
Precisamos de literatura como de pão para a boca. Para ser. Para crescer. Para voar.
Dizia noutro dia a minha amiga Margarida Botelho que "A leitura é a didáctica dos afectos". Estou de acordo.
Mas ler é duro, por vezes. E bom. É muito bom esta descoberta da palavra e da sua força carnal, telúrica, transcendente.
Tenho a certeza de que fazer reduções, resumos ou caricaturas das grandes obras para que as crianças se vão "habituando", é um caminho perverso, espertalhote e safardanas.
Que me desculpem os confrades da escrita que resumiram grandes obras para os meninos se irem "habituando" aos "Maias", ao "Auto da Barca do inferno", às "Lendas e Narrativas", ao "Memorial do Convento", etc etc.
Este caminho esquece que as grandes obras da literatura não são só a narrativa que contêm. Literatura é linguagem, mergulho na palavra, escrita que serve para narrar uma história.
Os meninos que ficam a saber a história dos Maias não ficam a conhecer o sumo, o desenvolvimento da frase, o uso brilhante do adjectivo, a festa da língua em que Eça era mestre.
Saber apenas uma história é curto e perigoso. Permite até que as crianças pensem que já não precisam de ler os "Maias" porque já sabem a história.
Mais idiota ainda é transformar os "Maias" em gatos e coisas tão destravadas como esta que já vi. É transformar alta culinária em comida de fast food.
Não podemos baixar a exigência neste campo.
Não acredito que quem se habitue à fast food passe um dia a gostar de chanfana, arroz de lingueirão ou feijoada à transmontana. Por isso também sempre achei que habituar as crianças a lerem obras menores e redutoras as leve algum dia a gostar das grandes obras com tanto de complexidade como de capacidade para nos maravilharem de forma única.
Desconfio ainda que os professores, editores e outros que gostam muito destes resumos e caricaturas que vou encontrando por algumas Bibliotecas Escolares, são pessoas que nunca leram os originais e que lá no fundo, no fundo, não gostam mesmo de ler.

Quem lê escreve-se a si próprio.
Quem gosta de ler, a sério a sério, quem ama os clássicos, leva aos seus meninos essa paixão, dá-lhes chaves para entrarem nessa festa intensa e saborosa, das obras que muito acrescenta à nossa humanidade e que nos foram deixadas por Cervantes, Eça, Melville, García Marquez, Hemingway, etc, etc, etc
Ler é bom e só quem gosta de ler é capaz de passar o vício aos outros. Esta parece-me ser a questão fundamental.


















































