sábado, 19 de setembro de 2009

CASA DAS HISTÓRIAS DE PAULA REGO



Foi hoje inaugurada em Cascais a Casa das Histórias, Museu que guarda algumas das fantásticas histórias pintadas por Paula Rego.

O projecto é do notável arquitecto Souto Moura.

A propósito um poema inédito escrito justamente a partir de uma pintura da série "As avestruzes bailarinas" de Paula Rego.




AS AVESTRUZES BAILARINAS

(Sobre uma pintura de Paula Rego)


Perderam no ovo
a memória do voar.

As avestruzes.

Têm desejos aerodinâmicos.

Dormem numa febre de sentir
encostando ao peito
o mecânico ruído de turbinas
hélices
motores.

Têm sonhos que nunca confessarão
nem sequer à própria sombra.

Aspiram soluçando à forma das fuselagens.

Perderam no ovo a inclinação
à travessia das nuvens.

Vão dançar a noite inteira
procurando tristemente a memória
de uma estrela de um cometa
ou de uma asa.

José Fanha

(Do livro ainda inédito "Marinheiro de outras luas")

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

O REFÚGIO DA UTOPIA



"A ignorãncia está à nossa volta, frequentemente arrogante e reivindicada. E dá mesmo provas de proselitismo. É segura de si, proclama o seu domínio pela boca desdenhosa dos políticos. E o saber, frágil e mutável, sempre ameaçado, duvidando de si mesmo, é inquestionávelmente um dos últimos refúgios da utopia."

Jean-Caude Carriére, in "A obsessão do fogo"

(Actor e guionista de cinema, autor de muitos dos guiões de Buñuel, colaborador de Jean-Luc Godard, nagisa Oshima Milos Forman e de Peter Brook, professor e bibliófilo)

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

DEZEDORES DE POESIA

Ainda o 1º Encontro nacional de Dezedores de Poesia. Imagens da última sessão em que todos dissemos poesia de Vitorino Nemésio, poeta açoriano e natural da Praia da Vitória onde decorreu justamente o encontro.



(Judite Parreira, dezedora açoriana, e este que se assina)



(O Pedro Lamares, o Luís Lucas, a Maria do Céu Guerra, o Gonçalo Oliveira)

Faltam nestas fotografias os outros participantes que foram os poetas Marcolino Candeias e Álamo de Oliveira, a actriz S. José Lapa, o actor Rui Sprangler e a dra. Maria Barroso que nos deixou a todos rendidos pelo seu brilhantismo, pela sua simplicidade e encanto, pela arte de dizer que, em tempos idos, fez com que fosse expulsa do teatro nacional e perseguida pela PIDE em diversas circunstâncias.

Para acabar, fica um belíssimo poema de Vitorino nemésio.

VITORINO NEMÉSIO (1901-1978)


VERBO E EQUÍVOCO



Chamo verbo ao equívoco falado
Que em tábuas decorei de tempo e modo,
Mas o Verbo é unívoco e sagrado,
Junto a Deus, mesmo Deus, único e todo.

Lá do sempre arrancando e nunca nado,
O eterno abarca o mundo e a vida a rodo:
É no que foi e no devir, tornado
Por amor novo Adão, limpo de todo.

Desse Verbo de que falo, mal declino
O caso do meu nome, nele divino;
Anónimo, sem ele, vagueio mudo:

Mas, chamem-no os vestígios da parábola,
E brilho como a pérola da fábula,
Homem, menos que nada e mais que tudo.

sábado, 12 de setembro de 2009

AQUELA NUVEM E OUTRAS



(Edição: Campo das Letras, 1999)

Não foi muita a poesia que Eugío de Andrade escreveu destinada a crianças. Aqui estão alguns poemas que escreveu, como é dito no início do livro, para o Miguel á medida que ia crescendo.

Estes poemas são maravilhosos para ler aos nossos meninos à medida que vão crescendo.

Velho, velho, velho.
Chegou o Inverno.

Vem de sobretudo,
vem de cachecol,
o chão onde passa
parece um lençol.

Esqueceu as luvas
perto do fogão:
quando as procurou
roubara-as um cão.

Com medo do frio
encosta-se a nós:
dai-lhe café quente
senão perde a voz.

Velho, velho, velho.
Chegou o Inverno.

As ilustrações de Alfredo Martins, a lápis de cor, são suaves e dialogam muito bem com o tranuilo discorrer da escrita d Eugénio.

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

JEAN COCTEAU

Ainda de coração encantado com o 1º Encontro Nacional de Dezedores de Poesia na Praia da Vitória, trago aqui Jean Cocteau (1889-1963), destacado poeta, romancista, cineasta, designer, dramaturgo, actor e encenador de teatro e membro do Movimento Surrealista francês.




No meu vagabundear por leituras encontrei este poema inédito de Cocteau e aproveitei para o transfigurar para português.



CARTA DE ADEUS A FEDERICO

(Inédito publicado pelo El Cultural de 24/04/09)



Canta.
Pela boca da tua ferida.
Pela boca entreaberta da tua ferida.
Pela boca da tua ferida aberta de par em par.
Pelo olho húmido carmim da tua ferida.
Pela romã resplandecente da tua ferida.
Pelo riso atroz de um cavalo de picador da tua ferida.
Pelo leite obscuro dos lábios de um recém-nascido da tua ferida.
Pela lava do vulcão da tua ferida.
Pela mucosa do ouriço aberto em dois da tua ferida.
Pela taberna onde desperta sobressaltado o cigano da tua ferida.
Pela estrela escarlate das ruínas da tua ferida.
Pela tinta vermelha do último poema da tua ferida.

terça-feira, 1 de setembro de 2009

E HÁ MUITOS PROFESSORES QUE GOSTAM DE ENSINAR

"Foram muitos mais que aquela centena de milhar (de professores) os que foram afectados pela intolerável e inadmissível política de humilhação. De uma humilhação que não foi apenas de comportamento, de atitude pessoal da ministra ou dos secretários de Estado relativamente aos professorescom frases como o "professorzeco" e coisas dessas. Foi a incrível dita "burocracia" que foram obrigados aa seguir, que implica o esmagamento da profissão e a falta de respeito pela pessoa do professor. Não é apenas uma atitude. É o número de papeis , de coisas, a impossibilidade de ensinar... E há muitos professores que gostam de ensinar."

JOSÉ GIL, revista "LER", Setembro 2009

UNS E OUTROS

Algumas pequenas coisas vão mudando a nossa vida.

As formas de comunicação alteram-se. Criam-se redes, grupos, nuvens de inter-relação com novas formas de ligação. Mais perto ou mais longe precisamos uns dos outros, é o que é.

Começa-se a fazer um blog e, de repente, sentimos uma obrigação de fornecer periodicamente o pão do poema, da imagem, da opinião àqueles que fazem o favor de nos seguir.

A verdade é que já somos uma espécie de equipa.

Eu cá preciso de saber que do outro lado estão a Licínia, a Rita Carrapato, o Tiago Carvalho, o Samuel, a Margarida Graça, o Eufrázio...

E é perante todos eles que não quero fazer má figura. Eles, os que têm cara e nome e os outros que nem sei quem possam ser. Andam por aí, uma ou outra vez deixam sinal. Muitas vezes nem por isso.

A verdade é que cerca de 50 passam pelas Queridas Bibliotecas por dia! Que responsabilidade, já viram?

No final de férias pareceram-me duas optites e uma valente preguicite. mas cá estou de volta e a perguntar-me a quem é que isso pode interessar.

Mas estou vivo. Apaixonado pela vida como sempre. Cheio de paixões e de indignação perante as injustiças e perante a perversa idiotia de muitos dos que mandam neste mundo.

E volto para juntar mais alguns títulos de livros para a infância que adoro e que acho que devem estar em todas as Queridas Bibliotecas.

Mas quero aproveitar para transcrever afirmações do filósofo José Gil sobre o país, o governo... E a educação.

Abraços e beijos e preparem-se porque as citações que se seguem são barras pesadas!

sábado, 22 de agosto de 2009

A PRINCESA DE ALJUSTREL


(Edição: OQO, 2008)

Algumas editoras têm apostado fortemente na força e na inovação da ilustração, no que diz respeito à literatura infantil. É o caso da "Planeta Tangerina", da "Kalandraka" e da "OKO", editoras galegas que publicam também em português

Há cerca de 1 ano/ ano e meio ouvi uma contadora de histórias galega contar esta PRINCESA DE ALJUSTREL numa sessão na Associação Âncora em Tavira. Fiquei encantado e fui a correr comprar o livro.

Tenho-o usado um Jardins de Infância e Escolas do 1º Ciclo com êxito retumbante. É daqueles livros em que a imagem é fundamental e é ela que conduz a narração e solicita a participação dos meninos.

Essa ilustração são engenhosas assamblages de objectos fotografados que resultam em imagens extremamente expressivas.

"O que é isto? É o pau que beteu no cão que mordeu no gato que apanhou a pega que roubou o pano que escondeu o anel da Princesa de Aljustrel!..."

Trata-se de um conto acumulativo eque recolhe vários dos elementos típicos destas séries como o gato, o cão, o pau, o fogo, a água, etc. Há vários outros exemplos em português como é o caso de "O Castelo de Chuchuromel" de António Torrado.

Divirto-me muito com esta Princesa. Acho até que tenho de comprar outra, que esta, de tanto a usar, está a ficar um bocadinho imprestável.

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

ISTO É QUE FOI SER


Edição: Afrontamento, 1997)

O Álvaro Magalhães é dos mais significativos escritores para a infância e juventude.

O José de Guimarães é um artistas de méritos reconhecidos internacionalmente. O encontro entre os dois é um dos mais belos~, delicados e comoventes livros para a infância dos últimos 30 anos.

A história é a da grande aventuras de um menino, o Miguel, que está para nascer e que diz "Isto é que está a ser!". Dirá mais tarde "Isto é que está a ser!". Terminará a dizer: "Isto é que foi ser!"

Pelo meio das suas aventuras o Miguel conhece um personagem que é poeta e que que até existe mesmo e chama-se Manuel António Pina. E fica-nos um seu poema que quase que resume o sentido do livro.

A Ana quer
nunca ter saído
da barriga da mãe
Cá fora está-se bem
mas na barriga também
era divertido
...

"Isto é que foi ser" é quse um clássico da literatura para a infânia em Portugal. Uma delicia para todos e para os adultos também.

sábado, 15 de agosto de 2009

POEMAS DA MENTIRA E DA VERDADE



(Edição: Livros Horizonte, 1999)

O menino do contra
queria tudo ao contrário
deitava os fatos na cama
e dormia no armário.

A Luísa Ducla Soares percebe como ninguém o prazer e a necessidade que os meninos têm em usar a imaginação para transgrsir as normas e experimentar as coisas ao contrário, experimentan-lhes os limites, percebendo a lógca do seu funcionamento olhado do avesso.

Ese livrinho, do qual já conheci várias edições, tem sido dos que mais tenho usado quando vou às escolas do 1º Ciclo. E muitas vezes prolongo-o, ou prolongo a sua (i)lógica, propondo aos meninos que inventem coisas "ao contrário". Dá sempre resultados fantásticos.

Este é daqueles que deviam ser obrigatórios em qualquer biblioteca.

A ilustração.. Sabemos como a ilustração de livros infantis ganhou um protagonismo e uma qualidade plástica notáveis nos últimos anos. O trabalho de Ana Cristina Inácio está longe da grande onda de renovação da ilustração em Portugal. É ingénua, fora de época, e não estará ao nível da vitalidade do texto.

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

CORRE, CORRE CABACINHA



(Edição Caminho, 1991)


Recolher a tradição oral tem sido o trabalho louvável de muitos escritores. São exemplo disso os Romanceiros recolhidos por Garcia de Resende, Almeida Garrett ou Teófilo Braga. São ainda exemplo disso as recolhas de Leite de Vasconcelos, Adolfo Coelho e outros em relação às histórias ue passaram de boca em boca, de geração em geração, e fizeram o caldo em que se foi construindo o imaginário dos portugueses durante séculos.

Pegar nessa tradição e retrabalhá-la literariamente, oferendo-a às crianças e aos jovens de hoje de forma cuidada e sem atraiçoar o sentido original tem sido um trabalho louvável levado a cabo por inúmeros escritores contemporâneos de que terei de referir António Torrado pela extensão do seu trabalho e pela qualidade que lhe conferiu.

Também Alice Vieira pegou nalgumas desses histórias da tradição e as adaptou e tornou utilizáveis por pais e professores, juntando-as numa excelente colecção em que cada história é ilustrada por um ilustrador diferente.

"Corre, corre cabacinha" é daquelas histórias imbatíveis. Toos nós crianças e adultos fazemos força para que a velhinha, escondida na cabaça, escape ao lobo esfomeado.

Assim, deixamo-nos embalar no ritmo justo, poético e encantatório com que a minha querida amiga Alicinha renovou esta história mantendo-lhe integralmente o encanto original.

Noites e noites a fio li esta história às minhas filhas. E ainda tenho a sua música deliciosa no ouvido:

Não vi velha nem velhinha
não vi velha nem velhão
corre corre cabacinha
corre corre cabação

As ilustrações de Miguel Ribeiro são justas, servem bem o texto, sublinham o lado assustador do lobo e o rolar vertiginoso da cabaça onde a velhinha vai escondida, embora não saiam de um registo tradicional.

terça-feira, 11 de agosto de 2009

VIAGEM Á FLOR DE UM MÊS



(Edição: Campo das Letras, 2002)

Dois Letrias, pai e filho juntos. Normalmente dá bom resultado. O André é um ilustrador excepcional que criou um estilo inconfundível e de grande qualidade. O José Jorge é um escritor e poeta com larga obra publicada, nomeadamente na ária da literatura infantil.

Do José Jorge Letria, meu amigo e companheiro de muitas aventuras e sonhos de há mais de 40 anos, há quem diga que publica demais, que se vigia pouco, que tem uma obra irregular. Terá foros de verdade, sim senhor. Mas quando o José Jorge acerta, leva a escrita a um nível altíssimo de intensidade e emoção.

É o caso deste livro que comemora na poesia das palavras o 25 de Abril, esse dia maravilhoso que foi, todo ele, feito de poesia viva transvasada nas ruas do país.

O livro é escrito a duas vozes. A voz do pai e do filho que em poesia dialogam sobre o 25 de Abril.

Filho, havia uma voz sumida
que vinha do fundo de um poço,
uma voz cansada e seca,
uma voz ardida por uma chama
acesa na garganta que me contava
a tristeza dos dias,
a solidão das noites
antes desse mês que chegou
com abelhas e pássaros,
com o mel de mil promessas
escorrendo das asas."

Esta "VIAGEM À FLOR DE UM MÊS" erá talvez para meninos a partir dos 10 anos, necessitará de outras conversas e explicações, e é para se ler baixinho e deixar que uma grande comoção tome conta dos nossos lábios.

domingo, 9 de agosto de 2009

O LIVRO DAS SETE CORES



(Edição: Caminho, 2006)

"Não havia meio de acertarem:
- Eu é que te dei o nome - dizia a laranja.
- Eu é que te dei a cor - dizia o laranja.

E nunca mais se entendiam

..."

Conheci este livro na sua primeira edição de 1983 da Moraes editora. Perdi-o. Procurei-o desesperadamente. Porque foi dos melhores e mais belos livros de poesia para crianças que já tinha lido. Reencontrei-o nesta nova edição da Caminho e guardo-o como uma pequena preciosidade.

"Eu sou o verde.
Vim de um arco-íris e escorreguei
por dentro de uma gota de chuva.
..."

Os autores são dois queridos amigos com quem tive a felicidade de trabalhar em circunstâncias diversas. A Maria Alberta Menéres e o António Torrado, dois escritores que, desde os anos 70, deram dignidade e prestígio à literatura para a infância, contrariando os que a consideravam um género menor.

As ilustrações são simplesmente notáveis. Um trabalho de grande qualidade e modernidade do pintor Jorge Martins a demonstrar que as crianças têm de ser respeitadas e a elas também pode deve ser entregue o que de melhor as artes plásticas têm para oferecer.

"Tenho muitos inimigos.
Caluniam-me. Insinuam:
"Que seria do amarelo
se não houvesse o mau gosto?"
Fico amarelo de raiva.
e agora que, nesta tribuna,
tenho a grande oportunidade
de os desmascarar,
só lhes grito na minha voz clara:
gema
sol
ouro.

Com estes argumentos os desfaço."

Mais do que um livro temos aqui um porto de onde partir para investigar com os nossos meninos a maravilhosa mecânica das cores.

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

A MENINA GOTINHA DE ÁGUA




(Edição: Campo das Letras, 1999)


Esta obra de Papiniano Carlos é já um clássico que conheceu várias edições. Das que conheço, esta é a que mais me encanta até pelas deliciosas ilustrações de Joana Quental.

As minhas filhas pediam-me para contar a "Gotinha de água" uma, e outra, e outra, e outra vez. E eu, radiante, não me cansava de a reler porque ao ler o melhor que nos oferece a literatura para crianças, também nós deixamos vir ao de cimo a criança que nunca deixamos de ser, pelo menos os que não nos deixámos atropelar pelo lado negro da vida.

A simplicidade deste poema não é sinal de facilidade. pelo contrário. escrever simples é quase sempre o mais difícil. Um exercício de grande exigência, depuração, vigilância sobre a mão que escreve.

Papiniano Carlos é um mestre na arte da simplicidade. E não podia estar melhor acompanhado na ilustração.

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

AINDA FALTA MUITO?



(Edição Caminho, 2009)

Carla Maia Almeida foi para mim uma bela surpresa. A pessoa e a escritora.

"Ainda falta muito?!" parte de uma bela ideia que creio ser do excelente ilustrador Alex Gozblau. A ideia era a de fazer um livro sobre a pergunta que todos os meninos fazem até à exaustão quando vão no banco de trás do carro dos pais em viagens mais demoradas: "Ainda falta muito?"

A Carla pegou no tema de uma forma brilhante, conseguindo retirá-lo da simples brincadeira em redor do tema, para o envolver numa escrita poética muito cuidadosamente trabalhada, uma renda que nos faz desejar que a viagem não termine para que possamos continuar a ler aquelas deliciosas explicações do pai e da mãe.

"Quando é que chegamos?"

"Quando os semáforos se transformarem em árvores e os carros não passarem na estrada estaremos mais perto."

"Quando é que a montanha chega o fim?"

"Depende se estamos em cima ou em baixo. Se começamos pela cabeça ou pelos pés.
Se queremos subir o fim é lá no alto.
Se queremos descer o fim volta ao princípio."

Alex Gozblau é um ilustrador de recursos diversos e com uma excepcional qualidade em tudo o que nos oferece e não é por acaso que tem recebido vários prémios, o último dos quais o Prémio Stuart 2009 para ilustradores de imprensa.

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

ANJOS DE PIJAMA



(Edição: Texto, 2005)


Matilde Rosa Araújo, a nossa Matildinha como nós, os escritores para a infância, gostamos de a tratar, é a nossa decana.

Com os seus 87 anos continua, de quando em vez, a ir a escolas para contar as suas histórias e ler os seus poemas aos meninos.

São muitos os seus livros que poderia trazer aqui como fundamentais para qualquer biblioteca. Este é apenas um dos últimos.

A sua escrita é muito simples e delicada. Matilde trabalha com uma notável elegância os sentimentos simples de alegria, nostalgia, perda, solidão. As suas palavras são delicadíssimas, quase etéreas, e caem-nos nas mãos como um tecido muito leve que nos envolve de novo na pátria da mais pura infância.

Era um pinheirinho manso
Tão manso que adormeceu:
Raízes presas à terra
Agulhas presas ao céu.

Neste livro está acompanhada por outra grande senhora, a pintora, azulejista e ilustradora Maria Keill.

O resultado é uma pequena obra de arte. Um mimo. A partir dos 3 anos, para todas as idades.

sábado, 1 de agosto de 2009

AS NAUS DE VERDE PINHO


(Edição: Caminho, 1996)

O que eu sempre gostei na História é que ela é feita de histórias. Histórias maravilhosas ou terríveis, de guerra e de paz, de traição e de coragem, de amor e transcendência... Histórias. E as histórias de que é feita a nossa História são a nossa raiz. Por isso me parece tão importante trazer as histórias da nossa História para a hora boa do contar.

Esta é a história da viagem de Bartolomeu Dias que dobrou o Cabo das tormentas ou da Boa Esperança e que é aqui contada pelo poeta Manuel Alegre à filha Joana e, por isso, a todos os filhos de todos os pais que não querem que as suas raízes antigas se percam.

Sempre que em teu pensamento
o verde pinho florir
abre os teus sonhos ao vento
porque é tempo de partir.

Esta ideia de que é preciso partir, rasgar fronteiras, descobrir o o que está para além e descobrirmo-nos a nós próprios, é o cerne do crescimento de cada um, da abertura de um menino ao mundo, ao conhecimento, à poesia.

Este é um livro para ler em voz alta, como toda a poesia. Para que se ponha bem em relevo a toada incofundível do poeta tão cheia da bela música da língua portuguesa quando ela é bem usada.

Eu aconselharia este livro aos meninos dos dos 8 aos 12 anos. E a todos os outros, também.

quinta-feira, 30 de julho de 2009

ONDA



(Edição: Gatafunho - Ana paula Oliveira editora -, 2009)

A autora é a americana Suzy Lee. O livro recebeu o prémio do New York Times para o Melhor Livro Ilustrado para Crianças e a Medalha de Ouro dos ilustradores americanos.

Os desenhos são deliciosamente simples e de uma qualidade rara. Mostram-nos uma menina atrevida na praia a brincar com as ondas do mar. A história cabe-nos a nós inventá-la. e de cada vez podemos inventar uma história diferente. (Não é isto mesmo o encanto da leitura, a possibilidade de cada ler uma história diferente da de todos os outros leitores?)

Esta é uma magnífica proposta para a hora de deitar de meninos criativos, filhos de pais que os ajudam a voar.

E, já agora, atenção a esta editora e aos seus raros critérios de qualidade em tudo o que edita.

terça-feira, 28 de julho de 2009

VASSOURINHA



(Edição: Campo das Letras, 2001)

Nesta viagem pela literatura para crianças começo por um livro muito especial que fala sobre o 25 de Abril, ou melhor, sobre o autoritarismo de uma velha Senora que mandava numa pobre vassoura que um dia se libertou do seu jugo vil e arrogante.

Uma vassoura vassoura
no espaço por vassourar
enquanto a Dona Senhora:
- Não quero vê-la parar.

O autor é o meu muito querido amigo António Torrado. Um grande senhor da literatura para crianças. Os versos,numa toada de romance popular. As ilustrações são simplesmente do melhor que se tem feito em livros para crianças e o autor é o João Abel Manta, um grande pintor que tem vivido muito metido na sua concha e que pouco tem sido lembrado. Uma injustiça. E este livro prova a variedade e brilhantismo dos seus recursos plásticos.

Uma vassora vassoura
de palha triste cansada
enquanto a Dona Senhora:
- E seja mais despachada!

A "Vassourinha" esteve no top-ten das leituras à hora de dormir cá de casa. Para que idade? Às vezes é difícil dizê-lo. Os grandes livros não têm idade. Este pequeno grande livro a mim encanta-me. Acho que ainda estou em idade de o ler. Seguramente, os que têm entre 4 e 10 anos também adoram. E acaba assim:

Ficou a Dona Senhora
com o seu perfil insolente
sem a vassoura servil,
ficou a Dona Senhora,
de repente,num tormento,
muito inflamada, irritada
do pó que rodopiava
soprado por estranho vento.

E o que ela espirrava
e o que ela gritava:
- Fechem as janelas por dentro.

Mas já foi fora de tempo.

Que a vassourinha na rua
dançava nas mãos do vento
e num tal contentamento
que já ninguém a parava.

Perdera o medo para sempre.