sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

LIVRARIA "POESIA INCOMPLETA"

Nunca visitei a "POESIA INCOMPLETA". Falha grave minha. Ando pouco por Lisboa mas a falha é mesmo grave. Já me tinham avisado que era imprescindível. E agora, os amigos andam a pedir para lá irmos e não a deixarmos morrer. Recebi a mensagem abaixo. Vou já lá a correr.



"Actualmente existe, em Lisboa, uma livraria absolutamente única no país: uma livraria integralmente dedicada à poesia.

Sucede, contudo,que, apesar de fantástica, ela encontra-se com alguma dificuldade emsobreviver. O que não se compreende: tem à sua frente um jovem livreiro que, além de extremamente eficiente, como verão, possui um total conhecimento do que está a vender: conhece os autores, as edições, tudo.

A livraria de que vos falo chama-se Poesia Incompleta, fica na Rua Cecilio de Sousa nº 11 (Príncipe Real) e vai com certeza ser uma revelação para quem a visitar. Abrange todas as épocas e o que não tem, o Mário, o dito livreiro, arranja, normalmente - e com uma brevidade que, no mínimo, surpreende.

Peço-vos - a vós que sois leitores, presumo - que façais uma visitinhaa este sitio, que não pode de maneira nenhuma fechar e que, pela sua qualidade, vai-se tornar, mais tarde ou mais cedo, como aliás disse Vasco Graça Moura, num local de culto.

Isto, claro, se não fechar, coisa que, passando a palavra e recomendando a amigos este tãos ingular espaço, podemos evitar."

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

AMESTERDÃO 1970



Já muito perto dos 60 anos, às vezes dá-me para umas viagens ao passado. Nada de saudosismo. Mas o passado, os passados são para lembrar.

Encontrei por aí esta foto. Amesterdão, 1970, 19 anos, a bordo de um barco pelos canais. Estou ao lado de uma portuguesa, um português e um holandês.

Foi a primeira vez que saí sozinho para o mundo. Sozinho não. Fui com o meu amigo Manuel Botelho. Estudava arquitectura e tinha trabalhado o ano inteiro no Ministério das Obras Públicas como desenhador. Deu para a viagem de um mês.

Portugal era triste, sujo, pequenino, mesquinho, bolorento, dominado por bufos. Vivíamos de frente para uma guerra que parecia não ter fim. E a gente da minha idade barafustava, protestava, conspirava e sentia-se às vezes muito triste.

Lá fora havia tanta coisa, as revoltas estudantis, os hippies, o rock, o Make Love not War, o Guevara, o Vietname e o protesto contra a guerra (com muitas parecenças com a nossa Guerra Colonial) e mais e mais e mais.

A chegada a Amesterdão foi um deslumbre. Respirava-se liberdade, festa, delírio. E havia o mercado das flores. A Casa de Anne Frank. A juventude ocupava a cidade vestida das formas para nós mais deliciosas. Havia música nas ruas, nos parques, havia gente de Itália, da Dinamarca, da América, de toda a parte. E era fácil falar. E cantar. E fazer amigos. E...

Não se tem duas vezes 19 anos. Mas é nessa idade que estabelecemos as nossas pátrias.

Amesterdão, a Cidade-de-Todos-os-Espantos-de-Amesterdão ficou a ser uma das minhas pátrias para sempre.

É claro que tenho outras pátrias. Umas mais pequenas, outras maiores. Um dia falarei delas.

domingo, 9 de janeiro de 2011

NÓS SOMOS TEIMOSOS



ABRIL vai ficando mais longe. Crescemos muito mas também houve muito que ficou por cumprir.

A democracia que vivemos não é bem aquela que alguns de nós sonhámos.

Instrumentos antigos com histórias gloriosas como, por exemplo, os sindicatos parecem ter perdido a sua função.

Os partidos transformaram-se em agências de empregos, centros de jogo de interesses particulares e pouco mais.

Os interesses nacionais têm-se apagado. O neo-liberalismo instaurou um estado de coisas muito feio.

Mas é claro que não vamos desistir.

O mundo tem evoluído com uma mecha do caraças... Parece que as grandes lutas transformaram-se numa multiplicidade de pequenas lutas. Pelo ambiente, pela qualidade de vida e do ensino, pela saúde, pela cultura, pelo respeito e pela dignidade da vida humana, pela verdade, pela informação... Coisas pequenas mas que todas juntas...

Vás tu descansado, Vítor. Nós somos teimosos.

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

UMA ESPÉCIE DE VISITA AO PARAÍSO



Há homens que se tornam em pontos de referência fundamentais na nossa vida. Pelo seu exemplo, pelo seu talento, pela sua consistência, pela dimensão da sua alma.

São raros na nossa vida. E por isso preciosos. Dos meus, e de memória, poderia falar do Zeca Afonso, do Alípio de Freitas, do Claudio Torres, do Siza Vieira, do João Abel Manta e, seguramente do José Mattoso.

São âncoras, pilares, nuvens que nos indicam os caminhos a seguir.

Aproveitei os dias agitados das chamadas Festas para pôr em dia algumas pequenas leituras, entrevistas, artigos de jornal, coisas amontoadas ao canto da mesa de trabalho e a transbordarem para o chão.

Li duas entrevistas com o José Mattoso. E ficaram-me frases e pensamentos que merecem partilha e reflexão.

Cá vão algumas da entrevista conduzida por Anabela Mota Ribeiro e publicada em O Público, 24.10.2010.

"A minha concepção de Deus - não sei se é pretensão de mais dizê-lo - foi-se aperfeiçoando. Foi perdendo os aspectos antropomórficos, os aspectos lógicos. Os Vedas falam na meditação da escuridão que cobre a escuridão. A escuridão é o mistério de Deus, coberta por outra escuridão, e por outra , e por outra. Temos de encontrar o que está por detrás, que nunca é exprimível. Há aproximações metafóricas, metafdísicas, conceptuais."

"O Homem é o homem e a mulher. O amor faz parte daquilo que completa o Homem. Se não existir é uma mutilçação. É uma falha irreparável."

"O 1º de Maio (de 1974) foi uma espécie de visita ao paraíso."

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

O GRANDE FEITICEIRO ADORMECEU




O grande feiticeiro, meu irmão, adormeceu hoje. Foi lá para o céu tirar um descanso desta vida maluca.

Que se cuidem os anjos, e mais ainda as anjas, porque reboliço vem ali.


MALANGATANA VALENTE NGWENYA


MULHER

Nas águas frescas do rio
vamos ter peixes imensos
que darão o sinal do ´
fim do mundo talvez
porque vão dar cabo da mulher
a mulher que embeleza os campos
a mulher que é o fruto do homem.

Oh peixe voador, acaba com a rusga
porque a mulher é o ouro do homem
quando ela canta e até parece
a viola do fadista bem afinada
quando ela morre cortarei
o cabelo dela para livrar-me do pecado

O cabelo da mulher será o cobertor
do meu caixão, quando outro Artista
me chamar lá no Céu para me pintar
o seio da mulher será minha almofada
o olho da mulher me abrirá o caminho do Céu
a barriga da mulher vai-me nascer lá em cima
quando subir aos Céus

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

UMA CHUVA DE ENGENHEIROS

UMA CHUVA DE ENGENHEIROS

(Relembrando alguns quadros de Magritte)


O meu guarda-chuva preto
é um engenheiro verde.




Ou melhor,
tenho um copo de água
Inesperadamente cheio
de engenheiros amargos
vestidos de absinto.




Ou ainda,
uma chuva de engenheiros
transforma um copo de absinto
na água que cai do alto da tristeza.



Ou talvez,
a mãe do pintor afogou-se
num rio de copos de água
e nunca mais deixou de se ver
uma chuva de engenheiros
a descer suavemente para o céu.

José Fanha

(do livro inédito "CANCIONEIRO FELIZ com algumas nuvens")

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

NATAL



"Não se vê bem senão com o coração. O essecial é invisível aos olhos."

"O Principezinho", Saint-Exupery


Litania para este Natal (1967)

Vai nascer esta noite á meia-noite em ponto
num sótão num porão numa cave inundada
Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto
dentro de um foguetão reduzido a sucata
Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto
numa casa de Hanói ontem bombardeada

Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto
num presépio de lama e de sangue e de cisco
Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto
para ter amanhã a suspeita que existe
Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto
tem no ano dois mil a idade de Cristo

Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto
vê-lo-emos depois de chicote no templo
Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto
e anda já um terror no látego do vento
Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto
para nos vir pedir contas do nosso tempo

David Mourão-Ferreira

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

NATAL NO HOSPITAL




O meu amigo Gonçalves André, administrador do Centro Hospital de Torres Vedras pediu-me para "dar uma perninha" no almoço de Natal do Hospital do Barro. Desafiei os meus companheiros e excepcionais músicos Nanã Sousa Dias e António Palma e fizemos uma pequena viagem pela poesia e pelo Jazz como temos vindo a fazer nos últimos meses por aqui e por ali, um pouco por todo o país.


sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

LIVRARIA LERDEVAGAR



Continuando a visita a livrarias que procuram constituir-se como alternativa aos Centros Comerciais, aqui vem uma que é talvez a aposta mais aventureira, mais calorosa, mais entusiasmante de todas as que conheço.

Quem já lá foi sabe que tem sido e continua a ser um espaço único de encontro com os livros, a leitura, a cultura, o convívio, a cumplicidade, a amizade, o calor humano.

A "Lerdevagar" já teve várias localizações. No Bairro Alto, em Braço de Prata e agora na Lx Factory em Alcântara, Lisboa.

Está instalada nas instalações imensas de uma antiga fábrica que continua continua presente nas suas impressionantes maquinarias, agora invadidas por livros, a maioria deles a preço barato.

Está aberta até tarde e tem sofás, bar, restaurante e simpatia. Pode-se tomar café, jantar, beber um copo, conversar, namorar... E ler, ler, ler mas devagar.

Quem não a conhece fica desde já obrigado a passar por lá, deixar cair a boca de espanto e, naturalmente, a ficar apaixonado por este espaço único no país.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

INVENTÁRIO DO MEU MUNDO



O meu querido amigo Alberto Trovão do Rosário acaba de publicar um livro que aconselho todos a ler.

Intitula-se "INVENTÁRIO DO MEU MUNDO"

Trata-se de um conjunto de pequenos textos, reflexões diversas, ideias, impressões e poemas servidos por uma escrita de grande qualidade.

Não se trata de um diário nem de nada que possamos definir numa palavra. É um belíssimo inventário de quem tem uma vida cheia para inventariar.

Um exemplo para todos nós. Porque todos temos uma vida para inventariar. E esse perccurso é o melhor que podemos oferecer aos amigos, à família, à gente que não anda no mundo por andar. É claro que quem quiser meter ombros a esta tarefa tem de o fazer com um tremendo respeito por essa arte única que é a das palavras.

O Alberto fê-lo com grande brilho e posso dizer que este exemplo nos ajuda e muito a que cada um encontre um caminho para fazer o seu próprio inventário.

Para o adquirir é fácil. Basta aceder ao site da editora e encomendar à cobrança.

http://www.edita-me.pt/


segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

A REPÚBLICA À CONVERSA EM BARCELOS



Na magnífica Biblioteca Municipal de Barcelos decorreram nos dias 3 e 4 de Dezembro fim-de-semana as Jornadas sobre a República.

Sábado, a dra. Alice Samara falou sobre "A mulher na República, o dr. Luís Gamito sobre "Os Psiquiatras e o delírio na República, o Prof. Adelino Maltez sobre "Carbonária e maçonaria na República", o escritor Miguel Real sobre "A literatura e as ideias durante a República" e o dr. Sérgio Pinto sobre "A questão religiosa e o fim do liberalismo socio-político.

Na noite de sexta feira o Dr. Medeiros Ferreira fez uma excelente oração de abertura e eu, com o pianista António Palma, fizemos uma rápida viagem pela poesia e pela música do final do séc. XIX até à queda do Estado Novo em 1974.


sábado, 11 de dezembro de 2010

FEIRA DO LIVRO DE ALPIARÇA



Muito vêm fazendo um número significativo de autarquias e de Bibliotecas Municipais na promoção do livro e da leitura.

Esperemos que a crise e o medo da crise não faça cair os cortes sobre esta área. Porque, infelizmente, há também muitas autarquias que gastam rios de dinheiro em espectáculos de circunstância ditos populares, que duram duas horas e não fazem filhos a ninguém, embora alguns autarcas menos avizados acreditem que com esses espectáculos agradam ao povo e conquistam votos.




O retorno do trabalho cultural de base não é imediato mas é sólido e é sobre esse retorno que podemos acreditar num Portugal moderno e mais capaz de resolver as suas crises.

domingo, 5 de dezembro de 2010

UM AMIGO



Esta canção pertence-me ou seu eu que lhe pertenço. Faz parte do território da minha juventude.

E continuo a emocionar-me quando a ouço, mesmo nesta recente e poderosa versão.

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

HISTÓRIAS COM DIREITOS



O Instituto de Apoio à Criança, em colaboração com a Plátano editora, acabou de publicar este livrinho de histórias e versos dedicados aos Direitos da Criança.

Os autores convidados foram: António Torrado, Mª Teresa M. González, Inês de Barros Baptista, Raquel Palermo, Inês Pupo, Augusto Carlos, António Mota, Luísa Ducla Soares, José Jorge Letria, Rui Zink e este que se assina, José Fanha. Ilustrações da Vera Pyrrait. Voz de Pedro D'Orey e música de Carlos Daniel e Tiago Barbosa.

Não pude estar presente na apresentação pública e, por isso mesmo, ainda não vi o livro, não lhe toquei, não o cheirei. Mas estou ansioso.

E agora, para aguçar o apetite, um bocadinho do texto que escrevi


RECEITA PARA FAZER UM NINHO

Toda a mãe prepara
um sítio quentinho
a que chama ninho
e onde com cuidado
de um velho saber
põe o seu filhinho
logo que nascer.

Para fazer o ninho
os ingredientes
podem ser diferentes
seja um passarinho
seja um passarão
seja um coelhinho
seja gato ou cão
menino ou menina
Joana ou João.

(...)