quinta-feira, 10 de setembro de 2009

JEAN COCTEAU

Ainda de coração encantado com o 1º Encontro Nacional de Dezedores de Poesia na Praia da Vitória, trago aqui Jean Cocteau (1889-1963), destacado poeta, romancista, cineasta, designer, dramaturgo, actor e encenador de teatro e membro do Movimento Surrealista francês.




No meu vagabundear por leituras encontrei este poema inédito de Cocteau e aproveitei para o transfigurar para português.



CARTA DE ADEUS A FEDERICO

(Inédito publicado pelo El Cultural de 24/04/09)



Canta.
Pela boca da tua ferida.
Pela boca entreaberta da tua ferida.
Pela boca da tua ferida aberta de par em par.
Pelo olho húmido carmim da tua ferida.
Pela romã resplandecente da tua ferida.
Pelo riso atroz de um cavalo de picador da tua ferida.
Pelo leite obscuro dos lábios de um recém-nascido da tua ferida.
Pela lava do vulcão da tua ferida.
Pela mucosa do ouriço aberto em dois da tua ferida.
Pela taberna onde desperta sobressaltado o cigano da tua ferida.
Pela estrela escarlate das ruínas da tua ferida.
Pela tinta vermelha do último poema da tua ferida.

terça-feira, 1 de setembro de 2009

E HÁ MUITOS PROFESSORES QUE GOSTAM DE ENSINAR

"Foram muitos mais que aquela centena de milhar (de professores) os que foram afectados pela intolerável e inadmissível política de humilhação. De uma humilhação que não foi apenas de comportamento, de atitude pessoal da ministra ou dos secretários de Estado relativamente aos professorescom frases como o "professorzeco" e coisas dessas. Foi a incrível dita "burocracia" que foram obrigados aa seguir, que implica o esmagamento da profissão e a falta de respeito pela pessoa do professor. Não é apenas uma atitude. É o número de papeis , de coisas, a impossibilidade de ensinar... E há muitos professores que gostam de ensinar."

JOSÉ GIL, revista "LER", Setembro 2009

UNS E OUTROS

Algumas pequenas coisas vão mudando a nossa vida.

As formas de comunicação alteram-se. Criam-se redes, grupos, nuvens de inter-relação com novas formas de ligação. Mais perto ou mais longe precisamos uns dos outros, é o que é.

Começa-se a fazer um blog e, de repente, sentimos uma obrigação de fornecer periodicamente o pão do poema, da imagem, da opinião àqueles que fazem o favor de nos seguir.

A verdade é que já somos uma espécie de equipa.

Eu cá preciso de saber que do outro lado estão a Licínia, a Rita Carrapato, o Tiago Carvalho, o Samuel, a Margarida Graça, o Eufrázio...

E é perante todos eles que não quero fazer má figura. Eles, os que têm cara e nome e os outros que nem sei quem possam ser. Andam por aí, uma ou outra vez deixam sinal. Muitas vezes nem por isso.

A verdade é que cerca de 50 passam pelas Queridas Bibliotecas por dia! Que responsabilidade, já viram?

No final de férias pareceram-me duas optites e uma valente preguicite. mas cá estou de volta e a perguntar-me a quem é que isso pode interessar.

Mas estou vivo. Apaixonado pela vida como sempre. Cheio de paixões e de indignação perante as injustiças e perante a perversa idiotia de muitos dos que mandam neste mundo.

E volto para juntar mais alguns títulos de livros para a infância que adoro e que acho que devem estar em todas as Queridas Bibliotecas.

Mas quero aproveitar para transcrever afirmações do filósofo José Gil sobre o país, o governo... E a educação.

Abraços e beijos e preparem-se porque as citações que se seguem são barras pesadas!

sábado, 22 de agosto de 2009

A PRINCESA DE ALJUSTREL


(Edição: OQO, 2008)

Algumas editoras têm apostado fortemente na força e na inovação da ilustração, no que diz respeito à literatura infantil. É o caso da "Planeta Tangerina", da "Kalandraka" e da "OKO", editoras galegas que publicam também em português

Há cerca de 1 ano/ ano e meio ouvi uma contadora de histórias galega contar esta PRINCESA DE ALJUSTREL numa sessão na Associação Âncora em Tavira. Fiquei encantado e fui a correr comprar o livro.

Tenho-o usado um Jardins de Infância e Escolas do 1º Ciclo com êxito retumbante. É daqueles livros em que a imagem é fundamental e é ela que conduz a narração e solicita a participação dos meninos.

Essa ilustração são engenhosas assamblages de objectos fotografados que resultam em imagens extremamente expressivas.

"O que é isto? É o pau que beteu no cão que mordeu no gato que apanhou a pega que roubou o pano que escondeu o anel da Princesa de Aljustrel!..."

Trata-se de um conto acumulativo eque recolhe vários dos elementos típicos destas séries como o gato, o cão, o pau, o fogo, a água, etc. Há vários outros exemplos em português como é o caso de "O Castelo de Chuchuromel" de António Torrado.

Divirto-me muito com esta Princesa. Acho até que tenho de comprar outra, que esta, de tanto a usar, está a ficar um bocadinho imprestável.

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

ISTO É QUE FOI SER


Edição: Afrontamento, 1997)

O Álvaro Magalhães é dos mais significativos escritores para a infância e juventude.

O José de Guimarães é um artistas de méritos reconhecidos internacionalmente. O encontro entre os dois é um dos mais belos~, delicados e comoventes livros para a infância dos últimos 30 anos.

A história é a da grande aventuras de um menino, o Miguel, que está para nascer e que diz "Isto é que está a ser!". Dirá mais tarde "Isto é que está a ser!". Terminará a dizer: "Isto é que foi ser!"

Pelo meio das suas aventuras o Miguel conhece um personagem que é poeta e que que até existe mesmo e chama-se Manuel António Pina. E fica-nos um seu poema que quase que resume o sentido do livro.

A Ana quer
nunca ter saído
da barriga da mãe
Cá fora está-se bem
mas na barriga também
era divertido
...

"Isto é que foi ser" é quse um clássico da literatura para a infânia em Portugal. Uma delicia para todos e para os adultos também.

sábado, 15 de agosto de 2009

POEMAS DA MENTIRA E DA VERDADE



(Edição: Livros Horizonte, 1999)

O menino do contra
queria tudo ao contrário
deitava os fatos na cama
e dormia no armário.

A Luísa Ducla Soares percebe como ninguém o prazer e a necessidade que os meninos têm em usar a imaginação para transgrsir as normas e experimentar as coisas ao contrário, experimentan-lhes os limites, percebendo a lógca do seu funcionamento olhado do avesso.

Ese livrinho, do qual já conheci várias edições, tem sido dos que mais tenho usado quando vou às escolas do 1º Ciclo. E muitas vezes prolongo-o, ou prolongo a sua (i)lógica, propondo aos meninos que inventem coisas "ao contrário". Dá sempre resultados fantásticos.

Este é daqueles que deviam ser obrigatórios em qualquer biblioteca.

A ilustração.. Sabemos como a ilustração de livros infantis ganhou um protagonismo e uma qualidade plástica notáveis nos últimos anos. O trabalho de Ana Cristina Inácio está longe da grande onda de renovação da ilustração em Portugal. É ingénua, fora de época, e não estará ao nível da vitalidade do texto.

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

CORRE, CORRE CABACINHA



(Edição Caminho, 1991)


Recolher a tradição oral tem sido o trabalho louvável de muitos escritores. São exemplo disso os Romanceiros recolhidos por Garcia de Resende, Almeida Garrett ou Teófilo Braga. São ainda exemplo disso as recolhas de Leite de Vasconcelos, Adolfo Coelho e outros em relação às histórias ue passaram de boca em boca, de geração em geração, e fizeram o caldo em que se foi construindo o imaginário dos portugueses durante séculos.

Pegar nessa tradição e retrabalhá-la literariamente, oferendo-a às crianças e aos jovens de hoje de forma cuidada e sem atraiçoar o sentido original tem sido um trabalho louvável levado a cabo por inúmeros escritores contemporâneos de que terei de referir António Torrado pela extensão do seu trabalho e pela qualidade que lhe conferiu.

Também Alice Vieira pegou nalgumas desses histórias da tradição e as adaptou e tornou utilizáveis por pais e professores, juntando-as numa excelente colecção em que cada história é ilustrada por um ilustrador diferente.

"Corre, corre cabacinha" é daquelas histórias imbatíveis. Toos nós crianças e adultos fazemos força para que a velhinha, escondida na cabaça, escape ao lobo esfomeado.

Assim, deixamo-nos embalar no ritmo justo, poético e encantatório com que a minha querida amiga Alicinha renovou esta história mantendo-lhe integralmente o encanto original.

Noites e noites a fio li esta história às minhas filhas. E ainda tenho a sua música deliciosa no ouvido:

Não vi velha nem velhinha
não vi velha nem velhão
corre corre cabacinha
corre corre cabação

As ilustrações de Miguel Ribeiro são justas, servem bem o texto, sublinham o lado assustador do lobo e o rolar vertiginoso da cabaça onde a velhinha vai escondida, embora não saiam de um registo tradicional.

terça-feira, 11 de agosto de 2009

VIAGEM Á FLOR DE UM MÊS



(Edição: Campo das Letras, 2002)

Dois Letrias, pai e filho juntos. Normalmente dá bom resultado. O André é um ilustrador excepcional que criou um estilo inconfundível e de grande qualidade. O José Jorge é um escritor e poeta com larga obra publicada, nomeadamente na ária da literatura infantil.

Do José Jorge Letria, meu amigo e companheiro de muitas aventuras e sonhos de há mais de 40 anos, há quem diga que publica demais, que se vigia pouco, que tem uma obra irregular. Terá foros de verdade, sim senhor. Mas quando o José Jorge acerta, leva a escrita a um nível altíssimo de intensidade e emoção.

É o caso deste livro que comemora na poesia das palavras o 25 de Abril, esse dia maravilhoso que foi, todo ele, feito de poesia viva transvasada nas ruas do país.

O livro é escrito a duas vozes. A voz do pai e do filho que em poesia dialogam sobre o 25 de Abril.

Filho, havia uma voz sumida
que vinha do fundo de um poço,
uma voz cansada e seca,
uma voz ardida por uma chama
acesa na garganta que me contava
a tristeza dos dias,
a solidão das noites
antes desse mês que chegou
com abelhas e pássaros,
com o mel de mil promessas
escorrendo das asas."

Esta "VIAGEM À FLOR DE UM MÊS" erá talvez para meninos a partir dos 10 anos, necessitará de outras conversas e explicações, e é para se ler baixinho e deixar que uma grande comoção tome conta dos nossos lábios.

domingo, 9 de agosto de 2009

O LIVRO DAS SETE CORES



(Edição: Caminho, 2006)

"Não havia meio de acertarem:
- Eu é que te dei o nome - dizia a laranja.
- Eu é que te dei a cor - dizia o laranja.

E nunca mais se entendiam

..."

Conheci este livro na sua primeira edição de 1983 da Moraes editora. Perdi-o. Procurei-o desesperadamente. Porque foi dos melhores e mais belos livros de poesia para crianças que já tinha lido. Reencontrei-o nesta nova edição da Caminho e guardo-o como uma pequena preciosidade.

"Eu sou o verde.
Vim de um arco-íris e escorreguei
por dentro de uma gota de chuva.
..."

Os autores são dois queridos amigos com quem tive a felicidade de trabalhar em circunstâncias diversas. A Maria Alberta Menéres e o António Torrado, dois escritores que, desde os anos 70, deram dignidade e prestígio à literatura para a infância, contrariando os que a consideravam um género menor.

As ilustrações são simplesmente notáveis. Um trabalho de grande qualidade e modernidade do pintor Jorge Martins a demonstrar que as crianças têm de ser respeitadas e a elas também pode deve ser entregue o que de melhor as artes plásticas têm para oferecer.

"Tenho muitos inimigos.
Caluniam-me. Insinuam:
"Que seria do amarelo
se não houvesse o mau gosto?"
Fico amarelo de raiva.
e agora que, nesta tribuna,
tenho a grande oportunidade
de os desmascarar,
só lhes grito na minha voz clara:
gema
sol
ouro.

Com estes argumentos os desfaço."

Mais do que um livro temos aqui um porto de onde partir para investigar com os nossos meninos a maravilhosa mecânica das cores.

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

A MENINA GOTINHA DE ÁGUA




(Edição: Campo das Letras, 1999)


Esta obra de Papiniano Carlos é já um clássico que conheceu várias edições. Das que conheço, esta é a que mais me encanta até pelas deliciosas ilustrações de Joana Quental.

As minhas filhas pediam-me para contar a "Gotinha de água" uma, e outra, e outra, e outra vez. E eu, radiante, não me cansava de a reler porque ao ler o melhor que nos oferece a literatura para crianças, também nós deixamos vir ao de cimo a criança que nunca deixamos de ser, pelo menos os que não nos deixámos atropelar pelo lado negro da vida.

A simplicidade deste poema não é sinal de facilidade. pelo contrário. escrever simples é quase sempre o mais difícil. Um exercício de grande exigência, depuração, vigilância sobre a mão que escreve.

Papiniano Carlos é um mestre na arte da simplicidade. E não podia estar melhor acompanhado na ilustração.

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

AINDA FALTA MUITO?



(Edição Caminho, 2009)

Carla Maia Almeida foi para mim uma bela surpresa. A pessoa e a escritora.

"Ainda falta muito?!" parte de uma bela ideia que creio ser do excelente ilustrador Alex Gozblau. A ideia era a de fazer um livro sobre a pergunta que todos os meninos fazem até à exaustão quando vão no banco de trás do carro dos pais em viagens mais demoradas: "Ainda falta muito?"

A Carla pegou no tema de uma forma brilhante, conseguindo retirá-lo da simples brincadeira em redor do tema, para o envolver numa escrita poética muito cuidadosamente trabalhada, uma renda que nos faz desejar que a viagem não termine para que possamos continuar a ler aquelas deliciosas explicações do pai e da mãe.

"Quando é que chegamos?"

"Quando os semáforos se transformarem em árvores e os carros não passarem na estrada estaremos mais perto."

"Quando é que a montanha chega o fim?"

"Depende se estamos em cima ou em baixo. Se começamos pela cabeça ou pelos pés.
Se queremos subir o fim é lá no alto.
Se queremos descer o fim volta ao princípio."

Alex Gozblau é um ilustrador de recursos diversos e com uma excepcional qualidade em tudo o que nos oferece e não é por acaso que tem recebido vários prémios, o último dos quais o Prémio Stuart 2009 para ilustradores de imprensa.

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

ANJOS DE PIJAMA



(Edição: Texto, 2005)


Matilde Rosa Araújo, a nossa Matildinha como nós, os escritores para a infância, gostamos de a tratar, é a nossa decana.

Com os seus 87 anos continua, de quando em vez, a ir a escolas para contar as suas histórias e ler os seus poemas aos meninos.

São muitos os seus livros que poderia trazer aqui como fundamentais para qualquer biblioteca. Este é apenas um dos últimos.

A sua escrita é muito simples e delicada. Matilde trabalha com uma notável elegância os sentimentos simples de alegria, nostalgia, perda, solidão. As suas palavras são delicadíssimas, quase etéreas, e caem-nos nas mãos como um tecido muito leve que nos envolve de novo na pátria da mais pura infância.

Era um pinheirinho manso
Tão manso que adormeceu:
Raízes presas à terra
Agulhas presas ao céu.

Neste livro está acompanhada por outra grande senhora, a pintora, azulejista e ilustradora Maria Keill.

O resultado é uma pequena obra de arte. Um mimo. A partir dos 3 anos, para todas as idades.

sábado, 1 de agosto de 2009

AS NAUS DE VERDE PINHO


(Edição: Caminho, 1996)

O que eu sempre gostei na História é que ela é feita de histórias. Histórias maravilhosas ou terríveis, de guerra e de paz, de traição e de coragem, de amor e transcendência... Histórias. E as histórias de que é feita a nossa História são a nossa raiz. Por isso me parece tão importante trazer as histórias da nossa História para a hora boa do contar.

Esta é a história da viagem de Bartolomeu Dias que dobrou o Cabo das tormentas ou da Boa Esperança e que é aqui contada pelo poeta Manuel Alegre à filha Joana e, por isso, a todos os filhos de todos os pais que não querem que as suas raízes antigas se percam.

Sempre que em teu pensamento
o verde pinho florir
abre os teus sonhos ao vento
porque é tempo de partir.

Esta ideia de que é preciso partir, rasgar fronteiras, descobrir o o que está para além e descobrirmo-nos a nós próprios, é o cerne do crescimento de cada um, da abertura de um menino ao mundo, ao conhecimento, à poesia.

Este é um livro para ler em voz alta, como toda a poesia. Para que se ponha bem em relevo a toada incofundível do poeta tão cheia da bela música da língua portuguesa quando ela é bem usada.

Eu aconselharia este livro aos meninos dos dos 8 aos 12 anos. E a todos os outros, também.

quinta-feira, 30 de julho de 2009

ONDA



(Edição: Gatafunho - Ana paula Oliveira editora -, 2009)

A autora é a americana Suzy Lee. O livro recebeu o prémio do New York Times para o Melhor Livro Ilustrado para Crianças e a Medalha de Ouro dos ilustradores americanos.

Os desenhos são deliciosamente simples e de uma qualidade rara. Mostram-nos uma menina atrevida na praia a brincar com as ondas do mar. A história cabe-nos a nós inventá-la. e de cada vez podemos inventar uma história diferente. (Não é isto mesmo o encanto da leitura, a possibilidade de cada ler uma história diferente da de todos os outros leitores?)

Esta é uma magnífica proposta para a hora de deitar de meninos criativos, filhos de pais que os ajudam a voar.

E, já agora, atenção a esta editora e aos seus raros critérios de qualidade em tudo o que edita.

terça-feira, 28 de julho de 2009

VASSOURINHA



(Edição: Campo das Letras, 2001)

Nesta viagem pela literatura para crianças começo por um livro muito especial que fala sobre o 25 de Abril, ou melhor, sobre o autoritarismo de uma velha Senora que mandava numa pobre vassoura que um dia se libertou do seu jugo vil e arrogante.

Uma vassoura vassoura
no espaço por vassourar
enquanto a Dona Senhora:
- Não quero vê-la parar.

O autor é o meu muito querido amigo António Torrado. Um grande senhor da literatura para crianças. Os versos,numa toada de romance popular. As ilustrações são simplesmente do melhor que se tem feito em livros para crianças e o autor é o João Abel Manta, um grande pintor que tem vivido muito metido na sua concha e que pouco tem sido lembrado. Uma injustiça. E este livro prova a variedade e brilhantismo dos seus recursos plásticos.

Uma vassora vassoura
de palha triste cansada
enquanto a Dona Senhora:
- E seja mais despachada!

A "Vassourinha" esteve no top-ten das leituras à hora de dormir cá de casa. Para que idade? Às vezes é difícil dizê-lo. Os grandes livros não têm idade. Este pequeno grande livro a mim encanta-me. Acho que ainda estou em idade de o ler. Seguramente, os que têm entre 4 e 10 anos também adoram. E acaba assim:

Ficou a Dona Senhora
com o seu perfil insolente
sem a vassoura servil,
ficou a Dona Senhora,
de repente,num tormento,
muito inflamada, irritada
do pó que rodopiava
soprado por estranho vento.

E o que ela espirrava
e o que ela gritava:
- Fechem as janelas por dentro.

Mas já foi fora de tempo.

Que a vassourinha na rua
dançava nas mãos do vento
e num tal contentamento
que já ninguém a parava.

Perdera o medo para sempre.

domingo, 26 de julho de 2009

LITERATURA INFANTIL



(Ilustração de Gustave Doré)

Nos últimos anos tem começado a dar-se importância decisiva à literatura para crianças ou literatura infantil.

A leitura começou a ser uma preocupação prioritária de pais, professores, editores, autores, ilustradores e até de jornais e revistas onde vão aparecendo secções que abordam as novidades literárias neste campo.

O alargamento da Rede Pública de Leitura e da Rede de Bibliotecas Escolares, o Plano Nacional de Leitura com todas as suas virtudes e defeitos, os encontros de contadores de histórias, são o meio onde o livro infantil encontra um chão seguro para chegar aos jovens leitores.

Têm saído a público livros de grande qualidade literária e plástica. Surgiram em Portugal alguns ilustradores de enorme qualidade e os escritores multiplicam-se.




(Ilustração de André Letria)


Não é fácil escolher entre a quantidade de ofertas das livrarias onde se mistura o melhor e o pior. E é bom que se diga que ao lado de obras notáveis encontramos livros deploráveis,ilustrações de péssimo gosto, traduções assustadoras, textos feitos em cima do joelho, obras pedagogicamente desadequadas.

Quando chega a hora de oferecer um livro a um menino, quem não está ligado a este mundo da leitura tem porventura muitas dificuldades na escolha.

Vou trazer para estas queridas bibliotecas alguns livros que encantam o menino que sou.

Não pretendo fazer crítica. Apenas chamar a atenção para livros de que gosto especialmente, que uso quando vou a escolas ou a bibliotecas e que sei que cumprem bem a sua função de abrir caminhos à leitura, ao maravilhoso, à poesia, ao crescimento saudável dos nossos meninos.



(Ilustração de Teresa Lima)

sexta-feira, 24 de julho de 2009

LA POESIA ES UN ARMA CARGADA DE FUTURO



Diz-se que voltamos sempre ao primeiro amor. Não sei. Crei que alguns voltam, outros não.

Mas, no que diz respeito às paixões culturais, musicais poéticas eu regresso com muita frequência àquelas que foram as que me transportaram para uma dimensão de rebedia e solidariedade que tem sempre marcado a minha vida.

Paco Ibañez. Ouço-o com a mesma emoção hoje com que o ouvia há 40 anos.

quarta-feira, 22 de julho de 2009

ALDA ESPÍRITO SANTO (S. Tomé)


ALDA ESPÍRITO SANTO (1926)

PARA A TANIA


Nesta noite morna de luar africano
Salpicando de sombras as estradas
Eu estendo os meus braços sedentos
Para a nossa mãe África, gigante
E ergo para ti meu canto sem palavras
Suplicando bênção da terra
Para as vias dos teus caminhos
Para a rota do destino imenso
Traçado na inteireza de todo o teu ser
Para ti, a projecção das nossas estradas
Varridas da impureza dos dejectos inúteis
Para ti, o canto de glória da nossa
Mãe África dignificada.

segunda-feira, 20 de julho de 2009

GERALDO BESSA VÍCTOR (Angola)


GERALDO BESSA VÍCTOR (1917-1990)

Ode à avó Capinha


Minha avó Capinha, minha avó Capinha,
hoje que morreste (que tristeza a minha!),
relembro as histórias que tu me contavas
em manhãs de chuva, nas noites de lua...
(E meu ser, magoado, perde-se, flutua
como o sonho errante das almas escravas).

Minha avó Capinha, sou eu que te peço,
conta-me o romance, conta-me o sucesso
dos teus dezoito anos (ai, onde eu estou!),
quando tu dançavas belas batucadas,
pelas noites quentes de febris queimadas,
na velha sanzala que se incendiou...

Minha avó Capinha, minha avó Capinha,
conta-me essa lenda daquela mocinha
negra, tão formosa, que numa manhã
engoliu um bago de feijão macunde
e ficou (que mágoa no meu ser se funde!)
para todo o sempre pequenina, anã.

Minha avó Capinha, hoje que morreste,
manda-me notícias da mansão celeste:
se também há ódios ou há só amor
(a descrença enorme do teu pobre neto!),
se há um Deus que é branco e outro Deus que é preto,
ou um Deus existe sem raça nem cor.

sábado, 18 de julho de 2009

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE (Brasil)


CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE (1902-1987)


Poema de sete faces

Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.
As casas espiam os homens
que correm atrás de mulheres.
A tarde talvez fosse azul,
não houvesse tantos desejos.
O bonde passa cheio de pernas:
pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.
Porém meus olhos
não perguntam nada.
O homem atrás do bigode
é sério, simples e forte.
Quase não conversa.
Tem poucos, raros amigos
o homem atrás dos óculos e do bigode.
Meu Deus, por que me abandonaste
se sabias que eu não era Deus,
se sabias que eu era fraco.
Mundo mundo vasto mundo
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.
Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.

quinta-feira, 16 de julho de 2009

ARMÉNIO VIEIRA (Cabo Verde)



ARMÉNIO VIEIRA (1941)

Quiproquó



Há uma torneira sempre a dar horas
há um relógio a pingar no lavabos
há um candelabro que morde na isca
há um descalabro de peixe no tecto

Há um boticário pronto para a guerra
há um soldado vendendo remédios
há um veneno (tão mau) que não mata
há um antídoto para o suicído de um poeta

Senhor, Senhor, que digo eu (?)
que ando vestido pelo avesso
e furto chapéu e roubo sapatos
e sigo descalço e vou descoberto.

O poeta recebeu o Prémio Camões 2009.

terça-feira, 14 de julho de 2009

MUTIMATI BARNABÉ JOÃO (Moçambique)




MUTIMATI BARNABÉ JOÃO

"Mutimati é a voz individual que corporiza a voz colectiva.”, assim se escreve no frontispício de “EU, O POVO”. Segundo Nelson Saúte, a lenda dizia ter sido o livro encontrado como testamento de um guerrilheiro caído na frente do combate revolucionário. De facto, sabe-se que o autor é António Quadros ou João Pedro Grabato Dias, pintor e autor de poemas para algumas das canções de Zeca Afonso. No frontispício original dizia-se ainda que aquele livro era agora pertença de Moçambique e que o Povo moçambicano era os eu verdadeiro autor. Estamos de acordo com Neson Saúte ao afirmar que, por vezes, com o tempo, a lenda torna-se verosímil. Deixemo-la então, generosamente, cobrir a autoria destes poemas.




(Pintura de António Quadros)


As linguagens

Na cabeça de um homem há muitas línguas a falar
Falam com bocados umas das outras e estão unidas sem saber
Quando um homem pensa sozinho consigo mesmo
e quer tirar da cabeça uma produção útil para todos.

Por exemplo: Penso Rio. É matsi, é water, é água,
É quilos de litros a andar depressa
É uma música da água, é um desenho da água na cabeça.
Posso falar Rio: posso medir Rio; posso desenhar Rio.
Posso tirar o Rio da cama e pôr o rio acordado num papel
Que é um retrato parecido deste Rio mesmo este.

Isto que faz na cabeça de um homem tirar retrato são línguas
O Rio, a Árvore, o Animal, a Rocha, a Terra, o Sol, o Vento,
São as caras da Natureza que as minhas línguas estudam.

A escola Primária Colonial está mal.
A língua das palavras não chega para tudo
É preciso aprender uma língua dos números
É preciso aprender a língua dos desenhos
As três línguas juntas é que são a língua verdadeira do Homem

E de pois o Homem já fala à Natureza bem
E pode aprender dela tudo o que há-de ensinar.

Sigo a pista do cabrito: pegadas e capim partido. É desenho isso.
O excremento está fresco no Sol. Passou pouco. É cálculo aritmético.

Está ali. Não é cabrito. É cabrita. Falei com palavras.
Conheço que não sei pensar nada só numa língua.

domingo, 12 de julho de 2009

JOSÉ CRAVEIRINHA (Moçambique)




JOSÉ CRAVEIRINHA (1922-2003)

Quero Ser Tambor


Tambor está velho de gritar
ó velho Deus dos homens
deixa-me ser tambor
só tambor gritando na noite quente dos trópicos.


E nem flor nascida no mato do desespero.
Nem rio correndo para o mar do desespero.
Nem zagaia temperada no lume vivo do desespero
Nem mesmo poesia forjada na dor rubra do desespero.

Nem nada!

Só tambor velho de gritar na lua cheia da minha terra.
Só tambor de pele curtida ao sol da minha terra
Só tambor cavado nos troncos duros da .minha terra.

Eu!

Só tambor rebentando o silêncio amargo da Mafalala.
Só tambor velho de sangrar no batuque da minha terra.
Só tambor perdido na escuridão da noite perdida.

Ó velho Deus dos homens
eu quero ser tambor.
E nem rio
e nem flor
e nem zagaia por enquanto
e nem mesmo poesia.

Só tambor ecoando como a canção da força e da vida
só tambor noite e dia
dia e noite só tambor
até à consumação da grande festa do batuque!

Oh velho Deus dos homens
deixa-me ser tambor
só tambor!


A poesia de JOSÉ CRAVEIRINHA é uma antiga e fortíssima paixão minha. Julgo que fui a primeira pessoa a dizer poesia sua na RTP, em 77, numa acidentada sessão de "A Visita da Cornélia" no Porto.

A sua poesia é particularmente comovente pela denúncia do racismo que, não oficializado, era oficiosamente praticado em Moçambique nos anos 50 e 60, com características em tudo semelhantes ao Apartheid daÀfrica do Sul.

Ao ler apontamentos da sua biografia dou com um velho artigo de jornal em que ele elogia "o rasgo de puro e desassombrado desportivismo» que representara, na época de 51/52, o «caso absolutamente ímpar» da «apresentação nas pistas de atletismo de alguns atletas negros puros envergando a tão susceptível, até aí, camisola do Sporting local" e lamenta a "infeliz lei que suprimiu dos campos de futebol a presença do negro quando não apresente o respectivo atestado de assimilação". Anos 50. É bom guardar memória.

Craveirinha recebeu o Prémio Camões 1991 que o consagrou como grande poeta da língua portuguesa, grande poeta da negritude e grande poeta do mundo,

sexta-feira, 10 de julho de 2009

A MINISTRA




O meu amigo Miguel Real, magnífico escritor, acaba de publicar a novela "A Ministra". Ainda não li. Vou ler, gostosamente, por certo. Mas mesmo antes de o ler achei urgente dar notícia da sua publicação. E já agora, acrescentando a nota que o autor colocou no início do livro. Uma nota que ajuda a desfazer equívocos ou a confirmá-los, conforme o ponto de vista de cada leitor...

quarta-feira, 8 de julho de 2009

ALDA LARA (Angola)


ALDA LARA (1930-1962)

TESTAMENTO

À prostituta mais nova
Do bairro mais velho e escuro,
Deixo os meus brincos, lavrados
Em cristal, límpido e puro...

E àquela virgem esquecida
Rapariga sem ternura,
Sonhamdo algures uma lenda,
Deixo o meu vestido branco,
O meu vestido de noiva,
Todo tecido de renda...

Este meu rosário antigo
Ofereço-o àquele amigo
Que não acredita em Deus...

E os livros, rosários meus
Das contas de outro sofrer,
São para os homens humildes,
Que nunca souberam ler.

Quanto aos meus poemas loucos,
Esses, que são de dor
Sincera e desordenada...

Esses, que são de esperança,
Desesperada mas firme,
Deixo-os a ti, meu amor...

Para que, na paz da hora,
Em que a minha alma venha
Beijar de longe os teus olhos,
Vás por essa noite fora...
Com passos feitos de lua,
Oferecê-los às crianças
Que encontrares em cada rua...


ALDA LARA vei muito nova veio para Lisboa onde concluiu o 7º ano do Liceu. Freqüentou as Faculdades de Medicina de Lisboa e Coimbra, licenciando-se por esta última. Em Lisboa esteve ligada a algumas das atividades da Casa dos Estudantes do Império

Declamadora,chamou a atenção para os poetas africanos.

O poema publicado acima ouvi-o pela primeira vez na voz do meu querido amigo, jornalista, comentador de econimia e amante de poesia Nicolau Santos.

Gosto muito de dizer que se um homem das bandas da economia gosta de dizer poesia, talvez este mundo tenha uma pequena esperança de salvação...

segunda-feira, 6 de julho de 2009

MANOEL de BARROS (Brasil)



MANOEL DE BARROS (1916)


BORBOLETAS

Borboletas me convidaram a elas.
O privilégio insetal de ser uma borboleta me atraiu.
Por certo eu iria ter uma visão diferente dos homens
e das coisas.
Eu imaginava que o mundo visto de uma borboleta –
Seria, com certeza, um mundo livre aos poemas.
Daquele ponto de vista:
Vi que as árvores são mais competentes em auroras
do que os homens.
Vi que as tardes são mais aproveitadas pelas garças
do que pelos homens.
Vi que as águas têm mais qualidade para a paz do
que os homens.
Vi que as andorinhas sabem mais das chuvas do que
os cientistas.
Poderia narrar muitas coisas ainda que pude ver do
ponto de vista de uma borboleta.
Ali até o meu fascínio era azul.


MANOEL DE BARROS é bacharel em direito viveu em Nova York e é actualmente criador de gado na zona do pantanal onde vive.

Poeta pouco conhecido até tarde, a sua obra "estoirou" a partir dos anos 80 e é hoje reconhecido como uma voz única e fundamental na poesia brasileira.

A sua poesia é doce, quase infantil e aparentemente ingénua, embora se pressinta nas suas descontruções de forma e sentido uma erudição funda mas cristalina e aberta ao diálogo com o leitor.

Foi para mim uma das mais belas descobertas poéticas dos últimos anos.

A publicação da sua obra em Portugal deve-se às Quasi edições.

POESIA EM PORTUGUÊS

A poesia em português não se esgota na poesia portuguesa. Cabo Verde, Angola, Moçambique, Brasil, toda a lusofonia respira também na maravilhosa voz dos poetas.

Vou trazer para aqui alguns poemas destas raízes transcontinentais que me têm acompanhado ao longo dos anos e outros com que só me cruzei mais recentemente.

São apenas pequenas portas abertas para que cada um entre por elas e descubra o ouro da grande poesia em língua portuguesa.

sábado, 4 de julho de 2009

ASSIM DEVIA SER O MUNDO



(pintura de Fernando Lanhas)


ASSIM DEVIA SER O MUNDO

(Sobre um desenho de Fernando Lanhas)


Assim devia ser o mundo:
claro e transparente
desenhado a régua e esquadro
em cores indiscutíveis
com a rectilínea precisão
do traçado
de um jardim francês.

Assim devia ser o homem:
claro e transparente
irmão do seu irmão
trabalhando a pedra da alegria
amassando noite fora o pão
ou roubando à terra a turfa do poema.

Assim devia ser o tempo:
claro e transparente.
uma tangente azul
à negritude
um edifício perfeito
construído apenas de água comovida
ou de cristal.

José Fanha (inédito do livro a publicar "Marinheiro de outras luas")

quinta-feira, 2 de julho de 2009

MULHER CÃO



(Pintura de Paula Rego da série "Mulher-cão")


MULHER CÃO

(Sobre uma pintura de Paula Rego)

Ela acendeu a brasa do fogão
anos e anos a fio.

Esfregou o soalho
lavou a roupa e os vidros da janela
costurou bainhas descosidas
e levou toalhas a cheirar a rosmaninho
à senhora do andar
de cima.

Vai ao quintal buscar hortelã para a canja
e adormece ao som das gargalhadas dos meninos
hoje já todos engenheiros
com a Graça do Senhor.

Agora está atada ao côncavo da terra
por atilhos grossos.

Ladra á lua
e tudo nela
é carne e sangue.

Morde a mão
e dança a valsa
sobre o chão confuso
de algum sonho diluído lá no longe
dos botões dourados
do maestro de um coreto
nos domingos e feriados.

Ela é grossa
e ladra á lua.
Sente o corpo a crepitar
e rasga o coração.

Entre sangues fala línguas
que nunca ninguém lhe ensinou.

Está atada
à sangrenta forja
das gramáticas lunares
e procura uma palavra
um nome mesmo que obscuro e
difícil de entender.

É uma mulher grossa
e no côncavo do corpo
fala línguas sem sentido.

Deixou secar os coentros
a salsa
e a hortelã.

Chama-se cão
e ladra à lua.

Vive atada
às chamas que a consomem.

José Fanha (inédito do livro a publicar "marinheiro de outras luas")

terça-feira, 30 de junho de 2009

LÍNGUA



(pintura de João Vieira)


LÍNGUA

(Sobre uma pintura de João Vieira)

Em que língua de barro falarei às uvas
e às calandras
nas manhãs de Primavera?

Em que língua de líquen falarei à pedra?

Em que música
que cor
que pigmento
darei nome ao coração sempre à beira
de tocar uma outra transparência?

Em que luz
que lua
que evidência
falarei dos recônditos mistérios
que nos chegam
cavalgando brumas seculares?

Em que silêncio de neve
ou discurso de giesta
falarei do meu amor
quando o seu sorriso adormecer
e todas as palavras se tornarem
em pegadas apagadas pelo vento?

José Fanha (inédito do livro a publicar: "Marinheiro de outras luas")

terça-feira, 23 de junho de 2009

A FORÇA DAS CANÇÕES




Andei à procura de uma foto dele. Uma mão amiga fez-ma chegar. Era o António Macedo. Quem se lembra? Fomos companheiros de sonhos e palcos, de noites e protestos, do gosto pela poesia e pela canção. Já se foi há uns tempos. Cantava ele e nós com ele:

"Canta canta amigo canta
vem cantar a nossa canção
tu sozinhos não és nada
juntos temos o mundo na mão"

E nós acreditávamos mesmo que cantando tínhamos o mundo na mão. Quem é que ainda acredita?

Eu cá, de vez em quando acredito. Mesmo que nada pareça confirmar essa certeza, acredito. Nos braços da canção, todos juntos... Ou mesmo que não estejam todos... Acredito. E repito:

"Canta canta amigo canta..."

domingo, 21 de junho de 2009

ESCOLA SECUNDÁRIA DE TONDELA



Visita à Biblioteca escolar da Escola Secundária de Tondela. Mis uma vez encontro o empenho notável de quem trabalha nas Bibliotecas Escolares. O país vai mudando por dentro e em silêncio. A leitura é, sem dúvida, um motor notável de transformação.

A propósito, vale a pena visitar o notável blog da Biblioteca que eu julgo que é obra do trabalho tranquilo e apaixonado do professor David Duarte.

http://www.a-vida-secreta-das-palavras.blogspot.com/.

sábado, 20 de junho de 2009

OQUESTRADA



Vi-os tocar há uns 3 ou 4 anos na LERDEVAGAR no Bairro Alto. E fiquei encantado.

O disco é bastante iconoclasta, muito divertido, muito enérgico e representa um caminho muito próprio dentro da música portuguesa.

Tocam a 200 à hora. Divertem-se e divertem-nos. Misturam tudo, estilos, géneros, línguas... Bebem no fado, na música caboverdeana, onde calha. Sente-se neles óbvia influência da música dos filmes de Kusturica.

Na sua atitude sentem-se pontos comuns com Manu Chao, sobretudo no desejo de fazer a ponte entre o local e o mundo e de assumir a mistura como atitude estética que, aliás, está presente, neste momento, em muitas das manifestações culturais de vanguarda e que consiste na exploração de uma linguagem resultante da mais abrangente vivência da alteridade.

E dá para dançar, ainda por cima!


sexta-feira, 19 de junho de 2009

TORTOSENDO



Outra escola magnífica onde a professora Edite Leitão (entre outros professores) desenvolve um trabalho notável na promoção da leitura e do livro.

quarta-feira, 17 de junho de 2009

S. PEDRO DO SUL



Numa noite muito especial na "ILHA DAS LETRAS" de S. Pedro do Sul, uma invenção muito feliz do Rogério Duarte onde se realizam conversas e desconversas e se soltam poemas ao ar no meio de dois rios entre os pavilhões da feira do Livro.

As fotografias são simplesmente do António Homem Cardoso. Um mestre da fotografia. Um imenso amigo que é natural de S. Pedro don Sul e que mora ali a dois passos numa casa belíssimamente recuperada mesmo à beira rio.


segunda-feira, 15 de junho de 2009

MÁRIO VIEGAS



Fomos amigos e companheiros em palcos bem como em lutas políticas e culturais. Trabalhámos juntos no "Baal" de Brecht e noutras peças de teatro.

Divertia-me muito com alguma da sua iconoclastia. Aprendi muito a ouvi-lo dizer poesia e honro-me de me crer devedor de uma linha de dezedores de poesia que vem de João Vilaret e passa pelo Zé Carlos Ary dos Santos, pela Céu Guerra e pelo Mário, entre vários outros.

Que saudade e que falta que o Mário faz para pôr um bocadinho a nu este país tão abandalhadito...

Aqui, a dizer dois textos de Mário Henrique Leiria ("Contos do Gin Tónico")

domingo, 14 de junho de 2009

LOURIÇAL



Na EB1 do Louriçal, em Pombal, fui recebido de forma muito invulgar. O jardim da frente da escola estava transformado na recriação de uma das minhas histórias ("O dia em que a mata ardeu"). Foi simplesmente comovente. Mas o mais importante é encontrar pelo país fora um número muito significativo de escolas em que, apesar dos muitos entraves que lhes são criados e da burocracia absurda em que vivem atafulhados, os professores conseguem fazer um trabalho de muita dedicação e empenho no que toca à promoção do livro e da leitura.

Tenho orgulho em ser companheiro nesta guerra boa que se trava em silêncio e cujos resultados mais seguros havemos de ver dentro de alguns anos.

terça-feira, 9 de junho de 2009

domingo, 7 de junho de 2009

LER OU ANALISAR: EIS A QUESTÃO

Ler é um grande mergulho no mar sem fundo do pensamento, dos afectos, das emoções.

Ler leva-nos para além das circunstâncias. Na leitura nós encontramo-nos connosco próprios. Experimentamo-nos. Questionamo-nos. E conhecemos o outro. Os outros. E experimentamos o espaço e o tempo da diferença. E crescemos nesse fantástico universo das palavras.

Ler é uma aventura que está muito para além do espartilhamento em que os textos são submetidos em nome da necessidade de cumprir os programas por quem não sabe cumprir senão a casca do programa e fica muito aquém do fundamental.

A propósito, algumas palavras do professor e psicanalista Pierre Bayard que tem uma extensa bibliografia sobre a leitura e é, nomeadamente, autor do ensaio notável "Como falar dos livros que não lemos?"



“Existe um exercício catastrófico que consiste em resumir o livro de maneira muito precisa e responder de forma também muito precisa a questões como: qual é o nome e o apelido de todos os personagens, qual é a cidade onde vive o herói, etc. Para muitos este procedimento pode poarecer como uma espécie de registo científico, mas o verdadeiro leitor não funciona desta maneira.”

Pierre Bayard. Magazine Littéraire, Junho 2009

Esta citação faz parte de uma extraordinária conversa tida em público por Pierre Bayard e Umberto Eco em Nova York. A conversa integral pode ser vista em:

http://fora.tv/2007/11/17/Bayard_and_Eco_How_to_Talk_About_Books_You_Havent_Read

sábado, 6 de junho de 2009

PRÉFACE

Porque não será fácil entender todo o texto, dada a intensidade com que Ferré o atira, aqui vai por escrito para poder ser lido calmamente.

Há muitos anos que este Préface é para mim uma referência fundamental.

A poesia encerrada nas instituições oficiais e nas outras menos oficiais estiola e perde a alma.



PRÉFACE


La poésie contemporaine ne chante plus… Elle rampe
Elle a cependant le privilège de la distinction… elle ne fréquente pas les mots mal fameés… elle les ignore
On ne prend les mots qu'avec des gants: à "menstruel" on préfère "périodique", et l'on va répétant qu'il est des termes médicaux qui ne doivent pas sortir des laboratoires ou du Codex.
Le snobisme scolaire qui consiste, en poésie, à n'employer que certains mots déterminés, à la priver de certains autres, qu'ils soient techniques, médicaux, populaires ou argotiques, me fait penser au prestige du rince-doigts et du baisemain
Ce n'est pas le rince-doigts qui fait les mains propres ni le baisemain qui fait la tendresse
Ce n'est pas le mot qui fait la poésie, c'est la poésie qui illustre le mot.
Les écrivains qui ont recours à leurs doigts pour savoir s'ils ont leur compte de pieds, ne sont pas des poètes, ce sont des dactylographes
Le poète d'aujourd'hui doit appartenir à une caste
à un parti
ou au Tout-Paris
Le poète qui ne se soumet pas est un homme mutilé
La poésie est une clameur. Elle doit être entendue comme la musique. Toute poésie destinée à n'être que lue et enfermée dans sa typographie n'est pas finie. Elle ne prend son sexe qu'avec la corde vocale tout comme le violon prend le sien avec l'archet qui le touche
L'embrigadement est un signe des temps. De notre temps
Les hommes qui pensent en rond ont les idées courbes
Les sociétés littéraires sont encore la Société
La pensée mise en commun est une pensée commune
Mozart est mort seul, accompagné à la fosse commune par un chien et des fantômes
Renoir avait les doigts crochus de rhumatismes
Ravel avait une tumeur qui lui suça d'un coup toute sa musique
Beethoven était sourd
Il fallut quêter pour enterrer Bela Bartok
Rutebeuf avait faim
Villon volait pour manger
Tout le monde s'en fout
L'Art n'est pas un bureau d'anthropométrie
La Lumière ne se fait que sur les tombes
Nous vivons une époque épique et nous n'avons plus rien d'épique
La musique se vend comme le savon à barbe
Pour que le désespoir même se vende il ne reste qu'à en trouver la formule.
Tout est prêt: les capitaux
La publicité
La clientèle.
Qui donc inventera le désespoir?
Avec nos avions qui dament le pion au soleil. Avec nos magnétophones qui se souviennent de " ces voix qui se sont tues ", avec nos âmes en rade au milieu des rues, nous sommes au bord du vide, ficelés dans nos paquets de viande, à regarder passer les révolutions
N'oubliez jamais que ce qu'il y a d'encombrant dans la Morale, c'est que c'est toujours la Morale des autres.
Les plus beaux chants sont les chants de revendications
Le vers doit faire l'amour dans la tête des populations

A L'ECOLE DE LA POESIE ET DE LA MUSIQUE ON N'APPREND PAS

ON SE BAT!


Léo Ferré

quarta-feira, 3 de junho de 2009

O SEXO DA POESIA


“Toda a poesia que apenas se destina a ser lida e fechada nos seus caracteres é uma poesia incompleta. Só as cordas vocais lhe dão o sexo, como o arco do violino, tocando-lhe.”

“Prefácio”, Léo Ferré

segunda-feira, 1 de junho de 2009

A AMABILIDADE


“Nunca compreendi a luta senão como um meio de acabar com ela. Nunca aceitei o rigor senão como um meio para deixar de existir o rigor. Tomei um caminho porque creio que esse caminho nos leva, a todos, a essa amabilidade duradoura. Luto pela bondade ubíqua, extensa, inexaurível.”

“Confesso que vivi”, Pablo Neruda

sábado, 30 de maio de 2009

PESSOAS QUE ARDEM


“…porque as únicas pessoas autênticas para mim são as loucas, as que estão loucas por viver, loucas por falar, loucas por ser salvas, desejosas de tudo ao mesmo tempo, aquelas que nunca bocejam ou dizem um lugar comum, mas ardem, ardem, ardem como fabulosas peças de fogo-de-artifício a explodir entre aranhas, entre estrelas…”

“Pela estrada fora” Jack Kerouac

quarta-feira, 27 de maio de 2009

MAR



(Foto Ana Bela Mendes)

"O MAR A ESTENDER E A ENCOLHER É LINDÍSSIMO"

disse o Rui (que agora já passa dos 30 anos) quando, um dia, a professora Ana Maria levou os meninos da escola do Seixal, Monchique, a ver o mar pela primeira vez.