sexta-feira, 15 de outubro de 2010

UMA QUESTÃO DE LUZ E DE TEIMOSIA



Morreu uma das mais emblemáticas e entusiastas protagonistas da festa que tem sido (sempre que as autarquias não se distraem) a implementação da Rede de Leitura Pública.

Amiga do coração, a Isabelinha abriu várias Bibliotecas e vivia a promoção do livro e da leitura como uma coisa fundamental da sua vida.

É pena que várias autarquias continuem a promover incultura pimba, do espectáculo de momento, da pastilha elástica de mastigar e deitar fora e, à pala da crise, deixem de lado a promoção do livro e da leitura, cortem as verbas às Bibliotecas Municipais, retirem (nalguns casos) os jornais dessas bibliotecas onde os mais velhos iam ler o seu jornal diário, para oferecerem o dinheiro de todos nós sem qualquer retorno aos fazedores de festas de "abana-o-capacete".

A grande, a verdadeira crise é a de falta de valores sólidos que continua a ser a de muitos dos que nos governam nas várias instâncias do poder. E se as autarquias em geral têm levado a luz da cultura e do entretenimento de qualidade ao interior do país, é também verdade que muitas delas continuam a deixar-se iludir pelo sucesso efémero que dura o arder de um fósforo.

A Isabel de Sousa e o Joaquim Mestre (da Biblioteca de Beja e também desaparecido há pouco) pertenceram à primeira fornada dos Bibliotecários na construção dessa revolução silenciosa que tem sido o crescimento das Bibliotecas da Rede de Leitura Pública. Eles continuam a ser uma luzinha para todos nós que sabemos que não há desenvolvimento económico e social sem promoção séria e sustentada do livro e da leitura.

Resta-nos o adeus amargo. Até sempre, Isabel. Nós somos teimosos. Continuamos. Também em teu nome.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

AMIGOS

Por vezes os oficiais do mesmo ofício têm invejas, pequenos ódios, rezinguices. Pois entre os escritores para a infancia e juventude isso praticamente não acontece.

Quem me chamou a atenção para a nossa geral boa relação foi a Luísa Ducla Soares. Eu nunca tinha pensado noisso. Sentia-me bem com os meus companheiros de escrita e pronto. Agora tenho o duplo prazer de me sentir bem e de apreciar especialmente esse bom entendimento e cumplicidade até que nos une.

Afinal, para se escrever para crianças é preciso ter viva dentro de si uma criança encantada com o prazer de brincar com palavras e inventar histórias.

E aqui está uma fotografia que celebra essa amizade intensa, neste caso durante as Palvras Andarilhas em que tenho o orgulho de ter estado ao lado do António Torrado e da Luísa Ducla Soares.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

MARAVILHAS DA LEITURA




Belíssimo livro de Rui Zink. Delicioso divertimento e magnífica lição sobre o que é a leitura e o amor aos livros.

Um menino embarca sem querer num navio que vai à procura de um animal fantástico, um animal leitor de que um remoto explorador deixou notícia num escrito em que por estar constipado troca na escrita (!) os emes pelos bês e, por em vez de “animal leitor” escreve “anibaleitor”.

Num naufrágio, o menino naufraga e vai ter à caverna do Anibaleitor, um imenso gorila que Lê e come seres humanos. Não como o protagonista porque precisa de alguém para falar dos livros que lê.

Os diálogos entre os dois são não divertidíssimose carregados do humor e do uso brilhante do non-sense habituais em Rui Zink. Simultaneamente são uma lição fantástica sobre a leitura que vai derrubando um a um todos os lugares comuns que se interpõem entre os jovens e a fantástica aventura que é a leitura.

Este é daqueles livros que pode e deve ser lido por todas as idades, dos 12 aos 82 anos. E todos terão motivo para um tempo útil e muito bem passado.



Por puro acaso li de seguida estes dois livros com muitos pontos de semelhança. Afonso Cruz (também magnífico ilustrador de livros para a infância) serve-se também de uma imaginação e de um humor notáveis para nos dar a história de um homem que dedica a sua vida a ler e morre com um problema cardíaco. O filho vai percorrer o caminho das leituras do pai para o encontrar.

Da Ilha do dr. Moreau de Wells, passa ao Médico e o Monstro de Stevenson, deste chega a Crime e Castigo de Dostoievsky, passa pelo Barão Trepador de Italo Calvino e pelo “Farenheit 451” de Ray Bradbury. Conversa e discute com as personagens, irrita-se com elas, vai aprendendo que a leitura nos questiona ou ilumina a vida, como acontece no caso da sua amizade pelo gordo Bombo ou no amor por Beatriz, ambos seus colegas.

Outro livro que devia ser obrigatório (se é que faz sentuido falar de livros obrigatórios…), construído com uma ironia notável e que constitui também uma magnífica lição sobre o supremo prazer da leitura.

terça-feira, 5 de outubro de 2010

DO 5 DE OUTUBRO AO 25 DE ABRIL



Lojistas, operários, marinheiros e soldados, anarquistas, socialistas, republicanos e (até) monárquicos, carbonários e maçons convergiram na tentativa de mudar o regime e instaurar uma cidadania plena a 5 de Outubro.

Mas a revolução (talvez pelo equívoco de uma bandeira branca tomada por sinal de rendição) só se tornou imparável quando o povo saiu à rua e a transformou numa festa.

Como em Abril.



(Eduardo Gageiro)

domingo, 3 de outubro de 2010

MACHADO SANTOS



Faz hoje 100 anos que o chefe civil da revolução republicana em curso, o dr. Miguel Bombarda, foi assassinado por um doente.

Receando a reacção dos populares e dos militantes republicanos, o governo deu ordem para que os quarteis entrassem de prevenção.

Alguns dos chefes republicanos recearam avançar com o plano revolucionário.

Machado Santos, obcessivo, teimoso, resoluto, senhor de uma valentia invulgar, resolveu avançar quase que por sua conta e risco e por volta da uma da manhã do dia
4, com algumas dezenas dos seus carbonários, entrou no quartel de Infantaria 16 onde se lhe juntaram cerca de centena e meia de soldados, sargentos e dois ou três oficiais.

Sairam com 5 canhões. Pretendiam dirigir-se ao Palácio de Belém. No entanto, interceptados por uma força da Guarda Municipal fiel ao governo, dirigiram-se à Rotunda onde se instalaram e onde ficariam até à vitória da República no dia 5.

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

APRESENTAÇÃO DE "ERA UMA VEZ A REPÚBLICA"


Queridos amigos,


Vou fazer o lançamento deste livro que me é muito importante. Será muito apropriadamente nos Paços do Concelho já que se trata de um livro sobre a República e não deve haver melhor lugar do que aquele em que a República foi proclamada.


"ERA UMA VEZ A REPÚBLICA" é um livro de que estou muito orgulhoso pelo cuidado que a editora nele pôs e +pela grande qualidade gráfica. Destina-se especialmente aos jovens dos 10 aos 15 anos. Mas creio que será bonito e útil a pessoas de qualquer idade.


Tenho o orgulho de poder anunciar que a apresentação será feiet pela dra. Maria Barroso e que contaremos ainda com uma intervenção do José Jorge Letria e do tenor Carlos Miguel que vai apresentar 2 ou 3 canções que se cantavam por altura da implantação do República.


Gostava muito de vos ver por lá. É no dia 28 de Setembro pelas 18h30.

terça-feira, 21 de setembro de 2010

3 ANOS DE QUERIDAS BIBLIOTECAS

Faz hoje 3 anos que comecei esta aventura de me abalançar a fazer um blog. O resultado foi para mim inesperado porque passados estes três anos continua a aumentar o número dos visitantes e, neste momento, chegámos à média de quase 70 visitas por dia.

É um blog pessoal que não vive à volta do umbigo mas procura tornar-se um espaço de partilha de ideias, experiências, emoções e memórias. É um espaço de liberdade e de valores éticos e morais. É um espaço de indignação e de festa também.

A Licínia, a Maria, a Teresa Queirós, o Mar Arável (Eufrázio Filipe), o Samuel, o Júlio Pego, o Tiago Carvalho, são apenas alguns dos companheiros queridos que me animam com os seus comentários e ajudam assim a criar uma corrente fraterna que existe com mais ou menos visibilidade, uma rede que vai mantendo vivos este espaço de liberdade de pensamento.



(Foto Sílvia Alves)

E como é de amigos e com amigos que falo aproveito para trazer para aqui uma nova amiga. Chama-se Fanny Abramovich, escritora brasileira deliciosa pela sua ironia, pela sua alegria, pela sua irreverência e pela sua escrita na ária da literatura para a infância e a juventude. Conhecemo-nos neste fim de semana em Beja nas Palavras Andarilhas, e trarei aqui alguns exemplos da sua deliciosa escrita.

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

A MISTERIOSA HISTÓRIA DE UM LONGO EQUÍVOCO

Faço aqui uma declaração solene: para minha grande tristeza sou desafinado, não sei música, não sei tocar nenhum instrumento musical, nunca cantei em público.

Apesar que acima reza e que é absolutamente verdade, sou perseguido há muitos anos pela fama de ser cantor. Há escolas onde sou recebido com uma viola para cantar, há pessoas que me pedem para cantar uma daquelas minhas cantiguinhas, várias foram as pessoas que juram já me ter visto cantar.

Inúmeras vezes senti que algumas pessoas ficam desconfiadas a pensar que estou a gozar com elas quando lhes digo que não sei cantar. Mas é verdade. Verdade pura e crua! Verdade indesmentível!

Desconfio que depois do último livro que publiquei,este equívoco ameaça agravar-se mercê desta página:



Creio que sei de onde vem este equívoco. Acompanhei muitas vezes alguns cantores e ainda o faço com alguma frequência. Eles cantam, eu digo poesia. Começou com o Zeca Afonso em 1969, com o Adriano Correia de Oliveira, o Carlos Alberto Moniz, o Manuel Freire, o Xico Fanhais, o Fernando Tordo, o Carlos Mendes, a Amélia Muge... E até com os filhos de alguns deles, o Francisco Mendes, por exemplo, com quem faço às vezes sessões de canções e poesia.

Fiz muitas letras de canções, um poema meu ganhou o Festival RTP da canção com música do Pedro Osório, cantado pela Lúcia Moniz.

Mas nunca cantei. Juro. E mesmo quando chega àquelas canções que todos cantam em coro (como a Grândola e outras), para não estragar o canto com a minha desafinação, abro e fecho a boca a fingir que estou a cantar.

Julgo que tenho um certo sentido ritmíco. Esse é um instrumento fundamental da poesia. Talvez< consiga dominar alguma música das palavras o escrever. Mas nunca cantei! Não sei música e tenho muita pena.

Não sei mais o que fazer para desfazer este equívoco! Peço apenas a todos os meus amigos que espoalhem por toda a parte com muito engenho e arte que o Fanha faz muitas coisas, coisas até relacionadas com a música e a canção, mas não sabe e nunca soube cantar!

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

HOJE EM BEJA



Começam hoje em Beja as Andarilhas, essa festa da liratura e sobretudo da oratura, como diz o António Torrado. A arte de contar histórias e de crescer contando e ouvindo contar histórias.

E a este maravilhoso acontecimento que teimosamente continua de pé há um nome que tem de estar sempre ligado, o da Cristina Taquelim.

Parabéns Cristna, a tua/nossa festa vai ser, já é linda.

domingo, 12 de setembro de 2010

GORDINHAS E BARRIGUDAS



A Texto Editora, na pessoa da Susana Borges, fez-me o desafio de escrever um livro para a excelente colecção Gramofone com textos, lenga-lengas e histórias que abordassem a brincar a acentuação das palavras na língua portuguesa.

Aí está o livro com ilustrações deliciosas do Afonso Cruz.

Deixo ficar

ROMANCE DAS CATATUAS DE LISBOA


Teodora catatua
era tia de uma linda
Teolinda
também ela catatua.

Catua e catatia
uma sopra outra assobia
Catatia e catatua
mais parecem capicuas
seja noite ou seja dia
seja chuva ou ventania
seja sol ou seja lua
vão andando pela rua
com seus dotes palavrantes
num chorrilho bem falante
de coisas ditas à toa.

Catatia e Catatua
uma aperta outra abotoa
vieram de muito longe
de Mombaça ou de Quiloa
de Damão ou Calcutá
das terras do patuá
e o seu falar atrevido
dá um ar mais colorido
às ruelas de Lisboa

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

O MEU AMIGO PINTO

O meu amigo Pinto abriu em 1972 o seu estabelecimento de cabeleireiro de homens em Lisboa na cave do então chamado drugstore Apolo 70 e ainda lá está. Ganhou vários prémios nacionais e internacionais. E pode contar por amigos com a maior parte dos seus clientes.

E os seu clientes, alto lá com ele!, vão desde vários Presidentes da Répública, a muitos políticos de todas as cores, escritores, músicos, actores, gente da televisão, do cinema, médicos, professores universitários, eu sei lá que mais. O Pinto é uma figura fundamental da nossa Lisboa.

Eu cá já lá corto o cabelo desde finais dos anos 70. É verdade que, com esta mania do cabelo comprido, não lhe dou muito dinheiro a ganhar.

Mas é sempre um prazer sentar-me na sua cadeira de barbeiro e deixar correr a conversa, até porque bom barbeiro tem de ser bom conversador e o o meu amigo Pinto é mestre na arte da tesoura e na da palavra.



Um dia, o Pinto falou-me de um conhecido comum. Diabético como eu, mas com muito poucos cuidados com a doença. Estava em casa. Muito triste. Tinham-lhe cortado uma perna. O Pinto tinha lá ido cortar-lhe o cabelo. "É que eu, quando os clientes ficam doentes, faço questão de ir lá a casa tratar deles. E não levo dinheiro. Na minha casa levo. Mas na casa dos clientes, nem pensar!"

Ah! Grande Pinto, pensei eu! Mantém uma ética do ofício que hoje já está tão desaparecida.

Os ofícios praticamente também já desapareceram. E é pena. Cresci em Alcântara. Conheci vários artistas. Quer dizer, mestres de ofício. Gente que trabalhava com mestria a madeira, o ferro, a lata, a fresa, a tesoura, a plaina... Com a mão. E a mão trazia consigo a ética, os valores morais e os sociais. Lisboa foi até aos anos 60/70 uma cidade de ofícios.

Meses depois voltei à cadeira do Pinto e, relembrando a história comovente da forma como ele tinha ido tratar do cabelo ao meu amigo diabético, fiz-lhe um elogio cá dos meus porque merecia isso e muito mais.

Com o seu sorriso caloroso e humilde, o Pinto acrescentou que também, quando um cliente falecia, fazia questão de ser ele a ir fazer-lhe a última barba.

O que é que eu posso dizer mais? Ainda há gente como o PInto. E eu tenho muito orgulho de ser amigo dele.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

ZECA TUM-TUM



Divertiu-me muito escrever este livro que acaba de sair e que fala da pluriculturalidade.

Conta as histórias que acontecem numa turma do 5º ano em que convivem o Zeca Tum-Tum, caboverdeano, a Maria Sarabandovitch, bielorussa,o Tiago Ping-Pong, chinês, o Piarapora, brasileiro, mais outros, um alentejano, um minhoto, um sintrense, e o narrador que é apenas... gordo.

"Entre mim e o meu amigo Zeca Tum-Tum as coisas começaram muito mal. Se calhar todas as grandes amizades começam assim. A nossa começou por um grande entalão.

Foi logo no primeiro dia de aulas, na entrada para a sala de EV. Vínhamos os dois a correr, quisemos entrar ao mesmo tempo e pumba! Chocámos um com o outro, demos uma grande cabeçada e ficámos entalados na porta.

Cada um de nós queria ser o primeiro a entrar na sala. O Zeca disse logo: “Sai daí ó gordo e deixa-me passar!”, “Quem é que é gordo, quem é que é gordo?”, reagi eu todo eriçado embora, naquele tempo, fosse mesmo um bocadinho gordo.. Mas uma coisa era ser gordo e outra era deixar que me chamassem gordo.

“Está bem, até podes não ser gordo…”, Concedeu-me o Zeca, “Mas quem chegou primeiro fui eu!”

Ele achava que tinha sido o primeiro., eu também achava que tinha sido o primeiro e ali ficámos, entra não entra, empurra não empurra, até que o professor Silvério abriu-nos muito os olhos e nós baixámos a cabeça e entrámos os dois ao mesmo tempo sem mais confusão.

Cada um foi para seu canto na sala e ficámos o tempo todo a atirar um ao outro uns olhares atravessados daqueles que estão mesmo a prometer que ia haver molho lá fora mal tocasse para o intervalo."

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

ERA UMA VEZ A REPÚBLICA



Acaba de sair. Levou tempo mas aí está. Ainda quente.

Foi dos desafios a que mais gosto me deu responder. Tratava-se de fazer um livro sobre a República que embora não se destinasse a uma idade específica, procurasse ser um livro agradável e útil para meninos e jovens desde os 8 anos até ao 3º Ciclo.

Procurei contar a História como se conta uma estória. Por isso tive de começar por dizer: ERA UMA VEZ A REPÚBLICA".

Quando comecei perguntei a mim mesmo se todos sabemos o que é uma República? Qual é a diferença entre a República e a Monarquia? E o MAPA COR-DE-ROSA, quem o desenhou? Como é que nasceu o hino nacional? Como é que se escolheu a nova bandeira portuguesa? Quem é que era eleito para o Parlamento? O que é a Maçonaria? E a Carbonária? Porque é que assassinaram o Rei D. Carlos? Quem foi Afonso Costa? Porque é que chamavam o Presidente-rei a Sidónio Pais?

São muitas as perguntas que nos vêm a boca quando falamos do 5 de Outubro de 1910. E foi à procura de respostas simples e claras a essas perguntas que meti mãos à obra e comecei a escrevi este livro.

O pai da ideia foi o PEDRO REISINHO, editor da Gailivro. As ilustrações são do ALEX GOZBLAU e a concepção gráfica e design do JORGE SILVA.

O resultado é um mimo. Espero que seja agradável e instrutivo. Um bom instrumento para todos conhecermos melhor o que foi esse momento tão importante da nossa História recente.

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

SEXO?



Depois de uns dias confusentos e tristes. em que a morte não desistiu de andar à minha volta...

(Diz o Zé Jorge Letria que com o andar dos anos vamos apanhando cada vez mais funerais...)

Mas dizia eu que, depois de um tempo confusento, chegou o recomeço (e porquê recomeço?) do ano.

Neste caso é a estreia no próximo dia 8 no Casino do Estoril do espectáculo da minha querida amiga Guida Maria. Chama-se "SEXO? SIM, MAS COM ORGASMO". Os autores são a Franca Rame,o Dario Fo, Nobel da Literatura, e o filho de ambos, Jacobbo Fo.

Eu cá fiz a adapção do texto. Quer dizer, tentei pô-lo num protuguês corrente, claro e tão divertido como o original.

Devo dizer-vos que o espectáculo é forte, muitíssimo divertido e sério. Quer dizer, foi escrito por gente que faz do riso um acto de inteligência e de reflexão.

A Guida faz um trabalho excelente e esgotante. Vale mesmo a pena ver. E aplaudi-la. E rir. E pensar. Porque isto do sexo... Não é assim tão linear como nos querem vender.

domingo, 22 de agosto de 2010

O QUE EU SEI DOS HOMENS



Ao domingos o suplemento PÚBLICA de O Público entre algumas coisas ligeirotas e dispensáveis (do meu ponto de visata) tem vários desafios para uma leitura interessante e enriquecedora.

Basta falar da coluna assinada pelo Professor Daniel Sampaio ou de uma outra de autoria da minha amiga Ana Sousa Dias que se intitula "O que eu sei dos homens" ou "O que eu sei das mulheres", conforme o entrevistado.

Já me emocionei com algumas das entrevistas da Ana. Entre outras não me esquecerei daquela em que o Fernando Tordo fazia uma comovente declaração de amor à sua mulher.

Hoje saiu a minha amiga e escritora Cristina Carvalho. Já aqui falei dela. Filha dos escritores Natália Nunes e Antonio Gedeão. Conhecemo-nos há 6 meses e ficámos amigos para sempre. E para um sempre que vem de trás e vai até sei lá quando.

A Cristina é uma mulher fantástica e a sua conversa com a Ana é uma delícia. Deixo aqui um cheirinho:

"Não sei nada de religião, não fui educada religiosamente. Admiro, enalteço e faço as minhas orações à natureza.
É a natureza que me comanda a vida, como dizia o meu pai - o sonho comanda a vida e o meu sonho é o universo, que eu não compreendo nem sei. A indizibilidade do universo é a minha religião."

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

CRAZY

O escritor canadiano David Coupland, grande defensor do mergulho na tecnologia, na informação, na net, afirmou numa entrevista há umas 3 semanas ao Ypsílon afrmava que ter resolvido ou andava informado ou vivia. Penso que o andar informado se referia àqueles que vivem mergulhados no burburinho do momento, os que querem estar ligados a tudo o que se passa no mundo hoje, agora, neste instante. Entre essa tal informação e a vida, Coupland chegou à conclusão que preferia viver.

Não sou um taradinho da informação e da net. Longe disso. Procuro perceber como é que isto funciona. E às vezes, de uma forma muito pouco organizada e premeditada acontecem coisas boas.

Neste calor de Verão, fim de tarde, pus-me a mariscar coisas outras. Saiu esta. Diana Krall, Elvis Costello e Willie Nelson e uma canção maravilhosa.


segunda-feira, 9 de agosto de 2010

NA PAZ DOS ANJOS

Escrevi muitos programas e séries para televisão de que me orgulho. "Zarabadim", "Crianças SOS", "Docas", a adaptação de "Ana e os Sete", 6 anos de colaboração e centenas de sketchs para a "Rua Sésamo", 114 vepisódios de "Nós os Ricos", série original do Mário Zambujal, etc, etc, etc.

"NA PAZ DOS ANJOS" foi a minha primeira telenovela. Escrita com a colaboração do Jorge Paixão da Costa. Uma das grandes aventuras da minha vida.

Foi para o ar em 1994. Os horários mudavam constantemente. Poucas pessoas conheço que a tenham seguido na época. Depois passou inúmeras vezes na RTP Internacional e na RTP Memória. A cada repetição tenho recebido testemunhos de um enorme sucesso em locais inesperados por esse mundo fora onde os portugueses façam da televisão um laço com a sua pátria e a sua língua, Angola, Rússia, Suiça, Estados Unidos, sei lá que mais.

Alguns críticos, dos muito conceituados e tudo, disseram em 1994 cobras e lagartos de "Na Paz dos Anjos" (eu guardo os recortes).

Hoje, muita gente, (o Nicolau Breyner, por exemplo) considera-a como a melhor e mais bem escrita telenovela de sempre.

A história era muito divertida, achava-o eu então e hoje ainda com mais convicção. O elenco era de luxo. João Perry, Guida Maria, Rui Mendes, Manuel Cavaco, Sofia Alves, Florbela Queirós, Isabel Medina, Vítor Norte, Diogo Infante, Ricardo Carriço, Cucha Cavalheiro... Faltarão alguns aqui por certo. Que me perdoem a falta de memória.

Otros, queridos amigos, já desaparareceram infelizmente: José Gomes, António Assunção, Varela Silva, Armando Cortez, Filipe Ferrer.

Ainda me rebolo de gozo a lembrar figuras como o D. Fernandinho, pelo Luís Aleluia, a sra. Condessa pela Fernanda Borsatti, o padre pelo Zé Pedro Gomes, o industrial de comida para cão pelo António Montês.

Telefonou-me a minha amiga Celeste, benfiquista dos sete costados, a avisar que "Na Paz dos Anjos" tinha começado a ir de novo para o ar na RTP Memória a partir de domingo. Ela também pertenceu à equipa. E diz que voltou a desmanchar-se a rir.

Quem puder, veja. É por volta das 17h00, todos os dias. Julgo que quem puder deitar um olho não vai dar o tempo por mal empregue.

domingo, 8 de agosto de 2010

POESIA E VAGABUNDAGEM

Gosto de me surpreender. Sobretudo na poesia. Um pouco por todo o mundo há poetas de que nunca ouvimos falar. Poetas que vão oferecendo a sua arte a quem os souber encontrar.

A net tem algumas vantagens e uma delas é a facilidade com que nos põe nas mãos informação preciosa se soubermos que é que queremos procurar.

É por isso tão importante a vangabundagem que nos faz andar de livro em livro, de citação em entrevista, de conversa em conversa, de jornal de domingo em site, esse cruzar de ideias, palavras, conceitos, nomes de autores que nos chegam daqui e dali. Consegue-se assim, não raras vezes, algumas dessas tais surpresas que dão mais espessura à nossa vida.

Um livro da espanhola, Belén Gopegui, "O Pai da Branca de Neve", já falei dele aqui, traz nas primeiras páginas um poema do poeta Roberto Fernández Retamar. Não o conhecia. E era uma opena não o conhecer...



Nasceu em 1930. Estudou pintura e arquitectura. Doutorou-se em Filosofia. Recebeu inúmeros prémios como poeta e desempenhou diversos cartgos políticos.


"FELIZES OS NORMAIS"

Felizes os normais, esses seres estranhos.
Os que não tiveram uma mãe louca, um pai bêbado, um filho delinquente,
Uma casa em parte nenhuma, uma doença desconhecida,
Os que não foram calcinados por um amor devorador,
Os que viveram os dezassete rostos do sorriso e um pouco mais,
Os cheios de sapatos, os arcanjos com chapéus,
Os satisfeitos, os gordos, os bonitos,
Os trocistas estridentes e os seus sequazes, os é claro que sim, por aqui,
Os que ganham, os que são queridos até ao cabo,
Os flautistas acompanhados pelos ratos,
Os vencedores e os seus compradores,
Os cavalheiros ligeiramente sobre-humanos,
Os homens vestidos de trovões e as mulheres de relâmpagos,
Os delicados, os sensatos, os finos,
Os amáveis, os doces, os comestíveis e os potáveis.

Felizes as aves, o esterco, as pedras.

Mas deixem passar os que fazem os mundois e os sonhos,
As ilusões, as sinfonias, as palavras que nos destroçam
e nos constroem, os meis loucos do que as suas mães, os mais bêbados
do que os seus pais e mais delinquentes do que os seus filhos
e mais devorados por amores calcinantes.

Deixem-nos no seu lugar o inferno, e chega.

(Tradução de Miguel Serras Pereira)

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

STILL CRAZY

Comecei a ler um livro excelente de Belén Gopegui, "O PAI DA BRANCA DE NEVE", onde a autora fala dos normais e dos que não são normais.

Os normais são os que procuram uma vida calma, organizada, com o possível conforto, uma vida sem sobressaltos, sem utopias, sem sonhos desmedidos nem grandes desilusões.

Os outros são aqueles a quem a vida lançou desafios dolorosos, acordou angústias de difícil resolução, atirou para a inquietação dos grandes sonhos porventura irrealizáveis.

Os normais vivem no centro, os não normais vivem nos limites do círculo das suas vidas.

Acho que nunca fui e dificilmente virei a ser dos normais. Não sou igual ao que fui aos 17, aos 25, aos 30 anos. Mas continuo... Still crazy after all these years.

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

AS CORES DE TUDO




É tempo de pôr algumas leituras em dia. Ou melhor, tempo de reduzir a pilha dos livros que vão ficando adiados. E este ano até os de poesia se deixaram atemorizar face ao sem número de tarefas e procupações.

Este "Livro do sapateiro" estava mesmo no primeiro lugar. É de um poeta que muito aprecio pelo rigor, pela espessura, pela excelência do seu verso.

Além de grande poeta, Pedro Tamen é um homem que tem tido um papel ímpar na nossa cultura desde os anops 50.

Do seu labor de oficial da escrita é indispensável sublinhar o trabalho de tradução concretizado em imensas obras traduzidas de que é sempre bom recordar a extraordinária tradução dos 10 vllumes de "Em busca do Tempo Perdido" de
Marcel Proust

Abri o seu último livro de poesia e fiquei agarrado pelo primeiro poema. São assim os grandes poetas. Pegam em nós e levam-nos para muito alto num súbito golpe de vento.


Iremos procurar a razão da giesta
a razão do amarelo
iremos procurar a razão
iremos procurar
e os olhos tomarão todas as cores
as cores de tudo

Pedro Tamen, “O livro do sapateiro”, D. Quixote

sábado, 31 de julho de 2010

ANTÓNIO FEIO: UMA GARGALHADA PELA VIDA



ZARABADIM foi o primeiro programa que escrevi para RTP. 1985, julgo eu. O texto a meias com a Dulce, com quem na altura partilhava a vida, alguns sonhos e um filho que continuamos a compartilhar.

A música era do Carlos Alberto Moniz, os figurinos do Mário Alberto, os cenários creio que do Fernando Filipe. Actores: José Wallenstein, Ângela Pinto, Francisco Pestana, São José Lapa, Filipe Ferrer e... António Feio, o palhaço que iluminava o fundo do chapéu de um mágico, onde se paasava a acção, com o seu grande sorriso.



Mais tarde, o António e o Zé Pedro Gomes chamaram-me para escrever aquele que foi o texto da primeira "CONVERSA DA TRETA".

Trocámos o último abraço há poucas semanas. Com um sorriso. O António era assim: levava tudo à frente dele na ponta de um sorriso ou de uma gargalhada. E assumiu a doença desassombradamente num grito de amor à vida que nos fica como rara lição.

quinta-feira, 29 de julho de 2010

PALAVRAS ANDARILHAS 2010



Só quem já esteve nas "Andarilhas" de Beja pode falar do encanto, da intensidade, da magia deste encontro único onde se reunem centenas de pessoas em torno da arte de contar histórias.

Aqui vem ter gente de todo o mundo, homens e mulheres que, apenas pelo encanto da sua voz e das palavras, levam-nos a sítios que nunca tínhamos conhecido.

Estavam em risco, as "Andarilhas" deste ano. Mas, se a economia pode ter crises, a imaginação, a fantasia, a criatividade, essas nunca têm. Por isso a Cristina Taquelim e a sua gente esgatanharam-se e conseguiram pôr de pé mais uma edição de "Palavras Andarilhas".

Darei mais notícias à medida que souber.

terça-feira, 27 de julho de 2010

SERENIDADE ÉS MINHA



A propóito do Alvito e do poeta Raúl de Carvalho, vale a pena lembrar um dos mais belkos (e longos) poemas do nosso século XX de que aqui transcrevo uma parte.


RAUL DE CARVALHO (1920-1984)


SERENIDADE ÉS MINHA


Vem, serenidade!
Vem cobrir a longa
fadiga dos homens,
este antigo desejo de nunca ser feliz
a não ser pela dupla humidade das bocas.

Vem serenidade!
Faz com que os beijos cheguem à altura
dos ombros
e com que os ombros subam à altura dos lábios,
faz com que os lábios cheguem à altura dos beijos.

Carrega para a cama dos desempregados
todas as coisas verdes, todas as coisas vis
fechadas no cofre das águas:
os corais, as anémonas, os monstros sublunares,
as algas, porque um fio de prata lhes enfeita
os cabelos.

Vem, serenidade,
com o país veloz e virginal das ondas,
com o martírio leve dos amantes sem Deus,
com o cheiro sensual das pernas no cinema,
com o vinho e as uvas e o frémito das virgens,
com o macio ventre das mulheres violadas,
com os filhos que os pais amaldiçoam,
com as lanternas postas à beira dos abismos,
e os segredos e os ninhos e o feno
e as procissões sem padre, sem anjos e, contudo,
com Deus molhando os olhos
e as esperanças dos pobres.

(..................................................................)

Vem, serenidade,
e faz que não fiquemos doentes, só de ver
que a beleza não nasce dia a dia na terra.

E reúne os pedaços dos espelhos partidos,
e não cedas demais ao vislumbre de vermos
a nossa idade exacta
outra vez paralela ao percurso dos pássaros.

E dá asas ao peso
da melancolia,
e põe ordem no caos e carne nos espectros,
e ensina aos suicidas a volúpia do baile,
e enfeitiça os dois corpos quando se apertarem,
e não apagues nunca o fogo que os consome,
o impulso que os coloca, nus e iluminados,
no topo das montanhas, no extremo dos mastros,
na chaminé do sangue.

Serenidade, assiste
à multiplicação original do Mundo:
Um manto terníssimo de espuma,
Um ninho de corais, de limos, de cabelos,
um universo de algas despidas e retrácteis,
um polvo de ternura deliciosa e fresca.

Vem, e compartilha
das mais simples paixões,
do jogo que jogamos sem parceiro,
dos humilhantes nós que a garganta irradia,
da suspeita violenta, do inesperado abrigo.

Vem, com teu frio de esquecimento,
com tua alucinante e alucinada mão,
e põe, no religioso ofício do poema,
a alegria, a fé, os milagres, a luz!

Vem, e defende-me
da traição dos encontros,
do engano na presença de Aquele
cuja palavra é silêncio,
cujo corpo é de ar,
cujo amor é demais
absoluto e eterno
para ser meu, que o amo.

Para sempre irreal,
para sempre obscena,
para sempre inocente,
Serenidade, és minha.

domingo, 25 de julho de 2010

NA TERRA DOS "BONS DIAS"



O Alvito é uma das terras do meu encanto.

O branco do casario, o castelo transformado em pousada, a planície, como um mar amarelo e verde a perder de vista.

Amo a quietude, a pedra do calor de Julho e Agosto, o cante que se solta das tabernas ao fim do dia.

Sinto-me irmão dos vestígios mouros e godos, do fortíssimo renascimento presente na Matriz e em dezenas de portais de pedra nas casinhas da Vila.

Esta é, também o sei, a terra de um belíssimo poeta que é bom relembrar sempre, Raul de Carvalho, nascido em 1920 e falecido em 84. O Adriano Correia de Oliveira cantava o seu poema



Aqui vieram procurar sossego e algum retiro grandes amigos meus. O Alípio de Freitas, o Xico Fanhais, o Camilo Mortágua. Gosto mutio de os visitar e pegar-me à conversa com eles para lhes ouvir as histórias da vida.

Mas é gente inquieta. Às vezes estão, outras não. O Xico anda por aí a cantar, O Alípio foi ao Paraguai e à Bolívia para ver ao vivo as voltas que as novas democracias estão a dar por lá. O camilo anda sempre metido em projectos e sonhos. O AP Braga, cantor de baladas nos anos 60, aparece por aí ao fim de semana.



Uma das coisas que adoro no Alvito (e julgo que é hábito de todas as pequenas terras alentejanas) é o hábito das pessoas, por mais que passem umas pelas outras, dizerem quantas vezes for preciso: bom dia, boa tarde, boa noite.

Ao primeiro bom dia fico alapardado, espantado, confrontado com a solidão urbana, que ainda trago aos ombros, de não ver os seres humanos à minha volta e não lhes falar.

Mas rapidamente me integro na respiração da terra e reencontro o prazer de dizer bom dia, boa tarde, boa noite.

Bom dia, Alvito.

Bom dia a todos, vizinhos do planeta terra.

sexta-feira, 23 de julho de 2010

COISAS DE POETA



Há algumas semanas dei comigo a fazer horas. A ter horas para fazer. Ou melhor, a ter horas para não fazer nada. E mergulhei no espaço maravilhoso e raro da minha infância que é o Jardim da Estrela.

Andei por ali, meio vagabundo, a deixar que o verde me entrasse pelos olhos, a gozar o esplendor das ávores e arbustos, das flores, da relva e das sombras, da brisa e dos risos das crianças. E foi muito bom porque é sempre bom mergulhar nos jardins da cidade e porque é tão raro fazê-lo nesta vida ofegante que levo e muitos de nós levamos.

Era o princípio de uma tarde sábadado daquelas que fazem de Lisboa uma cidade mágica. Há muito que não gozava de um momento de tão tranquila entrega.

A dado momento parei encantado frente a um arbusto grande carregado de umas flores de que ainda não consegui saber o nome. São brancas e grandes, com um palmo de comprimento e a forma de sinos alongados.

Parecia uma chuva de flores... Pensei que lhes podia chamar "campainhas do céu".

Parado à frente daquelas flores começavam as palavras a bailar-me na cabeça à procura de formar esse comboiinho por vezes inquieto e revolto, por vezes doce e amável, a que se chama poema.

De tão distraído, nem reparei numa menina de 8/9 anos que arrancava uma daquelas belíssimas flores. Reparei depois na jovem avó que me sorria pouco à vontadde como quem pedisse desculpa do rapinanço da neta.

Eu sorri à menina de dentro do meu devaneio e disse-lhe que levava na mão uma campainha do céu. A menina atirou a flor pelo ar e comentou desinteressada: "Isto é mas é um espanador!"

Fui andando a pensar que a poesia não é tão fácil de abraçar cmo eu gostava. E a lembrar-me daquela magnífica frase do Maio de 68: "Cuidado: Os ouvidos têm paredes!"

terça-feira, 20 de julho de 2010

MÁRIO QUINTANA



Mário Quintana, poeta brasileiro, nascido em Alegrete, 1906, e falecido em Porto Alegre, 1994, foi um poeta, tradutor e jornalista brasileiro, deixou uma vasta obra de textos, pensamentos e poesia, pelo conjunto da qual recebeu em 1980 o prêmio Machado de Assis da academia Brasileira de Letras.


O AUTO-RETRATO

No retrato que me faço
- traço a traço -
às vezes me pinto nuvem,
às vezes me pinto árvore...

às vezes me pinto coisas
de que nem há mais lembrança...
ou coisas que não existem
mas que um dia existirão...

e, desta lida, em que busco
- pouco a pouco -
minha eterna semelhança,

no final, que restará?
Um desenho de criança...
Corrigido por um louco!

segunda-feira, 19 de julho de 2010

A CRIAÇÃO



"E EIS QUE,

TENDO DEUS DESCANSADO NO SÉTIMO DIA,

OS POETAS CONTINUARAM A OBRA DA CRIAÇÃO."


Mário Quintana

sábado, 17 de julho de 2010

A BONDADE, A INTELIGÊNCIA, O CONHECIMENTO

Um amigo meu teve a notícia feliz do nascimento do segundo neto. E foi assim que lhe deu as boas vindas dirigindo-se a ele e ao irmão:

"Queremos todos que sejam felizes, conheçam a vidaas dificuldades da mesma, e que saibam que studar custa , mas que é fantástico saber, é fantástico conhecer.

Queremos todos que saibam que a vida, esta vida, é a relação e a combinação do eu e do tu e que ninguém é capaz de tudo mesmo que a fama e o dinheiro julguem conquistar este mundo e o outro.

Queremos todos que os nossos netos saibam ser humildes nas vitórias e solidários nas derrotas e que saibam que aqueles que julgam ser o centro do mundo não têm nem a consciência do transitório, nem a percepção do efémero.

Queremos todos que entendam que têm de contar com as circunstâncias e a sorte e que a liberdade individual consiste, em regra, na limitação do poder do destino.

Queremos também que percebam, que percebam sempre, que inteligência e bondade se confundem. Sempre se confundiram e sempre se confundirão Qualquer que seja o percurso da vida profissional que se exerça.

Queremos, enfim, que interiorizem, que nunca se esqueçam que, ao contrário do que se escreveu, há difertença, há verdadeira diferença entre a Gioconda e uma garrafa de Coca-Cola. mesmo que só esta última seja patrocinadora de um Mundial de futebol!"

O meu amigo, e camarada de Colégio Militar, chama-se Fernando Seara e o texto veio publicado no jornal A Bola no último domingo, dia 11 de Julho de 2010.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

AS FADAS VERDES




Outro livro da Matilde Um livro que corre pelo maravlhoso, não o maravilhoso fantástico, mas o maravilhoso concreto da natureza e da vida. Porque aqui as Fadas têm a ver com a natureza e, especialmente, da floresta. As Fadas são o Silêncio, o Rosmaninho, a Pinha, a Romã, a Garça, o Amor, a Borboleta, a Manhã, etc, etc, etc.

A Matilde deixou-nos a felicidade de olhar em redor e viver com alegria coisas simples que às vezes andam tão afastadas das nossas preocupações. E deixou-nos essa felicidade com palavras cheias de música e delicadeza.

FELICIDADE

O lagarto estendido ao sol
Disse: O Sol seja louvado!
E o Sol brilhou mais ainda:
Lagarto!Muito obrigado!

A rã no charco da noite
Disse: Que lindo ]e o luar!
E a Lua brilhou mais ainda
Rã! Que lindo o teu coaxar!

E o sapo verde, a saltar
No chão sozinho saltou
E à Terra disse baixinho:
Terra! Que feliz eu não sou!

terça-feira, 13 de julho de 2010

O LIVRO DA TILA




Este livro foi um marco importante na poesia para crianças.

Com quase nada, uma brisa, uma ideia pequenina, mais duas ou três palavras transparentes, a Matilde conseguia fazer passar pelos poemas a deliciosa respiração da sua escrita tão delicada e doce.

HISTÓRIA DO SENHOR DO MAR

Deixa contar...
Era uma vez
O Senhor Mar
com muita onda...
Com muita onda...

E depois?
E depois...
Ondinha vai...
Ondinha vem...
Ondinha vai...
Ondinha vem...
E depois...

A menina adormeceu
Nos braços da sua mãe.

terça-feira, 6 de julho de 2010

A NOSSA MATILDINHA



Era assim que nós, os outros escritores para a infância, tratávamos com um carinho sem fim a "nossa" Matilde Rosa Araújo.

Era a nossa decana, dizia com frequência o António Torrado. E ela, um dia, com o seu humor delicadíssimo, respondeu ao António: "De cana, não, filho! De bengala, de bengala..."

A Matilde, que em cada livro tinha sempre uma dedicatória especial para a minha flha Matilde, punha a criança à frente de tudo. E é bom lembrar isso neste tempo em que a criança se tornou, por vezes, num empecilho, outras vezes num produto do super-mercado da fama.

Li por aí que era a fada-madrinha da literatura para a infância. E era. Uma inspiração muito forte para todos nós, pais, professores ou escritores.

sexta-feira, 2 de julho de 2010

AMADORA EDUCA



No final do ano lectivo várias Câmaras celebram a Educação. Na Amadora chama-se AMADORA EDUCA e representa um grande esforço. Fazem-nos pensar estas festas que educar e ensinar pode ser sempre uma festa. Poder pode... Nem sempre é. Mas isso são rosários de utras contas. Porque festa é festa e os lamentos ficam para outra altura.



A Câmara escolheu um livro meu, "O DIA EM QUE A BARRIGA REBENTOU" para oferecer aos seus meninos. Por isso, f também uma festa ir até lá contar-lhes de viva voz uma história que mete uns passarões chamados Bisnaus que comem muito e mal.

CANTAR O TEMPO DA REPÚBLICA



O meu amigo João Balula Cid e o comum amigo Carlos Guilherme resolveram pegar nas canções que se cantavam nos palcos dos teatros, na revista, na rua, durante os anos da República.

A juntar, na parte interior aparece um desenho delicioso do Cid, Augusto, primo do Cid, João.

O resultado é uma graça.

O João e o Guilherme andam por aí a fazer espectáculos a mostrar estas canções ao vivo. O próximo é nos Paços do Conselho de Condeixa, no próximo dia 5, pelas 18h00.

vale a pena ir assistir.

segunda-feira, 28 de junho de 2010

CAMARADA



Há canções que nos acompanham pela vida. Ficam a ressoar. Adormecem. Reaparecem aqui e ali, trazendo um gosto doce peito. É o caso desta que traz uma palavra muito especial.

Há palavras que se gastam e perdem o sentido. Foram tantas as que já vi desapossadas da sua verdade. Uma delas é esta: Camarada. Vem de um tempo antigo e belo, o tempo da plena solidariedade. É uma palavra muito bonita, camarada...

C'est un joli nom Camarade
C'est un joli nom tu sais
Qui marie cerise et grenade
Aux cent fleurs du mois de mai
Pendant des années Camarade
Pendant des années tu sais
Avec ton seul nom comme aubade
Les lèvres s'épanouissaient
Camarade Camarade

C'est un nom terrible Camarade
C'est un nom terrible à dire
Quand, le temps d'une mascarade
Il ne fait plus que frémir
Que venez-vous faire Camarade
Que venez-vous faire ici
Ce fut à cinq heures dans Prague
Que le mois d'août s'obscurcit
Camarade Camarade

C'est un joli nom Camarade
C'est un joli nom tu sais
Dans mon cœur battant la chamade
Pour qu'il revive à jamais
Se marient cerise et grenade
Aux cent fleurs du mois de mai

sábado, 26 de junho de 2010

INÊS MASSANO



Com a Inês Massano, ilustradora do meu livro "Zulaida e o poeta". Só nos conhcíamos pelo telefone e pelo mail. Ela é professora no Louriçal e pudemos finalmente conhecermo-nos pessoalmente.Adoro seu trabalho. E s meninos também.

quinta-feira, 24 de junho de 2010

HISTÓRIAS PARTILHADAS



Dia da Criança, no Instituto D. João V, no Louriçal.

E um concurso: Histórias partilhadas.

Histórias Partilhadas teve como ponto de partida o primeiro capítulo
do meu livro “A Porta”.

A partir daí alunos de dez escolas do Primeiro Ciclo ( Almagreira, Louriçal, Outeiro do Louriçal, Casal da Rola, Torneira, Moita do Boi, Barbas Novas, Reguengo, Assanha da Paz e Vinha da Rainha) continuaram a história que a turma A, do quinto
ano, da escola anfitriã, encerrou.

A ideia foi dos professores: Adélia Figueiredo, Dulcina Sintra e José Gaspar, para despertar nas crianças o gosto pela escrita.



Foi emocionante contactar com todos os envolvidos neste concurso e senti-me muito orgulhoso por ver que o meu trabalho pode ser útil e ajudar à promoção do livro, da leitura e da escrita.

terça-feira, 22 de junho de 2010

HOJE ESTOU BEM...



Atravessei ou atravesso um ano de mortes. De alguns amigos entre os quais o grande amigo que foi, que é, que será sempre o João Aguiar,de companheiros das lutas do antes de Abril, do meu próprio irmão mais velho.

Vivi de longe a morte de José Saramago. Cruzei-me algumas vezes com ele. Nunca lhe fui próximo. Admirava-o muito como grande escritor que foi, que é.

Lamento muito a sua morte mas regozijo-me por ver que usou a idade de uma forma repleta de plenitude. Amando e sendo amado. Exercendo o direito a ter opiniões firmes e assumidas. Deixando uma obra que nos engrandece e perdurará, dando conta do nosso tempo aos que vierem muito depois.

Hoje encontrei uma outra velha companheira de luta dos anos 60. Estava quase irreconhecível.

"Como estás?"

"Hoje estou bem...", respondeu-me ela. "Mas daqui a dois dias talvez o céu me caia em cima da cabeça."

Abraçámo-nos. E eu queria tanto que o céu não lhe caísse em cima da cabeça. Tanto...

terça-feira, 15 de junho de 2010

NAS VOLTAS QUE A VIDA DÁ



Os amigos nascem ao sabor de momentos em que os laços dessa amizade e dos seus afectos nascem e se consolidam.

Depois vem o tempo que nos separa e nos atira daqui para ali e, da velha amizade, fica um fio de memória e, muitas vezes, aquele desejo sempre adiado que nos faz prometer e acreditar que um dia destes temos de nos reencontrar.



Estava em Mira quando me vieram dizer que ia inaugurar-se daí a pouco, na Biblioteca Municipal, uma exposição de pintura do meu amigo Mário Silva. Não o via desde os anos 7o, talvez, quando a arte e a vida dos portugueses andava de braço dado pela rua e e nenhuma crise era suficiente forte para nos coartar a capacidade de sonhar.



Fui dar um grande abraço ao Mário Silva. E aproveitámos para telefonar ao nosso comum amigo que é o Manuel Freire. E pronto. Foi bom revê-lo e disso aqui dou notícia e espero que os seus 80 anos permitam que nos reencontremos, pelo menos, daqui a mais 20 anos.

ANTÓNIO ALEIXO



O meu amigo José Teiga não desiste da sua velha paixão pelo teatro. Não desiste de juntar gente e de lhes transmitir aquele grão de inquietação que sempre foi seu timbre.

Aqui vai a estreia do trabalho que tem estado a pôr de pé com gente da Universidade Sénior de Loulé.

O texto é o "AUTO DO TI JAQUIM" do poeta António Aleixo.

E que bom que é revisitar este este poeta analfabeto e a sua voz insubmissa.

Vendedor de lotaria, não o deixavam entrar nos principais cafés de Loulé a não ser quando um "Senhor" o chamava.

Quem não se lembra daquela quadra com que mimoseou um advogado que achou que ele tinha uma cara que parecia de ladrão?

SEI QUE PAREÇO UM LADRÃO
MAS HÁ MUITOS QUE EU CONHEÇO
QUE NÃO PARECENDO O QUE SÃO
SÃO AQUILO QUE EU PAREÇO.

Agora, perto do café onde em tempos não podia entrar, está a estátua (de Mestre Lagoa Henriques) que o homenageia.

Mas a melhor homenagem que se lhe pode fazer é reler e relembrar os seus versos e os seus autos como faz o Zé Teiga.