segunda-feira, 6 de abril de 2009

A CANTAR



(Casa Milá)

"Visitei quase todas as obras (de Gaudi) em barcelona e apercebi-me de que aquilo que para mim era escultura era feito com portas, punhos de porta, rodapés... Aquilo tinha tudo o que tinha a minha casa. Simplesmente era a cantar."

Álvaro Siza Vieira, O Público, 05.04.09

Parece-me que a grande arte deve ser sempre assim: a cantar.

domingo, 5 de abril de 2009

LUANDA COZETTI - COUPLE COFFEE



A filha do Alípio veio viver para Portugal com o seu companheiro, o baixista Norton. Formaram os COUPLE COFFE.

Aqui a filha canta o pai na canção do Zeca, acompanhada pelo Júlio Pereira.

sábado, 4 de abril de 2009

ALÍPIO DE FREITAS



Ouvi falar do Alípio através de uma canção do Zeca Afonso. Nascido em Bragança, padre no Brasil, juntou-se à luta revolucionária dos camponeses sem terra. Esteve preso 10 anos. 5 de tortura diária.

Em Portugal, a partir do 25 de Abril, participei em inúmeras sessões de apoio aos preseos políticos brasileiros e, especialmente, exigindo a libertação de Alípio de Freitas.

O Alípio para mim era um mito. Com a democracia, voltou a Portugal, foi jornalista e professor universitário. Encontrei-o e tornámo-nos amigos do fundo do coração. A sua generosidade, a sua clarividência tranquila, e a dignidade discreta, e a bondade natural, e o seu sentido de solidariedade são exemplos de vida para qualquer um. E em primeiro lugar para mim.

Fez 80 anos há cerca de um mês. Juntei-me a muitos outros amigos para comemorar com ele. Com orgulho no grande abraço que lhe demos.

Viva Alipio!


A letra da canção do Zeca fica aqui:


Baía de Guanabara
Santa Cruz na fortaleza
Está preso Alípio de Freitas
Homem de grande firmeza

Em Maio de mil setenta
Numa casa clandestina
Com campanheira e a filha
Caiu nas garras da CIA

Diz Alípio à nossa gente:
"Quero que saibam aí
Que no Brasil já morreram
Na tortura mais de mil

Ao lado dos explorados
No combate à opressão
Não me importa que me matem
Outros amigos virão"

Lá no sertão nordestino
Terra de tanta pobreza
Com Francisco Julião
Forma as ligas camponesas
Na prisão de Tiradentes
Depois da greve da fome
Em mais de cinco masmorras
Não há tortura que o dome


Fascistas da mesma igualha
(Ao tempo Carlos Lacerda)
Sabei que o povo não falha
Seja aqui ou outra terra


Em Santa Cruz há um monstro
(Só não vê quem não tem vista
Deu sete voltas à terra
Chamaram-lhe imperialista


Baía da Guanabara
Santa Cruz na fortaleza
Está preso Alípio de Freitas
Homem de grande firmeza

José Afonso

quinta-feira, 2 de abril de 2009

S. JOÃO DA MADEIRA



Na EB1 de Parrinho durante a magnífica iniciativa da Câmara Municipal intitulada "POESIA À MESA".

ÉVORA



Na EB23 André de Resende em Évora onde a Câmara Municipal tem em andamento um magnífico projecto de incentivo à leitura intitulado "A fada palavrinha e o gigante das bibliotecas".

terça-feira, 31 de março de 2009

TERTÚLIA SINTRENSE



Por iniciativa do Prof. Fernando Seara tenho organizado as sessões da TERTÚLIA SINTRENSE que, em jantares mensais, tem percorrido alguns dos principais restaurantes de Sintra.

Em cada sessão há um convidado para conversar sobre tudo e mais alguma coisa. Já pudemos contar com belíssimos serões à conversa com o dr. Laborinho Lúcio, a actriz Maria do Céu Guerra, o jornalista Nicolau Santos, o cantor Carlos Mendes. O último foi o escritor Mário Zambujal no restaurante "Adega Regional".

O próximo jantar será no dia 20 de Abril no restaurante "Tacho Real". O convidado é o Rúben Carvalho.

O custo do jantar ronda entre 15 e 20 €. As inscrições podem se feitas para o mail: martacastelobranco@gmail.com

segunda-feira, 30 de março de 2009

QUINTA DA BOAVISTA - MELEÇAS

Sábado passado, o Centro Social da Quinta da Boavista em Meleças fez 34 anos.

Nas paredes da sala dos 5 anos dei com estas respostas a uma pergunta que não sei qual é mas facilmente sou capaz de adivinhar. As crianças dão provas, por vezes, de uma imensa sabedoria. Ora vejam lá:


"NAS HISTÓRIAS, AS PALAVRAS VÃO A DIREITO"

David

"OS POEMAS PARECE QUE ESTÃO EM PÉ"

Rúben

"OS POEMAS ESTÃO DO LADO ESQUERDO E AS PALAVRAS DAS HISTÓRIAS ESTÃO EM BAIXO DOS DESENHOS"

Diogo

"OS POEMAS FALAM DE AMOR"

David

domingo, 29 de março de 2009

RELATO ECOLOGICAMENTE INCORRETO




Da minha querida amiga Licínia Quitério recebi o seguinte relato que merece ser transcrito pela sua altíssima índole desarrumadora de banalidades aceites pelo vulgo e mesmo por algum in-vulgo.



Relato ecologicamente incorrecto:

Já podes acender a luz. O apagão já lá vai. A minha vizinha da frente cumpriu o apagão e, quando se levantou para ir à janela ver o que deixaria de ter sido visível, esbarrou com uma perna numa cadeira, deu um grito que assustou a bichana que por sua vez deu um miado horrível e trepou para o psiché, derrubando aquele espelhinho de moldura de prata com amores perfeitos que se fez em cacos. Tal foi a aflição que a senhora conseguiu finalmente chegar à janela e gritar. Salvem o planeta, mas, para a próxima, façam o apagão em pleno dia. Ainda hoje anda bastante nervosa. E a canela (da perna) tem cá um hematoma da cor da noite escura.

Eu estou bem. Passei o apagão a gastar energia para assistir, pela televisão, ao desaparecimento dos maiores monumentos do mundo. Foi emocionante. Vou tentar um efeito semelhante com o Photoshop.


Bom Domingo e até ao próximo movimento apagacional.

Beijinhos.

Licínia


O blog da Licínia é http://sitiopoema.blogspot.com/

A imagem vem de lá.

SER OU NÃO SER BRUXA




APORTA

Início do Capítulo 10:

"Um dia, a minha mãe ficou muito surpreendida quando reparou que a Bruxonauta estava há que tempos encostada à ombreira da porta, tristonha, cabisbaixa, a suspirar.

- Ó menina Bruxonauta, nunca a vi assim... O que é que tem?

- Estou triste... Muito triste...

- Se calhar precisa de chorar... - disse o meu pai que só queria ajudar mas parece que ainda pôs tudo pior.

- Não me falem em chorar senão eu choro!

A bruxonauta nem parecia a mesma. A minha mãe sentou-a no sofá e até a despenteou um bocadinho o cabelo a ver se a animava. Mas qual quê!

- Vá lá. Desabafe. O que é que a pôs assim?

De dentes cerrados e olhos postos no chão, lá se resolveu a explicar-se.

- Estou farta de ser bruxa!

- Essa agora! Quem havia de imaginar? A menina, que é a bruxa mais simpática que eu conheço - exclamou o meu pai como se conhecesse mais alguma.

- Mas eu não quero ser Bruxa. A minha avó foi bruxa, a minha mãe também, mas eu não quero!. Não quero! Já disse!

A minha mãe olhou-a como se através dela pudesse ver o mundo inteiro.

- Cada um tem o seu destino. Contra isso não podemos fazer nada...

O meu pai deitou o rabo do olho para a vassoura electrónica da Bruonauta cheio de vontade de dar uma voltinha.

- É assim tão mau ser bruxa?

- É horroroso! O qu eu queria era ser astronauta. - os olhos até lhe brilharam - ser astronauta, isso é que é vida!"

quarta-feira, 25 de março de 2009

MONTES DE ALVOR



Com os meninos e a professora Ana Duarte na Biblioteca escolar da EB1 de Montes de Alvor.

É verdadeiramente excepcional o trabalho de promoção da leitura que alguns professores estão a fazer nas Bibliotecas Escolares.

É igualmente excepcional o apoio que algumas Bibliotecas Municipais dão a este esforço.

Neste caso é a Biblioteca de Portimão que, como tantas outras queridas bibliotecas, trabalha intensa e alegremente para um futuro que tem de passar pela leitura e por tudo o que a leitura nos traz: capacidade de nos conhecermos melhor a nós próprios, de conhecermos e dialogarmos melhor com a diversidade do mundo, de nos tornarmos melhores cidadãos.

domingo, 22 de março de 2009

PINGA O PINGO


PINGA O PINGO

Pinga o pingo da torneira
Pinga pinga
Pinga o pingo
Que amanhã já é domingo
E depois segunda feira
Pinga o pingo da torneira
na banheira
terça feira
quarta feira
Pinga de toda a maneira
quinta feira
sexta feira
Falta pouco p’ra domingo
Pinga o pingo
Pinga pinga
Pinga o pingo da torneira.

José Fanha

(do livro a sair em breve "CANTIGAS E CANTIGOS PARA FORMIGAS E FORMIGOS")

sábado, 21 de março de 2009

POESIA Á MESA



A "POESIA À MESA" é uma bela organização da Câmara Municipal de S. João da Madeira. Ocupa todos os anos a semana do Dia Mundial da Poesia. Leva poesia à escola, aos restaurantes e, na sexta-feira de cada uma destas sextas-feiras, aos bares nocturnos.

É uma festa bonita e calorosa.

Aqyui ficam algumas imagens desta festa nos últimos anos.

quarta-feira, 18 de março de 2009

Outra vez "A PORTA"



E cá está de novo, 19 anos depois, "A porta".

É uma nova roupa que a veste mas releio e continuo a achar que é o melhor texto que fiz na minha vida.

As ilustrações e grafismo são da Mónica Cid que fez do livro um objecto caloroso que apetece ter na mão.

Deve estar à venda no início de Abril.

Para lá daquela porta, os pais do narrador virão a descobrir um mundo estranho, talvez mágico, talvez diferente do nosso. A pouco e pouco vão conhecendo os vizinhos que vivem do outro lado da porta. São pessoas muito invulgares.

O Grande Espinafre que tem uma horta onde pode plantar tudo, parafusos, macarrão, peixe cozido ou mesmo cenouras.

O engenheiro Francisco Parafuso que tem horror a que as coisas mudem de lugar e procura aparafusar tudo ao tecto, ao chão, às paredes para que nada mude. Chega mesmo a aparafusar os ponteiros ao relógio e os sapatos do pai do narrador ao chão.

Há também a Princesa Princezinha, que vive no mundo dos sonhos e das fábulas, e que sonha, naturalmenmte vir a casar com um Príncipe Encantado quando tiver coragem de atravessar o Bosque de Todos os Medos.

Finalmente temos a Bruxonauta, bruxa falhada que sonha vir a ser astronauta.

segunda-feira, 16 de março de 2009

LA PORTA



Logo a seguir à edição portuguesa em 1990 de "A PORTA", o meu grande amigo e poeta napolitano Vittorio Placella traduziu-a para italiano. E "LA PORTA" saiu em itália na editora Adriano Salami de Florença com delicadíssimas ilustrações de Simonetta Funel.

E recordo o momento em que o menino relata a chegada dos pais à casa nova... Que de casa só tinha a Porta...

"- Aqui não há casa nenhuma! - insistiu a minha mãe.

- Mas há uma porta! - afirmou o meu pai, atravessando-a cheio de simpatia de um lado para o outro- - Se não houvesse, não podíamos entrar nem sair.

Parece-me que ele tinha razão, embora não se percebesse muito bem para que é que servia uma porta que dava para sítio nenhum.

Talvez fosse divertido entrar e sair e sair e entrar por uma porta tão invulgar e sozinha no meio de nada.

Isso era quanto lhe bastava. À minha mãe, não. Sentia-se perdida e ficou, de repente, muito triste.

O meu pai não a podia ver assim.

- Uma porta é um bom começo. O resto arranja-se com facilidade."

domingo, 15 de março de 2009

OS VOSSOS FILHOS NÃO SÃO TOSTÕES

Leio no Público de hoje:

"O Presidente da CONFAP, órgão supostamente representativo das associações de pais e, por essa via, dos pais portugueses, continua igual a si mesmo. Ontem reivindicou escolas abertas 12 horas por dia. Não como escolas, mas como depósitos de filhos. A ministra da Educação ouviu e gostou. E o ministério vai por certo continuar a subsidiar de forma generosa este tão fiel apoiante."




Não há palavras para o delírio palrante a que algumas pessoas chegam. Quem anda no ensino sabe bem de mais o que isto representa de infâmia e incremento à degradação da instituição escolar, da família, da educação dos nossos filhos.

Não pára a hipoteca que está a ser feita ao futuro destes jovens como pessoas e como cidadãos.

Os ingleses diriam: SHAME ON YOU!

Eu, em português, usaria certamente uma expressão muito mais pesada. Mas como sou um homem da poesia sei que podemos sempre em poesia encontrar o voo de algum poeta que se aplique à situação.

Lembrei-me do O'Neill e do seu poema "Deixa", publicado no início dos anos 50 (no tempo do fascismo, não sei se recordam...).

"PAIS

que fazeis?

OS VOSSOS FILHOS

não são tostões

GASTAI-OS DEPRESSA!"

sábado, 14 de março de 2009

A PORTA



As perguntas dos meninos nas escolas que visito repetem-se com muita frequência. Serão talvez o óbvio que faz os meninos perguntarem:

"Quando começou a escrever?", "Qual foi o primeiro livro que escreveu?", "Quantos livros já escreveu?", "Em que sítio gosta de escrever?", "Onde é que vai buscar inspiração?"

Devo confessar que fico por vezes um pouco cansado da monotonia que julgo resultar também de alguma falta de reflexão por parte dos professores que preparam estas perguntas com os meninos quend vão ser isitados por um escritor.

Já arranjei algumas respostas preparadas que me permitem fugir a esse rame-rame desinteressante e voar noutras direcções. Porque todos os caminhos vão dar a Roma e todas as perguntas permitem uma variedade muito grande de respostas. Aprendi á minha custa que, mesmo que as perguntas possam possam ser muito desmotivantes, as respostas é que não têm o direito de o ser.

Sempre que me perguntam: "Qual o livro que mais gostou de escrever?", eu respondo sempre que foi "A Porta". E leio duas ou três páginas deste livrinho que foi e continua a ser aquele que mais prazer me deu escrever al longo dos anos que levo de escritor.

"A Porta" foi escrita há 20 anos em circunstâncias muito particulares da minha vida pessoal. Um tempo em que não tinha uma casa e em que a minha casa foi a escrita deste livro.

"A Porta" é narrada por um menino que fala do dia em que o pai e a Mãe se mudaram para a casa nova e quando lá chegaram não havia paredes, nem tecto, nem casa. Apenas uma porta.

O livro foi editado pela Quetzal através do empenho e da ternura da Maria da Piedade Ferreira. As ilustrações, brilhantes, eram do meu amigo José Paulo Ferro, o livro era um mimo, um luxo, uma beleza. Está esgotado há alguns anos. Mas vai voltar!

terça-feira, 10 de março de 2009

QUÊ DE CÃO



(Desenho de um menino do Jardim de Infância do Alvor)


QUÊ DE CÃO


Atenção muita atenção
É preciso ter cuidado com o cão!

Ter cuidado com o quê com o quê com o quê?
Ter cuidado
com o quê
de cão!

É preciso ter cuidado
com a corda com o cardo
com a queda e com o calo
o costado do camelo
o cabrito e o cavalo
a quina do cotovelo
a cabeça a cabeçada
o cachucho a caldeirada
o caldinho o caldeirão

Atenção muita atenção
É preciso ter cuidado com o cão!

Ter cuidado com o quê com o quê com o quê?
Ter cuidado
com o quê
de cão!

É preciso ter cuidado
com o quê e com o cê
com o dê de dromedário
quem te viu e quem te vê
escreve lá este sumário
com a causa e o porquê
o motivo e a razão
deste cão ter o seu quê
à boca do coração.

Atenção muita atenção
É preciso ter cuidado com o cão!

Ter cuidado com o quê com o quê com o quê?
Ter cuidado
com o quê
de cão!

(Do livro no prelo: "CANTIGAS E CANTIGOS PARA FORMIGAS E FORMIGOS")

domingo, 8 de março de 2009

RECEITA DE MULHER




A fotografia roubei-a ao blog: http://leonorcordeiro.blogspot.com/

Juntei-lhe o poema para rememorar um grande poeta que trouxe sempre a poesia à Praça Pública. E vem a propósito da data esta...


Receita de mulher


As muito feias que me perdoem
Mas beleza é fundamental. É preciso
Que haja qualquer coisa de dança, qualquer coisa de haute couture
Em tudo isso (ou então
Que a mulher se socialize elegantemente em azul, como na República [Popular Chinesa).
Não há meio-termo possível. É preciso
Qu tudo isso seja belo. É preciso que súbito
Tenha-se a impressão de ver uma garça apenas pousada e que um rosto
Adquira de vez em quando essa cor só encontrável no terceiro minuto da [aurora.
É preciso que tudo isso seja sem ser, mas que se reflita e desabroche
No olhar dos homens. É preciso, é absolutamente preciso
Que tudo seja belo e inesperado. É preciso que umas pálpebras cerradas
Lembrem um verso de Eluard e que se acaricie nuns braços
Alguma coisa além da carne: que se os toque
Como ao âmbar de uma tarde. Ah, deixai-e dizer-vos
Que é preciso que a mulher que ali está como a corola ante o pássaro
Seja bela ou tenha pelo menos um rosto que lembre um templo e
Seja leve como um resto de nuvem: mas que seja uma nuvem
Com olhos e nádegas. Nádegas é importantíssimo. Olhos, então
Nem se fala, que olhem com certa maldade inocente. Uma boca
Fresca (nunca úmida!) e também de extrema pertinência.
É preciso que as extremidades sejam magras; que uns ossos
Despontem, sobretudo a rótula no cruzar das pernas, e as pontas pélvicas
No enlaçar de uma cintura semovente.
Gravíssimo é, porém, o problema das saboneteiras: uma mulher sem [saboneteiras
É como um rio sem pontes. Indispensável
Que haja uma hipótese de barriguinha, e em seguida
A mulher se alteie em cálice, e que seus seios
Sejam uma expressão greco-romana, mais que gótica ou barroca
E possam iluminar o escuro com uma capacidade mínima de 5 velas.
Sobremodo pertinaz é estarem a caveira e a coluna vertebral
Levemente à mostra; e que exista um grande latifúndio dorsal!
Os membros que terminem como hastes, mas bem haja um certo volume de [coxas
E que elas sejam lisas, lisas como a pétala e cobertas de suavíssima [penugem
No entanto, sensível à carícia em sentido contrário.
É aconselhável na axila uma doce relva com aroma próprio
Apenas sensível (um mínimo de produtos farmacêuticos!)
Preferíveis sem dúvida os pescoços longos
De forma que a cabeça dê por vezes a impressão
De nada ter a ver com o corpo, e a mulher não lembre
Flores sem mistério. Pés e mãos devem conter elementos góticos
Discretos. A pele deve ser fresca nas mãos, nos braços, no dorso e na face
Mas que as concavidades e reentrâncias tenham uma temperatura nunca [inferior
A 37° centígrados podendo eventualmente provocar queimaduras
Do 1° grau. Os olhos, que sejam de preferência grandes
E de rotação pelo menos tão lenta quanto a da Terra; e
Que se coloquem sempre para lá de um invisível muro da paixão
Que é preciso ultrapassar. Que a mulher seja em princípio alta
Ou, caso baixa, que tenha a atitude mental dos altos píncaros.
Ah, que a mulher dê sempre a impressão de que, se se fechar os olhos
Ao abri-los ela não mais estará presente
Com seu sorriso e suas tramas. Que ela surja, não venha; parta, não vá
E que possua uma certa capacidade de emudecer subitamente e nos fazer [beber
O fel da dúvida. Oh, sobretudo
Que ele não perca nunca, não importa em que mundo
Não importa em que circunstâncias, a sua infinita volubilidade
De pássaro; e que acariciada no fundo de si mesma
Transforme-se em fera sem perder sua graça de ave; e que exale sempre
O impossível perfume; e destile sempre
O embriagante mel; e cante sempre o inaudível canto
Da sua combustão; e não deixe de ser nunca a eterna dançarina
Do efêmero; e em sua incalculável imperfeição
Constitua a coisa mais bela e mais perfeita de toda a criação inumerável.

quarta-feira, 4 de março de 2009

BOXE E LARANJAS



Na sua juventude de estudante de Belas Artes, o Rolando Sá Nogueira teve a tentação do boxe, desporto muito popular pelos anos 40, e foi praticar num famoso clube de então, o Mouraria.

Ao fim de algum tempo de treinos foi-lhe marcado o primeiro combate, julgo que no Coliseu.

Os colegas de Belas Artes estavam entusiasmadíssimos tanto mais que o Rolando era muito alto e tinha aquilo que se chama um belo caparro.

João Abel Manta (outro grande Mestre tão esquecido)era e foi durante toda a vida um grande ou mesmo o maior amigo de Rolando Sá Nogueira. Foi ele ue me contou esta história.

João Abel não pôde ir assitir ao combate do amigo na noite anterior, mas na manhã seguinte estava de pedra e cal à porta das Belas Artes à espera do, esperava ele, vitorioso amigo Sá Nogueira.

Quando Rolando Sá Nogueira apareceu à esquina, vinha cabisbaixo, macambúzio, pouco glorioso.

- Então, pá, ganhaste? - perguntou-lhe João Abel.

- Não... Perdi...

- Perdeste? Porquê? O adversário era um grande calmeirão?

- Não... O gajo era muito pequenino... Eu é que não fui capaz de bater num tipo daquele tamanho.

Assim terminou a aventura do Rolando como boxeur. A sua obra, essa permanece, por exemplo, nos azulejos da estação de Metro das Laranjeiras.

As suas laranjas são tão doces como era envergonhadamente irónico o riso com que tornava todas as desgraças relativas.


segunda-feira, 2 de março de 2009

ROLANDO SÁ NOGUEIRA



Já aqui falei várias vezes do Rolando Sá Nogueira.

Mas insisto.

Foi o grande professor da minha vida. Como professor eu gostava de ser como ele. Um homem que não ensinava. Ajudava a aprender. A voar. Um homem que vivia atento às coisas importantes da vida: uma folha de erva, o desenho das pedrinhas na calçada, a curva de uma gaivota no céu, as rugas de um velho num portal, o olhar de uma prostituta, o ridículo dos homens importantes nas suas poses para a fotografia.

Saí em 68 do Colégio Militar com destino ao curso de Arquitectura na escola Superior de Belas Artes. Na admissão havia um exame obrigatório em que chumbei redondamente. Coisa que nunca tinha visto, nem praticado, nem desconfiado: Desenho de Estátua.

Chumbar nessa cadeira implicava um ano de espera para voltar a tentar entrar.

Fiquei com um ano vazio pela frente. E afinal não foi nada vazio. Terá sido mesmo o ano mais importante da minha vida.

68/69. Lá fora o mundo abanava, fervia, cantava, gritava, protestava, erguia barricadas. E aqui em Portugal o ar tornava-se irespirável.

Eu tinha 17 anos. O sangue a ferver nas veias. E sabia tão pouco...

Fui para a um curso de Formação Artística na Sociedade Nacional de Belas Artes. Frequentei então uma quantidade enorme de cadeiras, seminários, conferências. Imagine-se ter aulas com José Augusto França, Rui Mário Gonçalves, Ernesto de Sousa, António Sena, Manuel Tainha, Fernando Conduto e outros.

Mas o professor dos professores era o Rolando. Todas as manhãs, três horas. Um luxo.

Não tinha receitas. Seguia um programa inglês de abordagem às Artes Visuais. Mas fazia permanentes desvios ao sabor das circunstâncias da vida. Estava profundamente ligado ao mundo, interessado pelo que se passava à sua volta, apaixonado por tudo o que o mundo lhe trazia às mãos, revoltado pela humilhação a que os homens deste país eram permentemente sujeitos.

Era um professor. Mais que um professor. Um Mestre. Há outros assim. São inavaliáveis, inclassificáveis. Ajudam-nos a crescer até às estrelas.

sábado, 28 de fevereiro de 2009

MARX BROTHERS



Diz o meu amigo Carlos Mendes que só há duas maneiras de funcionar dentro deste Estado no estado de falta de vergonha a que chegou (não é preciso dizer porquê, posi não?)

A primeira é tornarmo-nos muito mais burocratas que os burocratas e levar até às últimas consequências todas as avaliações, evidências, relatórios, registos, relógios de ponto, decretos-lei, normas, normativos, regras, artigos, etc, etc, até á total paralisação deste monstro em que nos mergulham.

A segundo é a o uso sistemático do absurdo e da desobideciência civil que são belíssimas formas de poesia activa.

Neste campo a inspiração terá sempre de passar pelos Irmãos Marx. Quem é que dizia que era marxista, linha Grouxo? Leio as notícias e apetece-me subscrever.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

EB 1 de VILA VERDE - BUARCOS



Todos nós estamos anisosos por histórias e poesia, mesmo quando julgamos que não.

Às vezes, muito injustamente, esqueço-me das mãos amigas que me fizeram chegar as fotografias. Esta foi a Tina Abrantes. Muito obrigado.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

ESTAMOS VIVOS, SOMOS LINDOS



Foi num programa do Nicolau Breyner há uns 12... 15 anos, talvez. Vesti a pele do palhaço, em referência ao sonho de vir um dia, uma noite a acturar como tal na pista de um circom, um sonho que guardo apenas para quando for grande.eira de Carnaval.

Fiva bem numa 3ª f

Ainda de palhaço declamei este poema que se chama "BALANÇO GERAL" e que acaba com a frase "ESTAMOS VIVOS SOMOS LINDOS".

Um beijinho à minha amiga Helena Correia que me fez chegar o endereço no You Tube.

sábado, 21 de fevereiro de 2009

SOUZELAS



Há escolas assim, onde a emoção do encontro nos fica dentro do peito. Escolas como esta onde, em condições difíceis, alguns professores se transcendem e esquecem o desprezo com que são tratados para construir um trabalho cheio de dignidade e seriedade que vai muito para além dos relatórios, das avaliações, dos programas.

Ser professor é uma arte fina e rara. Quando encontramos um ou uma professora devemos tirar-lhe solenemente o chapéu e agradecer o que fazem pelo futuro deste país.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

THE WEAVERS




Grupo americano famoso formado em Novembro de 1948 por Ronnie Gilbert, Lee Hays, Fred Hellerman e Pete Seeger e estão na base do impacto e da popularidade da música folk nos anos 50 e 60.

As suas canções de protesto, canções de apoio aos sindicatos americanos, as suas posições de esquerda valeram-lhes proibições, perseguições por parte do FBI e a colocação dos seus nomes na Lista Negra do chamado macartismo que anunciava os nomes daqueles a quem os estúdios de cinema, as cadeias de televisão e as gravadoras de discos, não podiam dar trabalho e que incluia nomes de actores, realizadores de cinema, músicos como Charlie Chaplin, Aaron Copland, Dashiell Hammett, Joseph Losey, Zero Mostel, Orson Wells, Dalton Trumbo, etc, etc.

Pete Seeger continuou a sua carreira a solo quando o grupo se disfez em 1952. No entanto, em 1955 o grupo voltou a juntar-se para cantar em público e em 1958 Pete Seeger voltou a sair por discordãncias diversas, nomeadamente quanto ao desejo de alguns elementos do grupo de aceitar canções de publicidade ao tabaco.

O grupo continuou a cantar e teve várias formações. Em 2005 receberam o Lifetime Achievement Award na entrega dos Grammys.

domingo, 15 de fevereiro de 2009

UMA MENINA COM UM LIVRO





“Às vezes sentava-me na rede, balançando-me com o livro aberto no colo, sem tocá-lo, em êxtase puríssimo. Não era mais uma menina com um livro: era uma mulher com o seu amante.”

Clarice Lispector, escritora brasileira, “A descoberta do mundo”

sábado, 14 de fevereiro de 2009

O TROMBONE



Pela segunda vez vai á cena este divertimento teatral que escrevi há meia dúzia de anos.

Trata-se de uma "Clownerie para 87 grandiosos cenários, 72 cenas de arrepiar os cabelos, 35 personagens arrasadores, 9 sinfonias incompletas, 3 actos e meio, dois actores e um Trombone".

Desta vez é encenado pelo Paulo Matos, produzido pelo Miguel Pedra e interpretado pelos actores Vítor Emanuel e Luís Viegas.

Estreia-se hoje em Oliveira de Azemeis e vai andar em digressão pelo país.

BIBLIOTECA LÍDIA JORGE



De regresso à Biblioteca Lídia Jorge na EB23 Aníbal Cavaco Silva de Boliqueime.

Uma das muitas Bibliotecas escolares onde o trabalho dos professores é excelente e enorme a adesão dos meninos.

E é nos lugares de excelência que mais se sente a dor dos professores e a sua revolta.

sábado, 7 de fevereiro de 2009

O MAR É AZUL AZUL




Eu, João Lourenço e a Vera San Payo Lemos, ou só eles os dois, trabalhámos vários textos de Bertolt Brecht. Surgiu então a ideia de escrever uma peça que fosse a reflexão sobre o conjunto desses textos, os seus temas e a própria figura de Brecht e constituísse uma pequena antologia de canções e cenas das peças do grande autor alemão.

O resultado foi "O MAR É AZUL AZUL" levado à cena em 1998 no Teatro Aberto.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

SWEENY TODD




Um musical da Broadway de Steven Sondheim, que já fora autor das letras de "West Side Story".

Produção conjunta do teatro Nacional D. maria II e do Teatro Aberto, o espectáculo foi levado à cena no teatro Nacional D. Maria em 1997 e de novo no Teatro Aberto em 2007

Tive novamente um imenso prazer em trabalhar este texto. Mas foi talvez o mais difícil que trabalhei em teatro. Porque a língua inglesa é muito mais sintética que a portuguesa e tem muitas palavras monosilábicas e agudas, enquanto o português está cheio de palavras graves e algumas exdrúxulas. Foi necessário trabalhar e retrabalhar, fazer grandes equilibrismos, para conjugar a tradução portuguesa com o magnífidesenho musical de Sondheim.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

ASCENSÃO E QUEDA DA CIDADE DE MAHAGONNY



Uma ópera de Brecht e Weill encenada pelo João Lourenço e levada à cena em 1985 no Teatro Nacional de S. Carlos

Uma canção que ficou famosa cantada pelos Doors e por outros, "Alabama song" ("O show me the way to the next whisky bar...")

Um trabalho exaustivo para colocar as palavras no desenho da música. Sempre em companhia da Vera san Payo Lemos e do João.

Foi um espectáculo verdadeiramente grandioso.

domingo, 1 de fevereiro de 2009

ÓPERA DE 3 VINTÉNS



Outro trabalho que me deu imenso prazer. Novamente Brecht. Um texto mítico. Uma canção que ficou famosíssima pelo seu título em inglês "Mac the Knife" e que é tocado e cantado por imensos músicos e cantores de Jazz.

Novamente trabalhei as letras das canções para se adaptarem em português à música de Kurt Weill. Foi um grande espectáculo, levado à cena em 1992 e de novo em 2005.

"A ópera de 3 vinténs" é inspirada na "The Beggar's Opera" de John Gay e inspirou a "Ópera do malandro" de Chico Buarque de Holanda.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

UBU



Tenho muita saudade desta peça, o primeiro texto original que resultou da colaboração com o João Lourenço e a Vera San Payo Lemos e que pegava na famosa figura do Rei Ubu de Alfred Jarry para o trazer para uma charge no Portugal de então.

Divertimo-nos muito durante o trabalho de escrita. No entanto, nesse ano de 84 a crise era muito dura e os teatros estavam vazios. Muitos dias havia menos espectadores na plateia do Teatro Aberto do que actores no palco.

Algumas críticas nos jornais, que sempre senti demasiado injustas, desancaram o espectáculo e especialmente os autores. Alguns anos mais tarde o "UBU" teria sido um êxito retumbante. Há textos assim. Surgem fora de tempo.

Nunca me esquecerei dos momentos em que Ubu (Mário Viegas) chamava o Capitão (Miguel Guilherme) e lhe dava uma dentada no nariz que era feito de cone de bolacha.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

A BOA PESSOA DE SETZUAN



E mais outra peça do Brecht. Foi a primeira vez que tive de adaptar as letras das canções respeitando a estrutura musical e a métrica prévias, neste caso das canções originais de Paul Dassau.

Três deuses descem à Terra que consideram estar completamente corrompida. Tão corrompida que mais vale ser destruída. No entanto, os deuses estão dispostos a não a destruir se conseguirem encontrar uma pessoa boa. Basta uma. E a única boa pessoa que encontram é uma miserável prostituta.

Este é um texto que sempre apreciei especialmente e que fala da dificuldade de se ser bom numa sociedade podre e viciada.

Até aqui, nada de especial. A siociedade trata-nos mal, explora-nos, violenta-nos.
Que espaço nos resta para a bondade ou a amabilidadce?

Brecht é no entanto mais complexo do que às vezes o querem fazer crer e, também, um pouco mais romântico do que o que parece porque, simultaneamente, nos mostra a impossibilidade que as boas pessoas boas e amáveis têm de deixar de o ser.

Um belo texto para tempos de crise e podridão...

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

OIÇAM COMO EU RESPIRO



Outra peça em que trabalhei com o João Lourenço e a Vera San Payo Lemos e logo a seguir ao "BAAL" . Um texto forte, um espectáculo forte, um dos grandes trabalhos da Irene Cruz

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

BAAL



Esta era a capa do programa do "BAAL" de Bertolt Brecht levado à cena no Teatro da Trindade em 1980.

Tradução: Vera San Payo Lemos

Versão: José Fanha e João Lourenço

Cenários e figurinos: João Vieira

Música: Pedro Osório

Execução musical ao vivo: Carlos Bica, Manuel Fatela, Manuel Martins, Mário Laginha e Tomás Pimentel

Encenação de João Lourenço.

Actores (etre muitos outros: Mário Viegas, João Perry, Irene Cruz

sábado, 24 de janeiro de 2009

QUANDO O TELEFONE TOCOU



(Foto 1998)


A minha participação no concurso da RTP "A VISITA DA CORNÉLIA" em 1977 e o sucesso desmedido que o concurso conheceu tiveram as mais inesperadas consequências na minha vida daí para a frente e até hoje, já lá vão quase 32 anos.

Uma dessas consequências, e certamente uma das mais importantes, foi a da colaboração com o João Lourenço e a Vera San Payo Lemos em cerca de sete peças de teatro, 1 ópera e dois musicais.

Tudo começou quando nos inícios de 1979 o telefone tocou. Era o joão Lourenço. Não o conhecia pessoalmente mas já o tinha visto vérias vezes como actor e tinha assistido a encenações suas.

O João disse-me de forma rápida e sem rodeios que me tinha visto na "Cornélia", que tinha gostado muito do que eu lá fizera e que tinha ficado com receio que a fama me tornasse numa personagem de revista cor-de-rosa e me levasse a fazer disparates e parvoíces. Entretanto passara-se um ano e não me tinha visto fazer disparates nem parvoíces e, por isso, gostava que eu trabalhasse com ele.

A nossa primeira colaboração foi na peça de Bertolt Brecht "BAAL". trata-se de um texto espantoso que levou quase 1 ano a retrabalhar para português. Para mim, foi uma escola fantástica no que diz respeito á carpintaria do texto teatral.

Foi, acima de tudo, o início de uma longa história de colaboração, de cumplicidade e, acima de tudo, de imensa amizade que me une fortemente a estes dois queridíssimos e talentosíssimos amigos que merecem ser lembrados e relembrados pelo extraordinário trabalho que têm feito no Teatro Aberto desde 1982.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

TU E EU




Voltando ao TU E EU aqui fica a capa do programa na encenação de 1985 levada à cena no velho Teatro Aberto, do outro lado da Praça de Espanha deixando um espaço agora transformado em parque de estacionamento.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

O ANO DO SARGENT PEPPERS



Por volta de 1983/84 eu era professor de História de Arte (e outras minudências, Geometrias Descritivas e coisas assim) na Escola Secundária de Loures, hoje Escola Secundária José Afonso.

Tive então a melhor turma, o melhor conjunto de alunos de toda a minha vida. E, por razões quase mágicas e difíceis de explicar, criou-se entre nós uma relação única de partilha de paixões, curiosidades e saberes. A História de Arte tinha extravasado e ouvíamos música, íamos ao teatro, dizíamos poesia.

Certo dia, o tema da aula era a Pop Art (Andy Wharol, Roy Lichenstein, etc). Preparei toda a aula a partir da concepção plástica e de algumas das letras das canções desse fabuloso album dos Beatles que é "Sargent Peppers Lonely Heart's Club Band".

Mas nesse dia, por mais paixão que eu pusesse no tema, o ambiente era conzento. Aquela turma excepcional parecia uma daquelas turmas meio adormecidas para quem as palavras do professor são um incómodo zumbido de fundo.

Eu sentia-me incomodado. Tentei puxar o brilho à prelecção. Sublinhei várias vezes a importância da passagem dos discos como recolhas de canções ao álbum concebido como uma peça inteira dividida em canções.

Falei das casacas dos Beatles, das fotografias de inúmeras personagens que aparecem na capa do "Sargent Peppers", Einstein, Cassius Clay, Edgar Alan Poe, Marylin e outros que perdem a espessura da sua história pessoal para se tornarem em meras personagens Pop. E mais etc, e o "Sargent peppers", e etc e o "Sargent Peppers".

O resultado foi nenhum. A turma continuava apática e eu cada vez mais inquieto e a pensar que nesse dia, por qualquer razão que não entendia a minha aula tinha sido um fracxasso e eu não tinha conseguido agarrar os alunos.

Quase à hora de tocar, um dos alunos, com um ar profundamente enfastiado, perguntou-me: "Ó stôr... O que é isso do "Sargent Peppers?"

Eu ia caindo da tripeça abaixo. Tudo o que eu dissera advinha e relacionava-se com aquele disco que eu pensava ser obviamente conhecido de todos. A verdade é que o "Sargent Peppers" era uma referência fundamental para mim. Mas não para eles que andavam por outras músicas uma vez que tinham nascido já depois do ano do "Sargent Peppers"!!!

E é destes pequenos tropeços que nascem as grandes incomunicabilidades...

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

TU E EU



Acaba de subir à cena no Teatro Aberto à Praça de Espanha este texto delicioso de Friedrich Karl Waechter, encenado pela minha querida amiga Sofia Portugal.

O texto foi traduzido pela Vera San Payo Lemos e adaptado por ela, pelo João Lourenço e por mim já lá vão 24 anos.

Nessa altura a encenação era do João Lourenço e os actores eram o João Perry e o Miguel Guilherme.

Nesta quarta-feira não cheguei a tempo de ver a estreia. Mas no final os aplausos eram unânimes.

O texto é, repito, uma delícia. Um texto que mergulha nos medos e angústias da infância para nos trazer à luz do sol e nos fazer acreditar que a vida, apesar de tudo, é uma coisa boa de viver.

Vale muito a pena ir ver. E é daqueles espectáculos para todas as idades, dos 10 aos 100 anos.

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

OS CEGOS DE MADRID



(Júlio Pomar, "Cegos de Madrid", 1959)


OS CEGOS DE MADRID

Choro pelo destino
daqueles que nasceram
sem destino:
os cegos de Madrid.

Choro pelos que arrastam
uivos negros
entre as sombras do passado
de Madrid.
Pelos que dormem encostados
aos portais metálicos do ódio.
Pelos que vivem lambendo
a sinfónica memória da mutilação.

Choro pelos cegos de Madrid
com a cor exacta da cegueira
pendurada no pescoço por um fio.

Choro em Madrid
pela saga esquelética dos gritos
na húmida tortura
da grande escuridão.

Choro lágrimas escuras.
Catadupas de lágrimas
daquela castelhana escuridade
que pingava das lâmpadas
na noite dos comboios da meseta.

Era um tempo de horários peganhentos.
De bolor azedo.
Era o terrível tempo
das asas anavalhadas
nos ombros das crianças.
O trágico tempo
dos olhos arrancados
às óbitas das virgens.
O arrastado tempo
dos trajes bordados a lágrimas
a pus e sangue coalhado.
O miserável tempo
das vísceras boiando
em caixas de rímel e pó-de-arroz.

Era o tempo dos cegos.

O tempo das lágrimas dos cegos.

O tempo dos cegos de Madrid.

José Fanha (do livro inédito "Marinheiro de outras luas")

domingo, 18 de janeiro de 2009

ARY DOS SANTOS - FAZ HOJE 25 ANOS



Faz hoje 25 ano que o Zé Carlos nos deixou. Ele era assim:


JOSÉ CARLOS ARY DOS SANTOS (1937 - 1984)




SONETO PRESENTE

Não me digam mais nada senão morro
aqui neste lugar dentro de mim
a terra de onde venho é onde moro
o lugar de que sou é estar aqui.

Não me digam mais nada senão falo
e eu não posso dizer eu estou de pé.
De pé como um poeta ou um cavalo
de pé como quem deve estar quem é.

Aqui ninguém me diz quando me vendo
a não ser os que eu amo os que eu entendo
os que podem ser tanto como eu.

Aqui ninguém me põe a pata em cima
porque é de baixo que me vem acima
a força do lugar que for o meu.

sábado, 17 de janeiro de 2009

ARY 25 ANOS



O Ary da ternura.


JOSÉ CARLOS ARY DOS SANTOS (1937 - 1984)




AUTO-RETRATO

Poeta é certo mas de cetineta
fulgurante de mais para alguns olhos
bom artesão na arte da proveta
narciso de lombardas e repolhos.

Cozido à portuguesa mais as carnes
suculentas da auto-importância
com toicinho e talento ambas partes
do meu caldo entornado na infância.

Nos olhos uma folha de hortelã
que é verde como a esperança que amanhã
amanheça de vez a desventura.

Poeta de combate disparate
palavrão de machão no escaparate
porém morrendo aos poucos de ternura.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

ARY 25 ANOS




Faz no domingo 25 anos que ele se deixou adormecer. As suas palavras perduram. Sobretudo as das canções e as de combate.

É preciso recordar também as outras facetas do Ary. Aqui, o provocador.


JOSÉ CARLOS ARY DOS SANTOS (1937-1984)



PAVANA PARA UMA BURGUESIA DEFUNTA


A cabeça de vaca de minha tia mais velha
repousa em guerra lenta no cemitério maior.
Rói-lhe o bicho das contas a fímbria da orelha.
Rói-lhe o rato da raiva as narinas sem cor.

Repousa em paz Raposa que na toca
fareja a galinhola e o fricassé.
Já não mija mas cheira
já não vive mas ousa
ser a santa que foi ser o estrume que é.

A cabeça de vaca de minha tia refoga
nas lágrimas burguesas da família enlatada
cozinha-lhe a memória um viúvo de toga
descasca-lhe a cebola uma filha frustada.

A cabeça de vaca de minha tia meneia
o sim-sim o não-não dos outros semivivos
na família a razão de se morrer a meias
é a exaltação dos suspiros cativos.

Se não fosse o desgosto se não fosse a gordura
o retrato na sala o buraco no ventre
se não fosse de força tinha feito a escritura
nem sequer houve tempo para o oiro dos dentes.

Minha tia mastiga minha tia castiga
na saleta do inferno as almas dos criados:
- não me limpaste o pó a campa tem urtigas
atrasaste o jantar dos condenados.

A cabeça de vaca de minha tia sem nome
coze no fogo brando do que é passar à história.
Dissolve-se na boca resolve-se na fome
do senhor que a devora em sua santa glória.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

PROMESSAS




Depois dos livros que li, os que quero ler, as promessas urgentes de leitura que já estão na pilha mais urgente das urgências.



Em lígua portuesa:

"O RETÁBULO DE GENEBRA", SÉRGIO LUÍS DE CARVALHO

"MYRA", MARIA VELHO DA COSTA

"O SAL DA TERRA", MIGUEL REAL

"CONTOS", HÉLIA CORREIA

"JERUSALÉM", GONÇALO M. TAVARES

"O CEMITÉRIO DE PIANOS", JOSÉ LUÍS PEIXOTO

"DOM CASMURRO" E "MEMÓRIAS PÓSTUMAS DE BRÁS CUBAS", MACHADO DE ASSIS

Revisitar o RAUL BRANDÃO e o CARLOS DE OLIVEIRA



Estrangeiros:

"O SONHO REALIZADO", JUAN CARLOS ONETTI

"A PASSO DE CARANGUEJO", GUNTER GRASS

"LE CAFÉ DE LA JEUNESSE PERDUE", PATRICK MODIANO

"O HOMEM SEM QUALIDADES", ROBERT MUSIL

"AS VOZES DO PÁRAMO", JAUME CABRÉ

"O ASSASSINO SEM ROSTO" HENNING MANKELL

Contos:

ALICE MUNRO, KATHERINE MANSFIELD, DAPHNE DU MAURIER, VLADIMIR NABOKOV

Poesia:

"O POUCO É PARA ONTEM", JOAQUIM PESSOA

"A LUZ DA MADRUGADA", FERNANDO PINTO DO AMARAL

"O LIVRO DOS SALMOS", MÁRIO CASTRIM

"VISTA CANSADA", LUÍS GARCÍA MONTERO (Espanha)

"Picar" alguns poetas como Mário Benedetti (Uruguai), Olivério Girondo (Argentina), Piedad Bonett (Colombia.

Pocurar mais traduções em línguas acessíveis da polaca Szymborska

E etc, incluindo várias das sugestões de leitura que a Rita Carrapato aqui deixou há dias e que me fizeram ficar muito guloso.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

MAIS POESIA



"O AMANTE JAPONÊS", ARMANDO SILVA CARVALHO

Poeta excepcional com uma poesia forte, por vezes rude mas complexa.

Há pouco menos de anos que tenho como imprescíndivel.




"O PROBLEMA DE SER NORTE", FILIPA LEAL

Uma das vozes jovens da poesia portuguesa que me fez parar e pensar: aqui há gente!

Muito bom o sentido de humor e a bela construção do verso a revelar uma cuidada oficina da escrita que está ausente em muita da poesia jovem.

Tenho curiosidade em ler mais. Porque isto das artes é como correr a maratona. É preciso ver quem é que chega ao fium dos 42 kilómetros. Assim a Filipa Leal continue.



"QUARTETO PARA AS PRÓXIMAS CHUVAS", JOÃO RUI DE SOUSA

Grande senhor da nossa poesia. Vem da resistência. Nunca se pôs em bicos de pés e é um grande oficial da arte da escrita. Um prazer lê-lo e relê-lo porque é daqueles casos em que a musicalidade do verso não resulta de facilidades. Uma prova de que é possível a rima a par com a complexidade.



"O ESPÍRITO DO LUGAR", ORFEU B.

Cientista e professor universitário no IST de Lisboa.

Livro muito intenso, inspirador, invulgar na sua concepção onde se misturam poesia e prosa para circular em torno da análise do horror e da barbárie que se concretizaram no holocausto.

Merece ser lido em voz alta como se de uma partitura musical se tratasse. Um caminho invulgar e de grande qualidade entre a poesia que se publica em língua portuguesa.