terça-feira, 24 de dezembro de 2013
NATAL DE 2013 - PORQUE ELES SABEM O QUE FAZEM
NATAL DE 2013
SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN
AS PESSOAS SENSÍVEIS
As pessoas sensíveis não são capazes
De matar galinhas
Porém são capazes
De comer galinhas
O dinheiro cheira a pobre e cheira
À roupa do seu corpo
Aquela roupa
Que depois da chuva secou sobre o corpo
Porque não tinham outra
O dinheiro cheira a pobre e cheira
A roupa
Que depois do suor não foi lavada
Porque não tinham outra
«Ganharás o pão com o suor do teu rosto»
Assim nos foi imposto
E não:
«Com o suor dos outros ganharás o pão»
Ó vendilhões do templo
Ó construtores
Das grandes estátuas balofas e pesadas
Ó cheios de devoção e de proveito
Perdoai-lhes Senhor
Porque eles sabem o que fazem
domingo, 22 de dezembro de 2013
BOM NATAL
Não sei se o Natal era melhor neste tempo. É provável que não.
Estávamos ligados pela palavra que era levada nas cartas e postais pelos CTT.
Sempre tive simpatia pelos CTT. Faziam parte da nossa vida. Sempre gostei de receber cartas e enviar cartas. Aerogramas com letrinha cuidada para o meu Pai em Moçambique e Angola, postais enviados a meio da semana do Colégio Militar para a minha Avó e a minha Mãe, cartas adolescentes para as amigas, namoradas, correspondentes, na Suécia, no Brasil, a Austrália, os relatos assombrados sobre os tempos em que fui arquitecto na Guiné ou guionista em Cabo Verde, os abraços aos amigos nos aniversártios e nas Festas.
Às vezes punha as cartas nos marcos de correio, outras nas próprias estações. E sabia que mais cedo ou mais tarde o carteiro havia de ir entregar a minha carta a pé ou de bicicleta.
Agora temos os mails e os SMS's. Não é melhor nem pior. Perdemos o gesto, o desenho da letra e o seu afecto. É diferente. Mas o importante são mesmo as palavras, a sua doçura e a sua magia.
De qualquer maneira, lá que tenho pena que os CTT já não sejam os nossos CTT, tenho.
Estávamos ligados pela palavra que era levada nas cartas e postais pelos CTT.
Sempre tive simpatia pelos CTT. Faziam parte da nossa vida. Sempre gostei de receber cartas e enviar cartas. Aerogramas com letrinha cuidada para o meu Pai em Moçambique e Angola, postais enviados a meio da semana do Colégio Militar para a minha Avó e a minha Mãe, cartas adolescentes para as amigas, namoradas, correspondentes, na Suécia, no Brasil, a Austrália, os relatos assombrados sobre os tempos em que fui arquitecto na Guiné ou guionista em Cabo Verde, os abraços aos amigos nos aniversártios e nas Festas.
Às vezes punha as cartas nos marcos de correio, outras nas próprias estações. E sabia que mais cedo ou mais tarde o carteiro havia de ir entregar a minha carta a pé ou de bicicleta.
Agora temos os mails e os SMS's. Não é melhor nem pior. Perdemos o gesto, o desenho da letra e o seu afecto. É diferente. Mas o importante são mesmo as palavras, a sua doçura e a sua magia.
De qualquer maneira, lá que tenho pena que os CTT já não sejam os nossos CTT, tenho.
sábado, 14 de dezembro de 2013
PINGA O PINGO
Pinga o pingo da torneira
Pinga pinga
Pinga o pingo
Que amanhã já é domingo
E depois segunda feira
Pinga o pingo da torneira
na banheira
terça feira
quarta feira
Pinga de toda a maneira
quinta feira
sexta feira
Falta pouco p’ra domingo
Pinga o pingo
Pinga pinga
Pingo o pingo da torneira.
José Fanha (1951)
“Cantigas e cantigos para formigas e formigos”, Terramar
segunda-feira, 9 de dezembro de 2013
QUANTAS MARGENS TEM O MAR
Há pessoas de quem somos amigos antes de nos conhecermos. DE quando nos conhecemos percebemos que somos amigos há muito tempo.~
Com o Nuno Higino aconteceu-me isso.Poucas vezes nos encontrámos mas sempre com muita alegria e emoção.
A ALEGRIA
Perguntar se a alegria
é inteira ou tem medida
se é oval ou circular
de que maneira a contém
o olhar quando a anuncia
é o mesmo que perguntar:
-Quantas margens tem o mar?
Nuno Higino, “Versos diversos”
terça-feira, 3 de dezembro de 2013
INQUOCIENTE
Que saudades tenho do meu amigo Manuel António Pina e daquela ironia que tão bem derramava sobre coisas aparentemente muito sérias mas que podem e devem ser tratadas com a ternura dos grandes poetas.
UMA HISTÓRIA DE DIVIDIR
Um divisor dividia
muitíssimo devagar.
A divisão bem podia,
por ele esperar.
O dividendo, mais lesto,
não podendo perder tempo,
dia a dia ia perdendo
a paciência e o resto.
E, encarando o amigo,
falava-lhe duramente:
“Não posso contar contigo,
és um inquociente!”
Manuel António Pina
quinta-feira, 28 de novembro de 2013
A CRIANÇA E A VIDA
Enfermeira e professora, Maria Rosa Colaço publicou um livro único em pleno Estado Novo com poemas de crianças
Pedrada no charco, "A criança e a vida" veio pôr em causa a forma como se promovia a leitura e a escrita junto dos mais pequenos.
O livro atingiu uma imensa popularidade e atingiu até agora 47 edições. No entan to, muitos dos mais jovens professores ignoram a sua existência.
"...Ensinaram-me que , quando se é humilhado naquilo que em nós é claridade e certeza, aprende-se mais depressa o sentido exacto da liberdade, da paz, do ódio,do amor e do ridículo do quotidiano. Eles revelaram-me que a miséria transforma as crianças ,mais que os adultos, em anjos implacáveis de lucidez e que a fome os ateia e lhes faz crescer nos olhos brancas e terríveis asas de sonho ou destruição.E há nestes anjos de fogo uma voz oculta e violenta em que é preciso,é urgente, meditarmos. Ela pode denunciar, construir ou semear, a alegria , a vergonha ou o remorso.
Ela pode ser a semente da Esperança, da Paz entre os homens.
Ela pode ser o Ódio.
Ela pode ser o Amor."
Mª Rosa Colaço
O AMOR
O amor é como duas borboletas que estivessem
Sobre uma rosa, a mias lindas de todas do jardim.
O amor tem que haver.
Se não houvesse amor, não havia nada mais bonito.
O amor são duas estrelas a brilhar, a brilhar.
A rosa e o sol são o amor.
A amor é poesia.
O amor são dois passarinhos a construir a sua casinha.
O amor é não haver polícias.
Inácio da silva Cruz – 10 anos
terça-feira, 19 de novembro de 2013
A VELHA DA GATA E A GATA DA VELHA
António Fernando dos Santos (Vila Real de Santo António, 1918 - Lisboa, Agosto de 1991), mais conhecido por Tóssan, foi um pintor, ilustrador, decorador e gráfico português.
Ligado ao teatro, à ceografia, desenhador notável, ilustrador de primeira água, declamador delicioso dado a conhecer ao país no programa ZIP-ZIP da RTP.
Dele posso dizer que era um ser humano magnífico, um homem de humor delirante, um amigo fantástico que me apoiou e incentivou quando, jovenzito, me abalancei a dizer poesia em público. Por duas ou três vezes partilhei com ele o palco e guardo uma ternura sem fim desses momentos únicos.
A VELHA DA GATA E A GATA DA VELHA
Uma velha tinha um gato
e o gato tinha uma velha
mas o gato que a velha tinha
tinha a tinha que tinha a velha.
E não era gato, era gata.
A velha da gata
de velha que era,
sofria da telha ou da pinha
e a gata da velha, de tão velha,
já era velhinha.
A velha, de velha, já andava de gatas
e a gata já andava de velhas.
Quando a velha andava de gatas
parecia a gata da velha,
e como a velha dobrava a espinha
a gata queria comer a espinha da velha.
Tudo pela gata ter tinha
e a velha sofrer da pinha.
Quando a gata chorava,
a velha miava.
Ficava sem se saber
qual era a gata ou qual era a velha
que debaixo da cama vinha,
em cima da cama estava,
debaixo da cama dormia,
e por cima ressonava.
A velha tinha fôlego de gata!
E junto à cabeceira
a gaita de foles estava.
Quando a velha gaiteia
tocava na velha gaita,
chorava a gata da velha
por causa dos foles da gaita.
A velha que tinha gôta
caiu no goto da gata
morrendo a gata de gôta,
ficando a velha gótica
sem gôta e sem gata.
Mas como ainda tinha tinha
e sobria da velha telha,
juntou-se a tinha na pinha
e morreu careca a velha
sexta-feira, 15 de novembro de 2013
AOS QUADRADINHOS
Sidónio Muralha começa a ser redescoberto como poeta e como autor de literatura para crianças. E ainda bem. Vale muito a pena revisitá-lo.
XADREZ
É branca a gata gatinha
É branca como farinha.
É preto o gato gatão
É preto como o carvão.
E os filhos, gatos gatinhos,
São todos aos quadradinhos.
Os quadradinhos branquinhos
Fazem lembrar mãe gatinha
Que é branca como a farinha.
Os quadradinhos pretinhos
Fazem lembrar pai gatão
Que é preto como carvão
Se é branca a gata gatinha
E é preto o gato gatão,
Como é que são os gatinhos?
Os gatinhos eles são,
São todos aos quadradinhos.
quarta-feira, 13 de novembro de 2013
HÁ CASOS ASSIM
O António Torrado é um querido amigo e um mestre. A escrita dele transborda de ternura e, sobretudo, de ironia.
ANÚNCIO -I
Quarenta poetas
que dizem que são,
quarenta poetas
no cais da estação
Quarenta poetas
são mais do que as uvas!
Que dor, que tormenta,
perderam as luvas.
Quarenta poetas
de finas bengalas
e mais finos versos
perderam as malas.
Quarenta poetas
quem lhes leva a palma?
Quarenta poetas
perderam a calma.
Quarenta poetas
nervosos, com pressa…
E vai um poeta
perdeu a cabeça.
Perdeu a cabeça,
perdeu, de repente,
no cais da estação…
O caso é urgente.
A quem encontrar
avise para mim.
Fui eu que a perdi.
Há casos assim!
António Torrado, “À Esquina da rima Buzina”
ANÚNCIO -I
Quarenta poetas
que dizem que são,
quarenta poetas
no cais da estação
Quarenta poetas
são mais do que as uvas!
Que dor, que tormenta,
perderam as luvas.
Quarenta poetas
de finas bengalas
e mais finos versos
perderam as malas.
Quarenta poetas
quem lhes leva a palma?
Quarenta poetas
perderam a calma.
Quarenta poetas
nervosos, com pressa…
E vai um poeta
perdeu a cabeça.
Perdeu a cabeça,
perdeu, de repente,
no cais da estação…
O caso é urgente.
A quem encontrar
avise para mim.
Fui eu que a perdi.
Há casos assim!
António Torrado, “À Esquina da rima Buzina”
segunda-feira, 11 de novembro de 2013
O MELHOR QUE ACONTECEU
Quem se lembra da maria Rosa Colaço? Quem se lembra das suas histórias e poemas? Quem se lembra desse extraordinário livrinho que se chama "A CRIANÇA E A VIDA" que ela fez com os seus alunos?
DIA DE ANOS DO PEDRO
No ano em que eu nasci
tanta coisa aconteceu!
Caiu chuva, houve sol
e muito pão se comeu.
No ano em que eu nasci,
já outros corriam mundo,,
já outros estavam em guerra,
já barcos iam ao fundo.
No ano em que eu nasci
a vida, tal como hoje,
é uma luz, é um vento
que passa por nós e foge.
Nesse dia tão distante,
descobri que é bom viver.
Hei-de fazer dos meus dias
Todos, dias de nascer!
No ano em que eu nasci
não tinha medo de nada:
o colo da minha Mãe
era o ninho, era a estrada!
Mas no ano em que eu nasci
o melhor que aconteceu
fui eu! Fui eu! Fui eu
Fui eu!
Maria Rosa Colaço, “Versos diversos para meninos travessos”
sexta-feira, 8 de novembro de 2013
DÓI-DÓI
Era uma querida e linda amiga, a Matilde Rosa Araújo. Faz-nos muita falta com a sua doçura e a sua simplicidade
AVENTURA PEQUENINA
É tão linda a palavra dói-dói!
Dóis… Dós…
Mas um dói-dói dói.
Dói!
Que pena o dói-dói doer
Até o menino chorar.
Mas que foi?
É um dói-dói pequenino
No joelho
Do menino,
Que pulou,
Caiu,
E se feriu.
Pulou,
Caiu,
Esfolou,
Mas já passou…
Matilde Rosa Araújo, “Anjos de pijama”
AVENTURA PEQUENINA
É tão linda a palavra dói-dói!
Dóis… Dós…
Mas um dói-dói dói.
Dói!
Que pena o dói-dói doer
Até o menino chorar.
Mas que foi?
É um dói-dói pequenino
No joelho
Do menino,
Que pulou,
Caiu,
E se feriu.
Pulou,
Caiu,
Esfolou,
Mas já passou…
Matilde Rosa Araújo, “Anjos de pijama”
quarta-feira, 6 de novembro de 2013
A BRUXA
Conto da Luísa Ducla Soares.
Já o tinha anunciado aqui. Mas só agora consegui publicar a gravação.
Já o tinha anunciado aqui. Mas só agora consegui publicar a gravação.
segunda-feira, 4 de novembro de 2013
DLIM-DLIM
Mário Castrim sempre foi um homem de fortes convicções, atraindo facilmente as controvérsias, mas também autor de alguns belíssimos textos para crianças. Como este poema.
DLIM-DLIM
Nasce a menina
dlim-dlim
não é Jesus
dlim-dlim
nem Jesuíina
dlim-dlim
ela é a filha
de uma vizinha
não teve burro
nem vaquinha
porque em Lisboa
era difícil
ser assim.
De qualquer modo
dlim-dlim.
DLIM-DLIM
Nasce a menina
dlim-dlim
não é Jesus
dlim-dlim
nem Jesuíina
dlim-dlim
ela é a filha
de uma vizinha
não teve burro
nem vaquinha
porque em Lisboa
era difícil
ser assim.
De qualquer modo
dlim-dlim.
sábado, 2 de novembro de 2013
AS PEDRAS FALAM?
Da poesia para adultos à poesia para crianças vou trazer por aqui alguns poemas mais esquecidos ultimamente.
Para quem trabalha com crianças e para as crianças que resistem no peito de alguns adultos.
Desta vez da minha muito querida amiga Maria Alberta Menéres.
AS PEDRAS FALAM?
As pedras falam? Pois falam
mas não à nossa maneira,
que todas as coisas sabem
uma história que não calam
Debaixo dos nossos pés
ou dentro da nossa mão
o que pensarão de nós?
O que de nós pensarão?
As pedras cantam nos lagos
choram no meio da rua
tremem de frio e de medo
quando a noite é fria e escura.
Riem nos muros ao sol,
no fundo do mar se esquecem.
Umas partem como as aves
e nem mais tarde regressam.
Brilham quando a chuva cai.
Vestem-se de musgo verde
em casa velha ou em fonte
que saiba matar a sede.
Foi de duas pedras duras
que a faísca rebentou:
uma germinou em flor
e a outra nos céus voou.
As pedras falam? Pois falam.
Só as entende quem quer,
que todas as coisas têm
uma coisa para dizer.
terça-feira, 29 de outubro de 2013
UM CONTO POR MÊS
A Luísa Ducla Soares começou a publicar um conto por mês no sítio da Oficina Canto das Cores. E quem o grava sou eu. O primeiro é "A BRUXA"
Se quiserem ver a gravação e ouvir o texto é aqui em baixo.
http://www.cantodascores.com/#!historia/c1enf
domingo, 27 de outubro de 2013
ASSIM NÃO
Poeta experimental, inquieto, interrogador de certezas, ligado ao desenvolvimento em Portugal da poesia visual.
E. M. DE MELO E CASTRO (1932)
AFIRMAÇÕES
ou sim / ou não
mas assim, não
nem sim / nem não
mas assim, não
pelo sim / pelo não
mas assim, não
do sim / ao não
mas assim, não
sim, sim / não, não
mas assim, não
se sim / se não
mas assim, não
não não / não não
mas assim, não.
E. M. DE MELO E CASTRO (1932)
AFIRMAÇÕES
ou sim / ou não
mas assim, não
nem sim / nem não
mas assim, não
pelo sim / pelo não
mas assim, não
do sim / ao não
mas assim, não
sim, sim / não, não
mas assim, não
se sim / se não
mas assim, não
não não / não não
mas assim, não.
sexta-feira, 25 de outubro de 2013
DESCALÇA VAI PARA A FONTE
Poeta, ensaísta, daramaturgo, António Cabral desdobrou-se em vários géneros. Transmontano dos sete costados, foi fundador de várias revistas de carácter cultural e literário. Colaborou em inúmeros jornais nacionais e estrangeiros. Professor da Universidade de Trás-os-Montes.
Este poema ouvi-o pela primeira vez na voz do meu amigo Francisco Fanhais. E sempre que ele o canta, ouço-o comovido.
ANTÓNIO CABRAL (1931-2007)
DESCALÇA VAI PARA A FONTE
I
Descalça vai para a fonte
Leonor pela verdura:
vai formosa e não segura.
II
Se tivesse umas chinelas
iria melhor..., mas não:
c’o dinheiro das chinelas
compra um pouco mais de pão.
Virá o dia em que os pés
não sintam a terra dura?
Leonor sonha de mais:
vai formosa e não segura.
Formosa! Não vale a pena
ter nos olhos uma aurora
quando na vida – que vida! –
o sol já se foi embora.
Se os filhos se alimentassem
com a sua formosura...
Leonor pensa de mais:
vai formosa e não segura.
Há verdura pelos prados,
há verdura no caminho;
no olmo de ao pé da fonte
cantas, livre, um passarinho.
Mas ela não canta, não,
que a voz perdeu a doçura.
Leonor sofre de mais:
vai formosa e não segura.
Porque sofre? Nunca soube
nem saberá a razão.
Vai encher a talha de água,
só não enche o coração.
Virá um dia... virá...
Os olhos voam na altura.
Leonor não anda: sonha.
Vai formosa e não segura.
Este poema ouvi-o pela primeira vez na voz do meu amigo Francisco Fanhais. E sempre que ele o canta, ouço-o comovido.
ANTÓNIO CABRAL (1931-2007)
DESCALÇA VAI PARA A FONTE
I
Descalça vai para a fonte
Leonor pela verdura:
vai formosa e não segura.
II
Se tivesse umas chinelas
iria melhor..., mas não:
c’o dinheiro das chinelas
compra um pouco mais de pão.
Virá o dia em que os pés
não sintam a terra dura?
Leonor sonha de mais:
vai formosa e não segura.
Formosa! Não vale a pena
ter nos olhos uma aurora
quando na vida – que vida! –
o sol já se foi embora.
Se os filhos se alimentassem
com a sua formosura...
Leonor pensa de mais:
vai formosa e não segura.
Há verdura pelos prados,
há verdura no caminho;
no olmo de ao pé da fonte
cantas, livre, um passarinho.
Mas ela não canta, não,
que a voz perdeu a doçura.
Leonor sofre de mais:
vai formosa e não segura.
Porque sofre? Nunca soube
nem saberá a razão.
Vai encher a talha de água,
só não enche o coração.
Virá um dia... virá...
Os olhos voam na altura.
Leonor não anda: sonha.
Vai formosa e não segura.
terça-feira, 22 de outubro de 2013
ISTO VAI
João Rui de Sousa é um poeta discreto e de grande qualidade. Nasceu em 1928. Continua a publicar. O seu último livro é "Quarteto para as próximas chuvas", ed D. Quixote. Iniciou a publicação de poesia na revista CASSIOPEIA que fundou com António Ramos Rosa e José Bento.
ÇA IRA
Isto vai, caro amigo.
Não como nós queremos, é certo,
mas isto vai.
Por noites de insónia e alcatrão
por laranjas e lábios ressequidos
por desespero na voz e escuridão
isto vai, caro amigo.
Por mágoas acesas e relógios
pelo sabor dos braços na alegria
pelo odor das plantas venenosas
isto vai, caro amigo.
Pelo cabo axial que liga a nossa esperança
pela luz dos cabelos, pelo sal
pela palavra remo, pela palavra ódio
isto vai, caro amigo.
Pela ternura e pela confiança
pela vontade e força, as nossas casas
pelo fervor com que inventamos (e depois calamos)
isto vai, caro amigo.
Pelos carris do medo, pelas árvores
pela inocência e fome, pelos perigos
pelos sinais fraternos, pelas lágrimas
isto vai, caro amigo.
Pela rudeza do espaço
e em jardins falsíssimos
isto vai, caro amigo.
sábado, 19 de outubro de 2013
OS QUE NOS MATAM DE ROSAS
A minha muito querida amiga Luísa Ducla Soares é uma consagrada autora de literatura para a infância. Coisa menos conhecida, escreve poesia desde jovem estudante.
O poema que aqui vem abaixo foi publicado numa Antologia de Poesia Universitária em 1963.
Ela pertence a uma geração de notáveis poetas, que começaram a fazer ouvir as suas vozes no início dos anos 60 e de que poderia relembrar Maria Teresa Horta, Gastão Cruz, Fiama, António Torrado, Casimiro de Brito, Luísa Neto Jorge, Rui Namorado.
Diz-me a Luisinha ue continua a escrever. Mas tem tudo guardado lá em casa Tenho um dia destes de meter os pés a caminho e ir ter com ela para que nos mostre o que anda pelas gavetas.
LUÍSA DUCLA SOARES (1939)
ESSES
O que trazem a tarde
a estrebuchar rosas,
pela trela,
como um cão,
e põem rosa nas janelas,
nos sorrisos que nos dão.
Os que amassam flores
no pão dos pobres
Os que mascaram de rosas
o não
Os que aos Domingos
dão às crianças
um tostão
Os que têm ninhos
de andorinhas
nos beirais
e chicotes
nos dedos,
sub-reptícias gestapos caiadas
do livor
dos degredos
Os que roubam estrelas
aos olhos da gente
para vendê-las
à socapa
Os que instalam
alto-falantes de riso
na mágoa salina
das costas curvada,
no grito preciso
das raivas sangradas
Os que nos matam de rosas
às punhaladas.
O poema que aqui vem abaixo foi publicado numa Antologia de Poesia Universitária em 1963.
Ela pertence a uma geração de notáveis poetas, que começaram a fazer ouvir as suas vozes no início dos anos 60 e de que poderia relembrar Maria Teresa Horta, Gastão Cruz, Fiama, António Torrado, Casimiro de Brito, Luísa Neto Jorge, Rui Namorado.
Diz-me a Luisinha ue continua a escrever. Mas tem tudo guardado lá em casa Tenho um dia destes de meter os pés a caminho e ir ter com ela para que nos mostre o que anda pelas gavetas.
LUÍSA DUCLA SOARES (1939)
ESSES
O que trazem a tarde
a estrebuchar rosas,
pela trela,
como um cão,
e põem rosa nas janelas,
nos sorrisos que nos dão.
Os que amassam flores
no pão dos pobres
Os que mascaram de rosas
o não
Os que aos Domingos
dão às crianças
um tostão
Os que têm ninhos
de andorinhas
nos beirais
e chicotes
nos dedos,
sub-reptícias gestapos caiadas
do livor
dos degredos
Os que roubam estrelas
aos olhos da gente
para vendê-las
à socapa
Os que instalam
alto-falantes de riso
na mágoa salina
das costas curvada,
no grito preciso
das raivas sangradas
Os que nos matam de rosas
às punhaladas.
quarta-feira, 16 de outubro de 2013
AINDA NÃO
Poeta ligado ao Movmento Surrealista e ao grupo do Café Gelo.
Foi funcionário das Bibliotecas Itinerantes da Fundação Gulbenkian.Andava com as carrinhos a distribuir palavras e emoções pelo país fora.
Um dia, em 1969, suponho, um padre, julgo que armado, tentou impedi-lo pela força de entrar numa aldeia lá pelas Terras do Bouro. Livros eram as portas do conhecimento, do live pensamento, do diabo!
Fez um requerimento (já o li) à Administração da Fundação a pedir o destacamento de uma força da GNR que o acompanhasse e o defendesse do padre para que pudesse cumprir a sua missão de fazer chegar os livros à população.
Não sei se o requerimento terá sido atendido. Mas era giro. Na época teria sido muito giro.
ANTÓNIO JOSÉ FORTE (1931-1988)
AINDA NÃO
Ainda não
não há dinheiro para partir de vez
não há espaço de mais para ficar
ainda não se pode abrir uma veia
e morrer antes de alguém chegar
ainda não há uma flor na boca
para os poetas que estão aqui de passagem
e outra escarlate na alma
para os postos à margem
ainda não há nada no pulmão direito
ainda não se respira como devia ser
ainda não é por isso que choramos às vezes
e que outras somos heróis a valer
ainda não é a pátria que é uma maçada
nem estar deste lado que custa a cabeça
ainda não há uma escada e outra escada depois
para descer à frente de quem quer que desça
ainda não há camas para pesadelos
ainda não se ama só no chão
ainda não há uma granada
ainda não há um coração
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