segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

MAIS POESIA



"O AMANTE JAPONÊS", ARMANDO SILVA CARVALHO

Poeta excepcional com uma poesia forte, por vezes rude mas complexa.

Há pouco menos de anos que tenho como imprescíndivel.




"O PROBLEMA DE SER NORTE", FILIPA LEAL

Uma das vozes jovens da poesia portuguesa que me fez parar e pensar: aqui há gente!

Muito bom o sentido de humor e a bela construção do verso a revelar uma cuidada oficina da escrita que está ausente em muita da poesia jovem.

Tenho curiosidade em ler mais. Porque isto das artes é como correr a maratona. É preciso ver quem é que chega ao fium dos 42 kilómetros. Assim a Filipa Leal continue.



"QUARTETO PARA AS PRÓXIMAS CHUVAS", JOÃO RUI DE SOUSA

Grande senhor da nossa poesia. Vem da resistência. Nunca se pôs em bicos de pés e é um grande oficial da arte da escrita. Um prazer lê-lo e relê-lo porque é daqueles casos em que a musicalidade do verso não resulta de facilidades. Uma prova de que é possível a rima a par com a complexidade.



"O ESPÍRITO DO LUGAR", ORFEU B.

Cientista e professor universitário no IST de Lisboa.

Livro muito intenso, inspirador, invulgar na sua concepção onde se misturam poesia e prosa para circular em torno da análise do horror e da barbárie que se concretizaram no holocausto.

Merece ser lido em voz alta como se de uma partitura musical se tratasse. Um caminho invulgar e de grande qualidade entre a poesia que se publica em língua portuguesa.

sábado, 10 de janeiro de 2009

QUERIDAS LEITURAS 3

Mais algumas leituras de 2008. Agora a poesia.

A poesia portuguesa não anda de vento em poupa. São muito poucos os novos poetas com alguma qualidade.

Se é impressionante o número de grandes poetas e grandes obras na poesia portuguesa de poetas nascidos entre a mnetade do do séc. XIX e os anos 60 do séc. XX.

Com raras excepções, na poesia dos poetas mais jovens que começam a publicar a partir do final dos anos 80, início dos 90 (do séc. XX) parece instalar-se uma crise de espessura poética e da própria qualidade da escrita em simultâneo com a ausência de projectos de ruptura estética ou geracional.





"A FACA NÃO CORTA O FOGO", HERBERTO HELDER

Cada novo poema de Herberto é uma revelação, um choque, um mergulho, uma aventura única no universo da grande poesia, essa "liberdade livre" de que falava António Ramos Rosa. 70 novos poemas de Herberto são um luxo que dá para ficar no nosso peito durante muito tempo.


“NÃO HÁ POETAS FELIZES”, JOSÉ JORGE LETRIA

A poesia do meu amigo Zé Jorge tem sido irregular e, por vezes, prejudicada pela sua imensa facilidade de escrita.

No entanto, a partir de “O livro branco da Melancolia”, a espessura emocional e poética mostra-nos que ele começou a construir uma obra dentro da obra. Uma obra de sofrimento, de balanço melancólico das memórias de infância, dos percursos de vida, do amor ou da sua ausência, da relação obsessiva com os filhos, por um lado, e por outro com a figura do pai há muito desaparecido.

Os últimos livros do Zé Jorge Letria estão seguramente entre a melhor poesia deste início de século.



"A MATÉRIA DO POEMA“, NUNO JÚDICE

O lirismo discreto e elegante do Nuno Júdice tem acompanhado a minha vida. O Nuno faz parte dos poetas de que não prescindo.

Este é talvez o livro dele que mais me entusiasmou. Talvez pelo alargar da matéria do poema á respiração do mundo. É possível que o andar ao lado de Manuel Alegre o tenha predisposto a aproximar-se mais das praças da canção.e ainda bem que assim é.




"SONETOS ERÓTICOS & IRÓNICOS & SARCÁSTICOS & SATÍRICOS
& DE AMOR & DESAMOR & DE BEM & DE MAL DIZER DO POETA JOAQUIM PESSOA"

O Joaquim é dos artífices mais eficazes da poesia portuguesa. A música vem-lhe no verso como uma segunda respiração.

Estes sonetos são muito divertidos e uma prova da sua qualidade e artesania.

Há muito tempo por certo que não se publicava um livro de poesia erótica. Vale a pena lê-los para nós. lê-los aos amigos e, sobretudo, às amigas, ou vice-versa, porque o livro não desmerece nem nos versos nem nas ilustrações.

Grande malha, Quim!

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

OLHÓ CUTILEIRO!



(Júlio Pomar)

Andava eu na volta das livrarias e estava, a dado momento, a ver a montra da renovada Livraria Sá da Costa no Chiado em Lisboa, ao lado da pastelaria Bénard.

Sou normalmente um alvo fácil para os muitos pedintes, com diversas características e peculiaridades, que abundam por aquela zona e que, ao reconhecer-me da televisão ou doutro sítio qualquer, se agarram a mim como sanguessugas à cata da chorada moeda.

Estou habituado a este ataque como a uma fatalidade a que não consigo escapar. Não tenho princípios inabaláveis quanto á questão dos pedintes. Dou a moeda quando dou e não me sinto obrigado a explicar nem a mim próprio porque é que o faço ou não faço.

No Chiado os pedintes são muitos. E se me demoro por ali um par de horas já sei que os ataques se sucedem quase ininterruptamente.

As moedas não chegam para todos. Escolho sempre dois ou três, os que tenham alguma originalidade, alguma delicadeza, alguma efectiva mazela mais grave.

Desta vez, à porta da Sá da Costa fui atacado sorridentemente por um jovem que me dizia e repetia:

“Ah! Ganda Zé Fanha, dá aí uma moedinha, um euro, vá lá, Zé Fanha, ganda músico, uma moedinha, só um euro, Zé Fanha, só um euro!”

Já estou habituado a ser tomado por músico, cantor e muitas outras coisas mais. Não me ofendo. Mas era para aí o sétimo a pedir-me uma moedinha naquele dia. Já vinha no fim da fila. Levou um sorriso e um rotundo “Hoje não há mais moedas!”

Tentou mais uma ou duas vezes mas acabou por desistir. Largou-me e, logo de seguida, ouvi nas minhas costas:

“Ah! Ganda Cutileiro, dá aí uma moedinha, um euro, vá lá, Ó Cutileiro, ganda escultor, uma moedinha, só um euro, Cutileiro, só um euro!”

Sorri todo satisfeito. Ia dar um valente abraço ao meu amigo João Cutileiro. Voltei-me para trás e dei, não com o João Cutileiro, mas com o Júlio Pomar que acabava de se livrar do pedinte com um largo sorriso de bonomia.

Eu não conhecia pessoalmente o Júlio Pomar mas tenho uma imensa admiração por ele e pela sua obra. Começámos a conversar.

O Júlio Pomar acabou por me dizer: "Vamos mas é tomar um café e conversar um bocado!”

Descobrimos amigos comuns. Falámos de pintura, de poesia e da Escola de Belas Artes, ali a dois pés, onde ambos estudámos com alguns anitos de diferença. Foi dos melhores bocados de conversa que tive nos últimos tempos.

E tudo graças a um pedinte que precisa de actualizar as suas referências culturais…

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

LEITURA COM TODOS



Ler implica um conjunto de rituais, de objectos auxiliares e de escolha de espaços.

Há quem leia na cama, na cozinha, na sala, no chão, no velho cadeirão já feito ao corpo, na paragem do autocarro, no banco do Metro, no jardim, na sala de espera do dentista, na fila para o balcão dos CTT...

O corpo também lê. Ou melhor, o corpo também se predispõe ao acto de degustar a leitura, embora haja quem leia de qualquer maneira e em qualquer altura porque a urgência é muita.

Tudo depende também do autor, do assunto, da forma como se "mastiga" cada texto.

Não se lê da mesma maneira um livro de poesia, um romance policial, um ensaio ou um grande romance. A nossa atitude, a nossa relação com o livro, a forma como namoramos o livro é diferente.



Seja como for, ler é sempre um acto mágico que nos abre portas para nós próprios e para o mundo.

Eu sou quem sou com tudo o que li, o que escrevi, o que pensei. E com os amores em que ardi e os filhos que amo. Com os livros que desejei, sonhei ler, os que abandonei a meio, os que reli uma e outra e outra vez.

Vai ficar mais pequenino, com certeza, quem não for capaz de se abandonar á leitura de um romance de Simenon, de García Marquez, Steinbeck, Dickens, aos contos de Giovanni Papini ou de Flannery O'Connors, á prosa única de Eça ou de Cardoso Pires, aos poemas de Rilke, Pessoa, O'Neill, Ruy Belo, Prévert, Walt Whitman ou Lorca (e tantos, tantos mais).

Quem não se perder nestes encantos vai morrer sem percorrer alguns dos mais fantásticos caminhos do Homem.

sábado, 3 de janeiro de 2009

LIVRARIA LELLO



Há toda uma série de objectos, espaços, hábitos, que caracterizam uma relação específica com o acto de ler de uma pessoa ou de uma época.

Há espaços que ficarão para sempre ligados no imaginário de muitos leitores ao supremo luxo da leitura.



Aqui ficam algumas fotografias da maravilhosa Livraria Lello do Porto. Passar lá uma tarde devia ser remédio receitado por qualquer terapeuta para a obtenção de tranquildade e capacidade de voar.



Há espaços destes por cujo futuro tememos. Todos conhecemos os efeitos da vandalização pós-saloia e neo-liberal. Esperemos que eles andem distraídos a afundar bancos e a dar cabo da nossa vida mas, pelo menos, poupem espaços mágicos como este.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

QUERIDAS LEITURAS

Leio tanto quanto posso.Faço da leitura uma relação imprescindível com o mundo, com os outros, comigo próprio.

Não tenho nenhum programa de leitura. Sou um nómada dos livros. Vou ao sabor de opiniões ou desopiniões de amigos, da corrida aos autores que me acostumei a amar, ou a outros pelos quais me nasceu alguma forma de curiosidade. Às vezes sigo pelo wncanto das capas, pelo resumo da badana, sei lá que mais.

As minhas leituras não são exemplo para nada nem para ninguém. Mas gosto de partilhar paixões e, entre essas, as que nasceram por alguns dos livros que li.

Fim do ano é altura de balanços. Porque não fazer o meu balanço de leituras?

Li o que li. Gostei do que gostei. Para que conste fica aqui. Mas que ninguém pense que pretendo fazer desse balanço qualquer exercício de autoridade policial.



“FIRMIN”, SAM SAVAGE

Logo no início do ano li uma referência na "Babélia" do "El País" que me deixou de água na boca. Fui ler em espanhol (ainda não existe edição portuguesa. É o primeiro romance do autor, professor de filosofia numa universidade americana. Uma delícia rara. A história de Firmin, um rato que nasce no sótão de um alfarrabista. É o 13º filho de uma ratazana alcoólica que só tem 12 tetas. Firmin fica sempre de fora do materno leite e resolve a fome comendo livros. Daí, ficar um rato culto. E isto é só princípio. O romance é uma divertida e amarga reflexão sobre a nossa condição e a nossa identidade através deste rato maravilhoso.



“O DIABO E OUTROS CONTOS”, LEV TOLSTOI

Este ano passou muito para mim sob o signo de Tolstoi. Ando fascinado com a sua arte notável e a forma como expõe o mais secreto da natureza humana. São excelentes as traduções que o casal Nina e Filipe Guerra têm feito para português.

Tremi com "A morte de Ivan Ilitch" e "A valsa de Kreutz". As personagens de Tolstoi somos nós, cada um de nós, no mais fundo e scondido dos nossos corações.

Os contos de "O Diabo" são de várias épocas da sua vida. Têm diferentes respirações mas são todos eles, pequenas obras primas que nos levam a pensar que a arte da escrita é provavelmente a suprema entre todas as artes.



“O ÚLTIMO LEITOR”, DAVID TOSCANA

É espantosa a quantidade de belíssimos escritores latino-americanos que surgem a cada dia que passa.

este conta-nos a história de um homem que aceita ser bibliotecário numa aldeia do deserto e que censura os livros que acha mal escritos. E é também a história de um crime e de como o bibliotecário o tenta descobrir e encobrir a partir dos romances que leu.

É finalmente a história de um amor improvável e impossível em torno do amor aos livros e às histórias que eles contam. O amor por uma mulher a quem mataram a filha e a quem o bibliotecário vai dando pistas verdadeiras e falsas a partir da paixão comum pela leitura e pelos livros.

"O último Leitor" é um pouco nós que, através das leituras, andamos à procura de um fio para nos entendermos connosco próprios e com o mundo.



“UM BOM HOMEM É DIFÍCIL DE ENCONTRAR”, FLANNERY O’CONNOR

Andei com o livro debaixo de olho muitos meses. Finalmente peguei nele e foi como se um terramoto me tivesse apanhado.

A autora fala-nos de uma América rural, sulista, racista, mesquinha, obscura. E em cima desse cenário faz-nos mergulhar na cabeça de pessoas obsessivas, desconfiadas, medrosas, limitadas. Gente terrível, gente carregada daquilo de que se faz a humanidade em todas as suas vertentes. Gente sem horizontes. Encerrada numa imensa paisagem, num imenso país que parece uma grande colmeia com muitos pequenos favos completamente isolados entre si.

A narração faz-nos mergulhar num estado de espanto, por vezes com alguma ternura, muita melancolia, e momentos de pura surpresa e pavor.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

40 ANOS

Não gosto de comemorações oficiais. Nem de medalhas. Nem de efemérides. Todos os dias da minha vida pensei que amanhã é que ia ser o melhor dia de todos. E continuo a pensar o mesmo. Amanhã é que vai ser!

No entanto... Os anos passam. E as memórias são aquilo que o mar da vida nos deixa aos pés e nos dá consistência aos dias que estão para vir.

Há 40 anos, 1969, eu e o José Jorge Letria tínhamos acabado de nos conhecer. 18 anos. A mesma idade e apenas 3 meses de diferença. Eu andava em Belas Artes e ele em Letras, creio eu.

Não gostávamos do país onde vivíamos. Ou melhor... Não gostávamos de quem mandava neste país policiado e que nos obrigava a uma guerra injusta e sem solução. Por isso, andávamos numa roda viva. Ele com as canções. Eu com a poesia e a declamação. Cruzávamo-nos com frequência nos convívios das Faculdades de Lisboa. Medicina, Técnico, Ciências, Económicas.

1969 foi o ano em que começámos o nosso percurso de escritores e artistas. faz agora 40 anos de vida, de palco, de livros, de filhos, de paixões, de poesia.

Cruzámo-nos muitas vezes. Pisámos os mesmos palcos. de poesia às costas atravessámos o país de Norte a Sul. Andámos pelo estrangeiro. Vimos crescer e ensombrecer muitas esperanças.

Para além de tudo o mais, temos em comum grandes amigos, companheiros de sonhos e utopias que estarão sempre onde nós estivermos. Os que estão, embora não estejam, como o Zeca Afonso. Os que estão e continuam inquietos como nós, o Manuel Freire, o Xico Fanhais, o Samuel, a Hélia Correia, o Joaquim Pessoa... E mais e mais... E nem dez blogs iriam chegar para os recordar a todos.

40 anos de voltas e viravoltas.

Um abraço para o Zé Jorge. Um abraço para todos, todos, todos aqueles com que nos cruzámos e que fizeram com que estes 40 anos fossem tão importamntes para nós.



A capa de um disco do Zé Jorge de 1972.



Eu próprio numa pose muito neo-dadáista- Beaux Arts-etc-e-tal-e-coisa por volta do mesmo ano.

quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

SALVEM OS RICOS, AJUDEM OS MILIONÁRIOS



(Desenho de André letria)

Imagem possível do ano que passou se exceptuarmos os que lutam contra a corrente, entre os quais os 120.000 professores que vieram para a rua, a praça pública onde desde a Grécia clássica sempre se discutiram as coisas da Polis.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

LITANIA PARA ESTE NATAL



(Foto Henry Cartier Bresson)


Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto
num sótão num porão numa cave inundada
Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto
dentro de um foguetão reduzido a sucata
Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto
numa casa de Hanói ontem bombardeada

Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto
num presépio de lama e de sangue e de cisco
Vai nascer esta noite á meia-noite em ponto
para ter amanhã a suspeita que existe
Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto
tem no ano dois mil a idade de Cristo

Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto
Vê-lo-emos depois de chicote no templo
Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto
e anda já um terror no látego do vento
Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto
para nos vir pedir contas do nosso tempo.


David Mourão-Ferreira

domingo, 21 de dezembro de 2008

PORQUE É NATAL



Queridas amigas e amigos,

O que eu gostava mesmo era de ser o Pai Natal. O verdadeiro. O autêntico. O que desce pelas chaminés e leva uma prenda a cada menino. E, já agora, a cada adulto.

Sei que já não há chaminés por onde possa escorregar um Pai Natal que se preze. Teria de aprender outros truques para entrar na casa de cada um.

Mas havia de levar prendas daquelas que não são compradas à pressa. Nem precisam de muitos laços e fitas. Prendas com prendas dentro. Das que ficam muito tempo a fazer ninho no coração das pessoas.

Levava sorrisos. Sobretudo sorrisos. Não daqueles que se acendem a medo, de espinhela dobrada, “com-licença-faz-favor”. Mas sorrisos fortes como os dos homens que são capazes de olhar de frente a vida e dar a volta aos tropeços do destino.

Levava palavras. Palavras escritas devagarinho e com todas as letras. Palavras fraternas e limpas como as pedrinhas que se apanha à beira mar. Cada uma escolhida de propósito para cada pessoa.

Levava livros também. Daqueles que nos oferecem muitas horas de viagens verdadeiras, de alegria, de espanto, de maravilha, de medo, de ternura. Daqueles que nos fazem conhecer outras pessoas, com outros desejos, outras dores e outros sonhos. Livros que nos ajudam a saber que cada um de nós não é o centro do mundo e nos permitem a festa estender pontes daqui para ali, do nosso peito para o longe do universo.

Talvez não consiga levar-vos tudo isto pessoalmente. Mas segue um abraço dado com toda a força e o desejo de muita luz neste Natal.

José Fanha

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

LA SAETA



Há canções que nos marcam e nos comovem e nos acendem uma luz especial lá muito no fundo do peito.

Esta é uma delas, para mim. Poema de um dos meus poetas favoritos, António Machado. Música de Joan Manuel Serrat, aqui cantada por esse extraordinário cantor que foi Camarón de la Isla.


LA SAETA

¿ Quién me presta una escalera
para subir al madero,
para quitarle los clavos
a Jesús el Nazareno?

Saeta popular



¡Oh, la saeta, el cantar
al Cristo de los gitanos,
siempre con sangre en las manos,
siempre por desenclavar!
¡Cantar del pueblo andaluz,
que todas las primaveras
anda pidiendo escaleras
para subir a la cruz!
¡Cantar de la tierra mía,
que echa flores
al Jesús de la agonía,
y es la fe de mis mayores!
¡Oh, no eres tú mi cantar!
¡No puedo cantar, ni quiero
a ese Jesús del madero,
sino al que anduvo en el mar!

António Machado (Poeta espanhol)

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

EB 1 DA QUINTA DO CAMPO



O trabalho de muitos professores que estão á frente da dinamização das Bibliotecas Escolares é quase sempre fantástico e apaixonado como nas escola deste agrupento com as professoras Rosa Serra e Conceição Reboredo.

Deles depende a promoção do livro e da leitura que são uma das tarefas fundamentais do nosso ensino. Sem vencermos a batalha da leitura não há computador por mais magalhães que seja que nos sirva seja para o que for.

Muitos dos professores que se entregam a esta função de alma e coração receiam que a política economicista e facilitista deste governo estrangule a breve prazo as bibliotecas e o seu trabalho.

Vamos esperar que não. Que a falta de bom senso que tem campeado seja aplainada para que a luta pela exigência, pela excelência, pela leitura, pela educação no sentido mais nobre da palavra, e, já agora, pela poesia, não tenham que passar á clandestinidade.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

EL CORTE INGLÊS - NA CADEIRA DO PAI NATAL



A contar histórias e apresentar "Os sapatos do Pai Natal" sentado na cadeira do Pai Natal no 7º andar do El Corte Inglês onde se dão acontecimentos culturais de invulgar qualidade.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

KURT WEILL - SEPTEMBER SONGS




A RTP passou há alguns anos um extraordinário programa intitulado "Seprember songs" de homenagem a Kurt Weill, compositor alemão que fez a música para várias das peças e óperas de Bertolt Brecht. E não só.

Nesse programa, filmado numa velha fábrica abandonada participavam Lou Reed, P. J.Harvey, Betty Carter, Charlie Haden e outros.

Quando vi o programa comovi-me. Porque gosto muito da música de Weill. Porque em várias colaborações com o João Lourenço e a Vera San Payo fiz as versões para português de muitas letras de canções de Weill na "Ópera de três vinténs", na "Ascensão e queda da cidade de Mahagonny" e noutras.

A gravação do programa desapareceu-me. O meu amigo Tiago reencontrou as canções no You Tube. Vale a pena ver.

Aqui temos Nick Cave a cantar a célebre "Die Moritat vom Mackie Messer" da "Ópera de três vinténs" que se tornou num grande sucesso sob o título de "Mack the Knife"

domingo, 7 de dezembro de 2008

CRISE FINANCEIRA - NACIONALIZAÇÃO DE UM BANCO DE JARDIM




BANCARROTA

Crise financeira motiva nacionalização acidental de banco de jardim
Quando Joaquim Pires, jardineiro ao serviço da Câmara Municipal de Lisboa, decidiu solicitar aos seus superiores autorização para intervir num banco degradado do Jardim da Estrela, estaria longe de prever as bizarras consequências do seu zelo profissional. Duas semanas depois da participação, quando Joaquim comprara já madeira e verniz para proceder à reparação, foi surpreendido por uma nota oficial informando-o de que deveria abster-se de qualquer acção porque o referido banco entrara em processo de nacionalização. “Em quarenta anos de profissão, já vi um homem adulto a nadar com os patos e a fazer quá-quá, já encontrei reformados a jogar strip poker em pleno Inverno e até já lidei com alguém que andava a esculpir formas obscenas nos cactos, mas uma coisa destas surpreendeu-me”, refere o jardineiro. O engano ter-se-á devido a erro de processamento do sistema informático da administração central (composto por computadores Magalhães) que terá ignorado a multiplicidade de significados da palavra “banco”, depois de directivas rigorosas para lidar prontamente com todas as dificuldades de instituições bancárias e evitar o seu colapso. Sem querer reconhecer o erro, o governo prepara-se para nomear um administrador para o banco do Jardim da Estrela, bem como uma equipa de oitocentos colaboradores a tempo inteiro, instalados num edifício alugado nas imediações e submetido a dispendiosas obras de remodelação. Entretanto, Dias Loureiro deixou bem claro que nunca se sentou no banco em questão e a Presidência da República tornou público que Cavaco Silva não frequenta jardins porque a cor verde lhe provoca azia. Com o passar do tempo e o aumentar da degradação, o banco nacionalizado foi recentemente removido do local em que se encontrava, mas isso parece não incomodar ninguém.

Texto do blog INEPCIA.

sábado, 6 de dezembro de 2008

MAIS MOMENTOS



Sob direcção do Manuel Amaro da Costa, com o Rui Mendes, a fazer um pequeno papel na versão portuguesa do "Sim, sr. Ministro". Há-de ter sido lá por 1996 mais coisa menos coisa.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

MOMENTOS



Com o Joaquim de Almeida num dos programas que mais prazer me deu escrever que se chamava "DOCAS", 1996, TVI.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

COMO LA CIGARRA



Mercedes Sosa


COMO LA CIGARRA

"Tantas veces me mataron, tantas veces me morí, sin embargo estoy aquí resucitando.Gracias doy a la desgracia y a la mano con puñal, porque me mató tan mal,y seguí cantando.

Cantando al sol, como la cigarra, después de un año bajo la tierra, igual que sobreviviente que vuelve de la guerra.

Tantas veces me borraron, tantas desaparecí, a mi propio entierro fui, solo y llorando. Hice un nudo del pañuelo, pero me olvidé después que no era la única vez y seguí cantando.

Cantando al sol, como la cigarra,después de un año bajo la tierra, igual que sobreviviente que vuelve de la guerra.

Tantas veces te mataron, tantas resucitarás cuántas noches pasarás desesperando. Y a la hora del naufragio y a la de la oscuridad alguien te rescatará, para ir cantando.

Cantando al sol,como la cigarra, después de un año bajo la tierra, igual que sobreviviente que vuelve de la guerra".




María Elena Walsh - Poeta Argentina

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

VIVA A GREVE

A greve é o poder de quem não tem poder, a voz de quem não tem voz, a luz de quem vive na escuridão.

A greve é sagrada. Vem de longe. Vem do sangue, da fome, do desespero. Vem do amor aos filhos.

A greve é a festa de quebrar barreiras. O luxo da amizade e do companheirismo.

Quando não vem da remoenga burcrática, quando nasce da garganta e do coração, a greve é um poema escrito a muitas vozes.

Talvez por tudo isto os poetas estejam sempre em greve contra o lado negro da vida.

Viva a poesia! Viva nós! Viva a greve!

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

ADALBERTO ALVES RECEBE PRÉMIO SHARJAH DA UNESCO




O meu querido amigo Adalberto Alves foi laureado pela UNESCO com o Premio Sharjah 2008, que visa distinguir quem tenha contribuído de forma relevante para a promoção, preservação e revitalização da cultura árabe no mundo.

Adalberto Alves, que preside actualmente ao Centro de Estudos Luso-Árabes de Silves, foi laureado na sequência de recomendações de um júri internacional que analisou 33 candidaturas, apresentadas por 20 Estados-membros da UNESCO.

Para o Adalberto Alves, receber este prémio "é o coroar de muitos anos de trabalho de divulgação da herança árabe na cultura portuguesa".

Na sua obra vasta gostava de destacar os livros "O meu coraçõa é árabe", "Al-Mu'tamid/ Poeta do Destino".

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

UM POSTAL ERÓTICO



O meu amigo Mário Alberto foi a última pessoa a morar dentro do Parque Mayer.

Pintor, cenógrafo, boémio, iconoclasta assumidíssimo, o Mário Alberto, hoje doente, é um homem com um sentido de humor único e uma vida cheia de histórias absolutamente deliciosas e delirantes.

Conhecemo-nos quando ele desenhou a roupa para o primeiro trabalho de ficção que fiz para a RTP, uma série infantil chamada "Zarabadim". Ficámos amigos desde logo.

Numa altura de vida complicada, quando eu estava em baixo ia ter frequentemente com ele ao "escritório", ou seja, à cervejaria Ribadouro a dois passos do parque Mayer, onde o Mário "recebia" os amigos lá por volta da meia-noite.

Duas ou três histórias do Mário Alberto e todas as nuvens se me afastavam dos olhos, a alegria voltava, a gargalhada era garantida.

Um dia cheguei ao Ribadouro e o Mário Alberto quase saltava da mesa. "Ainda bem que apareces! Preciso que me escrevas um postal erótico. Mas em francês. Eu falar francês, falo como o caraças. Mas para escrever é que é mais difícil..."

O postal era para uma rapariga. Até aí tudo bem. Mas a rapariga era muito invulgar: uma beldade argelina!

Tudo tinha começado num restaurante da zona de Santos. A um canto almoçava um grupo grande de argelinos de passagem por Lisboa num cruzeiro. Entre eles, uma beldade "de fazer parar o trânsito".

O Mário Alberto não perdeu tempo. Na toalha de papel fez-lhes umas caricaturas rápidas e lá foi de toalha em punho meter conversa com eles mas, está visto, sempre de olho na beldade.

Ficaram amigos, trocaram moradas com aquela exuberância de quem sabe que nunca mais se há-de voltar a encontrar.

Mas o Mário Alberto ficou a empreender e resolveu mandar um postal erótico à rapariga e convidá-la a vir passar uns dias a Lisboa.

Com alguma apreensão lá escrevi o postal que ele já tinha bordado a desenhos devidamente alusivos.

Passaram-se dois ou três meses até voltar a vê-lo. Então e a argelina?, perguntei-lhe eu. "Nem me digas nada! Uma desgraça!" respondeu-me o Mário ironicamente pesaroso.

A argelina respondeu ao postal erótico e mostrou-se muito feliz com a perspectiva de vir ter com ele a Lisboa. Combinaram tudo. No dia aprazado o Mário Alberto muniu-se de um grande olho de rosas e foi esperá-la ao aeroporto. Mas a argelina que apareceu não era a beldade deslumbrante que ele esperava. Era outra, uma horrível, feia e "absolutamente imprópria para consumo"!

No meio das moradas recolhidas no tal restaurante, o Mário tinha baralhado as moradas da beldade com a desta sujeita que ainda por cima "... logo no primeiro dia gastou-me um pacote de esparguete daqueles que dão para um mês e esvaziou-me uma garrafa de litro de azeite!"

E depois, como é que a história acabou?, quis eu, de novo, saber. O Mário Alberto não arranjou melhor solução: fugiu para casa do irmão e só voltou à sua casa no parque Mayer quando teve a certeza que ela se tinha ido embora de vez!

Podia tirar daqui uma moral qualquer. Mas gosto da história assim mesmo, sem mais condimentos. E continuo a rir-me muito sempre que dela me lembro.



Capa de um livro que se encontra por aí nas prateleiras de algumas livrarias sobre a vida e a obra do meu amigo Mário Alberto.

domingo, 30 de novembro de 2008

ESE JOÃO DE DEUS



Jantar de fim do 1º ano do Mestrado sobre Promoção do Livro e da Leitura da Escola Superior de Educação João de Deus.

Um grupo de alunas notáveis e de professores magníficos que viveram um daqueles raros processos de ensino que vivem em estado de graça.



"Maldades" do António Torrado que assim me obliterou a cara da fotografia mantendo a alma presente na pessoa de um guardanapo vermelho.

sábado, 29 de novembro de 2008

EB1/JI DO ALTO DO MOINHO



Uma escola muito especial, cheia de alegria, com uma biblioteca daquelas (e já são muitas pelo país fora) onde apetece estar e onde nos perdemos a conhecer as muitas actividades de grande qualidade que aí têm lugar.

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

EB1 Quinta do Conde de Portalegre

Aqui fica a memória de passagens por mais algumas escolas e da forma calorosa como sempre tenho sido recebido. A todos, professores, alunos, empregados, muito obrigado. E um muito especial abraço de amizade áos que trabalham nas Bibliotecas Escolares porque estão a semear as mais belas sementes do futuro dos nossos meninos.

domingo, 23 de novembro de 2008

A CASA

Às vezes tenho saudades da simplicidade que vai direita ao coração. Um poema, uma voz, uma viola. E uma grande vontade de olhar o mundo do lado do avesso.




(Vinícius e Maria Betânia)


A casa

Era uma casa
Muito engraçada
Não tinha teto
Não tinha nada
Ninguém podia
Entrar nela não
Porque na casa
Não tinha chão
Ninguém podia
Dormir na rede
Porque a casa
Não tinha parede
Ninguém podia
Fazer pipi
Porque penico
Não tinha ali
Mas era feita
Com muito esmero
Na Rua dos Bobos
Número Zero.

Vinícius de Moraes

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

"LOOK WHAT THEY'VE DONE TO MY SONG"

PARECE-ME QUE A LETRA DESTA CANÇÃO TEM ALGUMA COISA A VER

COM O QUE MUITOS PROFESSORES SENTEM POR ESTES DIAS




"Look What They've Done To My Song, Ma"

MELANIE SAFKA

Look what they've done to my song, ma
Look what they've done to my song
Well it's the only thing that I could do half right
And it's turning out all wrong, ma
Look what they've done to my song.

Look what they've done to my brain, ma
Look what they've done to my brain
Well they picked it like a chicken bone
And I think I'm half insane, ma
Look what they've done to my song.

I wish I could find a good book to live in
Wish I could find a good book
Will if I cold find a real good book
I'd never have to come out and look
Look what they've done to my song.

It'll be all right ma, maybe it'll be okay
Well if the people are buying tears I'll be rich someday, ma
Look what they've done to my song.

Ils ont change ma chanson ma
Ils ont change ma chanson
C'est la seule chose que je peuz faire
Et ce n'est pas bon ma
Ils ont change ma chanson.

Look what they've done to my song, ma
Look what they've done to my song
Well they tied it up in a plastic bag and they turned it upside down
Look what they've done to my song, ma.

Look what they've done to my song, ma
Look what they've done to my song
It's the only thing I could do all right and they turned it upside down
Look what they've done to my song, ma.

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

DE PÉ SOBRE O SILÊNCIO




A minha amiga Lícinia vai no seu segundo livro de poesia. E não só. Nos últimos anos fez da poesia uma forma de existir, de resistir, de viver solidariamente. Declama muito bem e faz declamar. Junta amigos em torno da poesia. Faz a sua pequena Sierra Maestra em torno das palavras. Tem um blog que vale a pena visitar muitas vezes, O SÍTIO DO POEMA e outro (inconfidência autorizada) que é um mimo de graça e irreverância: a DONA TELA.

A Licínia publicou mais um livro. Foi uma festa em Mafra.O auditório da Biblioteca Municipal estava a transbordar. Veio gente de vários sítios do país. Gente que tece fios de amizade através dos blogs, dos poemas, dos comentários.

A introdução ao livro é da, também mafrense e também minha amiga e companheira, Hélia Correia. E acaba assim:

"Se, como diz Amos Oz, só a imaginação pode salvar o mundo, um livro de poemas como este ajuda um pouco a essa salvação."

O livro não está à venda. Ou melhor. Só autora é que o vende. Mas vale a pena.



BEIRA-MAR

Os olhos das mulheres
cavalgam as praias desertas
e a acalmia das ondas

Ficam verdes os olhos das mulheres
no seu afã de adivinhar os peixes

Águas-marinhas crescem-lhes nos dedos
longos longos

Há estrelas-do-mar a rematar
as tranças de meninas
que chegaram do longe longe

Debruçam-se serenas
sobre a caligrafia andarilha das gaivotas
a ler histórias que os netos lhes contaram

Antes que a tarde as envelheça
acendem nas areias fogos altos
e pintam as cores do sol poente
e cantam líquidas melopeias
e cantam e cantam
as mulheres da beira-mar

Licínia Quitério

domingo, 16 de novembro de 2008

"DEIXEM-NOS SER PROFESSORES"



(Foto de Robert Doisneau)

"NOS ÚLTIMOS MESES NÃO VI PROFESSORES FELIZES"

João Lobo Antunes, "O Público", 16 Nov 2008

"O RESPEITO PELOS PROFESSORES É FUNDAMENTAL POIS O FUTURO DO PAÍS DEPENDE DA EDUCAÇÃO DOS SEUS CIDADÃOS"

João Lobo Antunes, "O Público", 16 Nov 2008



"NÃO HÁ SINDICATO NENHUM, NEM APARELHO SINDCAL OU POLITICO QUE META NA RUA 120 MIL PROFESSORES"

Manuel Alegre, "Diário de Notícias", 16 Nov. 2008

"A ESCOLA PÚBLICA É NECESSÁRIA MAS TAMBÉM TEM DE TER CRITÉRIOS DE EXIGÊNCIA"

Manuel Alegre, "Diário de Notícias", 16 Nov. 2008



"DEIXEM-NOS SER PROFESSORES"

Autocolante da manifestação de professores de 8 Nov 2008

sábado, 15 de novembro de 2008

LABIRINTO



(Gravura de Bartlomeu Cid dos Santos)


LABIRINTO

(Sobre uma gravura de Bartolomeu Cid dos Santos)

“Sabemos agora que não é necessário que os átomos tenham um
objectivo.”

Umberto Eco, “A linha e o labirinto”


Vou fazer um labirinto
no outro lado da lua.

Com palavras ou pedras
ou nuvens ou fios de lã.

Tenho de fazer um labirinto
para lá da esquina do vento.

Um labirinto entre o céu e a terra
onde alguém tropece
no cheiro quente
das castanhas em Outubro.

É urgente construir um labirinto
em Outubro ou em Fevereiro.

Um labirinto onde a lua
em cada noite se tinja
de um vermelho escandaloso.

Tenho de inventar a geometria
sem fuga nem distância.

Tenho de fazer acontecer um labirinto.

E soltar o touro essencial.

E acender o olho do falcão.

E rasgar a carne até ouvir
na cor do sangue
a flauta de Mozart.

Tenho de inventar um labirinto,
o lugar onde venha, porventura,
a encontrar-me um dia com todos os que amo,
filhos ou amigos,
pássaros felizes sobre o mar.


José Fanha (do livro inédito "Marinheiro de outras luas")

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

"XÁCARA DAS BRUXAS DANÇANDO" OU O SEU A SEU DONO



Há muito quem pense que a letra da excelente canção "Xácara das bruxas dançando" dos Trovante é de João Gil ou de Luís Represas. Há pouco passei por um blog que atribuía a um dos dois a autoria do poema que foi escrito, de facto, pelo poeta e romancista Carlos de Oliveira. Assinale-se ainda que o poema é composto por 4 partes e a canção só usa a 3ª parte. Porque é um poema muito especial, de um grande autor, porque os Trovante foram um grupo notável que de alguma forma se prolonga nas obras excelentes dos que o constituíram e que, obviamente, não precisam de autorias indevidas, aqui fica devolvido o seu a seu dono


XÁCARA DAS BRUXAS DANÇANDO


I

Era outrora um conde
que fez um país,
com sangue de moiro,
com laranjas de oiro,
como a sorte quis.

Há bruxas que dançam
quando a noite dança,
são unhas de nojo
são bicos de tojo,
no tambor da esperança.

Ventos sem destino
que dizeis às ramas?
Desgraça bramindo
é a nós que chamas.

No país que outrora
um conde teceu,
as laranjas de oiro
são bruxas de agoiro
e fúrias do céu.

Anda o sol de costas
e as bruxas dançando
e os ventos do norte
sobre nós espalhando
as tranças de morte.

As estrelas mortas
apagam-se aos molhos:
vem, lume perdido,
florir-nos nos olhos.


II

Ama, estás ouvindo
a história que vou contando?
Ó ama pátria dormindo
desde quando?

Desde tempos e memórias,
desde lágrimas e histórias,
desde raivas e glórias,
agora te estou chorando
e tu dormindo
até quando?

As bruxas andam lá fora
e eu chorando
versos do país de outrora.

Dançam bruxas a ganir
de mãos dadas com o vento.
Ama, acorda; sopra o lume;
e não me deixes dormir
na noite do pensamento.


III
Ó castelos moiros,
armas e tesoiros
quem vos escondeu?
Ó laranjas de oiro,
que ventos de agoiro
vos apodreceu?

Há choros, ganidos,
à luz da caverna
onde as bruxas moram,
onde as bruxas dançam
quando os mochos amam
e as pedras choram

Caravelas, caravelas
mortas sob as estrelas
como candeias sem luz
E os padres da inquisição
fazendo dos vossos mastros
os braços da nossa cruz

As bruxas dançam de roda
entre o visco dos morcegos,
dançam de roda raspando
as unhas podres de tojo
na noite morta do povo
como num tambor de rojo.

IV

E o tempo murchando
a luz de idos loiros.
Ama, até quando
estaremos chorando
os castelos moiros?

Lá vão naus da Índia,
lá se vão tesoiros.
E as bruxas dançando
e os ventos secando
as laranjas de oiro.

Ama até quando?

Na noite das bruxas
o lume no fim
e o vento ganindo.

Amas estás ouvindo?

O lume no fim
e os homens dispersos.

Ama, tens frio;
cinge-te a mim
e aquece-te ao lume
queimando os meus versos.

Carlos de Oliveira

(in “Turismo”, 1942)

terça-feira, 11 de novembro de 2008

AUTO-RETRATO EM 3X4




AUTO-RETRATO EM 3X4


Sou um homem de muito silêncios e raras obediências,
inesperadas paixões programadas,
alguns medos, optimismos inúteis
e, principalmente, uma vasta e apaziguadora preguiça.
O meu coração está preso desde uma terra distante
a uma só mulher,
excepto nos interlúdios.
Escrevo cada vez mais desesperadamente.
Às vezes tenho pensamentos incestuosos.
Se não fossem as consequências,
juro que cometeria um pequeno crime.
A vida trespassa-me como uma faca,
mas não consigo agarrá-la.

João Melo

(poeta angolano)

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

SERPENTE





SERPENTE


Se é secreto o desamor
transformado em meu segredo
tento domar a paixão.

Para sempre entrego e me rendo
ao bater do coração onde se aninha a serpente
o peito aberto ao arpão.

Quem não demove a palavra num persistir insolente
um poema em cada mão

Dá perdimento ao fulgor calando o fogo
da estima
sem demover o torpor onde a rima declina

E seja lá quem não for
resgata
guarda e domina

Mara Teresa Horta

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

O MEU AMIGO JOÃO MATEUS




JOÃO MATEUS

Nos idos de 69/70 eu ia de vez em quando a casa do meu amigo e colega de arqutitectura, Luís Mateus.

O pai, o engº Tomás Mateus do Laboratório Nacional de Engenharia Civil, conhecido pelo Tomás das madeiras, era um especialista mundial em resitência de madeiras. Mas era também pintor. Chegava a casa e passava o fim da tarde a pintar. Nao podia fumar e a mulher sentava-se suavemente ao lado e fumava, dando-lhe de vez em quando uma passa.

Os filhos, o Zé, que se formou em arqueologia, o João e o Luís, ambos arquitectos, todos três tocavam música antiga e interessavam-se pelas coisas mais oblíquas e menos óbvias para jovens entre os 15 e os 20 anos. Literatura, música antiga, História de igrejas e conventos, geometria descritiva... Sei lá.

Só sei que ficava fascinado. Eles era para mim a imagem da paz familiar que eu nunca conhecera.

Moravam em Alvalade. Julgo que no mesmo prédio morava o Miguel Serras Pereira, o excecional tradutor (e poeta bissexto) que não revejo há anos e que me tem proporcionado muitas horas de leitura de alta qualidade.

Perto, morava o poeta José Gomes Ferreira que passava com a sua cabeleira branca aos 4 ventos e o olhar a navegar sabe-se lá por que distâncias.

Eu e o Luís Mateus temo-nos visto por aí, entre Lisboa e Braga. Telefonamo-nos, partilhando muitas memórias, paixões e cumplicidades.

O João já não o via há muitos muitos anos. Encontrei-o e fiquei fascinado. Arquitecto, continua a tocar música antiga, constrói instrumentos de madeira, desenha, pinta, sei lá que mais.

Pediu-me para ir visitá-lo ao seu site. Demorei uns quantos dias porque os dias andam complicadas e eu só queria lá ir com tempo para demorar.

Finalmente fui e fiquei espantado. Já não se faz gente assim. Ou faz?

Se calhar faz. Mas de cada vez que encontramos alguém que anda pelo mundo com esta vitalidade, esta variedade, esta força, ficamos acrescentados e com a certeza de que viver pode ser um moinho muito disponível para que o vento da vida não o deixe descansar.

O endereço do João onde estão os óleos, os desenhos, o pastel, a arquitectura, é este:

http://joaorosariomateus.googlepages.com/joaomateus

Vale a pena visitar.

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

OS SAPATOS DO PAI NATAL




"OS SAPATOS DO PAI NATAL"


Ninguém sabe os contratempos que um Pai Natal sofre para levar a tempo e horas todas as prendas que as crianças irão receber, mal abrirem um olhito na manhã de cada dia 25 de Dezembro!

As vésperas de Natal são uma canseira, uma lufa-lufa, um desassossego.

Eu, que fui Pai Natal durante vários anos, posso garantir-vos que, quando chega Dezembro, todos os Pais Natais andam de um lado para o outro com o coração nas mãos.

É a rena Rudolfo que se constipa a sério e ficamos aflitos para arranjar outra que vá puxar o trenó! É o patim do trenó que começa a mancar e já não nos lembramos onde é que pusemos o outro patim sobressalente. São as prendas que não chegam a tempo e lá temos nós que inventar outros presentes à pressa, e é por isso mesmo que, às vezes, um menino pede uma bicicleta e recebe umas pantufas, pede uma roupa de astronauta e recebe uns patins para andar no gelo ou, pior ainda, pede um carro de bombeiros e recebe uma boneca espanhola!

Os percalços são imensos. Mas o encanto de ver os meninos aos saltos de alegria quando abrem as suas prendas ultrapassa tudo!

Se calhar querem saber como é que eu me tornei Pai Natal… Eu conto."

É assim que começa esta história acabadinha de sair e que é meio verdadeira e meio inventada, como quase todas as histórias. E ainda bem que é assim porque todas as histórias, mesmo as mais fantásticas e mirabolantes, servem-nos sempre para compreendermos melhor a vida que vivemos e para a v ivermos com mais paz e alegria.

Quem quiser saber como é que eu me tornei Pai Natal e acabei por ter um grande problema devido aos sapatos, terá de ler a história até ao fim com a ajuda dos divertidos desenhos da Sandra Serra que muito ajudam a visualisar as várias trapalhadas que vivi enquanto fui Pai Natal.

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

WISLAWA SZYMBORSKA



Wislawa Szymborska é uma poeta polaca, nascida em 1923 e Prémio Nobel em 1996.

Traduzir poesia é uma arte. Às vezes as traduções soam bem. Outras vezes nem por isso. A tradução, no sentido estrito da palavra, pode ser correcta em ambos os casos. Mas não basta ser correcta. É necessário encontrar na nova língua uma música que nos remeta para a música original e nos dê consolo e equilibrio na natureza da língua de chegada.

Descobrir poetas de línguas distantes é difícil e depende muito da qualidade das traduções.

A tradução deste livro de Elzibieta e Sérgio Neves parece-me magnífica. Já tinha lido outros poemas da autora em espanhol, francês e inglês. Este livro é precioso. Pela notáv el poesia e pela sua tradução.

FOTOGRAFIA DE 11 DE SETEMBRO

FOTOGRAFIA DE 11 DE SETEMBRO


Atiraram-se dos andares em chamas.
Um, dois, ainda alguns.
mais acima, mais abaixo.

A fotografia deteve-os na vida
e agora preserva-o
sobre a terra rumo à terra.

Cada um ainda na íntegra,
com rosto individual
e sangue bem guardado.

Ainda há tempo
para os cabelos esvoaçarem
e do bolso caírem
chaves e alguns trocos.

Ainda estão ao alcance do ar,
no âmbito dos lugares
que acabaram de se abrir.

Só duas coisas posso por eles fazer:
descrever este voo
e não acrescentar a última frase.

Wislawa Szyborska

(“Instante”, ed. Relógio d’Água, tradução de Elzbieta Milewska e Sérgio Neves)

domingo, 2 de novembro de 2008

QUALQUER COISA



Pintura de Rolando Sá Nogueira



QUALQUER COISA

(Sobre pinturas de Rolando Sá Noqueira)

Os pintores, caro amigo,
sabes como são?

Qualquer coisa lhes serve
de argumento ou de comboio
para partirem através de turbulências
ou banquetes coloridos.

Qualquer coisa os amotina:
um sussurro de água,
uma lâmina de vento,
um madeiro enegrecido que recorda
o teatro de uma vida ardendo.

Qualquer coisa violeta ou ambarina os leva
ao centro das cabeças descentradas.

Qualquer coisa cor de terra ou mel
os faz descarrilar.

Qualquer promessa de lua
os faz sair a voar ao fim da tarde:
um rasto antigo de números de music-hall,
um cão de olhos líquidos,
uma folha de amoreira,
uma música trepando
pela arquitectura dos ossos
à beira da eternidade.

Qualquer breve cornucópia lhes entorna
um pássaro improvável
na profundeza dos olhos
e deixa um barquinho a navegar
na perfeição dessas mãos
da criança de asas verdes
que os habita.

José Fanha

(do lirvo inédito "Marinheiro de outras luas)