Foram muitos os poetas maçons ou os maçons poetas. Cito alguns:
Marquesa de Alorna
Bocage
Filinto Elísio
Almeida Garrett
Camilo Castelo Branco
Feliciano de Castilho
Antero de Quental
Jaime Cortesão
Teixeira de Pascoais
Camilo Pessanha
Vitorino Nemésio
José Gomes Ferreira
Para muitos será surpreendente esta lista a que há que acrescentar Fernando Pessoa que não deixando qualquer evidência sobre a sua eventual iniciação e participação nalguma Loja Maçónica concreta, era um maçon de convicção e vasta cultura maçónica como o atestam os muitos textos e poemas onde essa cultura circula, nomeadamente a famosa carta a Salazar em que fortemente contesta a proibição da Ordem Maçónica.
Sabemos que é muito diverso o grau de empenhamento no trabalho maçónico destes poetas. Alguns dedicaram-lhe de alma e coração parte importante das suas vidas. Outros não terão passado da Iniciação ou pouco mais.
Vou trazer para aqui alguns poemas, tentando entender o que é que pode haver de comum entre a condição do poeta e a do maçon.
ANTERO DE QUENTAL (1842 – 1891)
MAIS LUZ !
Amem a noite os magros crapulosos,
E os que sonham com virgens impossíveis,
E os que se inclinam, mudos e impassíveis,
À borda dos abismos silenciosos...
Tu, lua, com teus raios vaporosos,
Cobre-os, tapa-os e torna-os insensíveis,
Tanto aos vícios cruéis e inextinguíveis,
Como aos longos cuidados dolorosos!
Eu amarei a santa madrugada,
E o meio-dia, em vida refervendo,
E a tarde rumorosa e repousada.
Viva e trabalhe em plena luz: depois,
Seja-me dado ainda ver, morrendo,
O claro sol, amigo dos heróis!
segunda-feira, 13 de janeiro de 2014
segunda-feira, 6 de janeiro de 2014
BOM ANO NOVO ATRASADO MAS SINCERO
Há coisas assim, Em forma de assim. Esta era a mensagem que eu queria ter enviado no dia 1. Ficou no tinteiro, mas cá vai, atrasada mas vai.
Para trazer de novo a Teresa Rita Lopes a dar notícia da luz dos seus olhos e da dança das palavras na ponta do seu lápis.
Poesia também é isto: dar notícias. Notícias de um perfume, de uma imagem, de uma mão, de um Ano que começa.
Bom Ano para todos
BOM ANO NOVO!
Muito quietinhos
e muito quentinhos
(os que têm com
que fazer calor)
os portuguesinhos
votam – coitadinhos!
por um Ano Novo
de paz e amor!
Até Dona Merckel
baixa o tom de voz
até à compaixão
pra falar de nós
na televisão.
Ela sabe bem
que no ano que vem
será o funeral
do jardim plantado
à beira do mar
- “pais adiado
à procura de vez”
dizia o O’Neill
poeta português
que lembrou também :
“Neste país em diminutivo
respeitinho é que é preciso!”
Só que nesse então
tínhamos o azar
de ter Salazar
.como nosso algoz.
Agora já não
mora cá na terra
o nosso patrão
mas tem cá um cão
por sinal feroz
que cuida de nós
isto é, um governo
com a vocação
de meter a mão
no bolso dos pobres
que dos ricos não!
A nossa nação
respeita o ladrão
de mais de um milhão!
Se for de um tostão
vai para a prisão.
Que ricos que somos
De rimas em –ão!
Nosso Portugal
nisso é campeão!
Pena que não sirvam
para exportação
que assim nossa crise
tinha solução!
Teresa Rita Lopes
Para trazer de novo a Teresa Rita Lopes a dar notícia da luz dos seus olhos e da dança das palavras na ponta do seu lápis.
Poesia também é isto: dar notícias. Notícias de um perfume, de uma imagem, de uma mão, de um Ano que começa.
Bom Ano para todos
BOM ANO NOVO!
Muito quietinhos
e muito quentinhos
(os que têm com
que fazer calor)
os portuguesinhos
votam – coitadinhos!
por um Ano Novo
de paz e amor!
Até Dona Merckel
baixa o tom de voz
até à compaixão
pra falar de nós
na televisão.
Ela sabe bem
que no ano que vem
será o funeral
do jardim plantado
à beira do mar
- “pais adiado
à procura de vez”
dizia o O’Neill
poeta português
que lembrou também :
“Neste país em diminutivo
respeitinho é que é preciso!”
Só que nesse então
tínhamos o azar
de ter Salazar
.como nosso algoz.
Agora já não
mora cá na terra
o nosso patrão
mas tem cá um cão
por sinal feroz
que cuida de nós
isto é, um governo
com a vocação
de meter a mão
no bolso dos pobres
que dos ricos não!
A nossa nação
respeita o ladrão
de mais de um milhão!
Se for de um tostão
vai para a prisão.
Que ricos que somos
De rimas em –ão!
Nosso Portugal
nisso é campeão!
Pena que não sirvam
para exportação
que assim nossa crise
tinha solução!
Teresa Rita Lopes
domingo, 5 de janeiro de 2014
OS POETAS DE QUEM NÃO SE FALA MUITO
A poesia tem modas Há poetas de quem fica bem falar-se e ter-se opiniões definitivas em certos locais e em certas páginas de jornal mesmo quando não se leu a sua obra.
Eu gosto de lembrar os poetas de quem não se fala muito. Poetas. Sabem, meus amigos, o que são poetas? Gente perigosa. gente que cabe mal nos fatos por medida.
Este é um dos poetas de que se fala muito pouco e de que eu gosto de lembrar.
A PULGA
Um ponto somente
é este animal
que pouco se vê
e muito se sente.
E a gente não gosta
da pulga.
Porquê?
A pulga,
afinal,
só de animais gosta
e gosta
da gente.
A gente que o diga…
Gosta, morde e pica.
Mas que rica
amiga!
Pica
por ser má?
Pica
por prazer?
Lá prazer terá,
sabe-se isso bem…
mas, se a pulga
pica,
é para comer,
não mata ninguém.
O pobre animal
precisa de sangue…
Mas é natural
que a gente se zangue.
Quem dera apanhá-la,
mordê-la,
pisá-la!
Vai a gente ver
e ela
já se foi…
e sempre a morder.
Será que ela
julga
que aquilo não dói?
E assim é a pulga:
maluca, malvada,
mas tão pequenina,
ladina e rabina,
que a acho engraçada.
Leonel Neves, “O elefante e a pulga”, Livros Horizonte
Eu gosto de lembrar os poetas de quem não se fala muito. Poetas. Sabem, meus amigos, o que são poetas? Gente perigosa. gente que cabe mal nos fatos por medida.
Este é um dos poetas de que se fala muito pouco e de que eu gosto de lembrar.
A PULGA
Um ponto somente
é este animal
que pouco se vê
e muito se sente.
E a gente não gosta
da pulga.
Porquê?
A pulga,
afinal,
só de animais gosta
e gosta
da gente.
A gente que o diga…
Gosta, morde e pica.
Mas que rica
amiga!
Pica
por ser má?
Pica
por prazer?
Lá prazer terá,
sabe-se isso bem…
mas, se a pulga
pica,
é para comer,
não mata ninguém.
O pobre animal
precisa de sangue…
Mas é natural
que a gente se zangue.
Quem dera apanhá-la,
mordê-la,
pisá-la!
Vai a gente ver
e ela
já se foi…
e sempre a morder.
Será que ela
julga
que aquilo não dói?
E assim é a pulga:
maluca, malvada,
mas tão pequenina,
ladina e rabina,
que a acho engraçada.
Leonel Neves, “O elefante e a pulga”, Livros Horizonte
domingo, 29 de dezembro de 2013
UM CAVALO DE VÁRIAS CORES
Reinaldo Ferreira, filho do famoso Repórter X, nasceu em Barcelona e morreu em Lourenço Marques antes dos 40 anos.
A sua poesia colorida e musical não chegou a ser publicada em vida. Muito referido nos anos 60/70, está agora de novo entregue ao esquecimento, tendo sido em tempos emparceirado, algo exageradamente, com Fernando Pessoa. Muitos dos seus poemas foram cantados por autores como Manuel Freire ou Fausto.
QUERO UM CAVALO DE VÁRIAS CORES
Quero um cavalo de várias cores,
Quero-o depressa, que vou partir.
Esperam-me prados com tantas flores,
Que só cavalos de várias cores
Podem servir.
Quero uma sela feita de restos
Dalguma nuvem que ande no céu.
Quero-a evasiva – nimbos e cerros –
Sobre os valados, sobre os aterros,
Que o mundo é meu.
Quero que as rédeas façam prodígios:
Voa, cavalo, galopa mais,
Trepa às camadas do céu sem fundo,
Rumo àquele ponto, exterior ao mundo,
Para onde tendem as catedrais.
Deixem que eu parta, agora, já,
Antes que murchem todas as flores.
Tenho a loucura, sei o caminho,
Mas como posso partir sozinho
Sem um cavalo de várias cores?
sexta-feira, 27 de dezembro de 2013
QUE BELA "GAVETA DO FUNDO"
Às vezes acontece: aparece um poema que nos bate no peito e nos faz parar no meio do bulício emaranhado dos dias. E torna-nos melhores. Mais felizes. Mais gente.Neste caso não é só um poema, é um livro inteiro. Um luxo, neste tempo de fraca poesia. É o caso desta "Gaveta do fundo" do escritor transmontano A. M. Pires Cabral, dado à estampa numa recente e bela colecção de poesia (parabéns pela coragem à Tinta da China, editora, parabéns ao Pedro Mexia, coordenador).
Livro de grande maturidade, de amor à terra, de balanço de uma vida. Li-o emocionado, por vezes comovido. E acredito que esta é a poesia que vale a pena. A que emociona e nos leva para um patamar superior da música das palavras.
AOS MEUS ÓCULOS
Se um dia vos partirdes ficarei
mais à mercê do escuro.
Provavelmente poderei então
nem ler nem escrever nem cortejar
as flores silvestres, as nuvens em castelo,
os pardais disputando uma migalha
- esses frustes amores de fim de tempo.
Deixarei de poder distinguir
um abismo de um simples degrau.
Por isso, vós que sois de vidro quebradiço
como o meu próprio barro,
cuidai-vos em nome de mim.
Paguei-vos, sois meus, deveis-me utilidade.
Faça-se em vós segundo
a minha vontade.
quarta-feira, 25 de dezembro de 2013
BEM HAJAS POR VIRES TODOS OS ANOS, MENINO
A Teresa Rita Lopes enviou este poema de Natal aos seus amigos, entre os quais me conto com orgulho
Gosto muito da sua poesia. Professora universitária de grande prestígio, académica distinta e distinguida, uma das maiores especialistas em Fernando Pessoa, Teresa Rita Lopes não se perde em tiques, escreve como quem respira, como quem devolve à terra a sua frescura e aos seres humanos o melhor da sua humanidade.
Gosto muito da sua poesia e sinto-me privilegiado pela sua amizade. Por isso partilho a beleza sencilha do seu poema.
De presépios gosto
desde menina.
De construir por minhas mãos um pequenino mundo
a meu jeito.
A moda do Pai Natal só veio mais tarde
assim como a da Árvore de Natal.
Com ele nunca engracei
postiço das barbas até à barriga.
Quem trazia presentes à minha infância era o Menino Jesus
- cedo percebi que era uma maneira de dizer
como as fadas.
Como podia alguém como eu descer pela chaminé
sem se sujar nem se aleijar?!
Da Árvore de Natal só gosto por ser árvore
e verde.
(Pensar que as há de plástico!)
Hoje tenho presépios pela casa toda
todo o ano!
Que vou comprando por onde ando.
O meu Menino Jesus gosta de ser muitos
e de diferentes sítios como o Pessoa!
No Natal limito-me a actualizá-los com musgo.
E líquenes. E pinhas que trouxe ontem da Fonte do Sol.
Povoo esse mini-mundo também com conchas
que combinam com a cor do barro rosado
do presépio de Viana.
Mas do que mais gosto
é do musgo:
cheira a terra molhada
a verde
a vida.
Sorrio para o Menino (o mesmo em todos os presépios)
e digo-lhe:
Bem hajas por vires todos os anos
festejar com os homens o dia dos teus anos!
Invento para ti mundos simples e pacíficos
para eles se envergonharem das suas ambições
e guerras.
Ámen.
Teresa Rita Lopes
terça-feira, 24 de dezembro de 2013
NATAL DE 2013 - PORQUE ELES SABEM O QUE FAZEM
NATAL DE 2013
SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN
AS PESSOAS SENSÍVEIS
As pessoas sensíveis não são capazes
De matar galinhas
Porém são capazes
De comer galinhas
O dinheiro cheira a pobre e cheira
À roupa do seu corpo
Aquela roupa
Que depois da chuva secou sobre o corpo
Porque não tinham outra
O dinheiro cheira a pobre e cheira
A roupa
Que depois do suor não foi lavada
Porque não tinham outra
«Ganharás o pão com o suor do teu rosto»
Assim nos foi imposto
E não:
«Com o suor dos outros ganharás o pão»
Ó vendilhões do templo
Ó construtores
Das grandes estátuas balofas e pesadas
Ó cheios de devoção e de proveito
Perdoai-lhes Senhor
Porque eles sabem o que fazem
domingo, 22 de dezembro de 2013
BOM NATAL
Não sei se o Natal era melhor neste tempo. É provável que não.
Estávamos ligados pela palavra que era levada nas cartas e postais pelos CTT.
Sempre tive simpatia pelos CTT. Faziam parte da nossa vida. Sempre gostei de receber cartas e enviar cartas. Aerogramas com letrinha cuidada para o meu Pai em Moçambique e Angola, postais enviados a meio da semana do Colégio Militar para a minha Avó e a minha Mãe, cartas adolescentes para as amigas, namoradas, correspondentes, na Suécia, no Brasil, a Austrália, os relatos assombrados sobre os tempos em que fui arquitecto na Guiné ou guionista em Cabo Verde, os abraços aos amigos nos aniversártios e nas Festas.
Às vezes punha as cartas nos marcos de correio, outras nas próprias estações. E sabia que mais cedo ou mais tarde o carteiro havia de ir entregar a minha carta a pé ou de bicicleta.
Agora temos os mails e os SMS's. Não é melhor nem pior. Perdemos o gesto, o desenho da letra e o seu afecto. É diferente. Mas o importante são mesmo as palavras, a sua doçura e a sua magia.
De qualquer maneira, lá que tenho pena que os CTT já não sejam os nossos CTT, tenho.
Estávamos ligados pela palavra que era levada nas cartas e postais pelos CTT.
Sempre tive simpatia pelos CTT. Faziam parte da nossa vida. Sempre gostei de receber cartas e enviar cartas. Aerogramas com letrinha cuidada para o meu Pai em Moçambique e Angola, postais enviados a meio da semana do Colégio Militar para a minha Avó e a minha Mãe, cartas adolescentes para as amigas, namoradas, correspondentes, na Suécia, no Brasil, a Austrália, os relatos assombrados sobre os tempos em que fui arquitecto na Guiné ou guionista em Cabo Verde, os abraços aos amigos nos aniversártios e nas Festas.
Às vezes punha as cartas nos marcos de correio, outras nas próprias estações. E sabia que mais cedo ou mais tarde o carteiro havia de ir entregar a minha carta a pé ou de bicicleta.
Agora temos os mails e os SMS's. Não é melhor nem pior. Perdemos o gesto, o desenho da letra e o seu afecto. É diferente. Mas o importante são mesmo as palavras, a sua doçura e a sua magia.
De qualquer maneira, lá que tenho pena que os CTT já não sejam os nossos CTT, tenho.
sábado, 14 de dezembro de 2013
PINGA O PINGO
Pinga o pingo da torneira
Pinga pinga
Pinga o pingo
Que amanhã já é domingo
E depois segunda feira
Pinga o pingo da torneira
na banheira
terça feira
quarta feira
Pinga de toda a maneira
quinta feira
sexta feira
Falta pouco p’ra domingo
Pinga o pingo
Pinga pinga
Pingo o pingo da torneira.
José Fanha (1951)
“Cantigas e cantigos para formigas e formigos”, Terramar
segunda-feira, 9 de dezembro de 2013
QUANTAS MARGENS TEM O MAR
Há pessoas de quem somos amigos antes de nos conhecermos. DE quando nos conhecemos percebemos que somos amigos há muito tempo.~
Com o Nuno Higino aconteceu-me isso.Poucas vezes nos encontrámos mas sempre com muita alegria e emoção.
A ALEGRIA
Perguntar se a alegria
é inteira ou tem medida
se é oval ou circular
de que maneira a contém
o olhar quando a anuncia
é o mesmo que perguntar:
-Quantas margens tem o mar?
Nuno Higino, “Versos diversos”
terça-feira, 3 de dezembro de 2013
INQUOCIENTE
Que saudades tenho do meu amigo Manuel António Pina e daquela ironia que tão bem derramava sobre coisas aparentemente muito sérias mas que podem e devem ser tratadas com a ternura dos grandes poetas.
UMA HISTÓRIA DE DIVIDIR
Um divisor dividia
muitíssimo devagar.
A divisão bem podia,
por ele esperar.
O dividendo, mais lesto,
não podendo perder tempo,
dia a dia ia perdendo
a paciência e o resto.
E, encarando o amigo,
falava-lhe duramente:
“Não posso contar contigo,
és um inquociente!”
Manuel António Pina
quinta-feira, 28 de novembro de 2013
A CRIANÇA E A VIDA
Enfermeira e professora, Maria Rosa Colaço publicou um livro único em pleno Estado Novo com poemas de crianças
Pedrada no charco, "A criança e a vida" veio pôr em causa a forma como se promovia a leitura e a escrita junto dos mais pequenos.
O livro atingiu uma imensa popularidade e atingiu até agora 47 edições. No entan to, muitos dos mais jovens professores ignoram a sua existência.
"...Ensinaram-me que , quando se é humilhado naquilo que em nós é claridade e certeza, aprende-se mais depressa o sentido exacto da liberdade, da paz, do ódio,do amor e do ridículo do quotidiano. Eles revelaram-me que a miséria transforma as crianças ,mais que os adultos, em anjos implacáveis de lucidez e que a fome os ateia e lhes faz crescer nos olhos brancas e terríveis asas de sonho ou destruição.E há nestes anjos de fogo uma voz oculta e violenta em que é preciso,é urgente, meditarmos. Ela pode denunciar, construir ou semear, a alegria , a vergonha ou o remorso.
Ela pode ser a semente da Esperança, da Paz entre os homens.
Ela pode ser o Ódio.
Ela pode ser o Amor."
Mª Rosa Colaço
O AMOR
O amor é como duas borboletas que estivessem
Sobre uma rosa, a mias lindas de todas do jardim.
O amor tem que haver.
Se não houvesse amor, não havia nada mais bonito.
O amor são duas estrelas a brilhar, a brilhar.
A rosa e o sol são o amor.
A amor é poesia.
O amor são dois passarinhos a construir a sua casinha.
O amor é não haver polícias.
Inácio da silva Cruz – 10 anos
terça-feira, 19 de novembro de 2013
A VELHA DA GATA E A GATA DA VELHA
António Fernando dos Santos (Vila Real de Santo António, 1918 - Lisboa, Agosto de 1991), mais conhecido por Tóssan, foi um pintor, ilustrador, decorador e gráfico português.
Ligado ao teatro, à ceografia, desenhador notável, ilustrador de primeira água, declamador delicioso dado a conhecer ao país no programa ZIP-ZIP da RTP.
Dele posso dizer que era um ser humano magnífico, um homem de humor delirante, um amigo fantástico que me apoiou e incentivou quando, jovenzito, me abalancei a dizer poesia em público. Por duas ou três vezes partilhei com ele o palco e guardo uma ternura sem fim desses momentos únicos.
A VELHA DA GATA E A GATA DA VELHA
Uma velha tinha um gato
e o gato tinha uma velha
mas o gato que a velha tinha
tinha a tinha que tinha a velha.
E não era gato, era gata.
A velha da gata
de velha que era,
sofria da telha ou da pinha
e a gata da velha, de tão velha,
já era velhinha.
A velha, de velha, já andava de gatas
e a gata já andava de velhas.
Quando a velha andava de gatas
parecia a gata da velha,
e como a velha dobrava a espinha
a gata queria comer a espinha da velha.
Tudo pela gata ter tinha
e a velha sofrer da pinha.
Quando a gata chorava,
a velha miava.
Ficava sem se saber
qual era a gata ou qual era a velha
que debaixo da cama vinha,
em cima da cama estava,
debaixo da cama dormia,
e por cima ressonava.
A velha tinha fôlego de gata!
E junto à cabeceira
a gaita de foles estava.
Quando a velha gaiteia
tocava na velha gaita,
chorava a gata da velha
por causa dos foles da gaita.
A velha que tinha gôta
caiu no goto da gata
morrendo a gata de gôta,
ficando a velha gótica
sem gôta e sem gata.
Mas como ainda tinha tinha
e sobria da velha telha,
juntou-se a tinha na pinha
e morreu careca a velha
sexta-feira, 15 de novembro de 2013
AOS QUADRADINHOS
Sidónio Muralha começa a ser redescoberto como poeta e como autor de literatura para crianças. E ainda bem. Vale muito a pena revisitá-lo.
XADREZ
É branca a gata gatinha
É branca como farinha.
É preto o gato gatão
É preto como o carvão.
E os filhos, gatos gatinhos,
São todos aos quadradinhos.
Os quadradinhos branquinhos
Fazem lembrar mãe gatinha
Que é branca como a farinha.
Os quadradinhos pretinhos
Fazem lembrar pai gatão
Que é preto como carvão
Se é branca a gata gatinha
E é preto o gato gatão,
Como é que são os gatinhos?
Os gatinhos eles são,
São todos aos quadradinhos.
quarta-feira, 13 de novembro de 2013
HÁ CASOS ASSIM
O António Torrado é um querido amigo e um mestre. A escrita dele transborda de ternura e, sobretudo, de ironia.
ANÚNCIO -I
Quarenta poetas
que dizem que são,
quarenta poetas
no cais da estação
Quarenta poetas
são mais do que as uvas!
Que dor, que tormenta,
perderam as luvas.
Quarenta poetas
de finas bengalas
e mais finos versos
perderam as malas.
Quarenta poetas
quem lhes leva a palma?
Quarenta poetas
perderam a calma.
Quarenta poetas
nervosos, com pressa…
E vai um poeta
perdeu a cabeça.
Perdeu a cabeça,
perdeu, de repente,
no cais da estação…
O caso é urgente.
A quem encontrar
avise para mim.
Fui eu que a perdi.
Há casos assim!
António Torrado, “À Esquina da rima Buzina”
ANÚNCIO -I
Quarenta poetas
que dizem que são,
quarenta poetas
no cais da estação
Quarenta poetas
são mais do que as uvas!
Que dor, que tormenta,
perderam as luvas.
Quarenta poetas
de finas bengalas
e mais finos versos
perderam as malas.
Quarenta poetas
quem lhes leva a palma?
Quarenta poetas
perderam a calma.
Quarenta poetas
nervosos, com pressa…
E vai um poeta
perdeu a cabeça.
Perdeu a cabeça,
perdeu, de repente,
no cais da estação…
O caso é urgente.
A quem encontrar
avise para mim.
Fui eu que a perdi.
Há casos assim!
António Torrado, “À Esquina da rima Buzina”
segunda-feira, 11 de novembro de 2013
O MELHOR QUE ACONTECEU
Quem se lembra da maria Rosa Colaço? Quem se lembra das suas histórias e poemas? Quem se lembra desse extraordinário livrinho que se chama "A CRIANÇA E A VIDA" que ela fez com os seus alunos?
DIA DE ANOS DO PEDRO
No ano em que eu nasci
tanta coisa aconteceu!
Caiu chuva, houve sol
e muito pão se comeu.
No ano em que eu nasci,
já outros corriam mundo,,
já outros estavam em guerra,
já barcos iam ao fundo.
No ano em que eu nasci
a vida, tal como hoje,
é uma luz, é um vento
que passa por nós e foge.
Nesse dia tão distante,
descobri que é bom viver.
Hei-de fazer dos meus dias
Todos, dias de nascer!
No ano em que eu nasci
não tinha medo de nada:
o colo da minha Mãe
era o ninho, era a estrada!
Mas no ano em que eu nasci
o melhor que aconteceu
fui eu! Fui eu! Fui eu
Fui eu!
Maria Rosa Colaço, “Versos diversos para meninos travessos”
sexta-feira, 8 de novembro de 2013
DÓI-DÓI
Era uma querida e linda amiga, a Matilde Rosa Araújo. Faz-nos muita falta com a sua doçura e a sua simplicidade
AVENTURA PEQUENINA
É tão linda a palavra dói-dói!
Dóis… Dós…
Mas um dói-dói dói.
Dói!
Que pena o dói-dói doer
Até o menino chorar.
Mas que foi?
É um dói-dói pequenino
No joelho
Do menino,
Que pulou,
Caiu,
E se feriu.
Pulou,
Caiu,
Esfolou,
Mas já passou…
Matilde Rosa Araújo, “Anjos de pijama”
AVENTURA PEQUENINA
É tão linda a palavra dói-dói!
Dóis… Dós…
Mas um dói-dói dói.
Dói!
Que pena o dói-dói doer
Até o menino chorar.
Mas que foi?
É um dói-dói pequenino
No joelho
Do menino,
Que pulou,
Caiu,
E se feriu.
Pulou,
Caiu,
Esfolou,
Mas já passou…
Matilde Rosa Araújo, “Anjos de pijama”
quarta-feira, 6 de novembro de 2013
A BRUXA
Conto da Luísa Ducla Soares.
Já o tinha anunciado aqui. Mas só agora consegui publicar a gravação.
Já o tinha anunciado aqui. Mas só agora consegui publicar a gravação.
segunda-feira, 4 de novembro de 2013
DLIM-DLIM
Mário Castrim sempre foi um homem de fortes convicções, atraindo facilmente as controvérsias, mas também autor de alguns belíssimos textos para crianças. Como este poema.
DLIM-DLIM
Nasce a menina
dlim-dlim
não é Jesus
dlim-dlim
nem Jesuíina
dlim-dlim
ela é a filha
de uma vizinha
não teve burro
nem vaquinha
porque em Lisboa
era difícil
ser assim.
De qualquer modo
dlim-dlim.
DLIM-DLIM
Nasce a menina
dlim-dlim
não é Jesus
dlim-dlim
nem Jesuíina
dlim-dlim
ela é a filha
de uma vizinha
não teve burro
nem vaquinha
porque em Lisboa
era difícil
ser assim.
De qualquer modo
dlim-dlim.
sábado, 2 de novembro de 2013
AS PEDRAS FALAM?
Da poesia para adultos à poesia para crianças vou trazer por aqui alguns poemas mais esquecidos ultimamente.
Para quem trabalha com crianças e para as crianças que resistem no peito de alguns adultos.
Desta vez da minha muito querida amiga Maria Alberta Menéres.
AS PEDRAS FALAM?
As pedras falam? Pois falam
mas não à nossa maneira,
que todas as coisas sabem
uma história que não calam
Debaixo dos nossos pés
ou dentro da nossa mão
o que pensarão de nós?
O que de nós pensarão?
As pedras cantam nos lagos
choram no meio da rua
tremem de frio e de medo
quando a noite é fria e escura.
Riem nos muros ao sol,
no fundo do mar se esquecem.
Umas partem como as aves
e nem mais tarde regressam.
Brilham quando a chuva cai.
Vestem-se de musgo verde
em casa velha ou em fonte
que saiba matar a sede.
Foi de duas pedras duras
que a faísca rebentou:
uma germinou em flor
e a outra nos céus voou.
As pedras falam? Pois falam.
Só as entende quem quer,
que todas as coisas têm
uma coisa para dizer.
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