quarta-feira, 5 de junho de 2013

AS FOLHAS MORTAS




Farto-me de falar de Prévert. Foi um dos meus primeiríssimos amores na poesia. Volta e meia volto a ele. À poesia, às colagens, às canções.

E aqui ficam uma colagem e uma canção que é daquelas raras e maravilhosas canções que me ajudam a reconciliar-me comigo e com o mundo. Uma canção de amor, uma canção sobre o fim do amor, aqui cantada por uma imensa senhora da canção: Juliette Gréco.





domingo, 2 de junho de 2013

A DEMOCRACIA E O CAPITALISMO




Há pessoas que devemos ouvir, pessoas que nos ajudam a pensar melhor as razões do lugar desconfortável que esta sociedade nos vai reservando.

Uma dessas pessoas é o meu querido amigo, o Profeeor Boeventura Sousa Santos.

Reproduzo o artigo dele na última VISÃO sobre democracia e capitalismo. Explicado assim paraece tão fácil E se calhar é mesmo fácil. Mas não para todos certamente..



"A relação entre democracia e capitalismo foi sempre uma relação tensa, senão mesmo de contradição. O capitalismo só se sente seguro se governado por quem tem capital ou se identifica com as suas "necessidades", enquanto a democracia é o governo das maiorias que nem têm capital nem razões para se identificar com as "necessidades" do capitalismo, bem pelo contrário. O conflito é distributivo: a pulsão para a acumulação e concentração da riqueza por parte dos capitalistas e a reivindicação da redistribuição da riqueza por parte dos trabalhadores e suas famílias. A burguesia teve sempre pavor de que as maiorias pobres tomassem o poder e usou o poder político que as revoluções do século XIX lhe concederam para impedir que tal ocorresse. Concebeu a democracia liberal de modo a garantir isso mesmo, através de medidas que mudaram no tempo mas mantiveram o objetivo: restrições ao sufrágio, primazia absoluta do direito de propriedade individual, sistema político e eleitoral com múltiplas válvulas de segurança, repressão violenta de atividade política fora das instituições, corrupção dos políticos, legalização dos lóbis. E sempre que a democracia se mostrou disfuncional, manteve-se aberta a possibilidade do recurso à ditadura, o que aconteceu muitas vezes.

No imediato pós-guerra, muito poucos países tinham democracia, vastas regiões do mundo estavam sujeitas ao colonialismo europeu que servira para consolidar o capitalismo euro-norte-americano, a Europa encontrava-se devastada por mais uma guerra provocada pela supremacia alemã, e, no Leste, consolidava-se o regime comunista que se via como alternativa ao capitalismo e à democracia liberal. Foi neste contexto que surgiu o chamado capitalismo democrático, um sistema assente na ideia de que, para ser compatível com a democracia, o capitalismo deveria ser fortemente regulado, o que implicava a nacionalização de setores-chave da economia, a tributação progressiva, a imposição da negociação coletiva e até, como aconteceu na então Alemanha Ocidental, a participação dos trabalhadores na gestão das empresas. No plano científico, Keynes representava, então, a ortodoxia económica e Hayek a dissidência. No plano político, os direitos económicos e sociais foram o instrumento privilegiado para estabilizar as expectativas dos cidadãos e defendê-las das flutuações constantes e imprevisíveis dos "sinais dos mercados". Esta mudança alterava os termos do conflito distributivo mas não o eliminava. Pelo contrário, tinha todas as condições para o acirrar logo que abrandasse o crescimento económico, o que se registou nas três décadas seguintes. E assim sucedeu.

Desde 1970, os Estados centrais têm vindo a gerir o conflito entre as exigências dos cidadãos e as exigências do capital, recorrendo a um conjunto de soluções que gradualmente foram dando mais poder ao capital. Primeiro, foi a inflação, depois, a luta contra a inflação acompanhada do aumento do desemprego e do ataque ao poder dos sindicatos, a seguir, o endividamento do Estado em resultado da luta do capital contra a tributação, da estagnação económica e do aumento das despesas sociais decorrentes do aumento do desemprego e, finalmente, o endividamento das famílias, seduzidas pelas facilidades de crédito concedidas por um setor financeiro finalmente livre de regulações estatais, para iludir o colapso das expectativas a respeito do consumo, educação e habitação.

Até que a engenharia das soluções fictícias chegou ao fim, com a crise de 2008, e se tornou claro quem tinha ganho o conflito distributivo: o capital. Prova disso: o disparar das desigualdades sociais e o assalto final às expectativas de vida digna da maioria (os cidadãos) para garantir as expectativas de rentabilidade da minoria (o capital financeiro). A democracia perdeu a batalha mas só não perderá a guerra se as maiorias perderem o medo, se revoltarem dentro e fora das instituições e forçarem o capital a voltar a ter medo, como sucedeu há 60 anos."


quarta-feira, 29 de maio de 2013

ESCULTURAS PARA HABITAR... OU TALVEZ NÃO




O Arquitecto Calatrava tem deixado a marca do seu magnífico desenho pelas grandes cidades do mundo. É um excepcional criador de objectos urbanos. Um escultor de espaços arquitectónicos.

Eu que sou arquitecto não praticante, mas arquitecto, não posso deixar de admirar os objectos de Calatrava, entre os quais a Estação do Oriente no Parque das Nações. Não gosto de lhes chamar arquitectura mas escultura urbana.

Explico. Também sou utente e com muita frequência da Estação. Não a vejo só de fora. Uso-a. No Verão e sobretudo no Inverno. Deixo inúmeras vezes o carro no estacionamento e tenho de percorrer centenas de metros e várias escadas rolantes para chegar às bilheteiras e às plataformas para apanhar o comboio.



Além deste percurso longo e doloroso para quem tem hérnias discais como eu e uma mala de rodinhas para levar por ali fora e por ali acima, acresce o extremo incómodo das plataformas. São lindas. Mas o vento, o frio e a chuva fustigam quem tem de esperar pelo comboio. Tem sido o meu caso vezes sem conta.

É claro que a Estação foi feita para a Expo 98 que se inaugurou em pleno Verão e tinha uma utilização muito intensa.

Mas não era apenas para isso. Era e é para continuar no tempo. E aí é que a porca torce o rabo.

Sempre entendi a Arquitectura como uma forma de arte para habitar. O arquitecto tem de responder a várias ordens de problemas, técnicos, de desenho,de inserção no espaço urbano, de resposta aos programas de utilização, de procura dessa conjunção que faz as obras raras que é a de juntar beleza e conforto.

Um dos mais fantásticos e delirantes textos sobre este tema chama-se "Se os impressionistas fossem dentistas". Woody Allen no seu melhor. Vale a pena lê-lo e pensar que aquele dentista que fazia obras de arte na boca das pessoas sem querer saber do seu conforto tem uma atitude semelhante à de alguns artistas que esquecem o seu público e as respectivas necessidades.

A Estação do Oriente é bonita vista de fora. Muito incómoda por dentro. Não me parece uma obra de arte boa para habitar. A não ser para os sem abrigo que a partir das 22/23h00 estendem papelão, velhos cobertores e mantas nas longas bancadas e ali dormem enrolados na solidão, no álcool, nos cães. De madrugada têm de sair. Às vezes, quando chego tarde, vejo-os nas tarefas de fazer a cama. Outras vezes chego tão cedo que ainda estão a beber o primeiro bagaço e a partir para os seus descaminhos na cidade.

Tremo sempre ao vê-los. Mas dou graças por terem ao menos esta morada e peço que o Deus dos comboios vele sempre pelo seu sono.

segunda-feira, 27 de maio de 2013

EU NÃO QUERO VOLTAR À MINHA VIDA

Devo confessar que nunca fui um daqueles exdrúxulos e deslumbrados apreciadores da poesia de Adília Lopes.

Talvez porque sempre fui contra a corrente das modas de ocasião. Talvez porque frequentei muito e continuo a frequentar poetas como Cesariny, Prévert, Breton e outros que caminharam com outro fôlego, outro programa e outro construído olhar sobre a coisa da escrita.

A moda Adília Lopes tem esmorecido ultimamente. Os deslumbrados mudam de negócio periodicamente e desviam-se para outras novidades. Às vezes até fazem de conta que nem se lembram de quem ela é e das loas que lhe teceram.

E eu, como sou um homem livre, até da carga dos possíveis preconceitos, e que estou sempre disponível para me deixar tomar pela força de um poema, dei, pela primeira vez, com um poema de Adília Lopes que me agarrou pela garganta e me virou do avesso.

Fiquei feliz porque encontrar um bom poema é sempre uma festa. E tenho de agradecer ao meu amigo Nicolau Santos que continua um belíssimo trabalho de divulgação da poesia portuguesa nos seus artigos sobre economia no jornal Expresso

Cá vai mais um abraço, meu caro Nicolau, já que os abraços não se gastam como os tostões.


A ELISABETH FOI-SE EMBORA


(com algumas coisas de Anne Sexton)





Eu que já fui do pequeno almoço à loucura

eu que já adoeci a estudar morse

e a beber café com leite

não posso passar sem a Elisabeth

porque é que a despediu senhora doutora?

que mal me fazia a Elisabeth

a lavar-me a cabeça

não suporto que a senhora doutora me toque na cabeça

eu só venho cá senhora doutora

para a Elisabeth me lavar a cabeça

só ela sabe as cores os cheiros a viscosidade

de que eu gosto nos shampoos

só ela sabe como eu gosto da água quase fria

a escorrer-me pela cabeça abaixo

eu não posso passar sem a Elisabeth

não me venha dizer que o tempo cura tudo

contava com ela para o resto da vida

a Elisabeth era a princesa das raposas

precisava das mãos dela na minha cabeça

ah não haver facas que lhe cortem o

pescoço senhora doutora eu não volto

ao seu antiséptico túnel

já fui bela uma vez agora sou eu

não quero ser barulhenta e sozinha

outra vez no túnel o que fez à Elisabeth?

a Elisabeth era a princesa das raposas

porque me roubou a Elisabeth?

a Elisabeth foi-se embora

é só o que tem para me dizer senhora doutora

com uma frase dessas na cabeça

eu não quero voltar à minha vida


domingo, 19 de maio de 2013

MANUEL RIVAS





No IV Encontro de Escritores Lusófonos que decorreu mais uma vez em Odivelas, conheci vários escritores da Guiné, Cabo Verde, Moçambique, Angola, Brasil. Reencontrei vários amigos, o Ascêncio de Freitas, o João de Melo, entre outros. E conheci um notável escritor e poeta galego, o manuel Rivas de que já li vários livros entre os quais o notável "O lápis do carpinteiro"

O Manolo é daquelas pessoas com quem, mal o conhecemos, inauguramos a palavra amigo, como dizia o O'Neill. Aqui fica um belo poema dele.

SOMOS LO QUE SOÑAMOS SER

Somos lo que soñamos ser
Y ese sueño, no es tanto una meta
Como una energía
Cada día es una crisálida

Cada día alumbra una metamorfosis
Caemos, nos levantamos
Cada día la vida empieza de nuevo
La vida es un acto de resistencia y de reexistencia
Vivimos, revivimos
Pero todos esos tienen la memoria

Somos lo que recordamos
La memoria es nuestro hogar nómada
Como las plantas o las aves emigrantes
Los recuerdos tienen la estrategia de la luz
Van hacia delante
A la manera del remero que se desplaza de espaldas para ver mejor
Hay un dolor parecido al dolor de muelas
A la pérdida física
Y es perder algún recuerdo que queremos
Esas fotos imprescindibles en el álbum de la vida
Por eso hay una clase d melancolía que no atrapa
Sino que nutre la libertad
En esa melancolía como espuma en las olas
Se alzan los sueños.


Manuel Rivas.

quinta-feira, 16 de maio de 2013

OMELHORAMIGO.BLOGSPOT.COM








Foi o meu amigo Alberto Serra que me avisou: "Vai lá ver o blog! Não percas! Eu vou lá todos os dias!"

E eu fui E gostei. Muito. Mais ainda, agradeço as traduções partilhadas pelo David Vaz Pinto. Traduzir poesia é uma festa e um ofício maravilhoso. Neruda chamava-lhe "Trocar de rosa".

E aqui fica um poema de Gabriel Celaya (1911-1991), poeta espanhol do período do pós-guerra civil, um dos mais destacados representantes do que se chamou a "poesia comprometida".



Tudo vale a pena

Tudo vale a pena.
Espero ansiosamente telegramas que digam,
por exemplo: "Foste aceite", ou: "Boa viagem. Abraços."
Pago o que for preciso por um cognac decente;
perco noites inteiras com uma miúda qualquer.

Tudo vale a pena.
Tudo me arrebata e é isso o que é terrível;
tudo me apaixona e é, ainda assim, tonto;
tudo deveria parecer-me nada,
mas as coisas de nada são a minha vida, o meu tudo.

Tudo vale a pena.
Exibo o capital social do meu negócio
como um pele-vermelha a sua arrogante pena.
É uma miséria; não significa nada;
mas o meu sangue pulsa: vivo, sou feliz.

- Gabriel Celaya


terça-feira, 14 de maio de 2013

O MEU AMIGO PINTO



Já conheço o meu amigo Joaquim Pinto talvez desde antes do 25 de Abril. E quando quero o cabelo bem cortado lá vou a correr pedir assento na sua cadeira e entregar a melena desgranhada à sua arte de cabeleireiro laureado

É um oficial ímpar do seu ofício. Já recebeu muitos prémios. Foi duas vezes campeão europeu de cabeleireiros.

Tem desde sempre o seu estabelecimento (Cabeleireiros Pinto's)na cave do Apolo 70, ali quase ao lado das antigas instalações da RTP.

Cortou o cabelo a muita gente famosa deste país. Artistas de teatro e de televisão, jornalistas, pintores, escritores, políticos, presidentes da República e capitães de Abril. Tem um livro pronto para dar conta justamente de toda essa gente que teve e continua a ter sentada na sua cadeira.

Com eles conversa com uma calma e afabilidade delicadíssimas e uma capacidade invulgar de não magoar ninguém mesmo quando numa e noutra cadeira estão sentados inimigos dos de pantalha, de campanha eleitoral ou mesmo dos figadais.

Já aqui falei dele. E mais hei-de falar. Porque merece sendo um grande profissinal e um maravilhoso ser humano.

Já lá não cortava o cabelo há uns dois anos. Os cabeleireiros comigo não se governam... Mas sempre que lá vou venho mais leve, do cabelo que voou, da conversa e da amizade que me fazem sentir mais confortável e ligeiro neste momento tão pesado e negro em que nos movimentamos por estes tempos.

Grande abraço, Pinto. E talvez desta vez demore menos tempo para levar o meu já reduzido cabelo a visitá-lo outra vez.

domingo, 12 de maio de 2013

PLANTAR A LUA



É preciso plantar a lua, regá-la, colhé-la e lançar ao mundo a sua luz para que se iluminem os caminhos de quem não tem caminho nenhum.

domingo, 5 de maio de 2013

ARMANDO CALDAS



Amanhã no teatro Ruy de Carvalho pelas 21h00 decorre a homenagem ao Armando Caldas, um homem de bem que tem dedicado toda a sua vida ao Teatro e à cultura, animando espaços diferentes, fazendo do seu trabalho uma forma de mostrar que a cultura está viva e recomenda-se e mais, que é e sempre foi uma forma de fazer com que as consciências se levantem e mobilizem numa relação intensa com a cidadania.

Cruzámo-nos várias vezes, primeiro no 1º Acto Clube de Teatro em Algés, antes do 25 de Abril, depois numa peça que o Armando encenou, "Noivado no Dafundo" de Almeida Garrett, para a qual eu e o Carlos Alberto Moniz fizemos as canções, e depois um pouco por toda a parte ao sabor da vida.

Segunda feira lá estarei para lhe dar um abraço imenso e para lhe dizer: "Bem hajas Armando por tudo o que nos deste!"


sexta-feira, 3 de maio de 2013

"NÃO CONSIGO ENCONTRAR A ESPERANÇA NESTE MOMENTO"



No último número do suplemento "Actual" do Expresso, é publicada uma muito interessante entrevista com o escritor John Le Carré.

Devo dizer que Le Carré é um dos escritores que me é imprescindível. Gosto muito da sua escrita E, normalmente, é um homens cujas opiniões vale a pena ler e mastigar.

Cito:

"Nunca fui feliz como rapaz, homem, marido, pai, professor, até começar a escrever. Pintava, escrevia má poesia, fazia ilustração. Gostava de agradar às pessoas, era um mestre do entretenimento, mas cada dia que passava sentia-me mais desgostoso. Comecei a escrever e aí pensei: Isto é o que eu sou."

(A propósito de Tony Blair e da guerra do Iraque) "Não há crime maior do que atirar um país para a guerra a partir de falsos pressupostos."

" Não consigo encontrar a esperança neste momento. Continuo à espera dela para perceber onde é que os meus filhos e os meus netos irão viver."

º

terça-feira, 30 de abril de 2013

LER E PENSAR




A revista LER de Novembro passado trouxe uma excelente entrevista com Alberto Manguel. Muitas razões haveria para trazer aqui as afirmações e reflexões de Manguel. Ficam apenas 3 citações. Haverá quem as discuta ou critique. E ainda bem. É para isso que nos servem estes assaltos ao texto. Estes recortes Para nos abanar, inquietar, ancorar, porventura


“Há uma definição do crítico canadiano Northop Frye do que é um clássico: é uma obra cuja circunferência é sempre maior que a do melhor dos seus leitores.”



“A Divina Comédia é um texto infinito E há textos bidimensionais que são só superfície, onde um leitor não pode penetrar sem o quebrar. É o caso dos livros de Paulo Coelho.”



“Sem querer parecer paranóico, creio que as autoridades estatais funcionam em colaboração com as grandes empresas para manter a ideia de que o consumo arbitrário é necessário.”

Alberto Manguel , revista “LER”, Nov. 2012

sábado, 27 de abril de 2013

ENCONTRO



Hagar Peeters, poeta Holandesa que o meu amigo Nicolau Santos publicou na sua coluna sobre economia no Expresso. O jornal vale pelos poemas que o Nicolau publica. O resto são notícias e opiniões quase todas descartáveis. Os poemas, esses hão-de ficar. Obricado Nicolau. Grande abraço.

ENCONTRO

Ele não apareceu.
Talvez tenha adoecido ou ficado debaixo de
um eléctrico. Talvez outra pessoa se pusesse na conversa com ele.
Talvez se tenha esquecido do relógio,
ou o relógio se tenha esquecido de lhe dar o tempo certo.
Talvez o carro não pegasse,
ou tenha ficado avariado a meio do caminho.
Talvez alguém lhe telefonasse quando ia a sair de casa,
dizendo-lhe que tinha de ir a um funeral
ou que a mãe dele tinha morrido.
Talvez tenha encontrado um antigo conhecido.
Talvez tenha tido uma discussão no emprego,
tenha sido despedido e esteja a esconder
a cabeça debaixo de uma almofada.
Talvez a ponte estivesse fechada e
a seguinte também.
Talvez o semáforo permanecesse vermelho.
Talvez o multibanco tenha engolido o cartão
ou a meio do caminho tenha reparado que se esquecera
do porta-moedas.
Talvez tenha perdido os óculos,
não conseguisse deixar de ler,
houvesse um programa que ele queria acabar de ver,
não conseguisse dar a volta à fechadura da porta,
não encontrasse as chaves em sítio nenhum e
o cão dele de repente começasse a vomitar.
Talvez não houvesse um telefone por perto,
não encontrasse o restaurante
ou esteja à espera noutro sítio, por engano.
Talvez – a última possibilidade,
incompreensível e inesperada –
ele tenha deixado de me amar.

(in Genoeg gedicht over de liefde vandaag, 1999,
tradução de Maria Leonor Raven-Gomes)

quinta-feira, 25 de abril de 2013

AGORA DEVE-SE BEBER, DANÇAI



Porque nunca é demais lembrar esse momento tão longe dos olhos, dos mandantes e das ruas, e tão perto do coração.

HÉLIA CORREIA


25 DE ABRIL


Agora deve-se beber, ohé, dançai
sobre este chão que estala com o cheiro
das coisas prometidas, com o fresco
tambor da ansiedade.

É a festa, mulheres!
Que sangue vibra,
que flor ou menstruo? Cor
que abotoais nas blusas, que atirais
na direcção do sol.
Espantosamente
se desfaz a montanha.

Hoje é a ceifa, ohé!
Beijai a terra,
soletrai-a com sede e devagar
como se toma a posse do amor
e se mordem os frutos.

Salve, mãe, o teu ventre perfumado
pelo nosso triunfo.

Bebamos, pois o vinho destas vozes,
soltemos estes cravos como potros
embriagados.
Como intensas éguas
incendiárias.

Cantai, cantai, crianças, o esplendor
de que nasceis herdeiras.

Erguei nas vossas mãos o ar por onde
esvoaça esta alegria.

Que ninguém adormeça.
Por que dias,
meses a fio, e anos, dançaremos
por sobre a claridade.

Vinde, bebei, ciganos:
eis a pátria.

terça-feira, 23 de abril de 2013

LIBERDADE



Nos grandes momentos da luta pela livberdade a voz dos poetas anuncia a libertação e abraça os que quebram os laços de servidão.

Aqui paul Éluard traduzido por Carlos Drumond de Andrade

LIBERDADE

Nos meus cadernos de escola
Nesta carteira nas árvores
Nas areias e na neve
Escrevo teu nome

Em toda página lida
Em toda página branca
Pedra sangue papel cinza
Escrevo teu nome

Nas imagens redouradas
Na armadura dos guerreiros
E na coroa dos reis
Escrevo teu nome

Nas jungles e no deserto
Nos ninhos e nas giestas
No céu da minha infância
Escrevo teu nome

Nas maravilhas das noites
No pão branco de cada dia
Nas estações enlaçadas
Escrevo teu nome

Nos meus farrapos de azul
No tanque sol que mofou
No lago lua vivendo
Escrevo teu nome

Nas campinas do horizonte
Nas asas dos passarinhos
E no moinho das sombras
Escrevo teu nome

Em cada sopro de aurora
Na água do mar nos navios
Na serrania demente
Escrevo teu nome

Até na espuma das nuvens
No suor das tempestades
Na chuva insípida e espessa
Escrevo teu nome

Nas formas resplandecentes
Nos sinos das sete cores
E na física verdade
Escrevo teu nome

Nas veredas acordadas
E nos caminhos abertos
Nas praças que regurgitam
Escrevo teu nome

Na lâmpada que se acende
Na lâmpada que se apaga
Em minhas casas reunidas
Escrevo teu nome

No fruto partido em dois
de meu espelho e meu quarto
Na cama concha vazia
Escrevo teu nome

Em meu cão guloso e meigo
Em suas orelhas fitas
Em sua pata canhestra
Escrevo teu nome

No trampolim desta porta
Nos objetos familiares
Na língua do fogo puro
Escrevo teu nome

Em toda carne possuída
Na fronte de meus amigos
Em cada mão que se estende
Escrevo teu nome

Na vidraça das surpresas
Nos lábios que estão atentos
Bem acima do silêncio
Escrevo teu nome

Em meus refúgios destruídos
Em meus faróis desabados
Nas paredes do meu tédio
Escrevo teu nome

Na ausência sem mais desejos
Na solidão despojada
E nas escadas da morte
Escrevo teu nome

Na saúde recobrada
No perigo dissipado
Na esperança sem memórias
Escrevo teu nome

E ao poder de uma palavra
Recomeço minha vida
Nasci pra te conhecer
E te chamar

Liberdade

sexta-feira, 19 de abril de 2013

LER TEATRO




Quando herdei o quarto do meu irmão mais velho que se foi para Moçambique, herdei também alguns dos seus livros que por lá ficaram.

Era menino de 7 anos ou por aí. Um pouco mais tarde pus-me a escafandrar nessa herança de papel e a ler aqueles livros que por lá ficaram. E entre eles havia muitas peças de teatro. Recordo Jean Anouilh, Ionesco, Pirandello, Brecht e outros. Lia-se teatro nesse tempo. Penso que a censura proibia a representação de muitos textos mas não a sua edição em livro. Fiquei com esse hábito: ler teatro. Imaginar teatro a partir do texto.

E depois, passei a ver teatro. E depois ainda a escrever teatro.

Li este texto delicioso do meu querido amigo António Torrado. Fala daquela velha suspeita de o enfezado filho de D. Henrique possa ter sido trocado por outro menino, forte e saudável que viria a ser o nosso D. Afonso Henriques.
Hoje não é hábito ler teatro. As editoras viraram-lhe as costas com a excepção da Cotovia que tem uma belíssima colecção de textos tetrais contemporâneos.

O meu amigo Adelino Cardoso da Lápis de Memórias que não anda atrás de best sellers mas de livros para ler e mastigar editou a peça do António Torrado. E ainda bem

O texto é uma delícia e a representação pelo grupo de teatro Jangada de Lousada, que também tive a possibilidade de ver, é outra delícia. E para todas as idades.

quarta-feira, 17 de abril de 2013

A FÁBRICA DO TEMPO



E aqui está outro livro delicioso. Da minha muito querida amiga Sílvia Alves, excelente escritora para a infância e contadora de histórias, também conhecida pelo nome quase histórico de Bruxinha de Papel.

As ilustrações são uma festa para os olhos, do Pierre Pratt. Daquelas ilustrações que acrescentam a história que é já de si uma delícia.

segunda-feira, 15 de abril de 2013

QUERIDO FIM DE SEMANA



A Maria de Lurdes Soares é uma querida amiga, uma mulher que sabe como se escreve e como se produz um livro para crianças

O sol chegou e o tempo começa a chamar-nos para os prazeres de um fim-de-semana mesmo que seja 2ª ou 3ª ou 4ª feira.

Por isso, talvez não seja mau começar qualquer fim-de-semana por este fim-de-semana ao sabor de um texto delicioso e das ilustrações ternas e festivas da Raquel Pinheiro.

sábado, 13 de abril de 2013

CREDO



A poesia traz-nos por vezes surpresas e emoções inesperadas.

Às vezes a maré da vida traz-nos um poema que não conhecíamos e nos ilumina e nos enche de júbilo e nos deixa felizes, felizes por não sermos Ministros das Finanças ou do Interior, ou da Medicina ou da Doença, mas poetas ou músicos ou professores, ou puros traficantes de palavras e sentidos.

O meu amigo Pedro Lamares fez-me conhecer um poema da Natália XCorreia que eu não conhecia e que... Façam o favor de ler e vão ver.

CREDO

Creio nos anjos que andam pelo mundo,
Creio na Deusa com olhos de diamantes,
Creio em amores lunares com piano ao fundo,
Creio nas lendas, nas fadas, nos atlantas,

Creio num engenho que falta mais fecundo
De harmonizar as partes dissonantes,
Creio que tudo é eterno num segundo,
Creio num céu futuro que houve dantes,

Creio nos deuses de um astral mais puro,
Na flor humilde que se encosta ao muro,
Creio na carne que enfeitiça o além,

Creio no incrível, nas coisas assombrosas,
Na ocupação do mundo pelas rosas,
Creio que o Amor tem asas de ouro.Amen.

Natália Correia