Estou de acordo com o Professor Daniel Sampaio. Profundamente de acordo e também no aplauso às recentes medidas do Ministro Nuno Crato.
A questão da exigência no ensino do Português e da Matemática é urgente. E, nesse sentido, a questão da leitura e da escrita. É fundamental promover e incentivar a Leitura e não "animar" a leitura. E, para promover a leitura é preciso que os professores sejam leitores.
Sem a leitura, o estudo das ciências fica coxo. Sem a leitura a cidadania fica coxa. Sem a leitura ficamos com menos um canal importantíssimo de ligação de cada um consigo próprio e de cada um com o outro, de cada um com a sociedade.
É preciso assumir a leitura plena e não a simplificação. O texto e não o resumo. A literatura e não o hamburger.
Ler é bom. Ler é indispensável. E falo de ler ligado a escrever. São indissociáveis.
É necessário que esta urgência se inscreva de uma vez no plano das urgências políticas e das práticas pedagógicas.
Chega-se à beira das férias e está na altura de fazer balanços, arrumar memórias. Dessas memóroias, logo ao de cima, vem a estadia na Ilha da Santa Maria e do convívio com a Ana Loura, a Cris, o Tó ´Pincho e tantos outros.
Er o 25 de Abril misturado com o 1º de Maio. Foi uma festa e pêras. De amigos que já se conheciam. E de outros que, não se conhecendo pessoalmente, se calhar já eram amigos há muito tempo.
O Zeca Medeiros foi um deses que fiquei muito feliz por reencontrar. Realizador, criador de canções e cantor, senhor de uma voz única, daquelas que nos vai até ao fundo de lugares muito especiais. Merecia mais reconhecimento pela qualidade do seu trabalho em várias árias. Merecia estar sempre a realizar cinema e televisão onde assinou trabalhos notáveis como "Xailes Pretos". Lembram-se?
Aqui está o Zeca Medeiros, o Xico Fanhais, eu próprio, o Otelo e alguns músicos cujos nomes lamento escaparem-me de momento.
Pode ser que estas festas já tragam a marca dos 37 anos que passaram desde 74. Mas sabem sempre bem porque congregam sensibilidades, sonhos semi-naufragados mas nunca esquecidos, abraços sempre saborosos.
É uma das Feiras do Livro por onde tenho passado com um mais vivo e concorrido programa de realizações que vão das apresentações de livros, passam pelas conversas com escritores, por espectáculos musicais e actividades diversas com e para o público infantil. Um mimo.
Há uns 3 anos que participo de uma ou outra maneira nesta Feira do Livro e colaboro com frequência com a Biblioteca Municipal que tem uma forte dinâmica posta em acção com alegria e grande competência por uma equipa de trabalho dirigida pelo meu amigo Vítor Pinho, especialista em História local.
Este ano estive envolvido com meninos que fizeram diversos trabalhos criados a partir de textos e poemas meus. Saí de lá de coração a transbordar de ternura e a palavra obrigado dirigida a todos os colaboraram.
Há esquecimentos quse criminosos. André Beja, filho da escritora Filomena Marona Beja é um magnífico fotógrafo.
O último livro da Filomena, "HISTÓRIAS VINDAS A CONTO", é pontuado por excelentes fotografias do André num diálogo vivo, por vezes irónico, atento e motivador.
Falei do livro e da autora dos textos. Deixei o autor das fotografias no tinteiro. Mea culpa. Aqui fica a emenda e um abraço ao André.
A andar pelas Escolas deste país também aprendemos.
Visitei por mais de uma vez as escolas do Agrupamento Maria Pais Ribeira, a Ribeirinha, em Macieira, Vila do Conde.
Fui ver quem era a Dona Maria Pais Ribeiro. a Ribeirinha, e aqui vem a sua história tão inesperada como farfalhuda.
Afirma-se que era "branca de pele, de fulvos cabelos, bonita, sedutora", qualidades que encantaram o soberano e cativaram os nobres de sua Corte. Em 1198, inspirou Paio Soares de Taveirós a compor a Cantiga da Ribeirinha, primeiro texto literário em Língua galego-portuguesa de que se tem registro.
Teve 6 filhos de D.Sancho I que, enquanto trovador, lhe dedicou a seguinte cantiga de amigo:
"Ay eu coitada Como vivo em gran cuidado Por meu amigo que ei alongado! Muito me tarda O meu amigo na Guarda! Ay eu coitada Como vivo em gram desejo Por meu amigo que tarda e não vejo! Muito me tarda O meu amigo na Guarda."
Senhora de grande beleza, e "pelas razões de conversação que com ela teve...", ela e filhos do casal, em 1209 receberam do soberano a Vila do Conde rezando a doação:
Após a morte do rei, em Coimbra, a 26 de Março de 1212, retirou-se para as suas terras de Vila do Conde. Durante a viagem, trajada de branco cor do luto à época, ao passar perto de Avelãs, saiu-lhe ao encontro Gomes Lourenço Viegas, que por ela se apaixonara quando, ainda em vida do rei, a vira nos Paços de Coimbra. Após lutar com Martim Pais Ribeiro, irmão de D. Maria, e com outros cavaleiros que a acompanhavam, logrou apossar-se dela, refugiando-se no Reino de Leão.
A pedido de Martim Pais Ribeiro, Afonso II de Portugal redigiu uma carta para Fernando de Leão rogando-lhe que fizesse com que Gomes Lourenço retornasse a Portugal. Diante da recusa de Gomes Lourenço, sob a alegação de que poderia vir a ser vítima dos parentes de D. Maria, caso assim o fizesse. D. Maria, entretanto, habilmente convenceu Gomes Lourenço que também por ele se apaixonara e que, ao retornarem a Portugal conseguiria obter o perdão do soberano, uma vez que com ele se casaria.
Entretanto, ao retornarem à Corte Portuguesa, D. Maria instou o rei a que fizesse justiça e que fosse implacável. Deste modo, o soberano ordenou a execução de Gomes Lourenço.
Mais tarde foi desposada, pelo fidalgo galego João Fernandes de Lima, o Bom, com quem também teve descendência.
Terá vindo a recolher-se ao Mosteiro de Grijó, onde veio a falecer com a avançada idade de mais de noventa anos.
Agora resta o seu nome como padroeira de um belo Agrupamento Escolar.
Sou fã da escrita de Filomena Marona Beja. Aconselho todos a lerem romances seus como "A cova do lagarto", "As cidadãs" e todos, todos os outros.
Além de fã tenho a sorte de ser amigo da autora que acaba de publicar um livro de contos e me pediu para ler um deles, delicioso, que mete a Rainha Maria Pia de Sabóia, o futuro D. Manuel II e as queijadas de Sintra feitas pelas mãos da Mathilde.
O livro intitula-se "HISTÓRIAS VINDAS A CONTO" e foi editado pela Sextante, Editora dirigida pelo João Rodrigues, responsável por um catálogo de se lhe tirar o chapéu.
A apresentação teve lugar na "Saudade", entre a Estação da CP e a Câmara Municipal de Sintra, espaço excelente para comer uma empada, tomar um chá, ler um livro, preguiçar, deixar o olhar a passear pelo espaço e pelos maravuilhosos objectos antigos e menos antigos que se espalham pelas paredes.
Alberto Moravia, grande escritor italiano tem vários livros publicados em português. Um dos últimos foi "Uma ideia da Índia".
Livro magnífico numa colecção excelente de livros de viagens que nos mostram que o olhar do verdadeiro viajante vai muito mais além que o olhar do turista. Viajar serve para conhecermos o outro e não para nos atascarmos no mesmo.
Nesta viagem inquieta e atenta pela Índia surgem reflexões dignas de guardarmos connosco. Esta por exemplo:
"...um regime absurdo não deixa de ser absurdo porque é aceite pela maioria, pelo contrário, torna-se ainda mais absurdo."
Volto a Erri de Luca, autor de "O peso da Borboleta". Napolitano, militante nos anos 60 da Lotta Contínua, jornalista, escritor, fala assim da juventude dos anos 60 e 70:
"Durante algum tempo do século passado a juventude adoptou uma lei diferente da estabelecida. Deixou de aprender dos adultos, aboliu a paciência. Queria ser o prelúdio de tempos opostos, declarava que todas as moedas eram falsas. Nunca mais se viu numa juventude tanta teimosia em virar o prato."
"Os cascos do gamo são os quatro dedos do violinista. Avançam às cegas e não falham um milímetro. Saltam precipícios, malabaristas em subida, acrobatas em descida, são artistas circenses para a plateia das montanhas. Os cascos do gamo agarram-se ao ar. O calo almofadado serve de silenciador quando quer, caso contrário, a unha partida ao meio é castalholas de flamenco. Os cascos do gamo são quatro ases no bolso de um batoteiro. Para eles, a gravidade é uma variação sobre o tema, não uma lei."
Um grande livro é feito disto: linguagem, beleza, escrita levada ao patamar da arte.
Uma história feita de quase nada. O velho gamo, chefe da manada, adivinha a chegada do seu último Inverno. O velho caçador furtivo sobe à montanha para a sua última caçada. E há uma borboleta que pousa aqui e ali e cujo peso faz toda a diferença.
Há já anos que Portugal não estava representado no INTERNATIONAL BOARD ON BOOKS FOR YOUNG PEOPLE.
Foi agora criada a secção portuguesa desta organização que reune escritores, ilustradores, bibliotecários, èditores, professores, gente ligada à escrita e promoção do livro para o público infanto-juvenil.
Quem quiser saber mais da IBBY é fácil, basta consultar o respectivo site na net.
Quem quiser juntar-se pode contactar o Eduardo Filipe que foi eleito Presidente da Direcção da Secção portuguesa.
Morreu há poucos dias aquele que é para muitos um dos grandes escritores europeus dos últimos 50 anos: Jorge Semprún.
Filho de um embaixador espanhol, em 1941 estuda filosofia em Paris, em 1942 torna-se militante do Partido Comunista Espanhol, em 1943 é preso e torturado pela Gestpo e deportado para o campo de concentração de Buchenwald.
Durante os anos 50 dirige o PCE na cadestinidade no interior da Espanha franquista e torna-se famoso sob o pseudónimo de Federico Sanchez.
No início dos anos 60 abandonou a militância comunista e dedicou-se apenas às actividades de escritor e guionista de cinema.
De 1988 a 91 foi ministro da cultura de um governo de Felipe González.
Da sua obra destaco o guião para o filme "A CONFISSÃO" de Costa-Gravas e dois livros que me marcaram profundamente: "A ESCRITA OU A VIDA" e "VINTE ANOS E UM DIA".
Perante certas correntes literárias que pretendem uma literatura liofilizada e defendem a independência do autor e da sua biografia pessoal em relação à respectiva obra, Semprún lembrava sempre que a biografia de um escritor não interessava à literatura apenas no caso dos escritores que não tinham biografia.
Jorge Semprún era um escritor, um cavalheiro, um homem.
Ao saber da morte de D. João II, Isabel a Católica anunciou: "Morrió el hombre!"
De Jorge Senprún pode dizer-se que Morreu um Homem com letra grande que também era um grande escritor
Às vezes a vida dá umas voltas que nos impedem de acorrer a todos os compromissos. Este compromisso que tenho comigo, com alguns-muitos amigos, de manter este blog de pé vai continuar depois de uma pequena pausa.
E já agora aproveito para comemorar 100.000 visitas! É obra para quem, como eu, nunca votou em ninguém que ganhasse, para quem como eu passa distante dos vários caminhos politicamente correctos.
Obrigado amigos visitantes e visitantes que, não sendo amigos, partilham os caminhos das ideias, da poesia, do orgulho e da liberdade. Obrigado.
E fica bem aqui o Zeca. Dele todas as canções são canções da minha vida. Todas são pilares da construção de mim. Todas me emocionaram e continuam a emocionar, todas me fizeram sentir uma grande vontade de limpeza e verdade.
Aqui juntam-se as palavras de Camões, a música do Zeca, a voz da Úxia.
Vítor Jara, cantor chileno, depois do golpe de estado fascista de Pinochet em 1973 foi barbaramente assassinado no Estádio Nacional, após ser e espancado e ter as duas mãos quebradas. O seu corpo foi depois abandonado num beco sujo de um bairro miserável de Santiago.
Alguns cantores de todo o mundo cantaram depois várias das suas canções nomeadamente esta.
A minha relação com Brecht tem sido longa. Adaptei vários textos seus com Vera San Payo Lemos e João Lourenço. Sempre com encenações de João Lourenço.
"Baal", no Teatro da Trindade, "Ascensão e queda da cidade de Mahagony" para o Teatro de S. Carlos, "A boa pessoa de Setzuan" e "Ópera de três vinténs" e fizemos ainda uma peça que reunia pedaços de várias obras de Brecht intitulada "O mar é azul azul".
De todas as canções das peças e óperas há uma muito especial A "Balada de Mack The Knife" que aqui deixo em três versões, Ute Lemper, Nick Cave e Louis Amstrong.
É uma canção com história. Na véspera da estreia de "Ópera de três vinténs" Brecht achava que faltava qualquer coisa à peça. Depois de várias discussões com Kurt Weill, autor da música,sentaram-se os dois ao piano e fizeram de um fôlego esta canção que conta os feitos de um terrível gangster e que viria a tornar-se num tema que faria parte do reportório de muitos músicos e, sobretudo, de músicos de jazz.
Os Beatles espantaram-me a mim e a muitos outros jovens da minha idade. Inventaram, reinventaram. Criaram novas formas de faalr de coisas simples ou mais complexas. Também deles poderia dizer que toda a música que fizeram me levou nas asas de um tempo que foi da puberdade à idade adulta. E ajudaram-me a crecer, a procurara outros sentidos, a celebrar valores que ainda hoje são meus.
"Eleanor Rigby" é seguramente um desses casos de absoluto espanto. Aqui também m.nterpretado por uma voz única que me acompanhou e continua a acompanhar pela vida: um grande senhor da música chamado Ray Charles ue sendo da família do JAZZ não teve problemas em passear por vários outros géneros. Questão de mestiçagem... Resulta quase sempre bem.
Ainda me emociono ao ouvir esta maravilhosa canção de Manolo Diaz e dos Aguaviva, grupo espanhol do início dos anos 70. Poema de Rafael Alberti. Do tempo em que a noz do poema tinha coisas por dentro, rios que desaguavam na canção e nos uniam numa mesma voz.
Comecei a ouvir o Nat King Cole nos discos do meu irmão mais velho. Havia lá por casa o Sinatra, canções Napolitanas e o Nat King Cole en español.
Havia ali qualquer coisa quente e confortável naquela intromissão que um excelente cantor e pianista de Jazz (o seu "Unforgetable" é verdadeiramente unforgetable) fazia no calor de corpo dos ritmos das Caraíbas.
A canção é da autoria do cubano Osvaldo Farrés de 1947 e a interpretação de Nat King Cole vem de alguma forma afirmar que a música é tanto mais universal quanto mais local. Que música boa era música para a troca.
E, numa chapelada ao meu amigo Zé Duarte, cabe perguntar: a menina dança?
Esta coisa da mestiçagem tem momentos deliciosos e inesperados eabaixo vem uma versão coreana do "Qizás, quiás, quizás" Imbatível!
Poucas serão as canções de Chico Buarque que não façam parte da minha forma de respirar.
"A construção" (1971) tem, no entanto, um lugar especial. É dos mais belos poemas da poesia em língua portuguesa dos últimos 40 anos. Devia estar presente obrigatoriamente em todos os compêndios de Português.
Amou daquela vez como se fosse a última Beijou sua mulher como se fosse a última E cada filho seu como se fosse o único E atravessou a rua com seu passo tímido Subiu a construção como se fosse máquina Ergueu no patamar quatro paredes sólidas Tijolo com tijolo num desenho mágico Seus olhos embotados de cimento e lágrima Sentou pra descansar como se fosse sábado Comeu feijão com arroz como se fosse um príncipe Bebeu e soluçou como se fosse um náufrago Dançou e gargalhou como se ouvisse música E tropeçou no céu como se fosse um bêbado E flutuou no ar como se fosse um pássaro E se acbou no chão feito um pacote flácido Agonizou no meio do passeio público Morreu na contramão atrapalhando o tráfego Amou daquela vez como se fosse o último Beijou sua mulher como se fosse a única E cada filho seu como se fosse o pródigo E atravessou a rua com seu passo bêbado Subiu a construção como se fosse sólido Ergueu no patamar quatro paredes mágicas Tijolo com tijolo num desenho lógico Seus olhos embotados de cimento e tráfego Sentou pra descansar como se fosse um príncipe Comeu feijão com arroz como se fosse máquina Dançou e gargalhou como se fosse o próximo E tropeçou no céu como se ouvisse música E flutuou no ar como se fosse sábado E se acabou no chão feito um pacote tímido Agonizou no meio do passeio náufrago Morreu na contramão atrapalhando o público Amou daquela vez como se fosse máquina Beijou sua mulher como se fosse lógico Ergueu no patamar quatro paredes flácidas Sentou pra descansar como se fosse um pássaro E flutuou no ar como se fosse um príncipe E se acabou no chão feito um pacote bêbado Morreu na contramão atrapalhando o sábado
O Manuel António Pina não é só um excelentíssimo escritor para a infância. É também um belíssimo poeta e um cronista (Jornal de Notícias) de grande desassombro e coragem na forma como aponta o dedo aos muitos desvarios em que o nosso país é fértil.
As nossas instâncias académicas e de recensão literária sofrem tiques graves de centripetismo e vivem muito mergulhadas em modas e modismos que deixam muitas vezes de parte os poetas menos dados a frequentar os mesmos bailes.
Mas às vezes acertam, como é o caso.
Com o Manel cruzei-me num trabalho de guionismo que nos levou à Galiza numa colaboração entre a TV portuguesa e a Galega que acabou por ficar no tinteiro.
Passámos um fim-de-semana a trabalhar com guionistas galegos. Foi uma delícia conviver com a sua ironia e os eu talento. Mas o Manel sofria porque para ele, estar longe de casa é um pesadelo. Anda ali pelo bairro e não gosta de deixar os gatos sem companhia.
E aqui vai um grande abraço e mais um poema do grande poeta que é o Manuel António Pina.
A UM HOMEM DO PASSADO
Estes são os tempos futuros que temia o teu coração que mirrou sob pedras, que podes recear agora tão fundo, onde não chegam as aflições nem as palavras duras?
Desceste em andamento; afinal era tudo tão inevitável como o resto. Viraste-te para o outro lado e sumiram-se da tua vista os bons e os maus momentos.
Tu ainda tinhas essa porta à mão. (Aposto que a passaste com uma vénia desdenhosa.) Agora já não é possível morrer ou, pelo menos, já não chega fechar os olhos.