficar à palheta. Falámos ao telefone pouco tempo antes de se cansar disto e sair pela janela com inveja dos pássaros.
Os seus livros, «Isto Anda Tudo Ligado», «Contra a Corrente», ou «Dama de Copas», todos publicados pela "&ETC" merecem ser lidos e bem mastigados.
FRAGMENTOS DE UMA ELEGIA – 1
Descansa, borboleta branca,
em minhas mãos abertas e retoma
o teu breve voar de um só dia.
Vens da noite misteriosa, espírito
de outro corpo. Que luz
de súbito se faz nesta loucura?
Melancolia, talvez, morte
chorada. Lanço-te ao vento.
Para que o fogo não volte
a queimar-te as asas.
A medo, terror mesmo, horas passadas,
olho-te tombada nesta sala.
Regressaste aqui, para morrer.
Mas à vida te devolvo. Voa, borboleta!
Eduardo Guerra Carneiro
em minhas mãos abertas e retoma
o teu breve voar de um só dia.
Vens da noite misteriosa, espírito
de outro corpo. Que luz
de súbito se faz nesta loucura?
Melancolia, talvez, morte
chorada. Lanço-te ao vento.
Para que o fogo não volte
a queimar-te as asas.
A medo, terror mesmo, horas passadas,
olho-te tombada nesta sala.
Regressaste aqui, para morrer.
Mas à vida te devolvo. Voa, borboleta!
Eduardo Guerra Carneiro
domingo, 27 de julho de 2008
EDMUNDO DE BETTENCOURT (1899-1973)

EDMUNDO DE BETTENCOURT
Nasceu no Funchal e foi em 1927 um dos fundadores da revista literária Presença
Foi a música e o fado de Coimbra que o popularizaram, de tal modo que mesmo gerações posteriores o aclamaram; José Afonso, cujo pai fora contemporâneo de Bettencourt, considerava-o o "maior cantor de fados de todos os tempos".
Parece hoje claro que, para a qualidade artística de Edmundo Bettencourt, muito contribuiu o facto de ter sido acompanhado à guitarra por Artur Paredes.
Manuel Alegre reconhece que Bettencourt constitui uma "grande figura do fado de Coimbra ao lado de Artur Paredes"; que "trouxe algumas das mais belas canções populares e um lirismo mais forte". E acrescenta: "Lembro-me que os cantores da minha geração queriam todos cantar como Bettencourt, uma oitava acima".
Rui Pato, outro dos notáveis do fado de Coimbra, recorda Bettencourt como "o primeiro grande inovador"; "o percursor da linha que foi depois seguida por Zeca Afonso, ao introduzir no fado temas dos Açores, da Beira Baixa, de várias regiões". E "é também um poeta, um progressista que rompeu com a tradição seguida nos anos 20/30"; "aprendi a gostar de Bettencourt com José Afonso, que, aliás, lhe dedicou um dos seus discos de fado de Coimbra".
Segundo Herberto Helder, "Cabe a Bettencourt a honra de ser uma das pouquissimas vozes modernas entre o milagre do 'Orfeu' e o breve momento surrealista português".
ADEUS
- Quando aqui estou, estou no Céu!
Ela dizia.
E eu ficava melancólico a pensar
como seria
aquele céu, tão simples,
aonde não chegava
o meu sonho mais alto de alegria!
Como seria?
Nesse tempo de tão calmo
sem um começo nem um fim,
seus belos olhos tristes,
quando olhavam para mim
fugiam logo.
Que envergonhados e descidos,
eram bem um adeus
lá do remoto paraíso
cuja plena felicidade
miravam, adormecidos...
Como eu seguia ausente
e cada vez mais distante
da vida,
até chegar subtilmente
ao instante
em que já era um véu de morte
a presença daquela despedida!
O ar então,
pelo terraço,
fechava-se doirado, como num salão,
e ela adormecia...
Dum recanto do Azul
um raio de luz descia
até à luz do seu sorriso
ainda de donzela.
Atraídas,
chegavam borboletas,
coloridas,
que tombavam tontas e inocentes
por sobre ela.
E numa janela
que ali se desenhava,
que breve se fechava
sem rumor,
vinha por fim roçar a asa
um corvo branco anunciador!
Ela dormia a sono solto,
sob a minha vigília,
que para Ela, a enamorada,
seria
a vigília temerosa do seu Deus.
Dormia,
os olhos bem cerrados
no mais cerrado adeus.
E a sua boca de morta-viva,
saudosa das palavras sonhadoras,
sorria sempre, sorria.
- Quando aqui estou, estou no Céu!
Era agora o sorriso que dizia...
Edmundo Bettencourt
Ela dizia.
E eu ficava melancólico a pensar
como seria
aquele céu, tão simples,
aonde não chegava
o meu sonho mais alto de alegria!
Como seria?
Nesse tempo de tão calmo
sem um começo nem um fim,
seus belos olhos tristes,
quando olhavam para mim
fugiam logo.
Que envergonhados e descidos,
eram bem um adeus
lá do remoto paraíso
cuja plena felicidade
miravam, adormecidos...
Como eu seguia ausente
e cada vez mais distante
da vida,
até chegar subtilmente
ao instante
em que já era um véu de morte
a presença daquela despedida!
O ar então,
pelo terraço,
fechava-se doirado, como num salão,
e ela adormecia...
Dum recanto do Azul
um raio de luz descia
até à luz do seu sorriso
ainda de donzela.
Atraídas,
chegavam borboletas,
coloridas,
que tombavam tontas e inocentes
por sobre ela.
E numa janela
que ali se desenhava,
que breve se fechava
sem rumor,
vinha por fim roçar a asa
um corvo branco anunciador!
Ela dormia a sono solto,
sob a minha vigília,
que para Ela, a enamorada,
seria
a vigília temerosa do seu Deus.
Dormia,
os olhos bem cerrados
no mais cerrado adeus.
E a sua boca de morta-viva,
saudosa das palavras sonhadoras,
sorria sempre, sorria.
- Quando aqui estou, estou no Céu!
Era agora o sorriso que dizia...
Edmundo Bettencourt
sábado, 26 de julho de 2008
ANTÓNIO FEIJÓ (1859-1917)

António Feijó
Nasceu em Ponte de Lima e morreu em Estocolmo, 20 de Junho de 1917)
Formou-se em Direito na Universidade de Coimbra e tornou-e diplomata.
Como poeta é habitualmente ligado ao Parnasianismo.
O poema de António Feijó que publico em baixo, à semelhança de alguma poesia de António Nobre, é de um lirismo excessivo, quase pingão, mas resiste na linha limite que separa a chorqaminquice supostamente poética da verdadeira emoção das grandes obras.
PÁLIDA E LOIRA
Morreu. Deitada no caixão estreito,
Pálida e loira, muito loira e fria,
O seu lábio tristíssimo sorria
Como num sonho virginal desfeito.
- Lírio que murcha ao despontar do dia,
Foi descansar no derradeiro leito,
As mãos de neve erguidas sobre o peito,
Pálida e loira, muito loira e fria...
Tinha a cor da rainha das baladas
E das monjas antigas maceradas,
No pequenino esquife em que dormia...
Levou-a a morte na sua graça adunca!
E eu nunca mais pude esquecê-la,nunca!
Pálida e loira, muito loira e fria...
António Feijó
Pálida e loira, muito loira e fria,
O seu lábio tristíssimo sorria
Como num sonho virginal desfeito.
- Lírio que murcha ao despontar do dia,
Foi descansar no derradeiro leito,
As mãos de neve erguidas sobre o peito,
Pálida e loira, muito loira e fria...
Tinha a cor da rainha das baladas
E das monjas antigas maceradas,
No pequenino esquife em que dormia...
Levou-a a morte na sua graça adunca!
E eu nunca mais pude esquecê-la,nunca!
Pálida e loira, muito loira e fria...
António Feijó
quinta-feira, 24 de julho de 2008
YVETTE K. CENTENO (1940)

Yvette K. Centeno
De família de origem germano-polaca, Yvette K. Centeno licenciou-se em Filologia Germânica pela Faculdade de Letras de Lisboa em 1963, tendo começado a leccionar como assistente na mesma faculdade no ano seguinte. Em 1974, passa a leccionar na Universidade Nova de Lisboa, onde é actualmente professora catedrática na área de Literatura Comparada e Coordenadora do Departamento de Estudos Alemãe da Universidade Nova de Lisboa.
Fundou e dirige o Gabinete de Estudos de Simbologia, assim como um núcleo de estudos Teatro e Sociedade.
Foi co-fundadora do CITAC, um dos mais importantes grupos de teatro universitário, de Coimbra.
Tem desempenhado cargos como consultora e comissária em várias iniciativas governamentais e de âmbito cultural.
A incursão nos domínios do simbólico constitui um campo especial do seu trabalho de investigação.
Na obra ensaística, destacam-se as várias obras sobre aspectos da vida e da poesia de Fernando Pessoa.
É autora de traduções para português de obras de, entre outros, Stendhal, Goethe, Shakespeare, Brecht, Celan e René Char.
É Chevalier dans l'Ordre des Palmes Académiques por decreto do Primeiro-ministro Francês (1997) e foi condecorada com a Verdienstkreuz 1. Klasse, atribuída pelo Presidente da República Federal da Alemanha (1994).
É uma poeta que sabe bem ler e reler.
MULHER
MULHER
quando o ventre é o mar
quando o ventre é a água
salgada
numa boca
quando o ventre é a fonte
quando o ventre é a forca
Yvette K. Centeno
quando o ventre é o mar
quando o ventre é a água
salgada
numa boca
quando o ventre é a fonte
quando o ventre é a forca
Yvette K. Centeno
quarta-feira, 23 de julho de 2008
CARLOS EURICO DA COSTA (1928-1998)

Carlos Eurico da Costa
Carlos Eurico da Costa nasceu em Viana do Castelo. Foi, com Mário Cesariny, António Maria Lisboa e Cruzeiro Seixas, fundador do Grupo Surrealista português, tendo participado, como artista plástico, na Primeira Exposição dos Surrealistas com um conjunto de desenhos intitulado Grafoautografia. Dentre as actividades a que se dedicou, contam-se a poesia, a tradução, o jornalismo, a crítica cinematográfica, a edição, as relações públicas e a publicidade. Tem colaboração dispersa por diversas revistas, nomeadamente Árvore (1951-1953), Seara Nova, A Serpente (1951) e Colóquio/Letras. Foi presidente da Associação Portuguesa de Escritores.
"A cidade de Palaguin", que aqui vem por baixo é dos poemas que sempre me tocaram pela força, pela raiva, pelo disparar do vidro das imagens em todas as direcções.
Conheci brevemente o Carlos Eurico da Costa num almoço com a comum amiga Maria velho da Costa. Fiquei com pena de não me ter cruzado mais com ele. Fica a poesia para lhe conhecer a asa.
A CIDADE DE PALAGUIN
Na cidade de Palagüin
o dinheiro corrente eram olhos de crianças.
Em todas as ruas havia um bordel
e uma multidão de prostitutas
frequentava aos grupos casas de chá.
Havia dramas e histórias de era uma vez
havia hospitais repletos:
o pus escorria da pora para as valetas.
Havia janelas nunca abertas
e prisões descomunais sem portas.
Havia gente de bem a vagabundear
com a barba crescida.
Havia cães enormes e famélicos
a devorar mortos insepultos e voantes.
Havia três agências funerárias
em todos os locais de turismo da cidade.
Havia gente a beber sofregamente
a água dos esgotos e das poças.
Havia um corpo de bombeiros
que lançava nas chamas gasolina.
Na cidade de Palagüin
havia crianças sem braços e desnudas
brincando em parques de pântanos e abismos.
Havia ardinas a anunciar
a falência do jornal que vendiam;
havia cinemas: o preço de entrada
era o sexo de um adolescente
(as mães cortavam o sexo dos filhos
para verem cinema).
Havia um trust bem organizado
Para a exploração do homossexualismo.
Havia leiteiros que ao alvorecer
distribuíam sangue quente ao domicíio.
Havia pobres a aceitar como esmola
Sacos de ouro de trezentos e dois quilos.
E havia ricos pelos passeios
implorando misericórdia e chicotadas.
Na cidade de Palagüin
havia bêbados emborcando ácidos
retorcendo-se em espasmos na valeta.
Havia gatos sedentos
a sugar leite nos seios das virgens.
Havia uma banda de música
que dava concertos com metralhadoras;
havia velhas suicidas
que se lançavam das paredes para o meio da multidão.
Havia balneários públicos
Com duches de vitríolo – quente e frio
- a população banhava-se frequentes vezes.
Na cidade de Palagüin
havia Havia HAVIA ...
Três vezes nove um milhão.
Carlos Eurico da Costa
o dinheiro corrente eram olhos de crianças.
Em todas as ruas havia um bordel
e uma multidão de prostitutas
frequentava aos grupos casas de chá.
Havia dramas e histórias de era uma vez
havia hospitais repletos:
o pus escorria da pora para as valetas.
Havia janelas nunca abertas
e prisões descomunais sem portas.
Havia gente de bem a vagabundear
com a barba crescida.
Havia cães enormes e famélicos
a devorar mortos insepultos e voantes.
Havia três agências funerárias
em todos os locais de turismo da cidade.
Havia gente a beber sofregamente
a água dos esgotos e das poças.
Havia um corpo de bombeiros
que lançava nas chamas gasolina.
Na cidade de Palagüin
havia crianças sem braços e desnudas
brincando em parques de pântanos e abismos.
Havia ardinas a anunciar
a falência do jornal que vendiam;
havia cinemas: o preço de entrada
era o sexo de um adolescente
(as mães cortavam o sexo dos filhos
para verem cinema).
Havia um trust bem organizado
Para a exploração do homossexualismo.
Havia leiteiros que ao alvorecer
distribuíam sangue quente ao domicíio.
Havia pobres a aceitar como esmola
Sacos de ouro de trezentos e dois quilos.
E havia ricos pelos passeios
implorando misericórdia e chicotadas.
Na cidade de Palagüin
havia bêbados emborcando ácidos
retorcendo-se em espasmos na valeta.
Havia gatos sedentos
a sugar leite nos seios das virgens.
Havia uma banda de música
que dava concertos com metralhadoras;
havia velhas suicidas
que se lançavam das paredes para o meio da multidão.
Havia balneários públicos
Com duches de vitríolo – quente e frio
- a população banhava-se frequentes vezes.
Na cidade de Palagüin
havia Havia HAVIA ...
Três vezes nove um milhão.
Carlos Eurico da Costa
terça-feira, 22 de julho de 2008
FERNANDA BOTELHO (1926-2007)

Fernanda Botelho
Nasceu no Porto, em 1926, filha de uma família aristocrática com um sentido de austeridade com o qual iria romper.
Quis entrar em Direito, mas tal foi-lhe proibido pela mãe, que conseguiu levá-la a um "curso de mulheres", em Coimbra. Depois de ter iniciado os estudos, considerou que o meio coimbrão era demasiado conservador e muda-se para Lisboa.
"Quando cheguei a Lisboa, à estação do Rossio, parecia que tinha chegado ao paraíso", diz Fernanda Botelho. Os testemunhos de autores como António Manuel Couto Viana ou Urbano Tavares Rodrigues contam o percurso da escritora e explicam a influência de David Mourão-Ferreira, que se tornou um "mentor espiritual".
Apesar de se ter estreado como poetisa na revista literária Távola Redonda, Fernanda Botelho quis dedicar-se à prosa, lançando a sua carreira com O Enigma das Sete Alíneas, em 1956, mas é no Lourenço é nome de Jogral, de 1971, que a própria confessa haver uma forte nota autobiográfica. O seu último livro, Os Gritos da Minha Dança, foi editado em 2003.
QUOTIDIANO
Sou eu. Sabes quem sou?
Não, não digas nada.
Sei apenas que estou
Acabrunhada.
E se inclino o rosto,
Se pareço uma pirâmide truncada
com sobrecasaca de frio,
é porque não gosto
de puxar o fio
à meada.
(Escadas escuras
subidas dia a dia.
Pernas cansadas
e solas gastas.
Harmonias acabadas
num gesto torvo.
Tremenda nostalgia
de iluminações vastas
e de calçado novo).
Pernas cansadas? Sim.
Magras? Talvez.
Aqui, onde me vês,
já fui assim
… roliça,
como bocejo na hora da preguiça…
Aqui, onde me vês,
não é a mim que me vês.
É a magricela
que sobe aquela
escada de sonhos desiguais
que me constrangem.
- E ainda para mais
os meus sapatos rangem.
Fernanda Botelho
Não, não digas nada.
Sei apenas que estou
Acabrunhada.
E se inclino o rosto,
Se pareço uma pirâmide truncada
com sobrecasaca de frio,
é porque não gosto
de puxar o fio
à meada.
(Escadas escuras
subidas dia a dia.
Pernas cansadas
e solas gastas.
Harmonias acabadas
num gesto torvo.
Tremenda nostalgia
de iluminações vastas
e de calçado novo).
Pernas cansadas? Sim.
Magras? Talvez.
Aqui, onde me vês,
já fui assim
… roliça,
como bocejo na hora da preguiça…
Aqui, onde me vês,
não é a mim que me vês.
É a magricela
que sobe aquela
escada de sonhos desiguais
que me constrangem.
- E ainda para mais
os meus sapatos rangem.
Fernanda Botelho
domingo, 20 de julho de 2008
MENDES DE CARVALHO (1927 - 1988)

Mendes de Carvalho
"O autor nasceu no Alcaide, pequena aldeia que aparece nos mapas decentes. Ali aprendeu as primeiras letras. Na capital, as segundas, as terceiras e outras. Mas foi de facto em Lisboa que, tendo começado a sonetar antes de romper a barba, se tornou afinal anti-sonetista".
Neste texto fala Mendes de Carvalho de si próprio com a ironia e o gosto pela sátira que colocou em muito da sua obra que teve especial expressão no teatro e na poesia.
Foi um homem de sete instrumentos, sempre muito próximo de grupos teatrais ("Casa da Comédia", "Teatro Estúdio de Lisboa e "Clube Palco"), orientou páginas literárias e colaborou em jornais e revistas literárias com poemas, artigos e ensaios sobre literatura e artes plásticas.
A "Cantiga dos ais" que abaixo publico conhecia-a na voz certeira do Mário Viegas.
Fotografia do Mendes de Carvalho não consegui encontrar. Mas encontrei um blog cujo título se inspira no título de um dos seus livros ("Poemas de Ponta & Mola"): pontaymola.blogspot.com , que tem como epígrafe um verso do poeta: "...neste país tudo é fado doa a quem doer até o pessoa dá para gemer."
CABTIGA DOS AIS
Os ais de todos os dias
os ais de todas as noites
ais do fado e do folclore
o ai do ó ai ó linda
Os ais que vêm do peito
ai pobre dele coitado
que tão cedo se finou
Os ais que vêm da alma
ais d’amor e de comédia
ai pobre da rapariga
que se deixou enganar
ai a dor daquela mãe
Os ais que vêm do sexo
os ais do prazer na cama
os ais da pobre senhora
agarrada ao travesseiro
ai que saudades saudades
os ais tão cheios de luto
da viúva inconsolável
Ai pobre daquele velhinho
ai que saudades menina
ai a velhice é tão triste
Os ais do rico e do pobre
ai o espinho da rosa
os ais do António Nobre
ais do peito e da poesia
e os ais doutras coisas mais
ai a dor que tenho aqui
ai o gajo também é
ai a vida que tu levas
ai tu não faças asneiras
ai mulher és o demónio
ai que terrível tragédia
ai a culpa é do antónio
Ai os ais de tanta gente
ai que já é dia oito
ai o que vai ser de nós
E os ais dos liriquistas
a chorar compreensão
Ai que vontade de rir
E os ais do D.Dinis
ai Deus e u é
Triste de quem der um ai
sem achar eco em ninguém
Os ais da vida e da morte
ai os ais deste país
Mendes de Carvalho
os ais de todas as noites
ais do fado e do folclore
o ai do ó ai ó linda
Os ais que vêm do peito
ai pobre dele coitado
que tão cedo se finou
Os ais que vêm da alma
ais d’amor e de comédia
ai pobre da rapariga
que se deixou enganar
ai a dor daquela mãe
Os ais que vêm do sexo
os ais do prazer na cama
os ais da pobre senhora
agarrada ao travesseiro
ai que saudades saudades
os ais tão cheios de luto
da viúva inconsolável
Ai pobre daquele velhinho
ai que saudades menina
ai a velhice é tão triste
Os ais do rico e do pobre
ai o espinho da rosa
os ais do António Nobre
ais do peito e da poesia
e os ais doutras coisas mais
ai a dor que tenho aqui
ai o gajo também é
ai a vida que tu levas
ai tu não faças asneiras
ai mulher és o demónio
ai que terrível tragédia
ai a culpa é do antónio
Ai os ais de tanta gente
ai que já é dia oito
ai o que vai ser de nós
E os ais dos liriquistas
a chorar compreensão
Ai que vontade de rir
E os ais do D.Dinis
ai Deus e u é
Triste de quem der um ai
sem achar eco em ninguém
Os ais da vida e da morte
ai os ais deste país
Mendes de Carvalho
sábado, 19 de julho de 2008
sexta-feira, 18 de julho de 2008
AFONSO DUARTE (1884-1958)
Afonso Duarte
Afonso Duarte participa em tudo o que de novo, poética e literariamente importante, vai marcando a vida cultural do país na primeira metade do sé. XX.
Professor da Escola Normal Primária de Coimbra, onde foi colocado em 1919, a uma extraordinária e inovadora experiência pedagógica, a partir de desenhos infantis. Os seus trabalhos são enviados ao Congresso Internacional de Educação Nova, em Lucarna, e alcançam repercussão europeia. Professores de diversos países europeus vêm a Coimbra para os estudar.
Com a instauração da ditadura, são afastados das suas cátedras alguns dos mais ilustres professores portugueses. Afonso Duarte não abdica das suas convicções democráticas. E em 1932 é compelido à aposentação.
"Prodígio de poesia, prodígio de portugalidade." é como Manuel Alegre se refere a Afonso Duarte num texto publicado em:
http://www.manuelalegre.com/index.php?area=1420&id=887
O soneto que segue aqui por baixo é, certamente, dos grandes momentos da poesia portuguesa dos últimos cem anos.
Afonso Duarte participa em tudo o que de novo, poética e literariamente importante, vai marcando a vida cultural do país na primeira metade do sé. XX.
Professor da Escola Normal Primária de Coimbra, onde foi colocado em 1919, a uma extraordinária e inovadora experiência pedagógica, a partir de desenhos infantis. Os seus trabalhos são enviados ao Congresso Internacional de Educação Nova, em Lucarna, e alcançam repercussão europeia. Professores de diversos países europeus vêm a Coimbra para os estudar.
Com a instauração da ditadura, são afastados das suas cátedras alguns dos mais ilustres professores portugueses. Afonso Duarte não abdica das suas convicções democráticas. E em 1932 é compelido à aposentação.
"Prodígio de poesia, prodígio de portugalidade." é como Manuel Alegre se refere a Afonso Duarte num texto publicado em:
http://www.manuelalegre.com/index.php?area=1420&id=887
O soneto que segue aqui por baixo é, certamente, dos grandes momentos da poesia portuguesa dos últimos cem anos.
ROSAS E CANTIGAS
Eu hei-de despedir-me desta lida,
Rosas? – Árvores! hei-de abrir-vos covas
E deixar-vos ainda quando novas?
Eu posso lá morrer, terra florida!
A palavra de adeus é a mais sentida
Deste meu coração cheio de trovas...
Só bens me dê o céu! Eu tenho provas
Que não há bens que pague o desta vida.
E os cravos, manjerico, e limonete,
Oh! que perfume dão às raparigas!
Que lindos são nos seios do corpete!
Como és, nuvem dos céus, água do mar,
Flores que eu trato, rosas e cantigas,
Cá, do outro mundo, me fareis voltar.
Afonso Duarte
Rosas? – Árvores! hei-de abrir-vos covas
E deixar-vos ainda quando novas?
Eu posso lá morrer, terra florida!
A palavra de adeus é a mais sentida
Deste meu coração cheio de trovas...
Só bens me dê o céu! Eu tenho provas
Que não há bens que pague o desta vida.
E os cravos, manjerico, e limonete,
Oh! que perfume dão às raparigas!
Que lindos são nos seios do corpete!
Como és, nuvem dos céus, água do mar,
Flores que eu trato, rosas e cantigas,
Cá, do outro mundo, me fareis voltar.
Afonso Duarte
quinta-feira, 17 de julho de 2008
ISABEL MEYRELLES (1929)

Isabel Meyrelles
Escultora e poetisa portuguesa nascida em 1929, em Matosinhos.
Aos 16 anos iniciou os estudos de escultura no Porto, mas decidiu ir para Lisboa onde encontrou Mário de Cesariny e Cruzeiro Seixas, e assistiu ao surgimento do Grupo Surrealista Português ao qual ficou sempre, de alguma forma, ligada.
Foi viver e estudar para França, seu país de adopção e com o qual se identifica.
Em Paris continuou os estudos, desta vez não só de Escultura, na Ecole National Supérieure des Beaux-Arts, como também de Literatura, na Universidade de Sorbonne.
Conhecia apenas um poema seu publicado nas velhas “Líricas Portuguesas” da Portugália Ediora. Descobri com surpresa e entusiasmo o resto a sua poesia publicada recentemente pela Quasi.
Tu já me arrumaste
Tu já me arrumaste no armário dos restos
eu já te guardei na gaveta dos corpos perdidos
e das nossas memórias começamos a varrer
as pequenas gotas de felicidade
que já fomos.
Mas no tempo subjectivo
tu és ainda o meu relógio de vento
a minha máquina aceleradora de sangue
e por quanto tempo ainda
as minhas mãos serão para ti
o nocturno passeio do gato no telhado?
Isabel Meyrelles
eu já te guardei na gaveta dos corpos perdidos
e das nossas memórias começamos a varrer
as pequenas gotas de felicidade
que já fomos.
Mas no tempo subjectivo
tu és ainda o meu relógio de vento
a minha máquina aceleradora de sangue
e por quanto tempo ainda
as minhas mãos serão para ti
o nocturno passeio do gato no telhado?
Isabel Meyrelles
quarta-feira, 16 de julho de 2008
EMANUEL FÉLIX (1936-2004)

Emanuel Félix
Nasceu e morreu em Angra do Heroísmo. Poeta, ensaísta, autor de contos e crónicas, crítico literário e de artes plásticas.
Especialista em restauração de obras de arte e, especialmente, de arte sacra, estudou no Instituto Francês de Restauro de Obras de Arte (Paris), na Escola Superior de Belas-Artes do Anderlecht e na Universidade Católica de Lovaina, onde se especializou no Laboratório de Estudo de Obras de Arte por Métodos Científicos do Instituto Superior de Arqueologia e História da Arte da mesma Universidade.
Cruzei-me com ele nalgumas infelizmente poucas noites de boémia, copo e petisco. A sua afabilidade, a cultura vasta, o gosto pela conversa vadia, deixou-me uma imensa pena de não o ter conhecido melhor e não ter privado mais com ele.
Visito-lhe os versos e, na minha gavetinha das dos tesouros precisos, guardo
este poema raro intitulado "AS RAPARIGAS LÁ DE CASA".
AS RAPARIGAS LÁ DE CASA
Como eu amei as raparigas lá de casa
Discretas fabricantes da penumbra
Guardavam o meu sono como se guardassem
O meu sonho
Repetiam comigo as primeiras palavras
Como se repetissem os meus versos
Povoavam o silêncio da casa
Anulando o chão os pés as portas por onde
Saíam
Deixando sempre um rastro de hortelã
Traziam a manhã
Cada manhã
O cheiro do pão fresco da humidade da terra
Do leite acabado de ordenhar
(se voltassem a passar todas juntas agora
veríeis como ficava no ar o odor doce e
materno
das manadas quando passam)
aproximavam-se as raparigas lá de casa
e eu escutava a inquieta maresia
dos seus corpos
umas vezes duros e frios como seixos
outras vezes tépidos como o interior dos frutos
no outono
penteavam-me
e as suas mãos eram leves e frescas como as folhas
na primavera
não me lembro da cor dos olhos quando olhava
os olhos das raparigas lá de casa
mas sei que era neles que se acendia
o sol
ou se agitava a superfície dos lagos
do jardim com lagos a que me levavam de mãos
dadas
as raparigas lá de casa
que tinham namorados e com eles
traíam
a nossa indefinível cumplicidade
eu perdoava sempre e ainda agora perdoo
às raparigas lá de casa
porque sabia e sei que apenas o faziam
por ser esse o seu lado mau de sua inexplicável
bondade
o vício da virtude da sua imensa ternura
da ternura inefável do meu primeiro amor
do meu amor pelas raparigas lá de casa
Emanuel Félix
Discretas fabricantes da penumbra
Guardavam o meu sono como se guardassem
O meu sonho
Repetiam comigo as primeiras palavras
Como se repetissem os meus versos
Povoavam o silêncio da casa
Anulando o chão os pés as portas por onde
Saíam
Deixando sempre um rastro de hortelã
Traziam a manhã
Cada manhã
O cheiro do pão fresco da humidade da terra
Do leite acabado de ordenhar
(se voltassem a passar todas juntas agora
veríeis como ficava no ar o odor doce e
materno
das manadas quando passam)
aproximavam-se as raparigas lá de casa
e eu escutava a inquieta maresia
dos seus corpos
umas vezes duros e frios como seixos
outras vezes tépidos como o interior dos frutos
no outono
penteavam-me
e as suas mãos eram leves e frescas como as folhas
na primavera
não me lembro da cor dos olhos quando olhava
os olhos das raparigas lá de casa
mas sei que era neles que se acendia
o sol
ou se agitava a superfície dos lagos
do jardim com lagos a que me levavam de mãos
dadas
as raparigas lá de casa
que tinham namorados e com eles
traíam
a nossa indefinível cumplicidade
eu perdoava sempre e ainda agora perdoo
às raparigas lá de casa
porque sabia e sei que apenas o faziam
por ser esse o seu lado mau de sua inexplicável
bondade
o vício da virtude da sua imensa ternura
da ternura inefável do meu primeiro amor
do meu amor pelas raparigas lá de casa
Emanuel Félix
terça-feira, 15 de julho de 2008
TERESA RITA LOPES (1937)

Teresa Rita Lopes
Nasceu em Faro. Licenciada em Filologia Românica pela Faculdade de Letras de Lisboa. Viveu 13 anos em Paris onde foi professora na Sorbonne e defendeu a tese de doutoramento "Fernando Pessoa et le drame symboliste – héritage et création". É Professora Catedrática da Universidade Nova de Lisboa. Ensaísta, ficcionista, dramaturga e poeta.
É um dos maiores especialistas contemporâneos em Fernando Pessoa. Tem centrado o seu trabalho académico na obra deste poeta e dedica-se especialmente à divulgação da parte inédita da sua obra.
Pessoalmente tenho uma grande ternura pela sua poesia que se situa do lado luminoso da literatura. A qualidade não tem que ser sinónimo de obscuridade. Por isso é tão importante que a poesia dos poetas claros e solares como Teresa Rita Lopes não fique sempre fora de moda (ou das modas).
ESTA CASA NOVA
Esta casa nova começa a afeiçoar-se a mim
e eu a ela:
já desabrocham flores em inesperados
sítios
e no jardim em frente do meu olhar
as árvores já perceberam que as espreito
continuamente
e por isso se enfeitam para mim.
Acabo de descobrir num quintal das traseiras
um pinheiro que nunca antes tinha visto
e que
ali engorda como um gato.
Então dá-me para
dizer: “Olá casa!”
como quem diz: “olá gato!”
e ela ronrona.
Terea Rita Lopes
e eu a ela:
já desabrocham flores em inesperados
sítios
e no jardim em frente do meu olhar
as árvores já perceberam que as espreito
continuamente
e por isso se enfeitam para mim.
Acabo de descobrir num quintal das traseiras
um pinheiro que nunca antes tinha visto
e que
ali engorda como um gato.
Então dá-me para
dizer: “Olá casa!”
como quem diz: “olá gato!”
e ela ronrona.
Terea Rita Lopes
domingo, 13 de julho de 2008
RUI NAMORADO (1941)

Rui Namorado
Cooperativista e jurista, é professor da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra.
Rui Namorado é sobrinho de Joaquim Namorado e pertence à geração académica de 62. A sua obra insere-se numa tradição poética coimbrã em que o lirismo dá o braço á indignação cívica e que inclui outros poetas como Manuel Alegre e Fernando Assis Pacheco.
É um amigo. À distância. Mas não são as distâncias que quebram os laços entre os poetas que "rimam" para o mesmo lado.
O seu blog vale bem a pena ser visitado. Chama-se "O Grande Zoo" e o endereço é:
http://ograndezoo.blogspot.com/
Convocamos a Poesia
Convocamos a poesia para ouvir o futuro.
De novo a descobrimos
como discreto rumor do universo,
como íntimo sabor das coisas,
ligeiro perfume do tempo e da saudade.
Podemos procurá-la no vento
como simples murmúrio,
punhal de alegria no coração da aventura.
Rui Namorado
De novo a descobrimos
como discreto rumor do universo,
como íntimo sabor das coisas,
ligeiro perfume do tempo e da saudade.
Podemos procurá-la no vento
como simples murmúrio,
punhal de alegria no coração da aventura.
Rui Namorado
sábado, 12 de julho de 2008
JOAQUIM NAMORADO (1914-1986)

Joaquim Namorado
Poeta e ensaísta português licenciado em Ciências Matemáticas e durante décadas compulsivo professor particular e doméstico, exerceu a seguir, desde 25 de Abril de 1974 até à aposentação, as funções de professor da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra.
Poeta do primeiro neo-realismo que trouxe para a poesia a dureza, a raiva e a revolta contra a miséria e a vergonha do Portugal salazarista, não deixando de dar ao verso uma músicalidade, um ritmo e um tom que viria a fazer escola.
CARIDADE
As senhoras da sociedade
deram um baile a rigor
para vestir a pobreza
e a pobreza horas a fio
cortou, coseu, enfeitou
os vestidos deslumbrantes
que a caridade exibiu.
Depois das contas bem feitas
bem tiradas as despesas
arranjou um namorado
a mais nova das Fonsecas;
esteve bem a viscondessa,
veio o nome e o retrato
da comissão nos jornais,
e o Doutor, o Menezes,
o senhor desembargador,
estiveram muito engraçados,
dançaram o tiro-liro
já meio-tombados...
Parece que ainda sobrou
algum dinheiro para chita
para vestir a pobreza
numa festa comovente
com discursos de homenagem
e uma missa...
a que assistiu toda a gente
Joaquim Namorado
deram um baile a rigor
para vestir a pobreza
e a pobreza horas a fio
cortou, coseu, enfeitou
os vestidos deslumbrantes
que a caridade exibiu.
Depois das contas bem feitas
bem tiradas as despesas
arranjou um namorado
a mais nova das Fonsecas;
esteve bem a viscondessa,
veio o nome e o retrato
da comissão nos jornais,
e o Doutor, o Menezes,
o senhor desembargador,
estiveram muito engraçados,
dançaram o tiro-liro
já meio-tombados...
Parece que ainda sobrou
algum dinheiro para chita
para vestir a pobreza
numa festa comovente
com discursos de homenagem
e uma missa...
a que assistiu toda a gente
Joaquim Namorado
quinta-feira, 10 de julho de 2008
PEDRO OOM (1926-1974)

Pedro Oom
Pertenceu ao acidentado Movento Surrealista Português por onde passaram e de onde saíram poetas tão importantes como Alexandre O'Neill, Mário Cesariny, António Maria Lisboa, António Pedro, Artur Cruzeiro Seixas e vários outros.
Como um pouco por todo o mundo, o Surrealismo foi uma explosão de criatividade por vezes radical onde ainda hoje podemos ir beber muito boa poesia que às vezes ficou presa na gaveta da circunstância ou em edições perdidas.
Há um pequeno livro de Pedro Oom que ainda se encontra por aí para quem souber procurar.´Chama-se "Actuação escritA" E é um desses maravilhosos e por vezes loucos livrinhos das edições &etc.
Pedro Oom morreu no duia 26 de Abril de 1974 durante um jantar que comemorava o 25 de Abril Viveu a alegria e evitou esta amarga ressaca que calhou aos que ficaram.
ACTUAÇÃO ESCRITA
Pode-se escrever
Pode-se escrever sem ortografia
Pode-se escrever sem sintaxe
Pode-se escrever sem português
Pode-se escrever numa língua sem saber essa língua
Pode-se escrever sem saber escrever
Pode-se pegar na caneta sem haver escrita
Pode-se pegar na escrita sem haver caneta
Pode-se pegar na caneta sem haver caneta
Pode-se escrever sem caneta
Pode-se sem caneta escrever caneta
Pode-se sem escrever escrever plume
Pode-se escrever sem escrever
Pode-se escrever sem sabermos nada
Pode-se escrever nada sem sabermos
Pode-se escrever sabermos sem nada
Pode-se escrever nada
Pode-se escrever com nada
Pode-se escrever sem nada
Pode-se não escrever
Pedro Oom
Pode-se escrever sem ortografia
Pode-se escrever sem sintaxe
Pode-se escrever sem português
Pode-se escrever numa língua sem saber essa língua
Pode-se escrever sem saber escrever
Pode-se pegar na caneta sem haver escrita
Pode-se pegar na escrita sem haver caneta
Pode-se pegar na caneta sem haver caneta
Pode-se escrever sem caneta
Pode-se sem caneta escrever caneta
Pode-se sem escrever escrever plume
Pode-se escrever sem escrever
Pode-se escrever sem sabermos nada
Pode-se escrever nada sem sabermos
Pode-se escrever sabermos sem nada
Pode-se escrever nada
Pode-se escrever com nada
Pode-se escrever sem nada
Pode-se não escrever
Pedro Oom
UMA FORMA DE VIAJAR
A propósito deste desfilar por alguns poetas que não estão na moda ou/e que são menos conhecidos, o meu amigo Samuel, O Cantigueiro, deixou-me estas palavras num post:
"É uma bela forma de viajar, esta tua. Ir avançando, passo a passo, parando aqui e ali, falando com quem está, apanhando uma ou outra flor mais escondida, fazendo grandes desvios da estrada principal...
Bela forma de viajar!"
Comoveu-me, o malandro. Porque é mesmo uma viagem de um amante da poesia, gato com o rabo escaldado das oficialidades, dos opinantes, dos academistas, dos rapazes dos lobies... Sei lá.
Sempre andei por margens. Mas também sempre guardei memória das paixões, das vivências e das convicções.
Por isso faço deste blog um lugar de recordar coisas e pessoas. Recordar alguns que por isto ou po aquilo têm sido injustamente esquecidos. E assim me vou recordando de mim, como fui, como vou sendo, como serei enquanto a teimosia me der chama.
A verdade é que gosto de poesia. Gosto muito de poesia e de a partilhar. Tenho passeado pela poesia portuguesa até aos recantos mais remotos. É muito rica a arca da poesia portuguesa e, sobretudo, da poesia portuguesa desde o último quartel do séc. XIX até finais do séc. XX.
Fico feliz quando dou a conhecer um poema ou um poeta a alguém que não o conhecia e que fica a sentir-se de súbito preso por essa mágica teia de palavras (Olá licínia). Essa partilha fica a ligar-nos e o tempo da solidão e do desalento torna-se mais doce e traz-nos mais alguma promessa de consolo.
Pelas tuas palavras, Samuel, e ainda pela tua arte, também ela a viver na margem mais fraterna da vida, um grande abraço, meu amigo, um grande abraço!
"É uma bela forma de viajar, esta tua. Ir avançando, passo a passo, parando aqui e ali, falando com quem está, apanhando uma ou outra flor mais escondida, fazendo grandes desvios da estrada principal...
Bela forma de viajar!"
Comoveu-me, o malandro. Porque é mesmo uma viagem de um amante da poesia, gato com o rabo escaldado das oficialidades, dos opinantes, dos academistas, dos rapazes dos lobies... Sei lá.
Sempre andei por margens. Mas também sempre guardei memória das paixões, das vivências e das convicções.
Por isso faço deste blog um lugar de recordar coisas e pessoas. Recordar alguns que por isto ou po aquilo têm sido injustamente esquecidos. E assim me vou recordando de mim, como fui, como vou sendo, como serei enquanto a teimosia me der chama.
A verdade é que gosto de poesia. Gosto muito de poesia e de a partilhar. Tenho passeado pela poesia portuguesa até aos recantos mais remotos. É muito rica a arca da poesia portuguesa e, sobretudo, da poesia portuguesa desde o último quartel do séc. XIX até finais do séc. XX.
Fico feliz quando dou a conhecer um poema ou um poeta a alguém que não o conhecia e que fica a sentir-se de súbito preso por essa mágica teia de palavras (Olá licínia). Essa partilha fica a ligar-nos e o tempo da solidão e do desalento torna-se mais doce e traz-nos mais alguma promessa de consolo.
Pelas tuas palavras, Samuel, e ainda pela tua arte, também ela a viver na margem mais fraterna da vida, um grande abraço, meu amigo, um grande abraço!
terça-feira, 8 de julho de 2008
ANTÓNIO REBORDÃO NAVARRO (1933)

António Rebordão Navarro
Natural do Porto, advogado, poeta ligado ao chamado 2º neo-reAlismo esteve muito ligado a uma notável revista de poesia dos anos 50, "Notícias do Bloqueio".
Cruzámo-nos durante alguns anos nas reuniões da direcção da SPA. Ficou-me a afabilidade, o calor, a simpatia aberta e a promessa nunca cumprida, mea culpa, de o visitar no Porto.
A sua obra é vasta e abrange vários géneros, romance, teatro, memórias, viagens. Mas é da poesia que falo aqui. Fui dando com ela em várias pubicações por aqui e por ali. Relê-la hoje pode ser uma supresa inesperada. Uma breve antologia foi publicada há meia dúzia de anos pela ASA.
ESTACIONAMENTO PROIBIDO
Circulem, senhores, circulem.
Não parem junto aos mortos,
não estacionem no silêncio,
não se detenham ante o sangue.
Circulem, senhores, circulem.
Não interrompam o tráfico,
não deixem de cumprir ordens,
não deixem de ser neutros
e desapiedados.
Circulem, senhores, circulem.
Há muita gente que tem horas,
há muita gente que tem pressa,
há muita gente que deve esquecer.
Circulem, senhores, circulem.
Façam de conta,
fechem os olhos,
tapem os ouvidos.
Circulem, senhores, circulem.
Deviam já estar habituados,
deviam não ter lágrimas,
nem espanto, nem irmãos.
Circulem, senhores, circulem.
António Rebordão Navarro
Não parem junto aos mortos,
não estacionem no silêncio,
não se detenham ante o sangue.
Circulem, senhores, circulem.
Não interrompam o tráfico,
não deixem de cumprir ordens,
não deixem de ser neutros
e desapiedados.
Circulem, senhores, circulem.
Há muita gente que tem horas,
há muita gente que tem pressa,
há muita gente que deve esquecer.
Circulem, senhores, circulem.
Façam de conta,
fechem os olhos,
tapem os ouvidos.
Circulem, senhores, circulem.
Deviam já estar habituados,
deviam não ter lágrimas,
nem espanto, nem irmãos.
Circulem, senhores, circulem.
António Rebordão Navarro
MANUEL CINTRA (1956)

Mnuel Cintra
O meu querido amigo Manuel Cintra também anda de poesia às costas. Como eu. Talvez por isso, ou talvez não, gosto da poesia dele. gosto da emoção que transpira. Gosto de o ouvir a dizer poesia. Gosto de o ver a representar.
O Manel sempre viveu numa certa margem, mantendo saudável distância de opinantes e fazedores de modas. Vive a poesia. Atira-a por aí. Semeia livros por várias editoras. Vale a pena apanhá-los e ouvir-lhe o verso.
INFINITO O SILÊNCIO
MANUEL CINTRA (1956)
2.
Fez-se outono em janeiro, Pázinho,
e uma a uma, as gotas dela caem como folhas.
Agora o tempo e o tormento estão de braço dado
e eu que nunca paro dei comigo mais parado
do que ela que ao parar só luta
contra a corrente que toda a vida a inundou
de vida e contra-vida e de lutar
e de não querer que a morte fosse morte
nem houvesse despedida dos que partem
e se calhar ficam, perto de nós
a descansar.
Veio uma rajada mais fria, Pázinho,
e pôs-lhe os cabelos loiros
no sítio mais precioso da lembrança.
Agora caminhar vai ser difícil.
Tu vais sentir-te mais pesada,
e passo a passo e devagar e quase sem querer
vais reviver toda uma vida iluminada
por essa luz estranha essa alquimia particular
que se afasta agora, segundo a segundo
como quem previne que vem aí a escuridão.
E sei que te vai doer
como já a mim me dói tudo isto
esta luta absurda contra a própria luta
este correr parado contra o tempo
esta angústia de a ver assim deitada
e nada poder senão sorrir, com tristeza,
e mesmo assim para dentro,
que cá fora tudo flui num mar de lágrimas
e numa certeza grande enraizada.
Vai fazer-se outono outra vez,
um dia, Pázinho, e não haverá folhas
tal como agora.
Não se ouvirá cair um galho, nem cantar
gente ou pássaros ou céu ou chuva,
nada disto que nos confunde e atrapalha
quando no fundo o que queríamos
era apenas sofrer em paz.
Nem um dedo se moverá. Nem tu,
nem eu, nem a implacável corrente
dos minutos.
Aí,
que mais poderei fazer além de dar-te a mão
e partilhar contigo a cor da morte
a caminho do dia, a caminho do canto
pois nada do que parte se recusa a cá ficar
e toda ela é nossa, e nós dela somos,
e isso, Pázinho, ninguém o pode evitar.
Manuel Cintra
2.
Fez-se outono em janeiro, Pázinho,
e uma a uma, as gotas dela caem como folhas.
Agora o tempo e o tormento estão de braço dado
e eu que nunca paro dei comigo mais parado
do que ela que ao parar só luta
contra a corrente que toda a vida a inundou
de vida e contra-vida e de lutar
e de não querer que a morte fosse morte
nem houvesse despedida dos que partem
e se calhar ficam, perto de nós
a descansar.
Veio uma rajada mais fria, Pázinho,
e pôs-lhe os cabelos loiros
no sítio mais precioso da lembrança.
Agora caminhar vai ser difícil.
Tu vais sentir-te mais pesada,
e passo a passo e devagar e quase sem querer
vais reviver toda uma vida iluminada
por essa luz estranha essa alquimia particular
que se afasta agora, segundo a segundo
como quem previne que vem aí a escuridão.
E sei que te vai doer
como já a mim me dói tudo isto
esta luta absurda contra a própria luta
este correr parado contra o tempo
esta angústia de a ver assim deitada
e nada poder senão sorrir, com tristeza,
e mesmo assim para dentro,
que cá fora tudo flui num mar de lágrimas
e numa certeza grande enraizada.
Vai fazer-se outono outra vez,
um dia, Pázinho, e não haverá folhas
tal como agora.
Não se ouvirá cair um galho, nem cantar
gente ou pássaros ou céu ou chuva,
nada disto que nos confunde e atrapalha
quando no fundo o que queríamos
era apenas sofrer em paz.
Nem um dedo se moverá. Nem tu,
nem eu, nem a implacável corrente
dos minutos.
Aí,
que mais poderei fazer além de dar-te a mão
e partilhar contigo a cor da morte
a caminho do dia, a caminho do canto
pois nada do que parte se recusa a cá ficar
e toda ela é nossa, e nós dela somos,
e isso, Pázinho, ninguém o pode evitar.
Manuel Cintra
domingo, 6 de julho de 2008
ALBANO MARTINS (1930)

O meu amigo Albano Martins foi professor do Ensino Secundário de 1956 a 1976. Tendo ingressado, em 1980, nos quadros da Inspecção-Geral de Ensino, passou, em 1993, à situação de aposentado. Presentemente, é professor na Universidade Fernando Pessoa, do Porto.
A sua vasta obra poética oferece-nos uma contensão rara na poesia portuguesa e um lirismo minimal e intensíssimo. Muitos dos seus pomeas são pequenas pérolas que pousam nos ombros do leitor e ficam a iluminar-lhe o olhar.
A sua obra como tradutor é brilhante e vasta e permito-me destacar as suas magníficas e numerosas traduções de Neruda.
PARA O MUSEU DO HOMEM – 2
E o homem, então,
olhou em seu redor
e disse
às árvores: eu sou
a folha maior.
E as aves
do crepúsculo fizeram
ninho na sua boca.
Albano Martins
olhou em seu redor
e disse
às árvores: eu sou
a folha maior.
E as aves
do crepúsculo fizeram
ninho na sua boca.
Albano Martins
SIDÓNIO MURALHA (1920 – 1982)

Sidónio Muralha
Poeta do "Novo Cancioneiro" e do neo-realismo com forte marca político-social e com uma obra significativa e várias vezes premiada no campo da literatura para crianças.
Economista e gestor de empresas, vive no Congo Belga, na Bélgica, corre vários países como consultor de uma multinaciona e acaba por se fixar no Brasil.
SONETO IMPERFEITO DA CAMINHADA PERFEITA
Já não há mordaças, nem ameaças, nem algemas
que possam perturbar a nossa caminhada,
em que os poetas são os próprios versos dos poemas
e onde cada poema é uma bandeira desfraldada.
Ninguém fala em parar ou regressar.
Ninguém teme as mordaças ou algemas,
- o braço que bater há-de cansar
e os poetas são os próprios versos dos poemas.
Versos brandos... Ninguém mos peça agora.
Eu já não me pertenço: Sou da Hora.
E não há mordaças, nem ameaças, nem algemas
que possam perturbar a nossa caminhada,
onde cada poema é uma bandeira desfraldada
e os poetas são os próprios versos dos poemas.
Sidónio Muralha
que possam perturbar a nossa caminhada,
em que os poetas são os próprios versos dos poemas
e onde cada poema é uma bandeira desfraldada.
Ninguém fala em parar ou regressar.
Ninguém teme as mordaças ou algemas,
- o braço que bater há-de cansar
e os poetas são os próprios versos dos poemas.
Versos brandos... Ninguém mos peça agora.
Eu já não me pertenço: Sou da Hora.
E não há mordaças, nem ameaças, nem algemas
que possam perturbar a nossa caminhada,
onde cada poema é uma bandeira desfraldada
e os poetas são os próprios versos dos poemas.
Sidónio Muralha
sexta-feira, 4 de julho de 2008
CARLOS QUEIROZ (1907 – 1949)

Carlos Queiroz
Poeta do segundo modernismo Português, identificado como um dos grandes nomes da Revista Presença.
É Carlos Queiroz,num número especial da Presença de homenagem a Fernando Pessoa, que dá a conhecer os amores de Fernando Pessoa por Ofélia Queiroz, sua tia. Publicando nesse número diversas cartas de amor de Pessoa escritas a Ofélia.
A sua obra é curta como curta foi a sua vida. Cabe em dois livros. Mas a elegância, a musicalidade e a contida emoção ressaltam de cada verso.
Vale muito a pena visitá-lo num tempo em que grande parte da jovem poesia portuguesa anda tão afastada da música da língua e da grandeza da emoção verdadeira.
CANÇÃO GRATA
Por tudo o que me deste:
- Inquietação, cuidado,
(Um pouco de ternura? É certo, mas tão pouco!)
Noites de insónia, pelas ruas, como louco...
- Obrigado, obrigado!
Por aquela tão doce e tão breve ilusão.
(Embora nunca mais, depois que a vi desfeita,
Eu volte a ser quem fui), sem ironia: aceita
A minha gratidão!
Que bem me faz, agora, o mal que me fizeste!
- Mais forte, mais sereno, e livre, e descuidado...
Sem ironia, amor: - Obrigado, obrigado
Por tudo o que deste!
Carlos Queiroz
- Inquietação, cuidado,
(Um pouco de ternura? É certo, mas tão pouco!)
Noites de insónia, pelas ruas, como louco...
- Obrigado, obrigado!
Por aquela tão doce e tão breve ilusão.
(Embora nunca mais, depois que a vi desfeita,
Eu volte a ser quem fui), sem ironia: aceita
A minha gratidão!
Que bem me faz, agora, o mal que me fizeste!
- Mais forte, mais sereno, e livre, e descuidado...
Sem ironia, amor: - Obrigado, obrigado
Por tudo o que deste!
Carlos Queiroz
quarta-feira, 2 de julho de 2008
RAUL DE CARVALHO (1920-1984)

Natural do Alvito, Alentejo, Raúl de Carvalho foi colaborador das revistas Távola Redonda e Árvore e Cadernos de Poesia, que, na década de 50, conglomeravam de forma irregular, mas activa, poetas de várias sensibilidades.
Irreverente,iconoclasta, marginal, ignorado, habitante da solidão mas carregado de humanidade, solidário com os mais pobres e desfavorecidos, Raúl de Carvalho é um poeta que vale a pena ler e reler com muita atenção.
A sua obra completa está publicada na Caminho e deveremos sempre destacar um poema longo e excepcionalmente belo intitulado "Serenidade és minha" que assim começa:
"Vem, serenidade!
Vem cobrir a longa
fadiga dos homens,
este antigo desejo de nunca ser feliz
a não ser pela dupla humidade das bocas.
Vem serenidade!
Faz com que os beijos cheguem à altura dos ombros
e com que os ombros subam à altura dos lábios,
faz com que os lábios cheguem à altura dos beijos.
Carrega para a cama dos desempregados
todas as coisas verdes, todas as coisas vis
fechadas no cofre das águas:
os corais, as anémonas, os monstros sublunares,
as algas, porque um fio de prata lhes enfeita os cabelos.
..."
CANÇÃO BURGUESA
Consolo e delícia
Da vida burguesa...
Sete horas em ponto
O jantar na mesa;
Café bem quentinho,
Conversa tranquila,
E um lençol de linho
Esperando o seu dono
Para um belo sono...
Que bom não ter sonhos,
Dormir sossegado!
Já estou acordado,
Já salto da cama,
- Maria, Maria,
Traga os meus chinelos,
Traga o meu pijama...
A alma lavada,
O corpo limpinho.
- Bom dia vizinha!
- Bom dia vizinho!
Consolo e delícia
Da vida burguesa...
Se isto continua,
Morro, com certeza!
Raúl de Carvalho
Da vida burguesa...
Sete horas em ponto
O jantar na mesa;
Café bem quentinho,
Conversa tranquila,
E um lençol de linho
Esperando o seu dono
Para um belo sono...
Que bom não ter sonhos,
Dormir sossegado!
Já estou acordado,
Já salto da cama,
- Maria, Maria,
Traga os meus chinelos,
Traga o meu pijama...
A alma lavada,
O corpo limpinho.
- Bom dia vizinha!
- Bom dia vizinho!
Consolo e delícia
Da vida burguesa...
Se isto continua,
Morro, com certeza!
Raúl de Carvalho
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