segunda-feira, 3 de novembro de 2008

WISLAWA SZYMBORSKA



Wislawa Szymborska é uma poeta polaca, nascida em 1923 e Prémio Nobel em 1996.

Traduzir poesia é uma arte. Às vezes as traduções soam bem. Outras vezes nem por isso. A tradução, no sentido estrito da palavra, pode ser correcta em ambos os casos. Mas não basta ser correcta. É necessário encontrar na nova língua uma música que nos remeta para a música original e nos dê consolo e equilibrio na natureza da língua de chegada.

Descobrir poetas de línguas distantes é difícil e depende muito da qualidade das traduções.

A tradução deste livro de Elzibieta e Sérgio Neves parece-me magnífica. Já tinha lido outros poemas da autora em espanhol, francês e inglês. Este livro é precioso. Pela notáv el poesia e pela sua tradução.

FOTOGRAFIA DE 11 DE SETEMBRO

FOTOGRAFIA DE 11 DE SETEMBRO


Atiraram-se dos andares em chamas.
Um, dois, ainda alguns.
mais acima, mais abaixo.

A fotografia deteve-os na vida
e agora preserva-o
sobre a terra rumo à terra.

Cada um ainda na íntegra,
com rosto individual
e sangue bem guardado.

Ainda há tempo
para os cabelos esvoaçarem
e do bolso caírem
chaves e alguns trocos.

Ainda estão ao alcance do ar,
no âmbito dos lugares
que acabaram de se abrir.

Só duas coisas posso por eles fazer:
descrever este voo
e não acrescentar a última frase.

Wislawa Szyborska

(“Instante”, ed. Relógio d’Água, tradução de Elzbieta Milewska e Sérgio Neves)

domingo, 2 de novembro de 2008

QUALQUER COISA



Pintura de Rolando Sá Nogueira



QUALQUER COISA

(Sobre pinturas de Rolando Sá Noqueira)

Os pintores, caro amigo,
sabes como são?

Qualquer coisa lhes serve
de argumento ou de comboio
para partirem através de turbulências
ou banquetes coloridos.

Qualquer coisa os amotina:
um sussurro de água,
uma lâmina de vento,
um madeiro enegrecido que recorda
o teatro de uma vida ardendo.

Qualquer coisa violeta ou ambarina os leva
ao centro das cabeças descentradas.

Qualquer coisa cor de terra ou mel
os faz descarrilar.

Qualquer promessa de lua
os faz sair a voar ao fim da tarde:
um rasto antigo de números de music-hall,
um cão de olhos líquidos,
uma folha de amoreira,
uma música trepando
pela arquitectura dos ossos
à beira da eternidade.

Qualquer breve cornucópia lhes entorna
um pássaro improvável
na profundeza dos olhos
e deixa um barquinho a navegar
na perfeição dessas mãos
da criança de asas verdes
que os habita.

José Fanha

(do lirvo inédito "Marinheiro de outras luas)

sábado, 1 de novembro de 2008

“CHEGA-TE PARA LÁ, SEU PRETO!”



Este era o Rolando Sá Nogueira, o grande professor da minha vida.


“CHEGA-TE PARA LÁ, SEU PRETO!”

O Rolando é muito grande, ensina-me a fazer desenhos e conta-me montes de histórias com a sua voz redonda e forte.
Um dia contou-me que ia num eléctrico cheio de gente e alguém lhe disse: “Chega-te para lá, seu preto!”
Fiquei espantado. Olhei com muita atenção para ele. E era verdade. O Rolando era preto. Mas eu nunca tinha reparado nisso.
Fui para casa, com a minha caixinha de pensar em coisas toda ocupada a pensar como é que era possível eu nunca ter visto uma coisa tão importante...
Se calhar não era uma coisa assim tão importante, tão. Ou então o Rolando não era preto. Só ficou preto quando alguém lhe chamou preto.
Só sei que, no dia seguinte, ele esqueceu-se daquela história, eu esqueci-me que ele era preto e voltámos aos nossos desenhos.



José Fanha

("Diário Inventado de um menino já crescido", ed. Leya-Gailivro)

terça-feira, 28 de outubro de 2008

MAIS DERIVAS



Vladimir Holan (1905-1980), poeta checo ntural de Praga.


Tinha lido dois ou três de poemas de Vladimir Holan traduzidos por Eugénio de Andrade.

Um dia, nos anos 80, com poucos escudos no bolso, cheguei a Paris e gastei quase tudo o que tinha em dois discos de Léo Ferré e um livro de Ferlinghetti. Ainda dava para mais um livrito. Fui espreitar as poesias.

Folheado para a frente e para trás, o escolhido foi Vladimir Holan.

Com as minhas parcas compras na mão e, na cabeça, as muitas que queria fazer e para as quais já não tinha dinheiro. Tudo géneros de primeira necessidade, poesia e música.

Saí um tudo nada humilhado e irritado da FNAC dos Halles. Ainda não havia FNAC em Portugal e eu, perante aquele espectáculo apetitoso de corredores e corredores de livros e discos, sentia-me um miserável pobretanas terceiromundista.

Ainda por cima, em Paris costumo ser alvo de atitudes racistas avulsas por me julgarem magrebino.

Resolvi vingar-me e gastar o pouco que me restava a comer e beber. E acabei essa tarde a ler Holan num pequeno e delicioso café parisiense.

Fascinado pela densidade daquela poesia e pela música que se desprendia de uma tradução francesa que soava muito bem, mergulhei na leitura e já não sei quanto tempo ali fiquei.Bebi cerveja, comi sandes de patê e li poesia até perceber que a conta já devia andar perto dos 30 francos que me restavam.

Nssa altura percebi que o café estava cheio, havia gente à espera de mesa e a empregada andava a tossir significativamente à minha volta a ver se eu me punha a andar.

E com razão...! Um magrebino a comer e beber e a ler poesia? Não faza sentido nenhum. Ela tnha muita pressa de me ver pelas costas. Paguei e tanta pressa tinha a empregada que quando voltou me trazia um pratinho cheio de notas. Hélas! Eu tinha dado 30 francos e ela trazia-me troco de 100.

Não disse nada. Guardei o dinheiro com um ar imperial, dei uma boa gorjeta, saí cheio de poesia na alma e com a carteira um pouco mais confortável e, mal virei a esquina, desatei a correr não fossem dar pelo erro na conta.

Foi assim que fiquei duplamente agradecido a Vladimir Holan; pela sua magnífica poesia e por um troco errado que me deu algum consolo numa tarde primaveril de Paris.

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

A LOUCA

A LOUCA


Até deus tem um ofício, nós é que não sabemos qual,
diz a louca.

É preciso colocar um pedaço de Dezembro
sobre este onde não nevou, diz a louca.

Sim, eu estou a perder a vista, mas não me venham falar
de letras grandes e pequenas,
eu vejo bem, tenho uma voz grossa,
diz a louca.

Não penses que me ponho a rir apenas
porque tenho uns belos dentes… Trata-se de uma visão vocal,
diz a louca.

Os cabelos sobre as costas da noite e a ira de uma concha
desvendarão a fineza das circunvoluções cerebrais da noz,
diz a louca.

Olha, todo este espaço preenchido pela ausência lúbrica
de um ladrão de cemitérios! Eu forço o destino docemente,
diz a louca.

Agora é que descobri que aquela minha amiga me traiu
apesar de calçar de vez em quando os meus chapéus,
diz a louca.

A camisa d forças não passa de um vestido de noiva para o registo
e outro para a igreja,
diz a louca.

Porque é que me puseram estes óculos escuros? Sem eles vejo muito bem
os impulsos cósmicos do cubismo!
Eu sou instruída!, diz a louca…

E teria dito por certo muito mais
se me tivessem dado uma pedra para me sentar
em vez de um momento de atenção,
diz esta louca…

Vladimir Holan

(Traduzido do francês por José Fanha. Revisto por Jorge Listopad)

sábado, 25 de outubro de 2008

DERIVAS E TRADUÇOES

Nas derivas por jornais, por livros e pela net vou encontrando aqui ou ali algum poema que me comove, algum poeta de quem me descubro, subitamente, irmão.

Encontrei há pouco tempo, nas páginas de um jornal, um poema do poeta granadino Luís García Montero que muito me comoveu. Pela sua claridade e limpeza, pela belíssima forma de falar dos filhos. Logo me senti da mesma família de Montero. Logo procurei traduzi-lo.

É claro que sei que traduzir poesia é uma forma de alterar o original, de o tomarmos para nós numa outra língua, numa outra música, numa outra rosa (como dizia Neruda).

Traduzir poesia é um exercício de humildade em que se procura recriar na nossa língua a voz que vem de outra paisagem sonora.

Talvez valha a pena. Espero que sim. Aqui vai com um abraço para o poeta que gostava de conhecer. Talvez um destes dias, quem sabe? Os poetas encontram-se aqui ou ali por razões mágicas e misteriosas. Ou, pelo menos, gosto de pensar que é assim.

LUÍS GARCÍA MONTERO





OS FILHOS



Por favor, não tragam ruído
à tranquilidade deste poema
escrito com a mão
do que fecha a porta ao apagar
a luz.
Os meus três filhos acabam de adormecer.
Necessito de silêncio para pensar
neles.


Cores indeléveis num lápis
de traçado infantil,
voltam a desenhar
- mas desta vez a sério –
uma árvore, uma casa, a memória
de uma luz acesa
com sabor a Dezembro,
os cristais do medo
e a ilusão do futuro
debaixo do sol dos dias…..

Um filho é o segundo país onde nas-
cemos.
Com a sua falta de idade faz-nos
repetir aniversários
e devolve-nos
ao mundo do relógio,
às chamadas telefónicas
que são uma raiz
na margem do tempo.

Um filho ensina-nos a perguntar
com voz de água
a verdade decisiva da terra.
Sermos como juncos, e em amor flexíveis,
não assegura respostas
nem confirma o repouso.

Elisa, Irene, Mauro,
cada qual com o seu porto e com a sua
chuva,
luzes cintilantes de um mesmo rio.
Ninguém revele, por favor,
que acabo de escrever-lhes um poema.
Os filhos crescem com espinhos.
Nunca sei imaginar o que podem dizer do que digo,
o que podem pensar do que
penso,
o que podem fazer com o que faço

Luís Garcia Montero

(Tradução José Fanha)

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

O ENTERRO DA ESCOLA



Outro amigo com quem me vou encontrando por aqui e sobretudo por ali desde os 18 anos. Fizemos canções juntos, entrámos em espectáculos, almoçámos, jantámos, rimos muito e trocamos um imenso abraço amigo, mais que amigo, irmão, sempre que nos reencontramos.

Tudo começou em 1969. Pelo mundo ia o movimento hippy, o Make Love not war, a guerra do Vietname, os Beatles, os Stones, Woodstock, os restos do Maio de 68 em Paris. Ser jovem era sonhar. Ser diferente. Ser irreverente. Questionar. cantar. Mudar. Experimentar.

Por cá, havia a guerra colonial, 4 anos de tropa e guerra a que nós, jovens, estávamos condenados e cuja única alternativa era a fuga a salto e o exílio.

E havia o protesto estudantil que crescia a olhos vistos no cinzentismo com alguma esperança de abertura política trazidos pela doença de Salazar e chegada ao poder de Marcelo Caetano.

Em 1969 entrei para a Escola Superior de Belas Artes de Lisboa, ESBAL, ao Chiado, para estudar Arquitectura.

Aí conheci o Carlos Mendes, uma grande vedeta à época. Músico dos Sheiks, vencedor de dois Festivais da Canção RTP e, acima de tudo, um tipo sem peneiras, um jovem cheio de vontade de partir a loiça, de rir, de fazer de cada dia de vida uma festa. Um pouco como muitos de nós.

Quando cheguei á Escola alguns alunos, e entre ele o Carlos, estavam a organizar o enterro da Escola. Consideravam que ali já pouco se ensinava, a escola estava morta e, portanto, havia que lhe fazer o enterro.

Eu não quis saber de mais nada e juntei-me logo ao alegre funeral. Metia um artístico caixão que era levado em ombros pelos corredores e salas de aula. À frente, numa lenga-lenga divertidíssima, o sacerdote oficiante, vestido a preceito segundo me lembro, era o Pedro Brandão.

O caixão entrava nas salas de aula e os professores eram informados de que as aulas tinham de parar porque a Escola tinha morrido e portanto...

Os professores alinhavam na coisa. Era Belas Artes e, apesar de tudo, havia uma maior capacidade de aceitar a irreverência jovem. Ao fim de uma meia hora
éramos uns 400 estudantes na procissão do enterro. Em coro cantávamos os estribilhos: "ESBAL ESBAL está podre e cheira mal" e "A escola é nossa!A escola é nosssa" sobre ao ritmo a marcha oficial que dizia "Angola é nossa! Angola é nossa!"

Apenas um professor resistiu, o Pinheiro, que estava a fazer um teste de Geometria Descritiva numa sala da cave do velho convento de S. Francisco onde a Escola está instalada.

Bateu-se à porta e quem veio atender foi um colega nosso pouco recomendável, filho de uma personagem qualquer do fascismo brasileiro, um matulão do caraças que fez peito à malta toda, a armar-se em paladino de alguma Guerra Santa.

Teve azar. À frente vinham logo o Carlos Mendes, o Catita e o João Paulo Bessa (na altura jogador de rugby...), tudo gente que "disparava primeiro e perguntava depois".
Não sei quem foi que lhe deu um "encontrão". Só sei que o rapaz brasileiro deu três voltas no ar e entrou pela aula de trambulhão.

Depois entrou-se na sala e informou-se delicadamente os 12 colegas que estavam a fazer teste que a Escola tinha morrido e, portanto, não havia razão para fazer testes. E tirou-se-lhes as folhas de teste não fosse algum deles não entender o fundamento da questão.

O enterro continuou, saiu à rua, deu algumas voltas e regressou ao pátio da escola onde o caixão foi atirado à cisterna.

E é nestes alicerces que assenta a minha grande amizade pelo Carlos Mendes. Andamos agora a fazer mais umas canções. E a concordar com o O'Neill:

"...
neste reino de Pacheco,
ó meus senhores que nos resta
senão ir aos maus costumes,
às redundâncias, bem-pensâncias,
com alfinetes e lumes,
fazer rebentar a besta,
pô-la de pernas prò ar?"

terça-feira, 21 de outubro de 2008

ILHA DE MOÇAMBIQUE




Não é a pedra.
O que me fascina
é o que a pedra diz.

A voz cristalizada,
o segredo da rocha rumo ao pó.

E escutar a multidão
de empedernidos seres
que a meu pé se vão afeiçoando.

A pedra grávida
a pedra solteira,
a que canta, na solidão,
o destino de ser ilha.
O poeta quer escrever
a voz na pedra.
Mas a vida de suas mãos migra
e levanta voo na palavra.

Uns dizem na pedra nasceu uma figueira.

Eu digo: na figueira nasceu uma pedra.


Mia Couto

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Comigo me desavim





Comigo me desavim
Sou posto em todo o perigo;
Não posso viver comigo
Nem posso fugir de mim.

Com dor, da gente fugia,
Antes que esta assi crecesse,
Agora já fugiria
De mim, se de mim pudesse.
Que meu espero ou que fim
Do vão trabalho que sigo,
Pois que trago a mim comigo,
Tamanho imigo de mim?

Sá de Miranda

domingo, 19 de outubro de 2008

O ALMOÇO DO LADO



O Artur Semedo é outro dos amigos pouco canónicos com quem tive o imenso prazer de conviver.

Tinha eu uns 12 anos, alguém da família arranjava bilhetes á borla, e eu vi vezes sem conta e sempre fascinado "O meu amor é traiçoeiro" no Teatro Monumental, um drama popularucho mas intenso e cheio de chispa, pelo que recordo. Dois actores em cena: Laura Alves e Artur Semedo. Mal eu sabia que me ia cruzar várias vezes na vida com aquele galã galifão que me deixava de boca aberta. Ele e a Dona Laura que era uma notável actriz.

O Artur Semedo foi benfiquista violento, actor, cineasta (Quem não viu "O Rei das Berlengas" com o Mário Viegas entre outros filmes igualmente delirantes?)




Unia-me ao Artur Semedo o gosto pela desmesura, o prazer de inventar histórias e desatinos, e o facto de ambos termos estudado no Colégio Militar, embora com uns quantos anos de diferença.

Dele ouvi histórias fantásticas de feitos amorosos e brigas, histórias que fazem parte de um cancioneiro por recolher da vida boémia lisboeta dos anos de chumbo do salazarismo.

A mais conhecida era a da luva preta que usava sempre na mão esquerda, creio eu, e da qual fez um mistério público até ao dia em prometeu tirar finalmente a luva para mostrar porque é que usava a luva preta. E quando tirou, em directo, na televisão, por baixo da luva tinha outra luva!

O Artur Semedo era um personagem de si próprio. Aquilo a que às vezes no teatro se chama um "tipão".

A certa altura, pelos anos 80, tivemos um vago projecto comum para um programa de televisão que era mais um pretexto para almoçarmos imperetrivelmente á segunda feira, durante vários meses, no defunto restaurante "António".

Era um regabofe. Divertíamo-nos mutio. Durava horas o almoço e a conversa corria livremente em todas as direcções.

O Artur tinha o prazer da rábula por vezes a raiar o limite do bom senso.

Um dia o restaurante estava cheio. Sentámo-nos numa mesinha encstada à de um casal estrangeiro muito compostinho que comia fondue.

Muito delicadamente, o Artur sorriu-lhes, cumprimentou-os e perguntou-lhes em português como estava o fondue. Sem nada perceber, o casal estrangeiro sorria imaginando que estava a ser brindado por qualquer espécie de gentil ritual de simpatia tipicamente portuguesa.

O Artur, sempre em grandes gestos de delicadeza um tanto histriónica, virou-se abertamente para o almoço do lado, pegou num garfo, picou um naco de carne, fritou-o no óleo e comeu-o.

O casal estrangeiro olhava-o começando a deixar amarelecer o seu sorriso. Mas o Artur não ficou por aqui. Continuou a comer-lhes o fondue com grandes tiradas pomposas, grandes gestos e rasgados sorrisos enquanto devorava todo o resto do fondue.

Os senhores não sabiam se haviam de rir ou de chorar ao ver a comida a desaparecer.

Eu... Foi por pouco que não me urinei nas calças para conter o riso pelo insólito delirante a que ninguém seria capaz de arrancar o Artur Semedo que, acabado o fondue, encomendou finalmente o nosso almoço.

sábado, 18 de outubro de 2008

MÃE




Mãe!
Vem ouvir a minha cabeça a contar histórias ricas que ainda não viajei! Traze tinta encarnada para escrever estas coisas! Tinta cor de sangue, sangue! Verdadeiro, encarnado!

Mãe! passa a tua mão pela minha cabeça!
Eu ainda não fiz viagens e a minha cabeça não se lembra senão de viagens! Eu vou viajar! Tenho sede! Eu prometo saber viajar!

Quando voltar é para subir os degraus da tua casa, um por um. Eu vou aprender de cor os degraus da nossa casa. Depois venho sentar-me a teu lado. Tu a coseres e eu a contar-te às minhas viagens, aquelas que eu viajei, tão parecidas com as que não viajei, escritas ambas com as mesmas palavras.

Mãe! Ata as tuas mãos ás minhas e dá um nó-cego muito apertado! Eu quero ser qualquer coisa da nossa casa. Como a mesa. Eu também quero ter um feitio, um feitio que sirva exactamente para a nossa casa, como a mesa.

Mãe! passa a tua mão pela minha cabeça!
Quando passas a tua mão pela minha cabeça é tudo tão verdade!

José de Almada Negreiros

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Te amarei mãe





Te amarei, mãe,
por dentro da matéria cega
em teu corpo amável
no calor de tuas mãos.

Te amarei, mãe,
como se a morte
fosse um segredo
e tu a plena quietude.

Te amarei, mãe
em tua secreta biografia
no filho
e na infância.

Te amarei, mãe,
na casa, no pão,
nas palavras diárias
na alegria, na dor.

Te amarei, mãe,
realidade-templo
de uma legião de mortos
água e sal dos vivos.

Te amarei, mãe,
quando sei e digo
Deus já não é sombra
mas naufrágio esplendoroso


Ana Marques Gastão

terça-feira, 14 de outubro de 2008

IRREVERÊNCIA




Há pessoas que atravessam a nossa vida de várias e inesperadas maneiras. foi o que me aconteceu com Luís de Sttau Monteiro, magnífico escritor e dramaturgo de obras como "Angústia para o jantar", "Felizmente há luar" ou "A guerra Santa".

O Sttau era um mito para mim, tanto por via do brilho da sua pena como das proibições com que a censura o brindava.

Tinha eu 18 anos (1969), não me recordo como foi, mas entrei como colaborador para "A Mosca", suplemento humorístico do "Diário de Lisboa", dirigido por José Cardoso Pires e onde conheci o Luís Sttau Mnteiro que aí publicava entre outras coisas as famosas redacções da Guidinha.´

É bom de ver que eu olhava para eles com muitíssimo respeito e a imensa felicidade de respirar o ar que eles respiravam, de os ouvir atentamente e procurar crescer com as suas palavras.

Voltei a cruzar-me com o Sttau no concurso "A Visita da Cornélia". Ele pertencia ao júri. Eu era concorrente. Convivemos durante 13 semanas intensas, com momentos emocionantes, nomeadamente as sessões do concurso no Porto onde ele, eu, o Pitum, o Assis Pacheco e outros, fomos ameaçados e até mais que ameaçados por uns patetas de uns rapazitos neo-nazis.

Durante este tempo, à admiração veio juntar-se a amizade.

Depois fomo-nos encontrando ao sabor das circunstâncias, unidos pelo amor à conversa, à escrita, à boa mesa e à irreverência que no caso dele atingia por vezes o delirio.

A última vez que o vi, pouco antes da sua morte, estava eu parado no vermelho dos semáforos a meio do Campo Grande. Ouvi atrás uma valente buzinadela. Pelo retrovrisor dei com o Sttau a sair do seu carro direito a mim.

Saí do meu carro para o inevitável abraço e ali ficámos à conversa, entusiasmada e vagabunda como sempre. E o sinal ficou verde. E os outros automobilistas começaram a protestar e a buzinar.

E foi aqui que saltou a irreverência do Sttau e a sua chispa de saudável loucura. Desatou a insultar os aumobilistas acusando-os de quererem impedir que dois amigos se cumprimentem e pudessem conversar a seu bel prazer.

A situação tornou-se tão absurda que os outros não tiveram outro remédio senão contornar-nos e seguir furiosos mas vencidos. E nós ali ficámos, em plena estrada, na boa cavaqueira.

Ficou-me na memória o seu sorriso sardónico, o gesto com que afastava o cabelo da testa, a grandeza daquela maneira aristocrata de estar na vida.

Ao ver a apagada tristeza que vai pelas nossas escolas, a revolta intensa mas inconsequente que grassa entre os melhores professores, pergunto-me que será feito da irreverência e da rebeldia com que se fazia um manguito aos mandantes tiranotes e aos condutores apressados. Em vez dsso, temos o lamento, a desistência ou a acomodação.

Que saudades do Sttau.

domingo, 12 de outubro de 2008

MÃE




MÃE


Ouvi chamar-te pela primeira vez numa rua sem árvores
Mas onde eu sabia haver tílias florindo.
Com uma alma enorme
Como só têm o mar e os desertos, reconheci-te numa
espécie de paixão
e foi assim que pude partilhar-te com a razão e a luz.
Como é que se faz, pergunto-me, para transformar
todo o perfume de Junho num pequenino nome? Tão
pequena morada guarda as mais inesperadas coisas: um ramo
de neve, o sol espreitando de uma ferida, o pequeno dócil
animal
mais leve e mais limpo do que o ar.
Ouvi-te pela primeira vez era já uma criança. Ou devo
dizer ainda? Com as tílias, floriram também os minúsculos
sons
dessa quase palavra, talvez mais rumor ou murmúrio,
mais, quem sabe?,
água que chega das nascentes do olhar.
Existem nomes onde nada cabe, outros que guardam a
ternura do mundo.
No teu nome brilha ainda a minha vida, esta espécie de
resposta
à pergunta incessante que me faz cada um dos meus dias.
Eu sei
que sou em grande parte a minha memória,
a memória que a roseira tem da chuva
ou a respiração do ar
ou a cigarra do estio
e que tudo, tudo, pode ter a dimensão afinal
de coisa nenhuma, ou a dimensão que colocou Deus
no coração de uma semente e o teu nome nas montanhas
do universo.
Eu sei que sempre coube inteiro no ventre
de uma palavra; que não precisei nunca
nem dos lábios, nem da fala, nem do mais intranquilo
pensamento
para saber do azul fundo do teu nome. Mas lembro-me
que me ouvi chamar-te pela primeira vez numa rua sem
árvores
onde eu vi – só eu vi? – tílias florindo.

sábado, 11 de outubro de 2008

O QUE É QUE APRENDESTE HOJE NA ESCOLA?



Qualquer semelhança com a realidade talvez não seja pura coincidência...


What Did You Learn in School Today
(Tom Paxto, cantado por Pete Seeger)

What did you learn in school today, dear little boy of mine?
I learned that Washington never told a lie
I learned that soldiers seldom die
I learned that everybody's free
That's what the teacher said to me
And that's what I learned in school today
That's what I learned in school

What did you learn in school today, dear little boy of mine?
I learned that policemen are my friends
I learned that justice never ends
I learned that murderers die for their crimes
Even if we make a mistake sometimes
And that's what I learned in school today
That's what I learned in school

What did you learn in school today, dear little boy of mine?
I learned that war is not so bad
I learned about the great ones we have had
We fought in Germany and in France
And someday I might get my chance
And that's what I learned in school today
That's what I learned in school

What did you learn in school today, dear little boy of mine?
I learned that our government must be strong
It's always right and never wrong
Our leaders are the finest men
So we elect them again and again
And that's what I learned in school today
That's what I learned in school

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

UMA LÍNGUA ANTERIOR



Foto Robert Doisneau

Muitos professores estão a pedir a reforma antecipada. Parece que gostavam de ensinar. Melhor do que isso (ou pior...). Gostavam de ajudar a crescer. Gostavam de ajudar a sonhar.


"...TALVEZ O RISO SEJA UMA LÍNGUA ANTERIOR QUE FOMOS PERDENDO À MEDIDA QUE O MUNDO FOI DEIXANDO DE SER NOSSO."


("Venenenos de Deus remédios do diabo", Mia Couto)

Também o sorriso dos professores, os autênticos, se vai perdendo à medida que o ensino vai deixando de o ser.

sábado, 4 de outubro de 2008

AS FÁBULAS




DA TERRA

Amar o mar completa a minha vida
com o tacto de um amor imenso.
Amar ateia a margem
arrebata-me de júbilo e paixão.
Mas veio o vento e, por momentos,
amargurou o meu corpo, a oscilar.
E está o sol aqui, depois de uns dias
de jardim obscurecido, a beber sombra.
E sei que os átomos zumbem
e dançam como insectos
ébrios em redor do pólen.


DO SILÊNCIO

O pão do espírito chama pelos olhos
o pão da terra chama pela boca.
Mas quantas vezes o cego vê o Céu,
quantas vezes o farto engana a boca.

pois só o silencio visível aquieta
ao mesmo tempo os olhos e a boca.



Fiama Hasse Pais Brandão

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

RESPIRAÇÃO ASSISTIDA




DESVERSOS

Trinta anos depois continuo revoltadíssimo
Vª Exª foi de uma grande falta de chá
nem eu precsava de Angola - nunca!
nem Angola de mim - o que hoje parece claro

Vª Exª argumentava nos corredores
que eram ordens do dr. Salazar
ora adeus mandasse-o mas é a ele
tinha bom corpo para apanhar porrada

e mesmo Vª Exª podia ter feito
uma perninha como eu fiz em Zala
não sou de rancores nem pouco mais ou menos~
mas aquela merda estava mesmo parada

sabe Vª Exª o pasmo e a aflição
quando se caía em alguma emboscada?
umas vezes olhava pelo rabo do olho
outras fingia de morto e mijava-me

depois voltava-se ao acampamento
para a ternura dos cães e a tarimba rasa
um duche ao ar livre um cigarro infeliz
o gole de cerveja a atirar para o amargo

houve um fim de dia entre todos cinzento
que eu me senti o maior dos miseráveis
funesta ideia - e fui a correr esconder
a arma de serviço por sinal uma Walther

a esta hora já enterraram Vª Exª
com as competentes honras militares
mas a verdade é sempre para se dizer
trinta anos passados não me esqueço de nada


Fernando Assis Pacheco

MISSÃO EM HAPPY-COSMOS

Hoje, dia 2 de Outubro, chega às livrarias a minha última aventura literária feita, desta vez, de parceria com a minha amiga Luísa Beltrão.

Destina-se a jovens dos 14 anos em diante, embora estas divisões etárias sejam sempre muito pouco estanques. Enquanto escrevíamos pensávamos que o nosso leitor ideal teria 15 anos e estava no 10º ano.

Trata-se de uma aventura de 4 jovens que atravessam o tempo e o espaço numa viagem simbólica que os vai fazer confrontar-se com um universo aparentemente (mas só aparentemente) maravilhoso, onde a felicidade é obrigatória, a mmória é apagada e a imperfeição é eliminada.

Trata-se do primeiro de uma série de sete livros que constituirão em conjunto uma grande viagem iniciática destes quatro jovens que vão crescer confrontando-se com as grandes questões do Homem.




E o nosso romance começa assim:

- Uma árvore que fala? Que fala???? - O João Maria, a Emília e a Patanisca desataram a rir, cada um à sua maneira. Eram tão diferentes que até no riso tinham estilos próprios.
Furioso, o Vasco puxou o cabelo preto, muito liso e brilhante:
- Juro! É verdade! Aquela árvore falou comigo! – A voz tremia-lhe num soluço contido. Ele sabia que um homem não chora, mas ele não era um homem, apenas um rapazinho de doze anos a quem os amigos espetavam farpas em vez de ajudarem.
“O que é que eu faço agora?”

terça-feira, 30 de setembro de 2008

OS LIVROS



A avó

Tinha ao colo o gato velho
cansadamente passando
a sua branca mão pelo
pêlo dele preto e brando

Sentada ao pé da janela
olhando a rua ou sonhando-a
todo o passado passando
a passos lentos por ela

Dormiam ambos enquanto
a tarde se ia acabando
o gato dormindo por fora
a avó dormindo por dentro



Manuel António Pina

domingo, 28 de setembro de 2008

RILKEANA




Eines ist, die geliebte zu singen


Como cantar o amado?

Quem ama
fica cheio de não-saber
não pára de procurar

Entrevendo o fulgor do êxtase
percorre o rio de sangue
conhece os horrores da guerra íntima
toda vermelha e crua
fértil em rupturas
incessante nos ataques

Não
nenhum rosto materno sobre o nosso debruçado
nos consolaria
se houvesse esse rosto
essa ternura impossível de entender

Nada nos pode consolar
do excessivo peso do amor
que oprime como a noite
cheia de não-saber
como tudo o que é divino
e inventado

De facto
não amamos como as flores
totalmente simples na sua entrega
Quando amamos
deixamos de ser o que somos
transfigurados pelo desejo
que mata
destrói
violenta tudo

E perscrutando a noite
que a si própria se escava e aplaina
amando
fitamos a intermitência das estrelas
deslumbrados por um brilho extinto
que fere com lentidão sideral
o ermo íntimo do nosso coração

Inatingível sempre
e como tal desejado
o verdadeiro amado


Ana Hatherly

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

IMAGIAS





POEMA QUE SE DEVIA

Este poema devia ser para ti, devia
falar de carrosséis ou sinos (as palavras
que aqui me conduziram e me obrigaram
à angústia).
O ponto mais pretérito da angústia
devia estar neste poema, que seria
para ti.

Nele, eu embrulharia muitas coisas:
calendários indóceis, facturas por pagar,
livros deixados por ler à mesa da cabeceira,
anúncios recortados de nuvens
ou jornais.

Acrescentando também os carrosséis, os tais
de que falava acima, e os sinos
que todavia teimam em tocar a horas renitentes.
Tudo isto eu deveria dizer
Neste poema: ternuras por pensar e muitas dívidas
impensáveis e doces.

Usaria então breve vocabulário sempre igual,
as mesmas palavras que há anos têm sido
as minhas metáforas idênticas
em ponto mais pretérito de angústia.

Seria então um poema que se devia
a toda a gente, especialmente a ti,
um pequeno berlinde que eu nunca soube jogar,
porque, no tempo em que vivi, o que se usava
era canções de roda e bonecas
de tranças a fingir.

Escrito no ponto mais pretérito
da angústia,
aspiraria à linguagem mais simples
das coisas menos simples,
como facturas de vida,
contas de hospital – ou ainda um abat-.jour
de impossível partilha.

Pensando bem, com um perfil assim, este poema
nem devia ser um poema, mas um grito,
ou uma voz em branco,
escrito no pretérito mais que perfeito
de tudo, a sua angústia a concordar com tempo
e modo. E os sinos reticentes
em música de fundo.


Ana Luísa Amaral

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

NA ESTRANHA CASA DE UM OUTRO



POEMAS DO ELÉCTRICO
´
PARAGEM II

A cidade é imóvel e o eléctrico
avança alheio
pela preguiça amarela que o sustenta

Mas se chove,
cola-se-lhe o peso da cidade ao corpo
partilha velada de um movimento baço.

Idênticos a cidade e o eléctrico
no mesmo lento vagar molhado:

a água arrasta a calçada pelo carril
folhas e pombos pingam dos fios
e há sempre uma estátua ou outra
a escorrer no vidro


Rita Taborda Duarte

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

QUERIDAS BIBLIOTECAS: UM ANO JÁ LÁ VAI

Faz hoje um ano que comecei esta aventura chamada “Queridas Bibliotecas”. Começou sem programa definido. Fui desfiando memórias, partilhando poesia, leituras, imagens, canções…

Fui descobrindo que a necessidade de comunicar faz com que as pessoas se juntem em volta de sonhos, de ideias, de imagens, de desabafos e que, mesmo a blogosfera acaba por ser uma rua de janelas abertas por onde os afectos crescem, a partilha floresce, as ideias permanecem vivas.

Encontrei aqui companheiros antigos e novos.

17.800 visitantes num ano, cerca de 50 por dia. É obra.

Alguns deixaram posts. E que bom que é receber um abraço, um beijo, uma palavra doce de tantas e tantos amigos que passam por aqui, ás vezes apenas para desejar Boa Semana!

Sei também que muito me visitaram professores e alunos de escolas, gente da maravilhosa aventura das bibliotecas onde se lêem os meus livros e onde vou passando para deixar palavras, emoções, gargalhadas, sementinhas que talvez venham a dar flor num futuro mais breve ou mais longo

Todos nós formamos um grupo fantástico que nem sabe exactamente os seus contornos. Gente que acredita que a raiz do pensamento não pode ser cortada, que a palavra ilumina, que os amigos trazem sempre outro amigo também.

Por tudo isso e muito mais espero continuar a fazer deste cantinho uma casa de porta aberta boa para se visitar de vez em quando.

E já agora, deixo um poema aos que, como eu, são e sempre foram sonhadores insubordinados e inquietos no mais belo sentido da palavra.

BALANÇO PROVISÓRIO

Estamos mais gordos mais magros
talvez mais denso
ou mais pesado o nosso olhar
temos pressa de ternura
angústias de vez em quando
e umas contas de telefone atrasadas
para pagar.

Temos falta de cabelo
três ou quatro cicatrizes
sofremos de inquietação.
Muitas vezes nos disseram
como é rápido o deslize
mesmo assim nunca deixámos
de dar corda ao coração.

Daqueles que já partiram
guardamos silêncio e nome
e uma improvável mistura
de amargura e rebeldia
nas palavras desordeiras
que dizem redizem cantam
relembrando dia a dia
como é feita de azinheiras
a capital da alegria.

Muitas ondas já morreram
outras tantas vão nascer
muitos rios já se cansaram de correr até á foz
águas claras que se foram
outras águas se turvaram
e agora restamos nós.

Somos muitos somos poucos
calmamente radicais
sabemos vozes antigas
trazemos a lua ao peito
amamos sempre demais.

Neste caminho tomado
fomos traídos trocados
vendidos ao deus dará.
Nem por isso desistimos
e assim nos vamos achando
perdidos de andar às voltas
nas voltas que a vida dá.

Somos uns bichos teimosos
peixes loucos aves rindo
plantas poetas palhaços
e portanto resumindo
somos mais do que nos querem
estamos vivos
somos lindos!


José Fanha

sábado, 20 de setembro de 2008

QUANDO NÃO SOUBERES COPIA




A linha do horizonte faz uma curva perigosa e está fora de mão.
A linha do horizonte, afinal, é um embuste linear e um veículo mal conduzido.
Quem lhe deu toda esta grandeza esqueceu-se de que lhe
estava a dar todo o poder. Ouviste, Deus?, é contigo.
Ou será que te enganaste e não percebeste que o horizonte
não é para ver de cima? Já não é a primeira vez que te apanho em falso.
Repara nos homens.
Nas guerras.
Na fome.
Nos incêndios e nas cheias.
Queres pior?
Repara na mentira.
Queres um resumo? Repara em ti.
Já sei, já sei. Para estes casos tu não és nenhuma entidade
superior, tu és dentro de cada um de nós.
Mas a multa do horizonte fora de mão, pagas tu.


Fernando Tordo

sexta-feira, 19 de setembro de 2008

LIÇÕES DE MESTRES




Comecei a ler e logo fiquei apaixonado. Primeiro pelo delicioso prefácio do José Gomes Ferreira. Depois, pela viagem pelos primeiros anos do século na volta da monarquia para a república com maçons, republicanos, carbonários, polícias e padres, prisões e fugas. Um fartote. Finalmente, pelo prazer da prosa adornada, excessiva, colorida mas extraordinariamente saborosa de mestre Aquilino. Prosa de mastigar lentamente como o vinho forte. Prosa para leituras de outro tempo, um tempo em que alguns tinham tempo para ler.

Quando entrei para Belas-Artes nos finais dos anos 60, aprendi que havia os professores e havia os mestres. Os mestres eram homens de letras ou artes reconhecidos pela substância do seu ofício e pela dimensão ética e humana da sua figura.

Mestre Aquilino, mestre Almada Negreiros, mestre Abel Manta, mestre Sá Nogueira, mestre Lagoa Henriques, mestre Frederico George… Conheci pessoalmente ou fui aluno de alguns. Outros via-os passar e seguia-lhes os passos com o respeito e admiração.

Eram mestres. E essa ideia de mestria no oficio conferia-lhes uma condição excepcional no acto do ensino, fazendo com que também como professores fossem considerados mestres, homens que sabiam fazer, que conheciam por dentro as traves com que se cosia a arquitectura da sabedoria e que faziam convergir a sabedoria do fazer e a do reflectir sobre esse fazer.

Esta ideia de mestre estava intimamente ligada à ideia da dúvida como método, da questionação permanente, da excelência, conceito tão contrário ao de banalização dos saberes de pacotilha que reina no nosso ensino com as devidas e honrosas excepções.

Talvez já aqui tenha colocado esta afirmação de Georges Steiner. Seja como for, vale a pena repetir:

"Para se ser professor é preciso ser-se um dador, ser-se um pouco louco, é preciso estar-se nu e não ter vergonha da nudez.”

É assim que são os verdadeiros mestres. Um pouco loucos, nus perante o mundo e orgulhosos de tudo questionarem através dessa nudez.~

Cá para mim, um professor deve ser uma pessoa que esteja a arder de amor por cada palavra e pronto a ajudar os seus alunos a sair pela janela na rota das andorinhas.

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

Lacoonte, rimas várias, andamentos graves



como a sentir a tua cara rente

como a sentir a tua cara rente
à minha e as tuas mãos nas minhas, ou
como se a dança amarguradamente
nos desse nesta noite ainda um slow

levado a medo, apenas a ternura
a conduzir de leve os nossos passos
e o corpo estremecendo-te à procura
do seu lugar na grade dos meus braços,

e a luz, fina película de vidros
por entre a frialdade de Janeiro,
a trespassar os corações partidos
estranhamente, e o meu sendo o primeiro,

como se não desse o que doía
na própria dor tingida de alegria.

Vasco Graça Moura

terça-feira, 16 de setembro de 2008

ANALOGIA E DEDOS



NOÉ

Pronto, pronto, eu faço. Dá um trabalhão
mas faço. Corto madeira, arranjo pregos,
gasto o martelo. E o pior também:
correr o mundo a recolher os bichos
coisas de nada como formigas magras,
e os outros, os grandes, os que mordem
e rugem. E sei lá quantos são!
Em que assados me pões. Tu
gastaste seis dias, e eu nunca mais acabo.
Andar por esse mundo, a pé enxuto ainda,
e escolher os melhores, os de melhor saúde,
que o mundo que tu queres não há-de nascer torto.
Um por um, e por uma, é claro, é aos pares
- o espaço que isso ocupa.

Mas não é ser carpinteiro,
não é ser caminheiro,
não é ser marinheiro o que mais me inquieta.
Nem é poder esquecer
a pulga, o ornitorrinco.
O que mais me inquieta, Senhor,
é não ter a certeza de não valer a pena
é partir já vencido para outro mundo igual.

Pedro Tamen

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

ASAS

Começam hoje as aulas pelo país fora. Alguns professores vão ajudar meninos a ganhar asas. Outros vão apenas cumprir o programa e aceitar, bem comportadinhos, todas as palermices que os mandarem fazer. Tenho pena destes últimos porque nunca ganharão asas nem ajudarão ninguém a aprender a voar.

Aos primeiros envio um beijo, um abraço e este poema. Eles sabem, ou pelo desconfiam, que ensinar é um acto mágico que está para lá de todas as burocracias, um acto em que cresce o aluno e o mestre e em que ambos aprendem a soltar as asas.


ASAS

Nós nascemos para ter asas, meus amigos.
Não se esqueçam de escrever por dentro do peito: nós
nascemos para ter asas.
No entanto, em épocas remotas, vieram com dedos
pesados de ferrugem para gastar as nossas asas como
se gastam tostões.
Cortaram-nos as asas para que fôssemos apenas
operários obedientes, estudantes atenciosos, leitores ingénuos
de notícias sensacionais, gente pouca, pouca e seca.
Apesar disso, sábios, estudiosos do arco-íris e de coisas
transparentes, afirmam que as asas dos homens crescem
mesmo depois de cortadas, e, novamente cortadas,
de novo voltam a ser.
Aceitemos esta hipótese, apesar não termos dela
qualquer confirmação prática.
Por hoje é tudo. Abram as janelas. Podem sair.

José Fanha

domingo, 14 de setembro de 2008

A MATÉRIA DO POEMA



POÉTICA

Quero que o meu poema fale de barcos e de azul, fale
do mar e do corpo que o procura, fale de pássaros e
do céu em que habitam. Quero um poema puro, limpo
do lixo das coisas banais, das contaminações de quem
só olha para o chão; um poema onde o sublime nos
toque, e o poético seja a palavra plena. É este poema
que escrevo na página branca com a parede que
acabou por ser caiada,com as suas imperfeições
apagadas pela luz do dia, e um reflexo de sol
a gritar pela vida. E quero que este poema desça
as caves onde a miséria se acumula, aos bancos onde
dormem os que não têm tecto nem esperança,
as mesas sujas dos restos da madrugada, às
esquinas onde a mulher da noite espera o último
cliente, ao desespero dos que não sabem para onde
fugir quando a morte lhes bate à porta. E canto
a beleza que sobrevive ás frases comuns, às
palavras sujas pelo quotidiano dos medíocres,
aos versos deslavados de quem nunca ouviu
o grito do anjo. E digo isto para que fique, no
poema, como a pedra esculpida por um fogo divino.

Nuno Júdice

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

A CRIANÇA EM RUÍNAS





na hora de pôr a mesa, éramos cinco:
o meu pai, a minha mãe, as minhas irmãs
e eu. depois, a minha irmã mais velha
casou-se. depois, a minha irmã mais nova
casou-se. depois, o meu pai morreu. hoje,
na hora de pôr a mesa, somos cinco,
menos a minha irmã mais velha que está
na casa dela, menos a minha irmã mais
nova que está na casa dela, menos o meu
pai, menos a minha mãe viúva. cada um
deles é um lugar vazio nesta mesa onde
como sozinho. Mas irão estar sempre aqui.
na hora de pôr a mesa, seremos sempre cinco.
enquanto um de nós estiver vivo, seremos
sempre cinco.


José Luís Peixoto

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

LISBOAS




PRAÇA DAS FLORES





Foi na Praça das Flores que eu perdi o meu império,
numa tarde morna e com um gato preto
a tirar medidas ao desastre.
Que pracinha bela, quando se tem amantes, dinheiro
e um pouco de melancolia verde
e leviana.
Durante muito tempo fui um colono
dos seus arrabaldes.
Escrevia por conta e portava-me mal com quem queria
pagar-me a autoridade das palavras.
Mas sempre era um império dos sentidos.

De dia a praça não havia, só havia o príncipe
real com a sua cuidada freguesia
de paus-santos e artes da restauração.
Eu vivia num império de frases, sem noite,
como sempre quiseram que fossem os impérios,
talvez para que rutilem mais as fardas
que os sabem defender.

Mas nessa tarde, depois de uma decadência arrastada
e muito inglesa, lembrei-me de chorar,
pois não havia mais lugar para tanto súbdito
oculto nos sentimentos banais
do território.

A Praça das Flores com o seu jardim minúsculo
e as suas grades cobertas de alegria mansa
era o melhor pedestal para a minha estátua deposta
já passava das três e até tinha chovido.

Como se fosse agora, lembrava-me do gato preto
e da minha perda de poderes absolutos.

Nunca ouvi dizer que o choro fosse a melhor arma da revolta,
mas houve uma batalha.
Sentia o corpo dividido em dois países,
a lutar com as mesmas munições.
E eu fui por mim de mim
destituído.

Sereníssima praça sem ruídos nem desassossegos,
área campal de soluços que outrora
eu bebi como se fossem balas:
vim hoje visitar-te.
Sem armas nem bagagens,
sento-me num banco evidentemente velho
e sem governo.

E devagar, ao longe, com a mesma negra
medida do destino,
eu vejo aproximar-se novamente
o gato.


Armando Silva Carvalho

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

O LIVRO BRANCO DA MELANCOLIA




QUANDO EU FOR PEQUENO

Quando eu for pequeno, mãe,
quero ouvir de novo a tua voz
na campânula de som dos meus dias
inquietos, apressados, fustigados pelo medo.
Subirás comigo as ruas íngremes
com a ceteza dócil de que só o empedrado
e o cansaço da subida
me entregarão ao sossego do sono.

Quando eu for pequeno, mãe,
os teus olhos voltarão a ver
nem que seja o fio do destino
desenhado por uma estrela cadente
no cetim azul das tardes
sobre a baía dos veleiros imaginados.

Quando eu for pequeno, mãe,
nenhum de nós falará da morte,
a não ser para confirmarmos
que ela só vem quando a chamamos
e que os animais fazem um círculo
para sabermos de antemão que vai chegar.

Quando eu for pequeno, mãe,
trarei as papoilas e os búzios
para a tua mesa de tricotar encontros,
e então ficaremos debaixo de um alpendre
a ouvir uma banda a tocar
enquanto o pai ao longe nos acena
com um lenço branco com as iniciais bordadas
anunciando que vai voltar porque eu sou pequeno
e a orfandade até nos olhos deixa marcas.


José Jorge Letria

sábado, 6 de setembro de 2008

O CANTO DO VENTO NOS CIPRESTES





Mãe, eu quero ir-me embora – a vida não é nada
daquilo que disseste quando os meus seios começaram
a crescer. O amor foi tão parco, a solidão tão grande,
murcharam tão depressa as rosas que me deram –
se é que me deram flores, já não tenho a certeza, mas tu
deves lembrar-te porque disseste que isso ia acontecer.

Mãe, eu quero ir-me embora - os meus sonhos estão
cheios de pedras e de terra; e, quando fecho os olhos,
só vejo uns olhos parados no meu rosto e nada mais
que a escuridão por cima. Ainda por cima, matei todos
os sonhos que tiveste para mim – tenho a casa vazia,
deitei-me com mais homens do que aqueles que amei
e o que amei de verdade nunca acordou comigo.

Mãe, eu quero ir-me embora – nenhum sorriso abre
caminho no meu rosto e os beijos azedam na minha boca.
Tu sabes que não gosto de deixar-te sozinha, mas desta vez
não chames pelo meu nome, não me peças que fique –
as lágrimas impedem-me de caminhar e eu tenho de ir-me
embora, tu sabes, a tinta com que escrevo é o sangue
de uma ferida que se foi encostando ao meu peito como
uma cama se afeiçoa a um corpo que vai vendo crescer.

Mãe, eu vou-me embora – esperei a vida inteira por quem
nunca me amou e perdi tudo, até o medo de morrer. A esta
hora as ruas estão desertas e as janelas convidam à viagem.
Para ficar, bastava-me uma voz que me chamasse, mas
essa voz, tu sabes, não é a tua – a última canção sobre
o meu corpo já foi há muito tempo e desde então os dias
foram sempre tão compridos, e o amor tão parco, e a solidão
tão grande, e as rosas que disseste que um dia chegariam
virão já amanhã, mas desta vez, tu sabes, não as verei murchar.



Maria do Rosário Pedreira

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

SENHORA DAS TEMPESTADES






QUARTO POEMA DO PESCADOR

Sei agora que Deus rola nas ondas
vem na última onda ei-lo na espuma
é reflexo brilho incandescência.
Se vou à pesca é para o procurar
se lanço a linha é para ver se o pesco
quando pesco um robalo eu pesco Deus
e é com ele que falo em frente ao mar
ele é seixo a alga o vento leste
a nuvem que lentamente cobre a lua
ele é a minha dispersão e a minha comunhão
o fragmento de estrela que se vê ainda
a tainha que salta
ele é o grão de areia e a imensidão da noite
o finito e o infinito
vai na corrente corre-me no sangue
não sei que nome dar-lhe
digo Deus
ele é o laço que me prende e me desprende
o que palpita em mim e o que em mim morre
vem na sétima onda e bate no meu pulso

ele é o aqui o agora o nunca mais
a morte que está dentro
rola na onda
bate na sétima costela do meu corpo
chamo-lhe Deus porque ele é o tudo e é o nada
eternidade que não dura sequer o eu dizê-la
ei-lo na espuma na lua no reflexo
de repente um esticão a cana curva-se
é talvez um robalo de seis quilos
isto é a pesca
o meu falar com Deus ou com ninguém
sozinho frente ao mar.

Ele é o vento a noite a solidão
O robalo que luta contra a morte
E é a minha ligação magnética com Deus
Esse umbigo do mundo
Que rola sobre as ondas e cai do firmamento
Com sua espuma e sua luz e sua noite
Chamo-lhe Deus porque não sei como chamar
Ao meu ser e não ser
De noite junto ao mar
Quando regulo a amostra e sua fluorescência
Pescando robalos
Ou talvez Deus
E sua ausência.


Manuel Alegre

LIVROS INDISPENSÁVEIS

Depois dos “Poetas Fora de Moda” pareceu-me interessante assinalar alguns dos livros que, quanto a mim, marcam fortemente a minha forma de ver e amar a poesia portuguesa.

São livros que leio repetidamente, verdadeiras luzes que julgo virão a assinalar no futuro o que de melhor se tem escrito neste período que vai do final de um século aos primeiros anos de outro século.

São por certo grandes momentos do ofício, do talento e da inspiração dos poetas.

Não pretendo que sejam os únicos. São a minha escolha. São os que julgo que deviam estar na mesa de cabeceira de todos aqueles para quem a poesia é indispensável para se encontrarem e se perderem, para se questionarem, para respirarem nessa língua que é o melhor da arte de ser português.

domingo, 31 de agosto de 2008

JOSÉ CARLOS ARY DOS SANTOS (1937 - 1984)



José Carlos Ary dos Santos


Esive ao lado dele em muitas ocasiões. Em convívios universitários antes do 25 de Abeil, em muitas sessões e comemorações pelo país em tempos de revolução e pós-revolução.

Devo-lhe palavras muito caras de estímulo e amizade.

Como toda a gente fui tocado pelas suas boutades de enfant terrible, mas também pela força da sua presença e pela música dos seus versos.

Terei sempre um cravo junto à memória comovida que guardo do homem, do amigo e do poeta.

OS CÃES DA INFÂNCIA

São os cães da infância os cães dementes
ladrando-me às canelas do passado
cães mordendo-me a vida com os dentes
ferrados no meu sexo atormentado.

Paguei cada minuto do presente
com vergões de amor próprio vergastado
porém só fala quem se não consente
vencido temeroso ou amarrado.

Contra os cães uivo. Não me fico assim.
Não tenho pai nem mãe. Nasci de mim
macho e fêmea gerando o desespero.

Lutar é tudo quanto sou capaz.
Não me pari para viver em paz.
Tudo o que sou é menos do que eu quero.



José Carlos Ary dos Santos

A POESIA PORTUGUESA DO SÉC. XX

A Poesia portuguesa do séc. XX tem uma riqueza e uma variedade impressionantes. A quantidade de grandes poetas é extraordinária. Basta lembrar os primeiríssimos, Pessoa, Pascoaes, Florbela, Régio, Gedeão, Torga, Nemésio, Sena, Sophia, Eugénio, Natália, David, O´Neill, Cesariny, Herberto, Pedro Tamen, Ruy Belo, Fiama, Fernando Assis Pacheco, Manuel Alegre, LUísa Neto Jorge, Vasco Graça Moura… Podia ainda juntar Sá-Carneiro, Almada Negreiros, José Gomes Ferreira, Botto, Ruy Cinatti, Manuel da Fonseca, Natércia Freire, Reinaldo Ferreira, Sebastião da Gama,António Maria Lisboa, Ana Hatterly, Teresa Horta, Fernando Assis Pacheco, Gastão Cruz, Armando Silva Carvalho, Manuel Aberto Pina, Nuno Júdice, Joaquim Pessoa, Al Berto.

Publiquei aqui 36 poetas pouco conhecidos e pouco visitados mesmo pelos que gostam de poesia. Com uma excepção (Manuel Cintra) fiquei pelos que nasceram na primeira metade do século (ou ainda em finais do século XIX). Poderia acrescentar mais uns 20 ou 30. Fora os mais novos, nascidos na segunda metade do séc. XX.

Alguns desses poetas terão escrito um poema deslumbrante e só por isso merecem a nossa admiração. Outros só publicaram um livro. Uns passaram pela vida brevemente ou em bicos de pés e a sua obra é póstuma. Outros tiveram muito sucesso num tempo e num determinado meio e depois foram completamente esquecidos.

Infelizmente não temos publicações de poesia que divulguem esta riqueza da nossa cultura. Infelizmente também já desapareceram aqueles que eram leitores especialmente apaixonados por poesia e que faziam da sua arte de ler uma luz que nos iluminava e ajudava a separar o trigo do joio. Estou a falar de João Gaspar Simões, David Mourão-Ferreira, Eugénio Lisboa (que ainda temos o prazer de ler de vez em quando) e poucos mais.

Fiquei muito satisfeito por ter aberto estas portas a quem por elas soube entrar. Agradeço do fundo do coração aos que, com os seus posts, fizeram com que uma ideia de trazer à baila meia dúzia de poetas pouco conhecidos, acabasse por me levar à quase obrigação de fazer um trabalho mais extenso.

Um blog é, ou pode ser, um espaço de convívio e partilha e só faz sentido pela convergência de vozes, às vezes mínimas, mas sempre generosas e amigas.

Agradeço profundamente aos posts (falharei muitos muitos nomes por certo) Licínia, Júlio Pego, Paulinha Caçadora de Emoções, Margarida Graça, Samuel, Rita Carrapato, Maria, Mariam, Eufrázio Filipe, Lena, Tiago Carvalho… Tantos mais.

Termino esta série com aquele que é o mais amado dos poetas fora de moda. O mais popular, o mais cantado, declamado e copiado de todos: o José Carlos Ary dos Santos. E se digo que ele foi e é um poeta fora de moda, quero falar das modas literárias, das “bem pensâncias”, daqueles que julgam que a poesia se suja quando desce à rua, que me menoriza quando assume causas, que se banaliza quando quer oferecer a sua música e as suas palavras àqueles que mais precisam delas.

Mas também quero dizer que o justificado amor de muitas pessoas pelo mais fácil e público do trabalho poético do Zé Carlos, acabou por deixar na obscuridade a sua poesia mais pessoal, mais torturada e, muitas vezes, mais elaborada. É essa poesia que quero lembrar aqui e deixar sinal de uma grande saudade por um homem cuja arte e coragem fazem muita falta a todos nós e à literatura portuguesa.

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

MARIA JUDITE DE CARVALHO (1921-1988)



Maria Judite de Carvalho

Nasceu em Lisboa. Entre 1949 e 1955 viveu em França e na Bélgica. Prosadora de notória qualidade embora menos divulgada do que mereceria.
A sua poesia resume-se a um livrinho póstumo intitulado "A Flor Que Havia na Água Parada". Vale a pena visitá-lo.

As portas que batem

As portas que batem
nas casas que esperam.
Os olhos que passam
sem verem quem está.
O talvez um dia
Aos que desesperam.
O seguir em frente.
O não se me dá.

O fechar os olhos
a quem nos olhou.
O não querer ouvir
quem nos quer dizer.
O não reparar
que nada ficou.
Seguir sempre em frente
E nem perceber.


Maria Judite de Carvalho

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

POLÍBIO GOMES DOS SANTOS (1911-1939)






Políbio Gomes dos Santos

Nasceu em Ancião e frequentou o Curso Superior de Letras em Coimbra. Faleceu muito jovem vítima de tuberculose. Começou por publicar na Presença mas tornou-se depois numa das vozes mais intensas da primeira geração do neo-realismo no Novo Cancioneiro.

VITORINO NEMÉSIO - À MEMÓRIA DE POLÍBIO GOMES DOS SANTOS

O poeta que morreu entrou agora,
Não se sabe bem onde, mas entrou,
Todo coberto de demora,
No bocado de noite em que ficou.
As ervas lhe desenham
Seu espaço devido:
Depressa, venham
Lê-lo no chão os que o não tinham lido
Que o sorriso que o veste
Já galga como um potro
As coisas tenebrosas,
E esquecido – só outro:
Este
Nem precisa de rosas.


Vitorino Nemésio

POEMA DA VOZ QUE ESCUTA

Chamam-me lá em baixo.
São as coisas que não puderam decorar-me:
As que ficaram a mirar-me longamente
E não acreditaram;
As que sem coração, no relâmpago do grito,
Não puderam colher-me.
Chamam-me lá em baixo,
Quase ao nível do mar, quase à beira do mar,
Onde a multidão formiga
Sem saber nadar.
Chamam-me lá em baixo
Onde tudo é vigoroso e opaco pelo dia adiante
E transparente e desgraçado e vil
Quando a noite vem, criança distraída,
Que debilmente apaga os traços brancos
Deste quadro negro – a Vida.
Chamam-me lá em baixo:
Voz de coisas, voz de luta.
É uma voz que estala e mansamente cala
E me escuta.

Políbio Gomes dos Santos

sábado, 23 de agosto de 2008

CABRAL DO NASCIMENTO (1897-1978)



Cabral do Nascimento

Nasceu no Funchal. Estudou Direito em Lisboa e Coimbra.
Professor e tradutor. Poeta elegante e discreto. A obra completa foi há pouco publicada pela ASA sob orientação de Vasco Graça Moura.

CANÇÃO

O lenço com que me acena
Tudo o que está para trás,
É coisa já tão pequena
Que me faz chorar a pena
E rir de espanto me faz.


Vejo-o ao longe, a se perder,
A se apagar, a sumir,
Mas não sei, a bem-dizer,
Se ele é que vai a morrer,
Se eu é que vou a fugir.


E o lenço, com que a distância
Me diz adeus lá do seio
Do mar, rasga abismos de ânsia
Entre mim e a minha infância,
Sem deixar nada no meio.

Cabral do Nascimento

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

JOÃO APOLINÁRIO (1924-1988)



Joãio Apolinário

Nasceu em Belas. Poeta, advogado e jornalista.

Foi para a França como correspondente da Agência Logos onde viveu os terríveis últimos tempos da Segunda Guerra Mundial

De regresso a Portugal foi co-fundador do Teatro Experimental do Porto. Anti-fascista, preso, acaba por procurar o exílio no Brasil em 1963. Com a ditadura dos coroneis volta a ser perseguido no país de adopção.

Em Portugal é quase desconhecido embora alguns dos seus poemas tenham sido musicados pelo filho, o músico João Ricardo, fundador do grupo "Secos & Molhados" onde também começou a sua carreira Ney Matogrosso.

SECOS & MOLHADOS

CARROCEL

O meu circo imaginário
com palhaços de papel
piruetas e brinquedos
viagens no carrocel
girando sempre ao contrário
quando dava corda nele

O meu circo imaginário
feito de pano e cordel
e mil pequenos segredos
(fantasias de papel)
ficando sempre ao contrário
do sonho que eu punha nele

O meu circo imaginário
e o meu belo corcel
cavalgando nos meus dedos
(fantasias de cordel)
sempre fazendo o contrário
daquilo que eu queria dele

O meu circo imaginário
meu brinquedo de papel
de magias e bruxedos
(fantasias de cordel)
da infância ao contrário
que vivi para sempre nele

João Apolinário

segunda-feira, 18 de agosto de 2008

HENRIQUE RISQUES PEREIRA (1930)





Henrique Risques Pereira

Nasceu em Lisboa em 1930. Aproxima-se dos surrealistas e participa em 1949 nas suas actividades.

Desaparecido das actividades artísticas e literárias, fez-se há pouco uma exposição da sua obra plástica na Fundação Cupertino de Miranda e a edição de toda a sua obra poética sob o título de "Transparência do Tempo", organizada por Perfecto E. Cuadrado, especialista na história do surrealismo português.

É curioso como o carácter efémero que era atribuído à própria obra por muitos dos que circularam à volta do Movimento Surrealista Português nos traga, ao abrir dos baús, algumas belissímas surpresas como é o caso deste poeta.

HENRIQUE RISQUES PEREIRA



hENRIQUE rISQUES pEREIRA

PAI

com a saudade do teu filho


Pai do menino do triciclo ingénuo
Pai do menino doente
Pai amigo dos meus amigos
Pai avô
Pai conselho refúgio e amparo
Pai já não há sol amanhã
Pai que frio ficou neste mundo
Adeus Pai
para sempre
Pai ficou o céu mais vazio
nem uma nuvem nesta imensidão
Pai que frio

Henrique Risques Pereira

sábado, 9 de agosto de 2008

FERNANDO LEMOS (1926)



Fernando Lemos

“Fui estudante, serralheiro, marceneiro, estofador, impressor de litografia, desenhador, publicitário, professor, pintor, fotógrafo, tocador de gaita, emigrante, exilado, director de museu, assessor de ministros, pesquisador, jornalista, poeta, júri de concursos, conselheiro de pinacotecas, comissário de eventos internacionais, designer de feiras industriais, cenógrafo, pai de filhos, bolseiro, e tenho duas pátrias, uma que me fez e outra que ajudo a fazer. Como se vê, sou mais um português à procura de coisa melhor. “

Fernando Lemos nasceu em Lisboa, em 1926. Actualmente, reside em São Paulo, no Brasil. Frequentou a Escola de Artes Decorativas António Arroio e o curso livre da Sociedade Nacional de Belas-Artes.

Com um percurso profissional ligado às artes gráficas e à publicidade, Fernando Lemos circula por muitos territórios da arte ao longo do seu percurso. A sua obra multifacetada estende-se ao domínio da pintura, do desenho, da ilustração e à fotografia, campo que alcançou maior visibilidade pública nos últimos anos.

A ligação de Lemos à fotografia tem lugar na passagem da década de 40 para a de 50, no período em que desenvolve a sua actividade artística junto do Grupo Surrealista de Lisboa.

Em 1952, não obstante a qualidade do seu trabalho fotográfico, Fernando Lemos abandona a fotografia. No ano seguinte, emigra para o Brasil, tendo aí prosseguido a sua produção no domínio do design gráfico, do desenho e da pintura, e realizado diversas exposições individuais e colectivas.

A sua poesia iconoclasta e surrealizante dá notícia de uma admirável voz livre e encantadoramente selvagem.

AUTORETRATO



Fotografia de Fwernando Lemos

HINO TRISTE SEM MELODIA

Uma tarde no Museu das Janelas Verdes
Lisboa 1975



Nós heróis do mar eis
nobre povo sempre as naus
na frente dos reis.
Primeiro a moldura depois
a pintura após o retrato
a epopeia depois do relato.

Às armas...Às armas...
Nuno Gonçalves primitivo
educado colectivo passaporte
nobre povo mas mísera sorte.
Onde pousaram às pressas
retornados não idos sentados
nos projectos
como se já fossem
esmaecidos abandonados.

Almada imortal plantel
Negreiros atrás da tábua
que no painel falta
para justificar a malta.

Levantai hoje de novo
todo o esplendor de Portugal
galinha após o ovo já que
primeiro Colombo depois
Cabral.

Azar mas...Azar mas...
pela pátria lutar.
Depois da casa roubada
as portas trancar.
Somar os séculos de Império
e Salazar pelos dedos 48 anos
detrito familiar.
Contar os trajectos
navegar navegar voltar
após vinhetas de sangue
fazer o mosteiro
capacho de choro milenar.

Chamar Nuno Gonçalves para pintar
Almada para reconstituir
murais para a nação destilar.
Quem vê caras não vê brasões
daí os retratos
e as condecorações.

É assim somos assim meu irmão
primeiro vítima depois
o Dom de Sebastião.
Para nós a Humanidade
é uma lotaria.
Fomos grandes por fora
colonos do riso sem alegria.

Primeiro a República
avental da Monarquia depois
maçónica a Ditadura
com selvajaria cheia de Peros
de Vazes de Escrivaninha.

Camões que precisou
naufragar para o original
dos Lusíadas na tormenta editar.

Nação sem dúvida valente e imortal
na emigrância per capita
fundamentar.

Azar mas...Azar mas...
unha por cunha coisa por loisa
casamento por procuração depois
por Brasil a noiva.

Fernando Pessoa que foi Ser
português voltou
para conferir a língua desolado
fiscal do produto viciado.

25 de Abril
apoteose de revista
todos os bons restantes
com os maus de antes
sem pontos de vista.
agora sem medo enredo
sem uma história prevista.

Agora o fado espanta
nosso retiro e desespero
talvez nos paguem a conta
ou só irónico o tempero.
Talvez se aprenda o ovo
depois da galinha depois do óbvio
da adivinha.

Levantai hoje de novo
o esplendor da galinha
o imortal povo
ovo pai da rainha.
Mas primeiro país depois
Portugal.

Pobreza em pó orgulho
pre-conceito generoso
e desfeito.
Viva meu irmão do coração
azar mas...às armas...
pela pátria lutar depois
sem mar
só com chão Recomeçar!

Fernando Lemos

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

RUI KNOPFLI (1932-1997)



Rui Knopfli

Nasceu em Inhambane, Moçambique e fez os seus estudos na África do Sul..
Entre 1958 e 1974 foi delegado de propaganda médica. Publicou o primeiro livro, O País dos Outros, em 1959. Foi director do jornal A Tribuna entre Maio de 1974 e Fevereiro de 1975. Co-dirigiu, com Eugénio Lisboa, os suplementos literários desse jornal e do A Voz de Moçambique. Lançou, com João Pedro Grabato Dias, os cadernos de poesia Caliban (1971-72), que reuniram colaboradores como Jorge de Sena, Herberto Helder, António Ramos Rosa, Fernando Assis Pacheco, José Craveirinha, Sebastião Alba, etc. Dirigiu o caderno Letras & Artes (1972-75), da revista Tempo, ali tendo publicado traduções de inúmeros poetas. Deixou Moçambique em Março de 1975, onde voltaria uma única vez - em Outubro de 1989.

Deixou Moçambique em 1975, mantendo nacionalidade portuguesa com alma assumidamente africana. Fez parte de uma geração de moçambicanos espalhados pelo mundo, que incluiu os poetas Alberto de Lacerda, Helder Macedo e Virgílio de Lemos, o cineasta Ruy Guerra, os filósofos Fernando Gil e José Gil, o arquitecto Pancho Miranda Guedes, o fotógrafo Pepe Diniz, a pintora Bertina Lopes e o ensaísta Eugénio Lisboa. Radicou-se em Londres em 1975. Aí exerceu, durante vinte e dois anos consecutivos, o cargo de conselheiro de imprensa (1975-97) junto da Embaixada de Portugal. Em 1984 recebeu o prémio de poesia do PEN Clube. Faleceu em Lisboa no ano de 1997.

Sempre me comoveram pessoas que nasceram em pátrias de cujas raízes físicas se perdem, por vezes, para sempre. O poema que abaixo publico fala disso mesmo. O que é a pátria? O que era a pátria para um português cujo território estava noutro continente?

PÁTRIA

Um caminho de areia solta conduzindo a parte
nenhuma. As árvores chamavam-se casuarina,
eucalipto, chanfuta. Plácidos os rios também
tinham nomes por que era costume designá-los.
Tal como as aves que sobrevoavam rente o matagal
e a floresta rumo ao azul ou ao verde mais denso
e misterioso, habitado por deuses e duendes
de uma mitologia que não vem nos tomos e tratados
que a tais coisas é costume consagrar-se. Depois,
com valados, elevações e planuras, e mais rios
entrecortando a savana, e árvores e caminhos,
aldeias, vilas e cidades com homens dentro,
a paisagem estendia-se a perder de vista
até ao capricho de uma linha imaginária. A isso
chamávamos pátria. Por vezes, de algum recesso
obscuro, erguia-se um canto bárbaro e dolente,
o cristal súbito de uma gargalhada, um soluço
indizível, a lasciva surdina de corpos enlaçados.
Ou tambores de paz simulando guerra. Esta
não se terá feito anunciar por tal forma
remota e convencional. Mas o sangue adubou
a terra, estremeceu o coração das árvores
e, meus irmãos, meus inimigos morriam. Uma
só e várias línguas eram faladas e a isso,
por estranho que pareça, também chamávamos pátria.

Rui Knopfli

terça-feira, 5 de agosto de 2008

JOSÉ CARLOS GONZÁLEZ (1937-2000)




José Carlos González

Filho de pais galegos imigrados, nasceu em Lisboa e viveu vários anos exilado em Paris, regressando em 1974. Morreu em Kerlaz, na Bretanha, seu local de residência após a aposentação.

Poeta, de origem galega, de raiz surrealista, e nunca fazendo "tábua rasa" dessa experiência, como nos explica João Rui de Sousa, "o seu discurso foi sendo contaminado pela alusão aos factos comuns do dia a dia, com predomínio notório do flash citadino".
Estudou Direito em Lisboa e Românicas e Ciências Políticas na Sorbonne em Paris. Escritor e tradutor, foi técnico da Biblioteca Nacional, onde teve a seu cargo os espólios de Raul Brandão e de Vitorino Nemésio e Raul Proença. Organizou, prefaciou e anotou as obras António Sérgio – Correspondência para Raul Proença (1987). Traduziu obras de Albert Camus, André Malraux, Marguerite Duras e Julien Green, entre outros. Colaborou em vários jornais e revistas.

Um dia, lá por 84, escreveu-me uma carta a dizer que eu tinha copiado o título de um seu livro intitulado "Cantigas de mar e ar". O meu livrinho chamava-se "Cantigas de marear". Eslarecido o equívoco, trocámos mais uma ou duas cartas amáveis. Cruzámo-nos depois algures e trocámos um abraço de amizade que, infelizmente, não teve mais ocasião para se consolidar.

Gosoto muito do tom algo insubordinado de alguns dos seus poemas.

MEMÓRIA DE MINHA MÃE

Por que razão pensei que fosses
mulher fria hierática distante
igual aos teus antepassados de Covadonga
aos Celtas híbridos de Ibéricos
e que os teus cabelos muito jovens brancos
sinal fossem de tudo isso?

Por que razão sempre te amei tão pouco
quando amar-te era o meu mais fundo desejo
saber quando rias era verdade
como as rias da nossa Galiza
e os recifes abruptos da velha Astúrica?

Agora que estás longe longe demais
os teus olhos secos a tua pele com algumas sardas
o teu andar vagaroso mas vivo
agora que tudo isso é uma ideia um repouso
forçado num pequeno cemitério chamado Xiesteira

talvez comece a saber que não eras uma mulher fria
e que me amavas porventura muito
à tua hierática maneira.

José Carlos González

domingo, 3 de agosto de 2008

ROSA ALICE BRANCO (1950)




Rosa Alice Branco

Natural de Aveiro.Licenciada em farmácia pela Universidade do Porto. Licenciada e doutorada em Filosofia pela Universidade do Porto. Professora e investigadora universitária.

Poeta do amor e da intensidade. É preciso lê-la.

FLOR DE TINTA

O poema é o desenho desta letra
inclinada pelo rumor do vento
quando lhe peço abrigo
e vejo nele o espelho do meu corpo
repousando nos teus braços de ontem.

A tinta ainda não acabou de secar.
O cheiro fresco da página vira-se para a página seguinte
e a minha voz ouve-se melhor ao vento
quando conspiramos silêncio
a próxima letra
e a exactidão do seu desenho.

Agora há mimosas nas árvores
e lá em baixo o rio já não é como era
nem saberia sê-lo.
Esqueci como se bebe a água pela mão
ou como se bebe a mão
do rio.

Eu existia nessa transparência,
na flor espiritual e líquida
da tinta
que retoca no papel a sua vida.
Esta letra é o meu nome soletrado por ti,
o meu nome que ainda não está seco
e te olha nas acácias florindo em amarelo
no rigor do inverno.

Qualquer palavra tua me desenha
e assim começa qualquer coisa
que me estava destinada desde sempre.


Rosa Alice Branco

sábado, 2 de agosto de 2008

INÊS LOURENÇO (1942)




Inês Lourenço

Nasceu no Porto É licenciada em Línguas e Literaturas Modernas (Estudos Portugueses) pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Trabalhou nos CTT e no Ensino Secundário.

Participou em diversos eventos dedicados à Poesia, entre os quais se destaca: - La Poèsie Portugaise Après Pessoa, Bibliothéque Faidherbe, Paris, 2000; - Encontros com Poetas, Fundação Eugénio de Andrade, 2000; - Vozes e Olhares no Feminino, Porto 2001, Biblioteca Almeida Garrett, com Teolinda Gersão e Isabel Allegro de Magalhães, 2001; - 4º Encontro Internacional de Poetas, Coimbra, Biblioteca Joanina, 2001;

Coordenou e editou desde 1987, os magníficos CADERNOS DE POESIA –HÍFEN, com 13 números editados, na sua maioria temáticos, publicação de carácter inter-geracional, em que participam, com colaborações inéditas, grande parte dos poetas portugueses actuais, bem como poetas de outras línguas.

O trabalho poético de Inês Lourenço anda em torno do quotidiano. Pega num pormenor, num momento, num quase nada e acende-lhe o verso que o transforma numa luz maior.

RUA DE CAMÕES

A minha infância
cheira a soalho esfregado a piaçaba
aos chocolates do meu pai aos Domingos
à camisa de noite de flanela
da minha mãe


Ao fogão a carvão
à máquina a petróleo
ao zinco da bacia de banho


Soa a janelas de guilhotina
a desvendar meia rua
surgia sempre o telhado
sustentáculo da mansarda
obstáculo da perspectiva


Nele a chuva acontecia
aspergindo ocres mais vivos
empapando ervas esquecidas
cantando com as telhas liquidamente
percutindo folhetas e caleiras
criando manchas tão incoerentes nas paredes
de onde podia emergir qualquer objecto


E havia a Dona Laura
senhora distinta
e a sua criada Rosa
que ao nosso menor salto
lesta vinha avisar
que estavam lá em baixo
as pratas a abanar no guarda-louça


O caruncho repicava nas frinchas
alongava as pernas
a casa envelhecia


Na rua das traseiras havia um catavento
veloz nas turbulências de Inverno
e eu rejeitava da boneca
a imutável expressão


A minha mãe fazia-me as tranças
antes de ir para a escola
e dizia-me muitas vezes


Não olhes para os rapazes
que é feio.


Inês Lourenço

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

ANTÓNIO JOSÉ FORTE (1931-1988)



António José Forte


Nasceu na Póvoa de Santa Iria. Ligado ao movimento surrealista, integrou o chamado grupo do Café Gelo. Foi funcionário da Fundação Calouste Gulbenkian, onde, durante mais de 20 anos desempenhou as funções de Encarregado das Bibliotecas Itinerantes.

A sua poesia é tensa, intensa, subverte imagens, parte o vidro das palavras e faz-nos abanar e interrogar o mundo do quotidiano à nossa volta.

A sua obra está reunida em Uma Faca nos Dentes (Parceria A. M. Pereira), com prefácio de Herberto Helder. António José Forte faleceu em Lisboa no dia 15 de Dezembro de 1988.

LIBERTAÇÃO

Descerão por paredes sangrentas
e subirão do asfalto
ganindo com um prego na língua
com os pulsos atados às patas
sobre pulmões raivosos em barcos de esterco
e não olharão nem para baixo nem para o alto
mas para a frente
para o horizonte de fatias vermelhas
e para trás
para os afogados sem mar sem terra natal sem paisagens marinhas
cada um com um buraco em seu peito
esguichando palavras estridentes
descerão atravessando gargantas
e subirão pela espinha a golpes de jejum
descerão empurrando palavras
transportando-as ao pescoço como cintos de salvação
abrindo crateras nas cabeças queridas
e olhos nos olhos dos aflitos
subirão do asfalto
transparentes e feridos
com os olhos nas mãos
a cabeça no sangue
chegarão aos pares ligados pela boca
com um estandarte negro seguro nos dentes
e descerão sempre cada vez mais e cada vez mais alto
até chegarem á orla do inferno chorarem as últimas lágrimas e partirem de vez.


António José Forte

quinta-feira, 31 de julho de 2008

SAÚL DIAS (1902-1983)



Saúl Dias

Saúl Dias é o pseudónimo poético do Júlio Maria dos Reis Pereira, irmão de José Régio.

Viveu na cidade do Porto onde se licenciou em engenharia civil pela Faculdade de Engenharia. Colaborou em vários jornais e cultivou o desenho e a pintura. Existe uma relação muito próxima entre a sua produção poética e a sua actividade como artista plástico.

Como artista plástico colaborou frequentemente na revista "Presença".

Não será um poeta desconhecido mas é certamente um poeta atirado para o limbo dos descartáveis (honra seja feita à Editora Quasi que pelo livro de homenagem que publicou).

Às vezes sabe bem e limpa a alma conviver com essa simplicidade lírica que caracteriza tanto a sua pintura como a sua poesia.

TODOS OS DIAS

Todos os dias
nascem pequenas nuvens,
róseas umas,
aniladas outras,
nacaradas espumas…

Todos os dias
nascem rosas,
também róseas
ou cor de chá, ou veludo…

Todos os dias
nascem violetas,
as eleitas
dos pobres corações…

Todos os dias
nascem risos, canções…

Todos os dias
os pássaros acordam
nos seus ninhos de lãs…

Todos os dias
nascem novos dias,
nascem novas manhãs…

Saúl Dias

quarta-feira, 30 de julho de 2008

MANUEL ALBERTO VALENTE (1945)



Manuel Alberto Valente


Nasceu em Vila Nova de Gaia, licenciou-se em Direito pela Universidade de Lisboa e foi jornalista na revista Vida Mundial.

Começou a trabalhar na edição no final dos anos 60, na Inova. Tem corrido diversas editoras, nomeadamente a D. Quixote e a Asa, onde tem contribuido para a edição em Portugal de algumas das mais importantes obras da literatura mundial bem como para a divulgação de alguns dos mais destacados escriores portugueses.

É actualmente director da Divisão Editorial de Lisboa da Porto Editora.

Recentemente foi nomeado Cavaleiro da Ordem das Artes e das Letras pelo governo francês.

O Manuel, amigo de encontros esparsos, não gosta especialmente de relembrar o seu trabalho poético que parou pelos anos 70.

Eu gosto muito deste poema que publico abaixo e que foi editado em 1970.

LADAÍNHA PARA O TEU ADORMECER

um velho muito velho a sonhar com a Soraya
um padre muito padre a dizer que é ateu
um prédio quase novo que se espera que caia
uma homenagem póstuma a alguém que não morreu

uma canária virgem que abandonou o ninho
uma fonte com água quase a morrer de sede
a dez tostões esticadores p’ró colarinho
um ginasta atrevido que trabalha sem rede

uma pomada mágica do próximo oriente
um macaco sem rabo que foi de foguetão
um bébé sem cabelo a chorar por um pente
uma tia doente a arder no fogão

uma cautela em branco na roda de amanhã
um nariz muito sujo sem ter onde se assoe
um ramo de camélias a estrelar na sertã
e que deus nosso senhor vos abençoe

Manuel Alberto Valente

terça-feira, 29 de julho de 2008

EDGAR CARNEIRO (1913)




Edgar Carneiro

Licenciado em Ciências Histórico-Filosóficas pela Universidade de Coimbra. Foi professor em Chaves, Lisboa, Porto, Vila Real, Fiães e Espinho, cidade onde vive desde 1967
.
Fez parte do Orfeão Académico de Coimbra e foi um dos fundadores do TEP - Teatro Experimental do Porto.

É pai do poeta, já falecido, Eduardo Guerra Carneiro.

Poeta claro, conciso e musical que vale muito a pena conhecer. Não é fácil encontrar os seus livros, a não ser o último, "Depois de amanhã", publicado pela Campo das letras.

Às vezes trocamos algumas palavras por escrito. previlégio meu. A sua amével verticalidade está tão presente nas cartas como nos versos.

ROTEIRO

De mar a mar e sempre
Ao sabor da maré
Até chegar feliz
À praia, ao porto, à ilha,
Ao alegre país
Da maravilha,
Ao longínquo sertão,
A qualquer céu possível
Ou local
Onde o Sol nos dê o pão
E o amor lhe ponha o sal.

Edgar Carneiro