terça-feira, 13 de outubro de 2009

VI MARATONA DA POESIA DE SINTRA



A MARATONA DA POESIA DE SINTRA tem já 6 anos. Passou pela Biblioteca Municipal - Casa Mantero, pelo Palácio Valenças e, este ano, em finais de Setembro, foi na Vila Alda.

Tivemos sessões para meninos do 1º Ciclo e para jovens do 2º e 3º Ciclos.

Houve poesia dita e partilhada pelos meninos e pelos jovens, com especial relevo para os jovens da Escola António Sérgio onde se tem feito um trabalho continuado e de grande qualidade em torno da poesia.

Tivemos contadores e histórias como o Ângelo Torres e a Ana Lage. A escritora Carla maia de Almeida leu o seu último livro.



A noite do último dia foi dos adultos.

A sala esteve cheia. Participaram dezedores diversos como o Jorge Lino, o Moisés, a Romana. Poetas como o Pedro Mota ou o António Ferra, o César, o Portinha

E muitos outros homens e mulheres que quiseram partilhar o prazer de dizer ou/e de dar a conhecer as suas produções poéticas.

A assistir e a oferecer-nos bocadinhos da sua arte, esteve o Rão Kyao.



Foi uma noite muito calorosa e tão participada que tentaremos repeti-la com maior frequência. Porque as coisas boas devem repetir-se. E a poesia agradece.

domingo, 11 de outubro de 2009

OS BEATLES E A CALVÍCIE




Nas visitas às escolas, os meninos e jovens costumam fazer-me perguntas.

Algumas são muito repetidas: Quando é que escreveu o seu primeiro livro? Quando é que resolveu que queria ser escritor? Qual é o livro que mais gostou de escrever?

Algumas menos interessantes como: Qual é o seu clube de futebol? Resolvi deixar as filiações futebolísticas fora destas conversas porque o ambiente de alarvidade à volta da clubite começa a sair do âmbito dos adultos e a estar demasiado presente nos mais pequenos.

Raras são as perguntas realmente diferentes que me fazem nestas visitas. Na EB23 de Vila Nova de Tazém, Gouveia, o Bruno do 5º ano saiu do mais banal ao perguntar-me qual era a minha banda favorita. Falei-lhe da minha última paixão: os Oquestrada. Quis saber outra. Falei-lhe naturalmente da banda cuja música foi o pano de fundo da minha adolescência e continua a ser o pano de fundo da minha memória mais afectiva: os BEATLES!

"Aaaaaaaaaaaaaaaah!" Fez-se luz no rosto do Bruno. "Por isso é que o sr. é um bocadinho careca!"

Devo confessar que não percebi logo o alcance do comentário.

"Careca, porquê?"

"Porque os fãs dos Beatles arrancavam o cabelo enquanto os ouviam tocar!"

sábado, 10 de outubro de 2009

MUSEU ABEL MANTA EM GOUVEIA

Eu tinha 18 anos quando entrei para a Escola de Belas Artes de Lisboa ao Chiado. A vida era um saco de maravilhas e eu estava doido por des´vendá-las e disfrutá-las.

Minha colega e no curso de Arquitectura e amiga do coração para sempre, a Isabel Manta morava no Bairro Alto numa casa fantástica chea de arte por odos os lados.

Sempre que possível eu e outros colegas íamos para lá. Naquele prédio moravam e trabalhavam o avô Abel Manta, a avó Clementina Carneiro, o pai João Abel Manta. Todos pintores! Eu só queria vê-los, ouvi-los, respirar o ar que respiravam.

O avô Manta, nome maior da pintura portuguesa da primeira metade do séc. XX, fumava às escondidas cigarros cravados aos colegas da neta e saía todos os dias de boina e papillon como mandam as regras dos pintores que são pintores. Descia ao Chiado e ficava-se à conversa na Brasileira, entre artistas, escritores e os inevitáveis Pides de serviço.

A avó Clementina pintava e fazia patchworks maravilhosos, alguns desenhados pelo filho João Abel. De vez em quando ia visitar o sobrinho (julgo que sobrinho...) João Pulido Valente condenado a 8 anos de cadeia por crimes políticos. E eu sentava-me ao lado dela a ouvir-lhe as histórias fantásticas dos presos políticos encerrados no forte de Peniche.

João Abel Manta era para mim um guru. E ainda é. Um mestre de quem bebi sempre que pude algum do seu muito saber sobre arte e cultura. João Abel é, além da sua dimensão cultural, um desenhador e um pintor fabuloso e discreto, com uma obra imensa e que só um país analfabeto pode ignorar ou reduzir o conhecimento da sua obra aos (extraordinários) cartoons que verteu para os jornais nos anos breves do 25 de Abril.

E ainda por lá apareciam o José Cardoso Pires, o Rolando Sá Nogueira, o Alexandre O'Neill e vários outros artistas, poetas e escritores.

O que eu aprendi só de os ver e ouvir!

Alguns anos mais tarde, a minha querida amiga Isbel Manta pôs-se a pintar também e, agora, todos os Mantas estão reunidos num Museu de excepcional qualidade em Gouveia. O Museu Abel Manta.



(Abel Manta, auto-retrato)

E não estão lá só os Mantas. Estão também os amigos dos Mantas. João Vieira, Lima de Freitas, Lurdes de Castro, rené Berttholo, Gil Teixeira Lopes, Nikias Skainakis e muitos mais. E ainda os trabalhos que têm ganho o Prémio de Pintura Abel Manta que já leva umas 3 edições, segundo creio. Um luxo!



(Abel Manta, Jogo de xadrez)

Vale a pena ir a Gouveia por imensas razões. A beleza da cidade, a imponência da Serra, tudo o que faz o seu encanto. Mas é crime não ir visitar o Museu Abel Manta pela excecional qualidade do seu espólio que atravessa uma parte significativa da pintura portuguesa do séc. XX.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

GRANDE COLÉGIO DA PÓVOA DE VARZIM

Imagens da sessão de apresentação do livro "O DIA EM QUE A BARRIGA REBENTOU".



Neste Colégio já me sinto como se estivesse em casa. Da direcção aos professores a gentileza com que me recebem nas várias visitas que ali fiz é imensa. E fico muito orgulhoso por saber que os meus livros são material de divertimento, enriquecimento apoio ao processo educativo onde tem um papel muito especial a professora Sandra Terroso.

A todos um grande bem hajam.


segunda-feira, 5 de outubro de 2009

AQUELA MANHÃ CHUVOSA DE SETEMBRO

Luís Sepúlveda é um escritor carregado de melancolia, de amabilidade, de dignidade em cada palavra que nos oferece.

Li tudo o que dele foi publicado em português. Quase sempre entursiasmado. Alguns dos seus livros fazem parte da lista dos imprescindíveis quando dirijo Comunidades de Leitores.

Estou a ler o seu último livro. Parei emocionada numa página em que Sepúlveda fala do golpe de Pinochet de 11 de Setembro. E não fui capaz de não a trazer para aqui porque é sempre urgente partilhar palavras como estas.



“… até ter chegado aquela manhã chuvosa de Setembro e a partir do meio-dia os relógios começaram a marcar horas desconhecidas, horas de desconfiança, horas em que as amizades se desvaneciam, desapareciam, e delas não restava senão o pranto aterrorizado das viúvas ou das mães. Á vida encheu-se de buracos negros que surgiam em qualquer parte: alguém entrava numa estação de metro e nunca mais saía, alguém entrava num táxi e não chegava a casa, alguém dizia luz e era engolido pelas sombras.”

domingo, 4 de outubro de 2009

AS BANALIDADES REGRESSAM AO SANTIAGO ALQUIMISTA




Depois do sucesso retumbante do primeiro ciclo, vai começar o segundo ciclo de conferências sobre Banalidades no Santiago Alquimista.

Garanto-vos que, não sendo imperdíveis, quem as perder dará um fraco testemunho do seu interesse pelo absurdo, pelo delírio, pela paixão assolapada dos oradores relativamente aos lados menos "sérios" da vida.



8/10

"BANALIDADES", por José Fernandes Fafe

22/10

"O DIREITO AO SEXO", por A. Santinho Martins

5/11

"DA VIDA E DA MORTE" por Joshua Ruah

19/11

"A DELÍCIA DO VINHO" por J. Marques Penha

3/12

"CAPRICHOS DA HISTÓRIA" por Álvaro Luz e Silva

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

O DIA EM QUE A BARRIGA REBENTOU



Cá vai mais um livrinho.

Diverti-me muito a inventar uma família de pássaros Bisnaus, uns verdadeiros javardolas, sem respeito por nada nem por ninguém, iguais a algumas famílias que todos conhecemos.

Foi uma história encomendada pela Biblioteca da Ericeira. Com a magnífica colaboração da Maria João Gromicho que fazia e desfazia uma tapeçaria enquanto eu contava, nasceu esta história em que os Bisnaus vão à praia e dão cabo do mar.

A adesão de miúdos e professores foi tão grande que resolvemos passar a história a livro. Chamou-se "O dia em que o mar desapareceu".

E o sucesso continuou. Muitas esclas pegaram no livro como material de trabalho.

Eu comecei a ficar apaixonado por estes heróis ao contrário que só fazem esneiras. Avancei com "O dia em que a mata ardeu", em que os Bisnaus foram fazer um piquenique e, claro, tanta porcaria fizeram qie pegaram fogo à mata.

Chegamos ao terceiro que é hoje apresentado ao público no Grande Colégio da Póvoa de Varzim.

Desta vez, os pássaros Bisnaus comem desalmadamente, desequilibradamente, excessivamente e acabam por adoecer.

Eu e os meninos divirtimo-nos imenso com estes miseráveis passarocos. E, já agora, vamos reflectindo sobre questões fundamentais como é, neste caso, a da alimentação saudável e regrada.

A Maria João Gromicho criou uma forma de ilustração muito forte e com um estilo que constitui o ambiente perfeito para as anti-aventuras destes anti-heróis.

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

MESTRADO EM PROMOÇÃO E MEDIAÇÃO DA LEITURA

Caríssimos amigos e amigas,

Vai abrir o Mestrado m Promoção e Mediação da Leitura na Escola Superior de Educação João de Deus em Lisboa. O primeiro foi em 2007/2009. Pertenço ao grupo (encatador) de professores e devo dizer-vos que oas aulas e seminários do 1º mestrado foram de excepcional pelo ambiente humano e pela qualidade pedagógica e científica.

Entre outros professores contam-se a doutora Violante Magalhães, o escritor António Torrado, a Doutora Fátima Sequeira, o Professor Fernando Martinho, o actor Carlos Paulo, etc, etc

O horário é às sextas ao fim do dia e noite e aos sábados.

Poderão encontrar mais informação em http://www.ese-jdeus.edu.pt/

O mestrado vai mesmo abrir em finais de Outubro e ainda tem um número comedido de inscritos. Provavelmente tem sido pouco divulgado.

Peço-vos por isso que ponham a correr esta informação nas vossas redes de amigos e colegas que possam ter interesse neste curso.

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

ALÇAPÃO




O Manuel Cintra é um amigo bissexto. Aparece e desaparece como as andorinhas. Volta e meia regressa ao beiral, ou melhor, ao telemóvel, e atira-me com uma saraivada de poesia que me deixa arrumado.

Digo "deixa arrumado" porque gosto muito do que o Manuel escreve. E da forma como diz o que escreve. Porque o que ele escreve, como o que eu escrevo, não se destina só ao papel dos livros mas também, quiçá principalmente, à festa da voz.

Os livros sigo-lhos há que anos. Quase sempre publicações fora dos grandes circuitos. Guardo-os como pequenas objectos queridos, pequenas preciosidades, magníficos búzios dados à costa na praia da poesia.

O Manuel Cintra move-se fora dos circuitos oficiais e escreve na linha limite do sangue, sempre com um pé nas estrelas e outro no abismo. Grande poesia. Da melhor que por aí se publica.

Este último livro chama-se "Alçapão". Tem momentos de cortar a respiração.




"...eu estou preso no meu corpo e gostaria tanto uma só vez que fosse o meu corpo a estar preso em mim, mas não, há regras para tudo, até para o desejo de não ter regras."

"Queria uma ternura de carne e osso, um beijo só de lábios, um amor defendido por glóbulos brancos como num processo de infecção queria que uma mulher me infetacsse sem eu a ter procurado, queria uma explosão ensurdecedora, a meio do verão, que me cegasse e corroesse até à medula, até perder os ossos e a dor..."

E etc, e etc, & ETC. Quer dizer… A editora é a & ETC. Mais do que uma editora. Uma trincheira antiga de muitos anos na resistência cultural. Às vezes são discutíveis um pouco oblíquas as suas escolhas. Mas até nisso merece o nosso imenso respeito. Porque o discutível deve acontecer justamente para se discutir.

Guardo algumas muitas dos livros da & ETC como momentos grandes da minha leitura. Por isso, faço uma dupla vénia a este livro que guardarei no lugar dos afectos mais fundos.

domingo, 27 de setembro de 2009

A CULTURA HOJE NÃO VAI A VOTOS

Durante a campanha, acerca dos assuntos da cultura, os patidos políticos tiveram a dizer: NADA!

Tambem por isso...

A CULTURA HOJE NÃO VAI A VOTOS.

Continua nalgumas formas mais ou menos públicas de clandestinidade.

Continua a ver com indignação os lobbies do costume. E a iliteracia das nossas elites dirigentes. E o estrondo pequenino das inaugurações que não fazem filhos a ninguém. E os subsídios dados aos amigos e às primas. E o olhar guloso e alarve dos que querem fazer da cultura mais um pacote de margarina na incompetência obscura e oblíqua das regras de mercado.

A CULTURA HOJE NÃO VAI A VOTOS.

Continua na voz dos poetas, na teimosia dos actores, na oficina dos pintores, no voo dos bailarinos.

Continua nos que lutam pela leitura, pela educação visual, pelo desejo incontornável de dar asas aos meninos e aos homens e mulheres que ainda não se deixaram transformar em pacotes descartáveis.

A CULTURA HOJE NÃO VAI A VOTOS.

Continua a lutar diariamente pela claridade e pela luz contra ventos e marés, contra o ultra-liberalismos e as respectivas corrupções, contra escândalos e favores, contra a miséria cor-de-rosa dos media.

Continua a procurar devolver à pátria o seu rosto luminoso que tornou possível a obra de Gil Vicente, Camões, Bocage, Camilo, Antero, Cesário, Pessoa, Sophia, Eugénio, Torga, Aquilino, O'Neill, Cardoso Pires, Stau e tantos, tantos tantos mais que não mereciam a desgraça de ver a maioria desta classe dirigente que nos cabe, tenha ela a cor que tiver.

Eu vou vtar, ganhei orgulhosamente esses direito. Mas... A Cultura está fora das escolhas que teremos de fazer.

A CULTURA HOJE NÃO VAI A VOTOS.

Já ganhou porque trabalha e sofre e canta!

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

MARY LOB, A LAGOSTA ASSASSINA



Saiu o terceiro livro da série "ALEX PONTO COM".

Tem sido um caminho de escrita onde me sinto muito livre para navegar em aventuras delirantes, divertidas e que talvez também dêem para pensar um bocadinho.

Mais uma vez Alex envolve-se numa aventura virtual. Só que desta vez leva a mãe que desaparece sem deixar rasto. Para a encontrar, Alex vai contar com a ajuda do seu amigo Joe Silicone, o pequeno dragão, da sua namorada Mafalda, dos seus colegas, do professor Helder e da bela e destemida Heliodora.

Devido à Dona Lurdinhas, enfermeira completamente pitosga e a um grupo de marginais, desenrolam-se entretanto estranhos e delirantes acontecimentos entre o Centro de Saúde, a EB 23 e o posto da GNR.

No mundo virtual Alex te,m entretanto, de enfrentar Boris, um programador de computadores maléfico e enlouquecido que pretende dominar o mundo e para isso cria o mais terrível dos seres virtuais: MARY LOB, A LAGOSTA ASSASSINA!

E este espaço é pouco para contar todos os desvairados acontecimentos que se cruzam numa narrativa que me divertiu muito escrever.

Os anteriores são "ALEX PONTO COM" e "JOE SILICONE VAI À ESCOLA".

Escrevi estes livros para leitores a partir dos 10 anos e até já soube de adultos que se divertem a lê-los.

As lustrações continuam a ser do meu filho João. E eu gosto delas.

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

LIVROS DA NOSSA VIDA



Levou uns anos a ver a luz do dia este livro agora publicado pela Câmara Municipal de Sintra sob o patrocínio do meu amigo Fernando Seara.

Aqui se reunem 100 testemunhos que recolhi de personagens públicas, gente da música ao teatro, do cinema ao futebol, da literatura à política. Pedi a cada um deles para falar de um livro, um apenas, que os tenha apaixonado e cuja leitura quisessem aconselhar.

O objectivo é fazer com que aqueles que admiram uma ou utra destas personalidades, ao ver o seu testemunho digam para si: “Se ele gostou tanto deste livro, eu também o quero ler!”

Em Portugal lê-se pouco. Muito pouco segundo os padrões europeus. E, no entanto, para muitos de nós, alguns até insuspeitos, ler é natural, faz parte do dia-a-dia da nossa vida, torna-a mais rica e mais densa e dá-lhe mais sentido.

Foi isso que eu quis mostrar com esta recolha que pretende ser um pequeno empurrão amável, uma voz calorosa que, entre muitas outras, nos diga: "Vá lá, lê mais um bocadinho! Experimenta este livro! Lê aqueloutro ao teu filho! vais ver como a leitura te ajudará a fazer do teu quotidiano um local muito mais agradável para viver."

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

DOIS ANOS



(Há 15 dias, na Praia da Vitória, 1º Encontro Nacional de Dezedores de Poesia)

Faz hoje dois anos que me meti neta aventura de fazer e alimentar um blog. Não esperava que durasse tanto. Não esperava que também aqui pudesse cumprir de forma tão continuada algumas das minhas preocupações: prestigiar os meus amigos, divulgar pequenas memórias,histórias diversas, poesia muita, falar de livros, anunciar um ou outro acontecimento do mundo da cultura, lembrar as bibliotecas, os meninos e os professores das escolas por onde vou passando.

Este é um espaço de afectos e tenho recebido muito afecto dos que aqui vão passando. E são tantos. E tão doces, sérios e emocionantes os comentários deixados...!

Há uma média de 60 visitantes por dia. Já lá vão mais de 42.000! É fantástico. Agradeço a todos este carinho de silêncios e palavras que me vai acompanhando dia a dia.

Sei que há blogs que têm centenas de milhar ou milhões de visitantes. Ficaria desconfiado se isso me acontecesse. Não ando aqui a mostrar a perna, não faço propaganda de nenhum partido dos grandes (Nem dos pequenos!Propaganda dessa, viste-a!), não discuto futebol neste espaço, não repito banalidades daquelas que à dúzia é mais barato, não dou brindes...

Faço um serviço público, se calhar, como me dizia tão simpaticamente o Eufrázio Filipe. Uso este espaço para um trabalho de cultura e cidadania. E falo de mim, caramba, que já vou tendo uma vida cheia de coisas divertidas (e outras nem por isso) e, não sendo especialmente vaidoso, gosto de partilhar as memórias dessa vida com quem as possa aproveitar.

Para brindar com os amigos desta casa chamada QUERIDAS BIBLIOTECAS aqui vai um poema inédito justamente sobre os amigos que se revêem na viragem madura da vida.


COMPANHEIROS DA JUVENTUDE


Correram juntos
respiraram desceram a correr
as ruas e calçadas da infância
ousaram pela primeira vez
inesperadas fronteiras
tocaram as promessas do mistério
e arderam juntos.

Partiram
em todas as direcções
sem réstia de penumbra no olhar.

Conheceram cidades
atravessaram calmias e temporais
dormiram á sombra de pequenos búzios
ao relento do amor.

Cavalgaram incêndios e utopias.
Beberam fel nas esquinas do silêncio.
Tiveram filhos.
Despediram-se de pai e mãe.
Viram chegar as rugas e aprenderam
a roubar às uvas
a música da terra.

Anos depois
juntam-se de novo
em torno de um fio de melancolia.
O riso tornou-se mais medido.
Os gestos indecisos.
Os dentes distantes
da antiga avidez.

Compartilham agora
os arrepios nos ossos
e um eco de viagens
e naufrágios no funil do tempo.
Recordam torres batalhas e fogueiras.
Declinam nebulosas.
Querem ouvir um cântico de espuma
na raiz da palavra. Perguntam:
por onde foste? Onde estás? Que caminhos
rasgaram os teus pés?
Diz-me por favor que viraste costas
ao comércio mesquinho das cidades
e que deixaste uma promessa de rosas
no rasto dos teus passos.

Medem-se. Abraçam-se. Teimosos
continuam a causar pequenas tempestades
em busca da resposta
para a única pergunta
que ninguém sabe fazer.


(Inédito do livro a publicar "Cancioneiro Feliz")

sábado, 19 de setembro de 2009

CASA DAS HISTÓRIAS DE PAULA REGO



Foi hoje inaugurada em Cascais a Casa das Histórias, Museu que guarda algumas das fantásticas histórias pintadas por Paula Rego.

O projecto é do notável arquitecto Souto Moura.

A propósito um poema inédito escrito justamente a partir de uma pintura da série "As avestruzes bailarinas" de Paula Rego.




AS AVESTRUZES BAILARINAS

(Sobre uma pintura de Paula Rego)


Perderam no ovo
a memória do voar.

As avestruzes.

Têm desejos aerodinâmicos.

Dormem numa febre de sentir
encostando ao peito
o mecânico ruído de turbinas
hélices
motores.

Têm sonhos que nunca confessarão
nem sequer à própria sombra.

Aspiram soluçando à forma das fuselagens.

Perderam no ovo a inclinação
à travessia das nuvens.

Vão dançar a noite inteira
procurando tristemente a memória
de uma estrela de um cometa
ou de uma asa.

José Fanha

(Do livro ainda inédito "Marinheiro de outras luas")

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

O REFÚGIO DA UTOPIA



"A ignorãncia está à nossa volta, frequentemente arrogante e reivindicada. E dá mesmo provas de proselitismo. É segura de si, proclama o seu domínio pela boca desdenhosa dos políticos. E o saber, frágil e mutável, sempre ameaçado, duvidando de si mesmo, é inquestionávelmente um dos últimos refúgios da utopia."

Jean-Caude Carriére, in "A obsessão do fogo"

(Actor e guionista de cinema, autor de muitos dos guiões de Buñuel, colaborador de Jean-Luc Godard, nagisa Oshima Milos Forman e de Peter Brook, professor e bibliófilo)

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

DEZEDORES DE POESIA

Ainda o 1º Encontro nacional de Dezedores de Poesia. Imagens da última sessão em que todos dissemos poesia de Vitorino Nemésio, poeta açoriano e natural da Praia da Vitória onde decorreu justamente o encontro.



(Judite Parreira, dezedora açoriana, e este que se assina)



(O Pedro Lamares, o Luís Lucas, a Maria do Céu Guerra, o Gonçalo Oliveira)

Faltam nestas fotografias os outros participantes que foram os poetas Marcolino Candeias e Álamo de Oliveira, a actriz S. José Lapa, o actor Rui Sprangler e a dra. Maria Barroso que nos deixou a todos rendidos pelo seu brilhantismo, pela sua simplicidade e encanto, pela arte de dizer que, em tempos idos, fez com que fosse expulsa do teatro nacional e perseguida pela PIDE em diversas circunstâncias.

Para acabar, fica um belíssimo poema de Vitorino nemésio.

VITORINO NEMÉSIO (1901-1978)


VERBO E EQUÍVOCO



Chamo verbo ao equívoco falado
Que em tábuas decorei de tempo e modo,
Mas o Verbo é unívoco e sagrado,
Junto a Deus, mesmo Deus, único e todo.

Lá do sempre arrancando e nunca nado,
O eterno abarca o mundo e a vida a rodo:
É no que foi e no devir, tornado
Por amor novo Adão, limpo de todo.

Desse Verbo de que falo, mal declino
O caso do meu nome, nele divino;
Anónimo, sem ele, vagueio mudo:

Mas, chamem-no os vestígios da parábola,
E brilho como a pérola da fábula,
Homem, menos que nada e mais que tudo.

sábado, 12 de setembro de 2009

AQUELA NUVEM E OUTRAS



(Edição: Campo das Letras, 1999)

Não foi muita a poesia que Eugío de Andrade escreveu destinada a crianças. Aqui estão alguns poemas que escreveu, como é dito no início do livro, para o Miguel á medida que ia crescendo.

Estes poemas são maravilhosos para ler aos nossos meninos à medida que vão crescendo.

Velho, velho, velho.
Chegou o Inverno.

Vem de sobretudo,
vem de cachecol,
o chão onde passa
parece um lençol.

Esqueceu as luvas
perto do fogão:
quando as procurou
roubara-as um cão.

Com medo do frio
encosta-se a nós:
dai-lhe café quente
senão perde a voz.

Velho, velho, velho.
Chegou o Inverno.

As ilustrações de Alfredo Martins, a lápis de cor, são suaves e dialogam muito bem com o tranuilo discorrer da escrita d Eugénio.

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

JEAN COCTEAU

Ainda de coração encantado com o 1º Encontro Nacional de Dezedores de Poesia na Praia da Vitória, trago aqui Jean Cocteau (1889-1963), destacado poeta, romancista, cineasta, designer, dramaturgo, actor e encenador de teatro e membro do Movimento Surrealista francês.




No meu vagabundear por leituras encontrei este poema inédito de Cocteau e aproveitei para o transfigurar para português.



CARTA DE ADEUS A FEDERICO

(Inédito publicado pelo El Cultural de 24/04/09)



Canta.
Pela boca da tua ferida.
Pela boca entreaberta da tua ferida.
Pela boca da tua ferida aberta de par em par.
Pelo olho húmido carmim da tua ferida.
Pela romã resplandecente da tua ferida.
Pelo riso atroz de um cavalo de picador da tua ferida.
Pelo leite obscuro dos lábios de um recém-nascido da tua ferida.
Pela lava do vulcão da tua ferida.
Pela mucosa do ouriço aberto em dois da tua ferida.
Pela taberna onde desperta sobressaltado o cigano da tua ferida.
Pela estrela escarlate das ruínas da tua ferida.
Pela tinta vermelha do último poema da tua ferida.

terça-feira, 1 de setembro de 2009

E HÁ MUITOS PROFESSORES QUE GOSTAM DE ENSINAR

"Foram muitos mais que aquela centena de milhar (de professores) os que foram afectados pela intolerável e inadmissível política de humilhação. De uma humilhação que não foi apenas de comportamento, de atitude pessoal da ministra ou dos secretários de Estado relativamente aos professorescom frases como o "professorzeco" e coisas dessas. Foi a incrível dita "burocracia" que foram obrigados aa seguir, que implica o esmagamento da profissão e a falta de respeito pela pessoa do professor. Não é apenas uma atitude. É o número de papeis , de coisas, a impossibilidade de ensinar... E há muitos professores que gostam de ensinar."

JOSÉ GIL, revista "LER", Setembro 2009

UNS E OUTROS

Algumas pequenas coisas vão mudando a nossa vida.

As formas de comunicação alteram-se. Criam-se redes, grupos, nuvens de inter-relação com novas formas de ligação. Mais perto ou mais longe precisamos uns dos outros, é o que é.

Começa-se a fazer um blog e, de repente, sentimos uma obrigação de fornecer periodicamente o pão do poema, da imagem, da opinião àqueles que fazem o favor de nos seguir.

A verdade é que já somos uma espécie de equipa.

Eu cá preciso de saber que do outro lado estão a Licínia, a Rita Carrapato, o Tiago Carvalho, o Samuel, a Margarida Graça, o Eufrázio...

E é perante todos eles que não quero fazer má figura. Eles, os que têm cara e nome e os outros que nem sei quem possam ser. Andam por aí, uma ou outra vez deixam sinal. Muitas vezes nem por isso.

A verdade é que cerca de 50 passam pelas Queridas Bibliotecas por dia! Que responsabilidade, já viram?

No final de férias pareceram-me duas optites e uma valente preguicite. mas cá estou de volta e a perguntar-me a quem é que isso pode interessar.

Mas estou vivo. Apaixonado pela vida como sempre. Cheio de paixões e de indignação perante as injustiças e perante a perversa idiotia de muitos dos que mandam neste mundo.

E volto para juntar mais alguns títulos de livros para a infância que adoro e que acho que devem estar em todas as Queridas Bibliotecas.

Mas quero aproveitar para transcrever afirmações do filósofo José Gil sobre o país, o governo... E a educação.

Abraços e beijos e preparem-se porque as citações que se seguem são barras pesadas!

sábado, 22 de agosto de 2009

A PRINCESA DE ALJUSTREL


(Edição: OQO, 2008)

Algumas editoras têm apostado fortemente na força e na inovação da ilustração, no que diz respeito à literatura infantil. É o caso da "Planeta Tangerina", da "Kalandraka" e da "OKO", editoras galegas que publicam também em português

Há cerca de 1 ano/ ano e meio ouvi uma contadora de histórias galega contar esta PRINCESA DE ALJUSTREL numa sessão na Associação Âncora em Tavira. Fiquei encantado e fui a correr comprar o livro.

Tenho-o usado um Jardins de Infância e Escolas do 1º Ciclo com êxito retumbante. É daqueles livros em que a imagem é fundamental e é ela que conduz a narração e solicita a participação dos meninos.

Essa ilustração são engenhosas assamblages de objectos fotografados que resultam em imagens extremamente expressivas.

"O que é isto? É o pau que beteu no cão que mordeu no gato que apanhou a pega que roubou o pano que escondeu o anel da Princesa de Aljustrel!..."

Trata-se de um conto acumulativo eque recolhe vários dos elementos típicos destas séries como o gato, o cão, o pau, o fogo, a água, etc. Há vários outros exemplos em português como é o caso de "O Castelo de Chuchuromel" de António Torrado.

Divirto-me muito com esta Princesa. Acho até que tenho de comprar outra, que esta, de tanto a usar, está a ficar um bocadinho imprestável.

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

ISTO É QUE FOI SER


Edição: Afrontamento, 1997)

O Álvaro Magalhães é dos mais significativos escritores para a infância e juventude.

O José de Guimarães é um artistas de méritos reconhecidos internacionalmente. O encontro entre os dois é um dos mais belos~, delicados e comoventes livros para a infância dos últimos 30 anos.

A história é a da grande aventuras de um menino, o Miguel, que está para nascer e que diz "Isto é que está a ser!". Dirá mais tarde "Isto é que está a ser!". Terminará a dizer: "Isto é que foi ser!"

Pelo meio das suas aventuras o Miguel conhece um personagem que é poeta e que que até existe mesmo e chama-se Manuel António Pina. E fica-nos um seu poema que quase que resume o sentido do livro.

A Ana quer
nunca ter saído
da barriga da mãe
Cá fora está-se bem
mas na barriga também
era divertido
...

"Isto é que foi ser" é quse um clássico da literatura para a infânia em Portugal. Uma delicia para todos e para os adultos também.

sábado, 15 de agosto de 2009

POEMAS DA MENTIRA E DA VERDADE



(Edição: Livros Horizonte, 1999)

O menino do contra
queria tudo ao contrário
deitava os fatos na cama
e dormia no armário.

A Luísa Ducla Soares percebe como ninguém o prazer e a necessidade que os meninos têm em usar a imaginação para transgrsir as normas e experimentar as coisas ao contrário, experimentan-lhes os limites, percebendo a lógca do seu funcionamento olhado do avesso.

Ese livrinho, do qual já conheci várias edições, tem sido dos que mais tenho usado quando vou às escolas do 1º Ciclo. E muitas vezes prolongo-o, ou prolongo a sua (i)lógica, propondo aos meninos que inventem coisas "ao contrário". Dá sempre resultados fantásticos.

Este é daqueles que deviam ser obrigatórios em qualquer biblioteca.

A ilustração.. Sabemos como a ilustração de livros infantis ganhou um protagonismo e uma qualidade plástica notáveis nos últimos anos. O trabalho de Ana Cristina Inácio está longe da grande onda de renovação da ilustração em Portugal. É ingénua, fora de época, e não estará ao nível da vitalidade do texto.

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

CORRE, CORRE CABACINHA



(Edição Caminho, 1991)


Recolher a tradição oral tem sido o trabalho louvável de muitos escritores. São exemplo disso os Romanceiros recolhidos por Garcia de Resende, Almeida Garrett ou Teófilo Braga. São ainda exemplo disso as recolhas de Leite de Vasconcelos, Adolfo Coelho e outros em relação às histórias ue passaram de boca em boca, de geração em geração, e fizeram o caldo em que se foi construindo o imaginário dos portugueses durante séculos.

Pegar nessa tradição e retrabalhá-la literariamente, oferendo-a às crianças e aos jovens de hoje de forma cuidada e sem atraiçoar o sentido original tem sido um trabalho louvável levado a cabo por inúmeros escritores contemporâneos de que terei de referir António Torrado pela extensão do seu trabalho e pela qualidade que lhe conferiu.

Também Alice Vieira pegou nalgumas desses histórias da tradição e as adaptou e tornou utilizáveis por pais e professores, juntando-as numa excelente colecção em que cada história é ilustrada por um ilustrador diferente.

"Corre, corre cabacinha" é daquelas histórias imbatíveis. Toos nós crianças e adultos fazemos força para que a velhinha, escondida na cabaça, escape ao lobo esfomeado.

Assim, deixamo-nos embalar no ritmo justo, poético e encantatório com que a minha querida amiga Alicinha renovou esta história mantendo-lhe integralmente o encanto original.

Noites e noites a fio li esta história às minhas filhas. E ainda tenho a sua música deliciosa no ouvido:

Não vi velha nem velhinha
não vi velha nem velhão
corre corre cabacinha
corre corre cabação

As ilustrações de Miguel Ribeiro são justas, servem bem o texto, sublinham o lado assustador do lobo e o rolar vertiginoso da cabaça onde a velhinha vai escondida, embora não saiam de um registo tradicional.

terça-feira, 11 de agosto de 2009

VIAGEM Á FLOR DE UM MÊS



(Edição: Campo das Letras, 2002)

Dois Letrias, pai e filho juntos. Normalmente dá bom resultado. O André é um ilustrador excepcional que criou um estilo inconfundível e de grande qualidade. O José Jorge é um escritor e poeta com larga obra publicada, nomeadamente na ária da literatura infantil.

Do José Jorge Letria, meu amigo e companheiro de muitas aventuras e sonhos de há mais de 40 anos, há quem diga que publica demais, que se vigia pouco, que tem uma obra irregular. Terá foros de verdade, sim senhor. Mas quando o José Jorge acerta, leva a escrita a um nível altíssimo de intensidade e emoção.

É o caso deste livro que comemora na poesia das palavras o 25 de Abril, esse dia maravilhoso que foi, todo ele, feito de poesia viva transvasada nas ruas do país.

O livro é escrito a duas vozes. A voz do pai e do filho que em poesia dialogam sobre o 25 de Abril.

Filho, havia uma voz sumida
que vinha do fundo de um poço,
uma voz cansada e seca,
uma voz ardida por uma chama
acesa na garganta que me contava
a tristeza dos dias,
a solidão das noites
antes desse mês que chegou
com abelhas e pássaros,
com o mel de mil promessas
escorrendo das asas."

Esta "VIAGEM À FLOR DE UM MÊS" erá talvez para meninos a partir dos 10 anos, necessitará de outras conversas e explicações, e é para se ler baixinho e deixar que uma grande comoção tome conta dos nossos lábios.

domingo, 9 de agosto de 2009

O LIVRO DAS SETE CORES



(Edição: Caminho, 2006)

"Não havia meio de acertarem:
- Eu é que te dei o nome - dizia a laranja.
- Eu é que te dei a cor - dizia o laranja.

E nunca mais se entendiam

..."

Conheci este livro na sua primeira edição de 1983 da Moraes editora. Perdi-o. Procurei-o desesperadamente. Porque foi dos melhores e mais belos livros de poesia para crianças que já tinha lido. Reencontrei-o nesta nova edição da Caminho e guardo-o como uma pequena preciosidade.

"Eu sou o verde.
Vim de um arco-íris e escorreguei
por dentro de uma gota de chuva.
..."

Os autores são dois queridos amigos com quem tive a felicidade de trabalhar em circunstâncias diversas. A Maria Alberta Menéres e o António Torrado, dois escritores que, desde os anos 70, deram dignidade e prestígio à literatura para a infância, contrariando os que a consideravam um género menor.

As ilustrações são simplesmente notáveis. Um trabalho de grande qualidade e modernidade do pintor Jorge Martins a demonstrar que as crianças têm de ser respeitadas e a elas também pode deve ser entregue o que de melhor as artes plásticas têm para oferecer.

"Tenho muitos inimigos.
Caluniam-me. Insinuam:
"Que seria do amarelo
se não houvesse o mau gosto?"
Fico amarelo de raiva.
e agora que, nesta tribuna,
tenho a grande oportunidade
de os desmascarar,
só lhes grito na minha voz clara:
gema
sol
ouro.

Com estes argumentos os desfaço."

Mais do que um livro temos aqui um porto de onde partir para investigar com os nossos meninos a maravilhosa mecânica das cores.

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

A MENINA GOTINHA DE ÁGUA




(Edição: Campo das Letras, 1999)


Esta obra de Papiniano Carlos é já um clássico que conheceu várias edições. Das que conheço, esta é a que mais me encanta até pelas deliciosas ilustrações de Joana Quental.

As minhas filhas pediam-me para contar a "Gotinha de água" uma, e outra, e outra, e outra vez. E eu, radiante, não me cansava de a reler porque ao ler o melhor que nos oferece a literatura para crianças, também nós deixamos vir ao de cimo a criança que nunca deixamos de ser, pelo menos os que não nos deixámos atropelar pelo lado negro da vida.

A simplicidade deste poema não é sinal de facilidade. pelo contrário. escrever simples é quase sempre o mais difícil. Um exercício de grande exigência, depuração, vigilância sobre a mão que escreve.

Papiniano Carlos é um mestre na arte da simplicidade. E não podia estar melhor acompanhado na ilustração.

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

AINDA FALTA MUITO?



(Edição Caminho, 2009)

Carla Maia Almeida foi para mim uma bela surpresa. A pessoa e a escritora.

"Ainda falta muito?!" parte de uma bela ideia que creio ser do excelente ilustrador Alex Gozblau. A ideia era a de fazer um livro sobre a pergunta que todos os meninos fazem até à exaustão quando vão no banco de trás do carro dos pais em viagens mais demoradas: "Ainda falta muito?"

A Carla pegou no tema de uma forma brilhante, conseguindo retirá-lo da simples brincadeira em redor do tema, para o envolver numa escrita poética muito cuidadosamente trabalhada, uma renda que nos faz desejar que a viagem não termine para que possamos continuar a ler aquelas deliciosas explicações do pai e da mãe.

"Quando é que chegamos?"

"Quando os semáforos se transformarem em árvores e os carros não passarem na estrada estaremos mais perto."

"Quando é que a montanha chega o fim?"

"Depende se estamos em cima ou em baixo. Se começamos pela cabeça ou pelos pés.
Se queremos subir o fim é lá no alto.
Se queremos descer o fim volta ao princípio."

Alex Gozblau é um ilustrador de recursos diversos e com uma excepcional qualidade em tudo o que nos oferece e não é por acaso que tem recebido vários prémios, o último dos quais o Prémio Stuart 2009 para ilustradores de imprensa.

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

ANJOS DE PIJAMA



(Edição: Texto, 2005)


Matilde Rosa Araújo, a nossa Matildinha como nós, os escritores para a infância, gostamos de a tratar, é a nossa decana.

Com os seus 87 anos continua, de quando em vez, a ir a escolas para contar as suas histórias e ler os seus poemas aos meninos.

São muitos os seus livros que poderia trazer aqui como fundamentais para qualquer biblioteca. Este é apenas um dos últimos.

A sua escrita é muito simples e delicada. Matilde trabalha com uma notável elegância os sentimentos simples de alegria, nostalgia, perda, solidão. As suas palavras são delicadíssimas, quase etéreas, e caem-nos nas mãos como um tecido muito leve que nos envolve de novo na pátria da mais pura infância.

Era um pinheirinho manso
Tão manso que adormeceu:
Raízes presas à terra
Agulhas presas ao céu.

Neste livro está acompanhada por outra grande senhora, a pintora, azulejista e ilustradora Maria Keill.

O resultado é uma pequena obra de arte. Um mimo. A partir dos 3 anos, para todas as idades.

sábado, 1 de agosto de 2009

AS NAUS DE VERDE PINHO


(Edição: Caminho, 1996)

O que eu sempre gostei na História é que ela é feita de histórias. Histórias maravilhosas ou terríveis, de guerra e de paz, de traição e de coragem, de amor e transcendência... Histórias. E as histórias de que é feita a nossa História são a nossa raiz. Por isso me parece tão importante trazer as histórias da nossa História para a hora boa do contar.

Esta é a história da viagem de Bartolomeu Dias que dobrou o Cabo das tormentas ou da Boa Esperança e que é aqui contada pelo poeta Manuel Alegre à filha Joana e, por isso, a todos os filhos de todos os pais que não querem que as suas raízes antigas se percam.

Sempre que em teu pensamento
o verde pinho florir
abre os teus sonhos ao vento
porque é tempo de partir.

Esta ideia de que é preciso partir, rasgar fronteiras, descobrir o o que está para além e descobrirmo-nos a nós próprios, é o cerne do crescimento de cada um, da abertura de um menino ao mundo, ao conhecimento, à poesia.

Este é um livro para ler em voz alta, como toda a poesia. Para que se ponha bem em relevo a toada incofundível do poeta tão cheia da bela música da língua portuguesa quando ela é bem usada.

Eu aconselharia este livro aos meninos dos dos 8 aos 12 anos. E a todos os outros, também.

quinta-feira, 30 de julho de 2009

ONDA



(Edição: Gatafunho - Ana paula Oliveira editora -, 2009)

A autora é a americana Suzy Lee. O livro recebeu o prémio do New York Times para o Melhor Livro Ilustrado para Crianças e a Medalha de Ouro dos ilustradores americanos.

Os desenhos são deliciosamente simples e de uma qualidade rara. Mostram-nos uma menina atrevida na praia a brincar com as ondas do mar. A história cabe-nos a nós inventá-la. e de cada vez podemos inventar uma história diferente. (Não é isto mesmo o encanto da leitura, a possibilidade de cada ler uma história diferente da de todos os outros leitores?)

Esta é uma magnífica proposta para a hora de deitar de meninos criativos, filhos de pais que os ajudam a voar.

E, já agora, atenção a esta editora e aos seus raros critérios de qualidade em tudo o que edita.

terça-feira, 28 de julho de 2009

VASSOURINHA



(Edição: Campo das Letras, 2001)

Nesta viagem pela literatura para crianças começo por um livro muito especial que fala sobre o 25 de Abril, ou melhor, sobre o autoritarismo de uma velha Senora que mandava numa pobre vassoura que um dia se libertou do seu jugo vil e arrogante.

Uma vassoura vassoura
no espaço por vassourar
enquanto a Dona Senhora:
- Não quero vê-la parar.

O autor é o meu muito querido amigo António Torrado. Um grande senhor da literatura para crianças. Os versos,numa toada de romance popular. As ilustrações são simplesmente do melhor que se tem feito em livros para crianças e o autor é o João Abel Manta, um grande pintor que tem vivido muito metido na sua concha e que pouco tem sido lembrado. Uma injustiça. E este livro prova a variedade e brilhantismo dos seus recursos plásticos.

Uma vassora vassoura
de palha triste cansada
enquanto a Dona Senhora:
- E seja mais despachada!

A "Vassourinha" esteve no top-ten das leituras à hora de dormir cá de casa. Para que idade? Às vezes é difícil dizê-lo. Os grandes livros não têm idade. Este pequeno grande livro a mim encanta-me. Acho que ainda estou em idade de o ler. Seguramente, os que têm entre 4 e 10 anos também adoram. E acaba assim:

Ficou a Dona Senhora
com o seu perfil insolente
sem a vassoura servil,
ficou a Dona Senhora,
de repente,num tormento,
muito inflamada, irritada
do pó que rodopiava
soprado por estranho vento.

E o que ela espirrava
e o que ela gritava:
- Fechem as janelas por dentro.

Mas já foi fora de tempo.

Que a vassourinha na rua
dançava nas mãos do vento
e num tal contentamento
que já ninguém a parava.

Perdera o medo para sempre.

domingo, 26 de julho de 2009

LITERATURA INFANTIL



(Ilustração de Gustave Doré)

Nos últimos anos tem começado a dar-se importância decisiva à literatura para crianças ou literatura infantil.

A leitura começou a ser uma preocupação prioritária de pais, professores, editores, autores, ilustradores e até de jornais e revistas onde vão aparecendo secções que abordam as novidades literárias neste campo.

O alargamento da Rede Pública de Leitura e da Rede de Bibliotecas Escolares, o Plano Nacional de Leitura com todas as suas virtudes e defeitos, os encontros de contadores de histórias, são o meio onde o livro infantil encontra um chão seguro para chegar aos jovens leitores.

Têm saído a público livros de grande qualidade literária e plástica. Surgiram em Portugal alguns ilustradores de enorme qualidade e os escritores multiplicam-se.




(Ilustração de André Letria)


Não é fácil escolher entre a quantidade de ofertas das livrarias onde se mistura o melhor e o pior. E é bom que se diga que ao lado de obras notáveis encontramos livros deploráveis,ilustrações de péssimo gosto, traduções assustadoras, textos feitos em cima do joelho, obras pedagogicamente desadequadas.

Quando chega a hora de oferecer um livro a um menino, quem não está ligado a este mundo da leitura tem porventura muitas dificuldades na escolha.

Vou trazer para estas queridas bibliotecas alguns livros que encantam o menino que sou.

Não pretendo fazer crítica. Apenas chamar a atenção para livros de que gosto especialmente, que uso quando vou a escolas ou a bibliotecas e que sei que cumprem bem a sua função de abrir caminhos à leitura, ao maravilhoso, à poesia, ao crescimento saudável dos nossos meninos.



(Ilustração de Teresa Lima)

sexta-feira, 24 de julho de 2009

LA POESIA ES UN ARMA CARGADA DE FUTURO



Diz-se que voltamos sempre ao primeiro amor. Não sei. Crei que alguns voltam, outros não.

Mas, no que diz respeito às paixões culturais, musicais poéticas eu regresso com muita frequência àquelas que foram as que me transportaram para uma dimensão de rebedia e solidariedade que tem sempre marcado a minha vida.

Paco Ibañez. Ouço-o com a mesma emoção hoje com que o ouvia há 40 anos.

quarta-feira, 22 de julho de 2009

ALDA ESPÍRITO SANTO (S. Tomé)


ALDA ESPÍRITO SANTO (1926)

PARA A TANIA


Nesta noite morna de luar africano
Salpicando de sombras as estradas
Eu estendo os meus braços sedentos
Para a nossa mãe África, gigante
E ergo para ti meu canto sem palavras
Suplicando bênção da terra
Para as vias dos teus caminhos
Para a rota do destino imenso
Traçado na inteireza de todo o teu ser
Para ti, a projecção das nossas estradas
Varridas da impureza dos dejectos inúteis
Para ti, o canto de glória da nossa
Mãe África dignificada.

segunda-feira, 20 de julho de 2009

GERALDO BESSA VÍCTOR (Angola)


GERALDO BESSA VÍCTOR (1917-1990)

Ode à avó Capinha


Minha avó Capinha, minha avó Capinha,
hoje que morreste (que tristeza a minha!),
relembro as histórias que tu me contavas
em manhãs de chuva, nas noites de lua...
(E meu ser, magoado, perde-se, flutua
como o sonho errante das almas escravas).

Minha avó Capinha, sou eu que te peço,
conta-me o romance, conta-me o sucesso
dos teus dezoito anos (ai, onde eu estou!),
quando tu dançavas belas batucadas,
pelas noites quentes de febris queimadas,
na velha sanzala que se incendiou...

Minha avó Capinha, minha avó Capinha,
conta-me essa lenda daquela mocinha
negra, tão formosa, que numa manhã
engoliu um bago de feijão macunde
e ficou (que mágoa no meu ser se funde!)
para todo o sempre pequenina, anã.

Minha avó Capinha, hoje que morreste,
manda-me notícias da mansão celeste:
se também há ódios ou há só amor
(a descrença enorme do teu pobre neto!),
se há um Deus que é branco e outro Deus que é preto,
ou um Deus existe sem raça nem cor.

sábado, 18 de julho de 2009

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE (Brasil)


CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE (1902-1987)


Poema de sete faces

Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.
As casas espiam os homens
que correm atrás de mulheres.
A tarde talvez fosse azul,
não houvesse tantos desejos.
O bonde passa cheio de pernas:
pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.
Porém meus olhos
não perguntam nada.
O homem atrás do bigode
é sério, simples e forte.
Quase não conversa.
Tem poucos, raros amigos
o homem atrás dos óculos e do bigode.
Meu Deus, por que me abandonaste
se sabias que eu não era Deus,
se sabias que eu era fraco.
Mundo mundo vasto mundo
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.
Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.

quinta-feira, 16 de julho de 2009

ARMÉNIO VIEIRA (Cabo Verde)



ARMÉNIO VIEIRA (1941)

Quiproquó



Há uma torneira sempre a dar horas
há um relógio a pingar no lavabos
há um candelabro que morde na isca
há um descalabro de peixe no tecto

Há um boticário pronto para a guerra
há um soldado vendendo remédios
há um veneno (tão mau) que não mata
há um antídoto para o suicído de um poeta

Senhor, Senhor, que digo eu (?)
que ando vestido pelo avesso
e furto chapéu e roubo sapatos
e sigo descalço e vou descoberto.

O poeta recebeu o Prémio Camões 2009.

terça-feira, 14 de julho de 2009

MUTIMATI BARNABÉ JOÃO (Moçambique)




MUTIMATI BARNABÉ JOÃO

"Mutimati é a voz individual que corporiza a voz colectiva.”, assim se escreve no frontispício de “EU, O POVO”. Segundo Nelson Saúte, a lenda dizia ter sido o livro encontrado como testamento de um guerrilheiro caído na frente do combate revolucionário. De facto, sabe-se que o autor é António Quadros ou João Pedro Grabato Dias, pintor e autor de poemas para algumas das canções de Zeca Afonso. No frontispício original dizia-se ainda que aquele livro era agora pertença de Moçambique e que o Povo moçambicano era os eu verdadeiro autor. Estamos de acordo com Neson Saúte ao afirmar que, por vezes, com o tempo, a lenda torna-se verosímil. Deixemo-la então, generosamente, cobrir a autoria destes poemas.




(Pintura de António Quadros)


As linguagens

Na cabeça de um homem há muitas línguas a falar
Falam com bocados umas das outras e estão unidas sem saber
Quando um homem pensa sozinho consigo mesmo
e quer tirar da cabeça uma produção útil para todos.

Por exemplo: Penso Rio. É matsi, é water, é água,
É quilos de litros a andar depressa
É uma música da água, é um desenho da água na cabeça.
Posso falar Rio: posso medir Rio; posso desenhar Rio.
Posso tirar o Rio da cama e pôr o rio acordado num papel
Que é um retrato parecido deste Rio mesmo este.

Isto que faz na cabeça de um homem tirar retrato são línguas
O Rio, a Árvore, o Animal, a Rocha, a Terra, o Sol, o Vento,
São as caras da Natureza que as minhas línguas estudam.

A escola Primária Colonial está mal.
A língua das palavras não chega para tudo
É preciso aprender uma língua dos números
É preciso aprender a língua dos desenhos
As três línguas juntas é que são a língua verdadeira do Homem

E de pois o Homem já fala à Natureza bem
E pode aprender dela tudo o que há-de ensinar.

Sigo a pista do cabrito: pegadas e capim partido. É desenho isso.
O excremento está fresco no Sol. Passou pouco. É cálculo aritmético.

Está ali. Não é cabrito. É cabrita. Falei com palavras.
Conheço que não sei pensar nada só numa língua.

domingo, 12 de julho de 2009

JOSÉ CRAVEIRINHA (Moçambique)




JOSÉ CRAVEIRINHA (1922-2003)

Quero Ser Tambor


Tambor está velho de gritar
ó velho Deus dos homens
deixa-me ser tambor
só tambor gritando na noite quente dos trópicos.


E nem flor nascida no mato do desespero.
Nem rio correndo para o mar do desespero.
Nem zagaia temperada no lume vivo do desespero
Nem mesmo poesia forjada na dor rubra do desespero.

Nem nada!

Só tambor velho de gritar na lua cheia da minha terra.
Só tambor de pele curtida ao sol da minha terra
Só tambor cavado nos troncos duros da .minha terra.

Eu!

Só tambor rebentando o silêncio amargo da Mafalala.
Só tambor velho de sangrar no batuque da minha terra.
Só tambor perdido na escuridão da noite perdida.

Ó velho Deus dos homens
eu quero ser tambor.
E nem rio
e nem flor
e nem zagaia por enquanto
e nem mesmo poesia.

Só tambor ecoando como a canção da força e da vida
só tambor noite e dia
dia e noite só tambor
até à consumação da grande festa do batuque!

Oh velho Deus dos homens
deixa-me ser tambor
só tambor!


A poesia de JOSÉ CRAVEIRINHA é uma antiga e fortíssima paixão minha. Julgo que fui a primeira pessoa a dizer poesia sua na RTP, em 77, numa acidentada sessão de "A Visita da Cornélia" no Porto.

A sua poesia é particularmente comovente pela denúncia do racismo que, não oficializado, era oficiosamente praticado em Moçambique nos anos 50 e 60, com características em tudo semelhantes ao Apartheid daÀfrica do Sul.

Ao ler apontamentos da sua biografia dou com um velho artigo de jornal em que ele elogia "o rasgo de puro e desassombrado desportivismo» que representara, na época de 51/52, o «caso absolutamente ímpar» da «apresentação nas pistas de atletismo de alguns atletas negros puros envergando a tão susceptível, até aí, camisola do Sporting local" e lamenta a "infeliz lei que suprimiu dos campos de futebol a presença do negro quando não apresente o respectivo atestado de assimilação". Anos 50. É bom guardar memória.

Craveirinha recebeu o Prémio Camões 1991 que o consagrou como grande poeta da língua portuguesa, grande poeta da negritude e grande poeta do mundo,

sexta-feira, 10 de julho de 2009

A MINISTRA




O meu amigo Miguel Real, magnífico escritor, acaba de publicar a novela "A Ministra". Ainda não li. Vou ler, gostosamente, por certo. Mas mesmo antes de o ler achei urgente dar notícia da sua publicação. E já agora, acrescentando a nota que o autor colocou no início do livro. Uma nota que ajuda a desfazer equívocos ou a confirmá-los, conforme o ponto de vista de cada leitor...

quarta-feira, 8 de julho de 2009

ALDA LARA (Angola)


ALDA LARA (1930-1962)

TESTAMENTO

À prostituta mais nova
Do bairro mais velho e escuro,
Deixo os meus brincos, lavrados
Em cristal, límpido e puro...

E àquela virgem esquecida
Rapariga sem ternura,
Sonhamdo algures uma lenda,
Deixo o meu vestido branco,
O meu vestido de noiva,
Todo tecido de renda...

Este meu rosário antigo
Ofereço-o àquele amigo
Que não acredita em Deus...

E os livros, rosários meus
Das contas de outro sofrer,
São para os homens humildes,
Que nunca souberam ler.

Quanto aos meus poemas loucos,
Esses, que são de dor
Sincera e desordenada...

Esses, que são de esperança,
Desesperada mas firme,
Deixo-os a ti, meu amor...

Para que, na paz da hora,
Em que a minha alma venha
Beijar de longe os teus olhos,
Vás por essa noite fora...
Com passos feitos de lua,
Oferecê-los às crianças
Que encontrares em cada rua...


ALDA LARA vei muito nova veio para Lisboa onde concluiu o 7º ano do Liceu. Freqüentou as Faculdades de Medicina de Lisboa e Coimbra, licenciando-se por esta última. Em Lisboa esteve ligada a algumas das atividades da Casa dos Estudantes do Império

Declamadora,chamou a atenção para os poetas africanos.

O poema publicado acima ouvi-o pela primeira vez na voz do meu querido amigo, jornalista, comentador de econimia e amante de poesia Nicolau Santos.

Gosto muito de dizer que se um homem das bandas da economia gosta de dizer poesia, talvez este mundo tenha uma pequena esperança de salvação...

segunda-feira, 6 de julho de 2009

MANOEL de BARROS (Brasil)



MANOEL DE BARROS (1916)


BORBOLETAS

Borboletas me convidaram a elas.
O privilégio insetal de ser uma borboleta me atraiu.
Por certo eu iria ter uma visão diferente dos homens
e das coisas.
Eu imaginava que o mundo visto de uma borboleta –
Seria, com certeza, um mundo livre aos poemas.
Daquele ponto de vista:
Vi que as árvores são mais competentes em auroras
do que os homens.
Vi que as tardes são mais aproveitadas pelas garças
do que pelos homens.
Vi que as águas têm mais qualidade para a paz do
que os homens.
Vi que as andorinhas sabem mais das chuvas do que
os cientistas.
Poderia narrar muitas coisas ainda que pude ver do
ponto de vista de uma borboleta.
Ali até o meu fascínio era azul.


MANOEL DE BARROS é bacharel em direito viveu em Nova York e é actualmente criador de gado na zona do pantanal onde vive.

Poeta pouco conhecido até tarde, a sua obra "estoirou" a partir dos anos 80 e é hoje reconhecido como uma voz única e fundamental na poesia brasileira.

A sua poesia é doce, quase infantil e aparentemente ingénua, embora se pressinta nas suas descontruções de forma e sentido uma erudição funda mas cristalina e aberta ao diálogo com o leitor.

Foi para mim uma das mais belas descobertas poéticas dos últimos anos.

A publicação da sua obra em Portugal deve-se às Quasi edições.