"Não havia meio de acertarem: - Eu é que te dei o nome - dizia a laranja. - Eu é que te dei a cor - dizia o laranja.
E nunca mais se entendiam
..."
Conheci este livro na sua primeira edição de 1983 da Moraes editora. Perdi-o. Procurei-o desesperadamente. Porque foi dos melhores e mais belos livros de poesia para crianças que já tinha lido. Reencontrei-o nesta nova edição da Caminho e guardo-o como uma pequena preciosidade.
"Eu sou o verde. Vim de um arco-íris e escorreguei por dentro de uma gota de chuva. ..."
Os autores são dois queridos amigos com quem tive a felicidade de trabalhar em circunstâncias diversas. A Maria Alberta Menéres e o António Torrado, dois escritores que, desde os anos 70, deram dignidade e prestígio à literatura para a infância, contrariando os que a consideravam um género menor.
As ilustrações são simplesmente notáveis. Um trabalho de grande qualidade e modernidade do pintor Jorge Martins a demonstrar que as crianças têm de ser respeitadas e a elas também pode deve ser entregue o que de melhor as artes plásticas têm para oferecer.
"Tenho muitos inimigos. Caluniam-me. Insinuam: "Que seria do amarelo se não houvesse o mau gosto?" Fico amarelo de raiva. e agora que, nesta tribuna, tenho a grande oportunidade de os desmascarar, só lhes grito na minha voz clara: gema sol ouro.
Com estes argumentos os desfaço."
Mais do que um livro temos aqui um porto de onde partir para investigar com os nossos meninos a maravilhosa mecânica das cores.
Esta obra de Papiniano Carlos é já um clássico que conheceu várias edições. Das que conheço, esta é a que mais me encanta até pelas deliciosas ilustrações de Joana Quental.
As minhas filhas pediam-me para contar a "Gotinha de água" uma, e outra, e outra, e outra vez. E eu, radiante, não me cansava de a reler porque ao ler o melhor que nos oferece a literatura para crianças, também nós deixamos vir ao de cimo a criança que nunca deixamos de ser, pelo menos os que não nos deixámos atropelar pelo lado negro da vida.
A simplicidade deste poema não é sinal de facilidade. pelo contrário. escrever simples é quase sempre o mais difícil. Um exercício de grande exigência, depuração, vigilância sobre a mão que escreve.
Papiniano Carlos é um mestre na arte da simplicidade. E não podia estar melhor acompanhado na ilustração.
Carla Maia Almeida foi para mim uma bela surpresa. A pessoa e a escritora.
"Ainda falta muito?!" parte de uma bela ideia que creio ser do excelente ilustrador Alex Gozblau. A ideia era a de fazer um livro sobre a pergunta que todos os meninos fazem até à exaustão quando vão no banco de trás do carro dos pais em viagens mais demoradas: "Ainda falta muito?"
A Carla pegou no tema de uma forma brilhante, conseguindo retirá-lo da simples brincadeira em redor do tema, para o envolver numa escrita poética muito cuidadosamente trabalhada, uma renda que nos faz desejar que a viagem não termine para que possamos continuar a ler aquelas deliciosas explicações do pai e da mãe.
"Quando é que chegamos?"
"Quando os semáforos se transformarem em árvores e os carros não passarem na estrada estaremos mais perto."
"Quando é que a montanha chega o fim?"
"Depende se estamos em cima ou em baixo. Se começamos pela cabeça ou pelos pés. Se queremos subir o fim é lá no alto. Se queremos descer o fim volta ao princípio."
Alex Gozblau é um ilustrador de recursos diversos e com uma excepcional qualidade em tudo o que nos oferece e não é por acaso que tem recebido vários prémios, o último dos quais o Prémio Stuart 2009 para ilustradores de imprensa.
Matilde Rosa Araújo, a nossa Matildinha como nós, os escritores para a infância, gostamos de a tratar, é a nossa decana.
Com os seus 87 anos continua, de quando em vez, a ir a escolas para contar as suas histórias e ler os seus poemas aos meninos.
São muitos os seus livros que poderia trazer aqui como fundamentais para qualquer biblioteca. Este é apenas um dos últimos.
A sua escrita é muito simples e delicada. Matilde trabalha com uma notável elegância os sentimentos simples de alegria, nostalgia, perda, solidão. As suas palavras são delicadíssimas, quase etéreas, e caem-nos nas mãos como um tecido muito leve que nos envolve de novo na pátria da mais pura infância.
Era um pinheirinho manso Tão manso que adormeceu: Raízes presas à terra Agulhas presas ao céu.
Neste livro está acompanhada por outra grande senhora, a pintora, azulejista e ilustradora Maria Keill.
O resultado é uma pequena obra de arte. Um mimo. A partir dos 3 anos, para todas as idades.
O que eu sempre gostei na História é que ela é feita de histórias. Histórias maravilhosas ou terríveis, de guerra e de paz, de traição e de coragem, de amor e transcendência... Histórias. E as histórias de que é feita a nossa História são a nossa raiz. Por isso me parece tão importante trazer as histórias da nossa História para a hora boa do contar.
Esta é a história da viagem de Bartolomeu Dias que dobrou o Cabo das tormentas ou da Boa Esperança e que é aqui contada pelo poeta Manuel Alegre à filha Joana e, por isso, a todos os filhos de todos os pais que não querem que as suas raízes antigas se percam.
Sempre que em teu pensamento o verde pinho florir abre os teus sonhos ao vento porque é tempo de partir.
Esta ideia de que é preciso partir, rasgar fronteiras, descobrir o o que está para além e descobrirmo-nos a nós próprios, é o cerne do crescimento de cada um, da abertura de um menino ao mundo, ao conhecimento, à poesia.
Este é um livro para ler em voz alta, como toda a poesia. Para que se ponha bem em relevo a toada incofundível do poeta tão cheia da bela música da língua portuguesa quando ela é bem usada.
Eu aconselharia este livro aos meninos dos dos 8 aos 12 anos. E a todos os outros, também.
(Edição: Gatafunho - Ana paula Oliveira editora -, 2009)
A autora é a americana Suzy Lee. O livro recebeu o prémio do New York Times para o Melhor Livro Ilustrado para Crianças e a Medalha de Ouro dos ilustradores americanos.
Os desenhos são deliciosamente simples e de uma qualidade rara. Mostram-nos uma menina atrevida na praia a brincar com as ondas do mar. A história cabe-nos a nós inventá-la. e de cada vez podemos inventar uma história diferente. (Não é isto mesmo o encanto da leitura, a possibilidade de cada ler uma história diferente da de todos os outros leitores?)
Esta é uma magnífica proposta para a hora de deitar de meninos criativos, filhos de pais que os ajudam a voar.
E, já agora, atenção a esta editora e aos seus raros critérios de qualidade em tudo o que edita.
Nesta viagem pela literatura para crianças começo por um livro muito especial que fala sobre o 25 de Abril, ou melhor, sobre o autoritarismo de uma velha Senora que mandava numa pobre vassoura que um dia se libertou do seu jugo vil e arrogante.
Uma vassoura vassoura no espaço por vassourar enquanto a Dona Senhora: - Não quero vê-la parar.
O autor é o meu muito querido amigo António Torrado. Um grande senhor da literatura para crianças. Os versos,numa toada de romance popular. As ilustrações são simplesmente do melhor que se tem feito em livros para crianças e o autor é o João Abel Manta, um grande pintor que tem vivido muito metido na sua concha e que pouco tem sido lembrado. Uma injustiça. E este livro prova a variedade e brilhantismo dos seus recursos plásticos.
Uma vassora vassoura de palha triste cansada enquanto a Dona Senhora: - E seja mais despachada!
A "Vassourinha" esteve no top-ten das leituras à hora de dormir cá de casa. Para que idade? Às vezes é difícil dizê-lo. Os grandes livros não têm idade. Este pequeno grande livro a mim encanta-me. Acho que ainda estou em idade de o ler. Seguramente, os que têm entre 4 e 10 anos também adoram. E acaba assim:
Ficou a Dona Senhora com o seu perfil insolente sem a vassoura servil, ficou a Dona Senhora, de repente,num tormento, muito inflamada, irritada do pó que rodopiava soprado por estranho vento.
E o que ela espirrava e o que ela gritava: - Fechem as janelas por dentro.
Mas já foi fora de tempo.
Que a vassourinha na rua dançava nas mãos do vento e num tal contentamento que já ninguém a parava.
Nos últimos anos tem começado a dar-se importância decisiva à literatura para crianças ou literatura infantil.
A leitura começou a ser uma preocupação prioritária de pais, professores, editores, autores, ilustradores e até de jornais e revistas onde vão aparecendo secções que abordam as novidades literárias neste campo.
O alargamento da Rede Pública de Leitura e da Rede de Bibliotecas Escolares, o Plano Nacional de Leitura com todas as suas virtudes e defeitos, os encontros de contadores de histórias, são o meio onde o livro infantil encontra um chão seguro para chegar aos jovens leitores.
Têm saído a público livros de grande qualidade literária e plástica. Surgiram em Portugal alguns ilustradores de enorme qualidade e os escritores multiplicam-se.
(Ilustração de André Letria)
Não é fácil escolher entre a quantidade de ofertas das livrarias onde se mistura o melhor e o pior. E é bom que se diga que ao lado de obras notáveis encontramos livros deploráveis,ilustrações de péssimo gosto, traduções assustadoras, textos feitos em cima do joelho, obras pedagogicamente desadequadas.
Quando chega a hora de oferecer um livro a um menino, quem não está ligado a este mundo da leitura tem porventura muitas dificuldades na escolha.
Vou trazer para estas queridas bibliotecas alguns livros que encantam o menino que sou.
Não pretendo fazer crítica. Apenas chamar a atenção para livros de que gosto especialmente, que uso quando vou a escolas ou a bibliotecas e que sei que cumprem bem a sua função de abrir caminhos à leitura, ao maravilhoso, à poesia, ao crescimento saudável dos nossos meninos.
Diz-se que voltamos sempre ao primeiro amor. Não sei. Crei que alguns voltam, outros não.
Mas, no que diz respeito às paixões culturais, musicais poéticas eu regresso com muita frequência àquelas que foram as que me transportaram para uma dimensão de rebedia e solidariedade que tem sempre marcado a minha vida.
Paco Ibañez. Ouço-o com a mesma emoção hoje com que o ouvia há 40 anos.
Nesta noite morna de luar africano Salpicando de sombras as estradas Eu estendo os meus braços sedentos Para a nossa mãe África, gigante E ergo para ti meu canto sem palavras Suplicando bênção da terra Para as vias dos teus caminhos Para a rota do destino imenso Traçado na inteireza de todo o teu ser Para ti, a projecção das nossas estradas Varridas da impureza dos dejectos inúteis Para ti, o canto de glória da nossa Mãe África dignificada.
Minha avó Capinha, minha avó Capinha, hoje que morreste (que tristeza a minha!), relembro as histórias que tu me contavas em manhãs de chuva, nas noites de lua... (E meu ser, magoado, perde-se, flutua como o sonho errante das almas escravas).
Minha avó Capinha, sou eu que te peço, conta-me o romance, conta-me o sucesso dos teus dezoito anos (ai, onde eu estou!), quando tu dançavas belas batucadas, pelas noites quentes de febris queimadas, na velha sanzala que se incendiou...
Minha avó Capinha, minha avó Capinha, conta-me essa lenda daquela mocinha negra, tão formosa, que numa manhã engoliu um bago de feijão macunde e ficou (que mágoa no meu ser se funde!) para todo o sempre pequenina, anã.
Minha avó Capinha, hoje que morreste, manda-me notícias da mansão celeste: se também há ódios ou há só amor (a descrença enorme do teu pobre neto!), se há um Deus que é branco e outro Deus que é preto, ou um Deus existe sem raça nem cor.
Quando nasci, um anjo torto desses que vivem na sombra disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida. As casas espiam os homens que correm atrás de mulheres. A tarde talvez fosse azul, não houvesse tantos desejos. O bonde passa cheio de pernas: pernas brancas pretas amarelas. Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração. Porém meus olhos não perguntam nada. O homem atrás do bigode é sério, simples e forte. Quase não conversa. Tem poucos, raros amigos o homem atrás dos óculos e do bigode. Meu Deus, por que me abandonaste se sabias que eu não era Deus, se sabias que eu era fraco. Mundo mundo vasto mundo se eu me chamasse Raimundo seria uma rima, não seria uma solução. Mundo mundo vasto mundo, mais vasto é meu coração. Eu não devia te dizer mas essa lua mas esse conhaque botam a gente comovido como o diabo.
"Mutimati é a voz individual que corporiza a voz colectiva.”, assim se escreve no frontispício de “EU, O POVO”. Segundo Nelson Saúte, a lenda dizia ter sido o livro encontrado como testamento de um guerrilheiro caído na frente do combate revolucionário. De facto, sabe-se que o autor é António Quadros ou João Pedro Grabato Dias, pintor e autor de poemas para algumas das canções de Zeca Afonso. No frontispício original dizia-se ainda que aquele livro era agora pertença de Moçambique e que o Povo moçambicano era os eu verdadeiro autor. Estamos de acordo com Neson Saúte ao afirmar que, por vezes, com o tempo, a lenda torna-se verosímil. Deixemo-la então, generosamente, cobrir a autoria destes poemas.
(Pintura de António Quadros)
As linguagens
Na cabeça de um homem há muitas línguas a falar Falam com bocados umas das outras e estão unidas sem saber Quando um homem pensa sozinho consigo mesmo e quer tirar da cabeça uma produção útil para todos.
Por exemplo: Penso Rio. É matsi, é water, é água, É quilos de litros a andar depressa É uma música da água, é um desenho da água na cabeça. Posso falar Rio: posso medir Rio; posso desenhar Rio. Posso tirar o Rio da cama e pôr o rio acordado num papel Que é um retrato parecido deste Rio mesmo este.
Isto que faz na cabeça de um homem tirar retrato são línguas O Rio, a Árvore, o Animal, a Rocha, a Terra, o Sol, o Vento, São as caras da Natureza que as minhas línguas estudam.
A escola Primária Colonial está mal. A língua das palavras não chega para tudo É preciso aprender uma língua dos números É preciso aprender a língua dos desenhos As três línguas juntas é que são a língua verdadeira do Homem
E de pois o Homem já fala à Natureza bem E pode aprender dela tudo o que há-de ensinar.
Sigo a pista do cabrito: pegadas e capim partido. É desenho isso. O excremento está fresco no Sol. Passou pouco. É cálculo aritmético.
Está ali. Não é cabrito. É cabrita. Falei com palavras. Conheço que não sei pensar nada só numa língua.
Tambor está velho de gritar ó velho Deus dos homens deixa-me ser tambor só tambor gritando na noite quente dos trópicos.
E nem flor nascida no mato do desespero. Nem rio correndo para o mar do desespero. Nem zagaia temperada no lume vivo do desespero Nem mesmo poesia forjada na dor rubra do desespero.
Nem nada!
Só tambor velho de gritar na lua cheia da minha terra. Só tambor de pele curtida ao sol da minha terra Só tambor cavado nos troncos duros da .minha terra.
Eu!
Só tambor rebentando o silêncio amargo da Mafalala. Só tambor velho de sangrar no batuque da minha terra. Só tambor perdido na escuridão da noite perdida.
Ó velho Deus dos homens eu quero ser tambor. E nem rio e nem flor e nem zagaia por enquanto e nem mesmo poesia.
Só tambor ecoando como a canção da força e da vida só tambor noite e dia dia e noite só tambor até à consumação da grande festa do batuque!
Oh velho Deus dos homens deixa-me ser tambor só tambor!
A poesia de JOSÉ CRAVEIRINHA é uma antiga e fortíssima paixão minha. Julgo que fui a primeira pessoa a dizer poesia sua na RTP, em 77, numa acidentada sessão de "A Visita da Cornélia" no Porto.
A sua poesia é particularmente comovente pela denúncia do racismo que, não oficializado, era oficiosamente praticado em Moçambique nos anos 50 e 60, com características em tudo semelhantes ao Apartheid daÀfrica do Sul.
Ao ler apontamentos da sua biografia dou com um velho artigo de jornal em que ele elogia "o rasgo de puro e desassombrado desportivismo» que representara, na época de 51/52, o «caso absolutamente ímpar» da «apresentação nas pistas de atletismo de alguns atletas negros puros envergando a tão susceptível, até aí, camisola do Sporting local" e lamenta a "infeliz lei que suprimiu dos campos de futebol a presença do negro quando não apresente o respectivo atestado de assimilação". Anos 50. É bom guardar memória.
Craveirinha recebeu o Prémio Camões 1991 que o consagrou como grande poeta da língua portuguesa, grande poeta da negritude e grande poeta do mundo,
O meu amigo Miguel Real, magnífico escritor, acaba de publicar a novela "A Ministra". Ainda não li. Vou ler, gostosamente, por certo. Mas mesmo antes de o ler achei urgente dar notícia da sua publicação. E já agora, acrescentando a nota que o autor colocou no início do livro. Uma nota que ajuda a desfazer equívocos ou a confirmá-los, conforme o ponto de vista de cada leitor...
À prostituta mais nova Do bairro mais velho e escuro, Deixo os meus brincos, lavrados Em cristal, límpido e puro...
E àquela virgem esquecida Rapariga sem ternura, Sonhamdo algures uma lenda, Deixo o meu vestido branco, O meu vestido de noiva, Todo tecido de renda...
Este meu rosário antigo Ofereço-o àquele amigo Que não acredita em Deus...
E os livros, rosários meus Das contas de outro sofrer, São para os homens humildes, Que nunca souberam ler.
Quanto aos meus poemas loucos, Esses, que são de dor Sincera e desordenada...
Esses, que são de esperança, Desesperada mas firme, Deixo-os a ti, meu amor...
Para que, na paz da hora, Em que a minha alma venha Beijar de longe os teus olhos, Vás por essa noite fora... Com passos feitos de lua, Oferecê-los às crianças Que encontrares em cada rua...
ALDA LARA vei muito nova veio para Lisboa onde concluiu o 7º ano do Liceu. Freqüentou as Faculdades de Medicina de Lisboa e Coimbra, licenciando-se por esta última. Em Lisboa esteve ligada a algumas das atividades da Casa dos Estudantes do Império
Declamadora,chamou a atenção para os poetas africanos.
O poema publicado acima ouvi-o pela primeira vez na voz do meu querido amigo, jornalista, comentador de econimia e amante de poesia Nicolau Santos.
Gosto muito de dizer que se um homem das bandas da economia gosta de dizer poesia, talvez este mundo tenha uma pequena esperança de salvação...
Borboletas me convidaram a elas. O privilégio insetal de ser uma borboleta me atraiu. Por certo eu iria ter uma visão diferente dos homens e das coisas. Eu imaginava que o mundo visto de uma borboleta – Seria, com certeza, um mundo livre aos poemas. Daquele ponto de vista: Vi que as árvores são mais competentes em auroras do que os homens. Vi que as tardes são mais aproveitadas pelas garças do que pelos homens. Vi que as águas têm mais qualidade para a paz do que os homens. Vi que as andorinhas sabem mais das chuvas do que os cientistas. Poderia narrar muitas coisas ainda que pude ver do ponto de vista de uma borboleta. Ali até o meu fascínio era azul.
MANOEL DE BARROS é bacharel em direito viveu em Nova York e é actualmente criador de gado na zona do pantanal onde vive.
Poeta pouco conhecido até tarde, a sua obra "estoirou" a partir dos anos 80 e é hoje reconhecido como uma voz única e fundamental na poesia brasileira.
A sua poesia é doce, quase infantil e aparentemente ingénua, embora se pressinta nas suas descontruções de forma e sentido uma erudição funda mas cristalina e aberta ao diálogo com o leitor.
Foi para mim uma das mais belas descobertas poéticas dos últimos anos.
A publicação da sua obra em Portugal deve-se às Quasi edições.
A poesia em português não se esgota na poesia portuguesa. Cabo Verde, Angola, Moçambique, Brasil, toda a lusofonia respira também na maravilhosa voz dos poetas.
Vou trazer para aqui alguns poemas destas raízes transcontinentais que me têm acompanhado ao longo dos anos e outros com que só me cruzei mais recentemente.
São apenas pequenas portas abertas para que cada um entre por elas e descubra o ouro da grande poesia em língua portuguesa.
Assim devia ser o mundo: claro e transparente desenhado a régua e esquadro em cores indiscutíveis com a rectilínea precisão do traçado de um jardim francês.
Assim devia ser o homem: claro e transparente irmão do seu irmão trabalhando a pedra da alegria amassando noite fora o pão ou roubando à terra a turfa do poema.
Assim devia ser o tempo: claro e transparente. uma tangente azul à negritude um edifício perfeito construído apenas de água comovida ou de cristal.
José Fanha (inédito do livro a publicar "Marinheiro de outras luas")
Esfregou o soalho lavou a roupa e os vidros da janela costurou bainhas descosidas e levou toalhas a cheirar a rosmaninho à senhora do andar de cima.
Vai ao quintal buscar hortelã para a canja e adormece ao som das gargalhadas dos meninos hoje já todos engenheiros com a Graça do Senhor.
Agora está atada ao côncavo da terra por atilhos grossos.
Ladra á lua e tudo nela é carne e sangue.
Morde a mão e dança a valsa sobre o chão confuso de algum sonho diluído lá no longe dos botões dourados do maestro de um coreto nos domingos e feriados.
Ela é grossa e ladra á lua. Sente o corpo a crepitar e rasga o coração.
Entre sangues fala línguas que nunca ninguém lhe ensinou.
Está atada à sangrenta forja das gramáticas lunares e procura uma palavra um nome mesmo que obscuro e difícil de entender.
É uma mulher grossa e no côncavo do corpo fala línguas sem sentido.
Deixou secar os coentros a salsa e a hortelã.
Chama-se cão e ladra à lua.
Vive atada às chamas que a consomem.
José Fanha (inédito do livro a publicar "marinheiro de outras luas")
Em que língua de barro falarei às uvas e às calandras nas manhãs de Primavera?
Em que língua de líquen falarei à pedra?
Em que música que cor que pigmento darei nome ao coração sempre à beira de tocar uma outra transparência?
Em que luz que lua que evidência falarei dos recônditos mistérios que nos chegam cavalgando brumas seculares?
Em que silêncio de neve ou discurso de giesta falarei do meu amor quando o seu sorriso adormecer e todas as palavras se tornarem em pegadas apagadas pelo vento?
José Fanha (inédito do livro a publicar: "Marinheiro de outras luas")
Andei à procura de uma foto dele. Uma mão amiga fez-ma chegar. Era o António Macedo. Quem se lembra? Fomos companheiros de sonhos e palcos, de noites e protestos, do gosto pela poesia e pela canção. Já se foi há uns tempos. Cantava ele e nós com ele:
"Canta canta amigo canta vem cantar a nossa canção tu sozinhos não és nada juntos temos o mundo na mão"
E nós acreditávamos mesmo que cantando tínhamos o mundo na mão. Quem é que ainda acredita?
Eu cá, de vez em quando acredito. Mesmo que nada pareça confirmar essa certeza, acredito. Nos braços da canção, todos juntos... Ou mesmo que não estejam todos... Acredito. E repito:
Visita à Biblioteca escolar da Escola Secundária de Tondela. Mis uma vez encontro o empenho notável de quem trabalha nas Bibliotecas Escolares. O país vai mudando por dentro e em silêncio. A leitura é, sem dúvida, um motor notável de transformação.
A propósito, vale a pena visitar o notável blog da Biblioteca que eu julgo que é obra do trabalho tranquilo e apaixonado do professor David Duarte.
Vi-os tocar há uns 3 ou 4 anos na LERDEVAGAR no Bairro Alto. E fiquei encantado.
O disco é bastante iconoclasta, muito divertido, muito enérgico e representa um caminho muito próprio dentro da música portuguesa.
Tocam a 200 à hora. Divertem-se e divertem-nos. Misturam tudo, estilos, géneros, línguas... Bebem no fado, na música caboverdeana, onde calha. Sente-se neles óbvia influência da música dos filmes de Kusturica.
Na sua atitude sentem-se pontos comuns com Manu Chao, sobretudo no desejo de fazer a ponte entre o local e o mundo e de assumir a mistura como atitude estética que, aliás, está presente, neste momento, em muitas das manifestações culturais de vanguarda e que consiste na exploração de uma linguagem resultante da mais abrangente vivência da alteridade.
Numa noite muito especial na "ILHA DAS LETRAS" de S. Pedro do Sul, uma invenção muito feliz do Rogério Duarte onde se realizam conversas e desconversas e se soltam poemas ao ar no meio de dois rios entre os pavilhões da feira do Livro.
As fotografias são simplesmente do António Homem Cardoso. Um mestre da fotografia. Um imenso amigo que é natural de S. Pedro don Sul e que mora ali a dois passos numa casa belíssimamente recuperada mesmo à beira rio.
Fomos amigos e companheiros em palcos bem como em lutas políticas e culturais. Trabalhámos juntos no "Baal" de Brecht e noutras peças de teatro.
Divertia-me muito com alguma da sua iconoclastia. Aprendi muito a ouvi-lo dizer poesia e honro-me de me crer devedor de uma linha de dezedores de poesia que vem de João Vilaret e passa pelo Zé Carlos Ary dos Santos, pela Céu Guerra e pelo Mário, entre vários outros.
Que saudade e que falta que o Mário faz para pôr um bocadinho a nu este país tão abandalhadito...
Aqui, a dizer dois textos de Mário Henrique Leiria ("Contos do Gin Tónico")
Na EB1 do Louriçal, em Pombal, fui recebido de forma muito invulgar. O jardim da frente da escola estava transformado na recriação de uma das minhas histórias ("O dia em que a mata ardeu"). Foi simplesmente comovente. Mas o mais importante é encontrar pelo país fora um número muito significativo de escolas em que, apesar dos muitos entraves que lhes são criados e da burocracia absurda em que vivem atafulhados, os professores conseguem fazer um trabalho de muita dedicação e empenho no que toca à promoção do livro e da leitura.
Tenho orgulho em ser companheiro nesta guerra boa que se trava em silêncio e cujos resultados mais seguros havemos de ver dentro de alguns anos.
Ler é um grande mergulho no mar sem fundo do pensamento, dos afectos, das emoções.
Ler leva-nos para além das circunstâncias. Na leitura nós encontramo-nos connosco próprios. Experimentamo-nos. Questionamo-nos. E conhecemos o outro. Os outros. E experimentamos o espaço e o tempo da diferença. E crescemos nesse fantástico universo das palavras.
Ler é uma aventura que está muito para além do espartilhamento em que os textos são submetidos em nome da necessidade de cumprir os programas por quem não sabe cumprir senão a casca do programa e fica muito aquém do fundamental.
A propósito, algumas palavras do professor e psicanalista Pierre Bayard que tem uma extensa bibliografia sobre a leitura e é, nomeadamente, autor do ensaio notável "Como falar dos livros que não lemos?"
“Existe um exercício catastrófico que consiste em resumir o livro de maneira muito precisa e responder de forma também muito precisa a questões como: qual é o nome e o apelido de todos os personagens, qual é a cidade onde vive o herói, etc. Para muitos este procedimento pode poarecer como uma espécie de registo científico, mas o verdadeiro leitor não funciona desta maneira.”
Pierre Bayard. Magazine Littéraire, Junho 2009
Esta citação faz parte de uma extraordinária conversa tida em público por Pierre Bayard e Umberto Eco em Nova York. A conversa integral pode ser vista em:
Porque não será fácil entender todo o texto, dada a intensidade com que Ferré o atira, aqui vai por escrito para poder ser lido calmamente.
Há muitos anos que este Préface é para mim uma referência fundamental.
A poesia encerrada nas instituições oficiais e nas outras menos oficiais estiola e perde a alma.
PRÉFACE
La poésie contemporaine ne chante plus… Elle rampe Elle a cependant le privilège de la distinction… elle ne fréquente pas les mots mal fameés… elle les ignore On ne prend les mots qu'avec des gants: à "menstruel" on préfère "périodique", et l'on va répétant qu'il est des termes médicaux qui ne doivent pas sortir des laboratoires ou du Codex. Le snobisme scolaire qui consiste, en poésie, à n'employer que certains mots déterminés, à la priver de certains autres, qu'ils soient techniques, médicaux, populaires ou argotiques, me fait penser au prestige du rince-doigts et du baisemain Ce n'est pas le rince-doigts qui fait les mains propres ni le baisemain qui fait la tendresse Ce n'est pas le mot qui fait la poésie, c'est la poésie qui illustre le mot. Les écrivains qui ont recours à leurs doigts pour savoir s'ils ont leur compte de pieds, ne sont pas des poètes, ce sont des dactylographes Le poète d'aujourd'hui doit appartenir à une caste à un parti ou au Tout-Paris Le poète qui ne se soumet pas est un homme mutilé La poésie est une clameur. Elle doit être entendue comme la musique. Toute poésie destinée à n'être que lue et enfermée dans sa typographie n'est pas finie. Elle ne prend son sexe qu'avec la corde vocale tout comme le violon prend le sien avec l'archet qui le touche L'embrigadement est un signe des temps. De notre temps Les hommes qui pensent en rond ont les idées courbes Les sociétés littéraires sont encore la Société La pensée mise en commun est une pensée commune Mozart est mort seul, accompagné à la fosse commune par un chien et des fantômes Renoir avait les doigts crochus de rhumatismes Ravel avait une tumeur qui lui suça d'un coup toute sa musique Beethoven était sourd Il fallut quêter pour enterrer Bela Bartok Rutebeuf avait faim Villon volait pour manger Tout le monde s'en fout L'Art n'est pas un bureau d'anthropométrie La Lumière ne se fait que sur les tombes Nous vivons une époque épique et nous n'avons plus rien d'épique La musique se vend comme le savon à barbe Pour que le désespoir même se vende il ne reste qu'à en trouver la formule. Tout est prêt: les capitaux La publicité La clientèle. Qui donc inventera le désespoir? Avec nos avions qui dament le pion au soleil. Avec nos magnétophones qui se souviennent de " ces voix qui se sont tues ", avec nos âmes en rade au milieu des rues, nous sommes au bord du vide, ficelés dans nos paquets de viande, à regarder passer les révolutions N'oubliez jamais que ce qu'il y a d'encombrant dans la Morale, c'est que c'est toujours la Morale des autres. Les plus beaux chants sont les chants de revendications Le vers doit faire l'amour dans la tête des populations
A L'ECOLE DE LA POESIE ET DE LA MUSIQUE ON N'APPREND PAS
“Toda a poesia que apenas se destina a ser lida e fechada nos seus caracteres é uma poesia incompleta. Só as cordas vocais lhe dão o sexo, como o arco do violino, tocando-lhe.”
“Nunca compreendi a luta senão como um meio de acabar com ela. Nunca aceitei o rigor senão como um meio para deixar de existir o rigor. Tomei um caminho porque creio que esse caminho nos leva, a todos, a essa amabilidade duradoura. Luto pela bondade ubíqua, extensa, inexaurível.”
“…porque as únicas pessoas autênticas para mim são as loucas, as que estão loucas por viver, loucas por falar, loucas por ser salvas, desejosas de tudo ao mesmo tempo, aquelas que nunca bocejam ou dizem um lugar comum, mas ardem, ardem, ardem como fabulosas peças de fogo-de-artifício a explodir entre aranhas, entre estrelas…”
disse o Rui (que agora já passa dos 30 anos) quando, um dia, a professora Ana Maria levou os meninos da escola do Seixal, Monchique, a ver o mar pela primeira vez.
Aqui estou eu n EB1 da Horta das Figueiras com o meu amigo Leandro e a prenda que ele fez questão de fazer para me oferecer.
O Leandro tem dois brincos de fazer parar o trânsito e eu achei que o mínimo que podia fazer era uns versos para celebrar os brincos do Leandro e a nossa amizade.
O Leandro tem dois brincos cada um em sua orelha, e são tão lindos os brincos que até lhe disse uma velha: "Anda cá, Leandrozinho, tão jeitoso, ataviado, chega aqui junta-te a mim que vais ser meu namorado!"
O Leandro deu um salto e fugiu muito assustado. "Sai daqui malvada velha, não serei teu namorado! Quero rapariga nova, ligeirinha e elegante, pois para isso me enfeitei com dois brincos de brilhante!"
As palavras são curtas quando queremos transmitir as grandes emoções.
Em troca das histórias, lengalengas, poemas que levo, a ternura que recebo nalgumas escolas é tão intensa que nenhum cansaço é suficiente para me fazer privar desses momentos únicos que tenho tido o previlégio de viver.
É o caso dos meninos e da Professora Ana Piçarra na sala da EB1 da Horta das Figueiras.
Bem haja a Câmara Municipal de Évora pelo Projecto "A Fada Palavrinha e o Gigante das Bibliotecas" em que se incluiram as visitas a esta escola, entre outras.
Do saxofone à fotografia, o meu amigo Nanã Sousa Dias deixa-nos sem saber em que arte melhor improvisa.
Há dias soprámos juntos na Biblioteca de Almodôvar. Ele soprou a música e eu as palavras. E até parece que as palavras assim acompanhadas ganhavam asas.
À frente do grupo estava o António Palma no piano, mais o Tó Cruz a cantar e o João Ferreira nas percussões.
O tema: canções e poesia do neorealismo ao 25 de Abril. Foi uma noite quente. Muito.
Quanto às fotografias do Nanã, para quem quiser ver mais, a morada na net é:
Já que falamos da família... "Les bourgeois" de Jacques Brel. Era no tempo em que alguns animais falavam... E cantavam.
LES BOURGEOIS
Le coeur bien au chaud Les yeux dans la bi�re Chez la grosse Adrienne de Montalant Avec l'ami Jojo Et avec l'ami Pierre On allait boire nos vingt ans Jojo se prenait pour Voltaire Et Pierre pour Casanova Et moi, moi qui �tais le plus fier Moi, moi je me prenais pour moi Et quand vers minuit passaient les notaires Qui sortaient de l'h�tel des "Trois Faisans" On leur montrait notre cul et nos bonnes mani�res En leur chantant
Les bourgeois c'est comme les cochons Plus ça devient vieux plus ça devient bete Les bourgeois c'est comme les cochons Plus ça devient vieux plus ça devient c...
Le coeur bien au chaud Les yeux dans la bi�re Chez la grosse Adrienne de Montalant Avec l'ami Jojo Et avec l'ami Pierre On allait br�ler nos vingt ans Voltaire dansait comme un vicaire Et Casanova n'osait pas Et moi, moi qui restait le plus fier Moi j'�tais presque aussi saoul que moi Et quand vers minuit passaient les notaires Qui sortaient de l'h�tel des "Trois Faisans" On leur montrait notre cul et nos bonnes mani�res En leur chantant
Les bourgeois c'est comme les cochons Plus ça devient vieux plus ça devient bete Les bourgeois c'est comme les cochons Plus ça devient vieux plus ça devient c...
Le coeur au repos Les yeux bien sur terre Au bar de l'h�tel des "Trois Faisans" Avec ma�tre Jojo Et avec ma�tre Pierre Entre notaires on passe le temps Jojo parle de Voltaire Et Pierre de Casanova Et moi, moi qui suis rest� le plus fier Moi, moi je parle encore de moi Et c'est en sortant vers minuit Monsieur le Commissaire Que tous les soirs de chez la Montalant De jeunes "peigne-culs" montrent nos leur derri�re En nous chantant
Les bourgeois c'est comme les cochons Plus ça devient vieux plus ça devient bete Les bourgeois c'est comme les cochons Plus ça devient vieux plus ça devient c...
A canção chama-se "La mauvaise reputation" e aparece aqui na versão de Paco Ibañez e também cantada pelo seu autor Georges Brassens.
"LA MALA REPUTACION", versão cantada por Paco Ibañez
En mi pueblo sin pretensión Tengo mala reputación, Haga lo que haga es igual Todo lo consideran mal, Yo no pienso pues hacer ningún daño Queriendo vivir fuera del rebaño; No, a la gente no gusta que Uno tenga su propia fe No, a la gente no gusta que Uno tenga su propia fe Todos todos me miran mal Salvo los ciegos es natural.
Cuando la fiesta nacional Yo me quedo en la cama igual, Que la música militar Nunca me pudo levantar. En el mundo pues no hay mayor pecado Que el de no seguir al abanderado Y a la gente no gusta que Uno tenga su propia fe Y a la gente no gusta que Uno tenga su propia fe Todos me muestran con el dedo Salvo los mancos, quiero y no puedo.
Si en la calle corre un ladrón Y a la zaga va un ricachón Zancadilla doy al señor Y he aplastado el perseguidor Eso sí que sí que será una lata Siempre tengo yo que meter la pata Y a la gente no gusta que Uno tenga su propia fe Y a la gente no gusta que Uno tenga su propia fe Tras de mí todos a correr Salvo los cojos, es de creer.
Ya sé con mucha precisión Como acabará la función No les falta más que el garrote Pa' matarme como un coyote A pesar de que no arme ningún lío Con que no va a Roma el camino mío Que a le gente no gusta que Uno tenga su propia fe Que a le gente no gusta que Uno tenga su propia fe Tras de mí todos a ladrar Salvo los mudos es de pensar.
LA MAUVAISE REPUTATION" de Georges Brassens
Au village, sans prétention, J'ai mauvaise réputation. Qu'je m'démène ou qu'je reste coi Je pass' pour un je-ne-sais-quoi! Je ne fait pourtant de tort à personne En suivant mon chemin de petit bonhomme. Mais les brav's gens n'aiment pas que L'on suive une autre route qu'eux, Non les brav's gens n'aiment pas que L'on suive une autre route qu'eux, Tout le monde médit de moi, Sauf les muets, ça va de soi.
Le jour du Quatorze Juillet Je reste dans mon lit douillet. La musique qui marche au pas, Cela ne me regarde pas. Je ne fais pourtant de tort à personne, En n'écoutant pas le clairon qui sonne. Mais les brav's gens n'aiment pas que L'on suive une autre route qu'eux, Non les brav's gens n'aiment pas que L'on suive une autre route qu'eux, Tout le monde me montre du doigt Sauf les manchots, ça va de soi.
Quand j'croise un voleur malchanceux, Poursuivi par un cul-terreux; J'lance la patte et pourquoi le taire, Le cul-terreux s'retrouv' par terre Je ne fait pourtant de tort à personne, En laissant courir les voleurs de pommes. Mais les brav's gens n'aiment pas que L'on suive une autre route qu'eux, Non les brav's gens n'aiment pas que L'on suive une autre route qu'eux, Tout le monde se rue sur moi, Sauf les culs-de-jatte, ça va de soi.
Pas besoin d'être Jérémie, Pour d'viner l'sort qui m'est promis, S'ils trouv'nt une corde à leur goût, Ils me la passeront au cou, Je ne fait pourtant de tort à personne, En suivant les ch'mins qui n'mènent pas à Rome, Mais les brav's gens n'aiment pas que L'on suive une autre route qu'eux, Non les brav's gens n'aiment pas que L'on suive une autre route qu'eux, Tout l'mond' viendra me voir pendu, Sauf les aveugles, bien entendu.
Pergunto a um grupo de meninos numa escola do 1º Ciclo quem é que já leu "A Ilha do Tesouro".
Vários meninos levantam o dedo. Alguns dizem que TÊM O LIVRO, outros dizem que LERAM O LIVRO.
Passaram-me dezenas de comentários possíveis pela cabeça, dos mais negativos aos mais amáveis. Resolvi, no entanto, resumi-los na ideia de que a leitura deve ser um processo teimoso que nos leve a encontrarmo-nos a nós próprios no interior das palavras de outros e que estabeleça um pouco de luz sobre a nossa tão imperfeita humanidade.
Por isso, em última instância, TER soa-me a pouco. Tem-se um gira-discos, uma vassoura, um micro-ondas. Um livro não tem valor se não for utilizado. O texto, se calhar, nem sequer existe se não for lido.
Apetece-me dizer aos pais que não é preciso darem livros aos filhos. Basta levá-los pela mão através do bosque da leitura. Com um livro na mão, claro, mas sobretudo com as palavras no coração.