domingo, 13 de abril de 2014

PODERÍAMOS TER COMEÇADO A APRENDER...

O Amadeu Baptista é um poeta com vasta obra publicada em várias línguas e com uma impressionante lista de prémios.

Poeta de Abril, também na sua poesia aparece esta dor de um Abril por cumprir.


AMADEU BAPTISTA

25 DE ABRIL DE 1974


A partir desse dia poderíamos ter começado a aprender
[a crescer
e a desafiar os enigmas puríssimos da palavra liberdade
[ - no auge da paisagem
a ave indócil a que não renunciámos
é um símbolo fortíssimo contra os símbolos precários,
[os malogros
antigos,
a fome a que nos querem condenados
sempre que a morte ronda e o exílio
dói
como um cravo recentemente apunhalado.

A partir desse dia poderíamos ter começado a aprender
[a enfrentar o medo
que durante tanto tempo nos manteve separados
sem que soubéssemos como e quando acabaria – na
[terra e no amor
brilham profundamente as lágrimas dos pobres
e o sangue é uma flor misteriosa
que floresce de súbito
quando um grito se ouve no deserto
e uma gaivota volta
para nos contactar.

A partir desse dia poderíamos ter começado a
[distribuir o coração
e a partir nesse barco em busca de límpidas aventuras
onde enfeitássemos a vida com sonhos realizáveis
e a solidão fosse completamente impossível – o
[silêncio abria-se
num manancial de palavras profundamente comovidas
[que nos enchiam de ternura
e nos aproximavam
dos incontáveis registos da fraternidade, a noite
era expulsa para sempre
e os braços davam-se e ardiam.

A partir desse dia poderíamos ter começado a aprender
[que a felicidade
é algo muito mais tangível do que o que nós
[pensávamos
se se constrói pedra a pedra e palmo e a palmo se
[conquista
quando uma vontade solar e a solidariedade
não deixam ninguém ficar desprevenido – o assombro
principia a exercer o seu poder admirável, chega como
uma chuva benigna com o perfil da paz, tem o odor
interminável
da alegria.

A partir desse dia poderíamos ter começado a aprender
[a conjugar um futuro
um pouco mais perfeito, a erguer
a cabeça, a defendermo-nos
das múltiplas armadilhas que o ódio arma –
[entrávamos pela manhã
ainda com maior vitalidade
e com um pouco do azul da primavera progredíamos
como um par de namorados:
a proliferante espontaneidade dos seus beijos
transformaria o mundo…

A partir desse dia poderíamos ter começado a aprender
[que a frescura
é um bem vertiginoso que é necessário preservar cada
[vez mais
e que não basta a um homem
o benefício das mãos limpas perante a enternecedora
[figura de esperança
quando os lobos são os mais acérrimos inimigos da
[exclusiva claridade que há nas praias
e com falsos dentes de oiro esperam um mínimo
[descuido
para que possam destruir de um só golpe os sonhos e a
[beleza
de quem abre as portas de par em par a bens muito
[maiores
para que a volúpia entre e alvorece o ar.

A partir desse dia poderíamos ter começado a aprender
[a agir conclusivamente
sobre o passado, a prevenir
o mal do desencanto.

sexta-feira, 11 de abril de 2014

NÃO POSSO ADIAR O CORAÇÃO


Amar era proibido no regime salazarista. Ofendia a boa moral, a pouca vergonha encapotada de moral, a moralo como instrumento de dominação.

Amar, amar a sério, amar intensamente, amar deslumbrantemente à luz do sol sempre foi uma ofensa aos ditadores. O corpo sempre foi um lugar de interditos mesmo quando reina como agora a pornografia das casas dos segredos e outras que tais

Amar à luz do dia era uma forma de rsistência. Como aqui no-lo mostra António Ramos Rosa com um poema de 1960.



Não posso adiar o amor para outro século
não posso
ainda que o grito sufoque na garganta
ainda que o ódio estale e crepite e arda
sob montanhas cinzentas
e montanhas cinzentas

Não posso adiar este abraço
que é uma arma de dois gumes
amor e ódio

Não posso adiar
ainda que a noite pese séculos sobre as costas
e a aurora indecisa demore
não posso adiar para outro século a minha vida
nem o meu amor
nem o meu grito de libertação

Não posso adiar o coração

quarta-feira, 9 de abril de 2014

A MOSCA E O MOSQUITO


Abril é mês de poesia. De toda a poesia. Também da poesia para meninos. E quem desistir de ser menino tem, também, provagvelmente, de desistir da poesia.

Aqui temos um poeta de Abril, que muito escreveu para meninos.

A mosca olhou
o mosquito
e não gostou.
O mosquito prometeu
eu grito!
E gritou
Então a mosca fugiu,
e o mosquito
nunca mais a viu.

(O que a mosca não sabia
é que o mosquito não falava
nem gritava: só zumbia).


segunda-feira, 7 de abril de 2014

PARA QUÊ POETAS EM TEMPO DE INDIGÊNCIA?

Não sei se os poetas da minha geração têm o cimento humano, ético e estético que faz uma geração literária. Mas têm em comum ter vivido os tempos de mudança e poesia, de sonho e respiração colectiva, de decência e paixão, que foi o 25 de Abril.

O meu amigo Luís Filipe Castro Mendes é um poeta que sempre admirei nas várias facetas e degraus do seu caminho de poeta.

Traz-nos agora um belo livro profundamente desencantado. Belo porque doloroso, porque vai às entranhas, porque também para o Luís Filipe, creio eu, não era nada da bandalheira em que se transformou este país que sonhou para os seus filhos.



Levantar a gola do casaco,
esconder os punhos da camisa já puídos
e defender, com os dentes cerrados, as palavras:
mas quem aguenta mais este murmúrio vão,
que não colhe as flores do mal nem a luz radiosa na própria miséria?
Resistir, como sempre fizeram os humilhados.
Decorar palavras antigas.
Repeti-las, para que não sejam esquecidas,
aos vindouros.



sábado, 5 de abril de 2014

PÓ DOS LIVROS

Às vezes vida complica-se e o tempo estica, estica, mas não dá para tudo.

Este blog tem ficado para trás.

Mas cá estou de novo com livros e poesia e etc.

Hoje é para falar da magnífca livraria Pó dos Livros na Av. Marquês de Tomar em Lisboa.

É um espaço caloroso, um espaço de resistência cultural onde se fala de livros e se encontram livros difíceis de encontrar noutros sítios. Sobretudo poesia.

Volta e meia, mesmo quando não fica em caminho, sabe-me bem lá ir.

Fui lá hoje e trouxe dois ou três livros de poesia daqueles que não se encontram com facilidade António Ramos Rosa, Amadeu Baptista, ambos de uma nova colecção da editora lua de Papel (Parabéns Paulo, bela colecção), mais o último do meu querido amigo Jaime Rocha, edição Mão Morta.

Bem bom.

terça-feira, 4 de março de 2014

MÓNICA CID


No lançamento da 2ª edição de "A PORTA" e no dia da estreia da peça com o mesmo nome no Teatro Nacional D Maria II, aqui estão a Mónica Cid, o meu querido amigo actor e encenador Paulo Oom (que encenou a peça "ZARABADIM" na Malaposta)
e a muito querida amiga e escritora Luísa Ducla Soares.

E todos estão de volta dos magníficoas desenhos da Mónica Cid para o livro e que serviram de base também para os figurinos da peça.

Uma pequena grande delícia.


quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

A PORTA


Faz por agora 25 anos que escrevi "A Porta". Ainda é hoje, entre tudo o que escrevi, o livro que mais me entusiasma e emociona.

Tem muito que ver com uma infância e uma juventude em que saltitei de casa em casa e em que sonhava com uma onde ficasse, uma casa amiga, um sítio de consolo, onde coubesse tudo o que as palavras e a imaginação podiam fazer acontecer.

O meu grande amigo João Mota gostou do texto, transformei-o em texto de teatro e o João encenou-o com o talento que todos lhe admiramos. Fui ver um enaio há 15 dias e chorei que nem uma Madalena. Estou ansioso pela estreia no próximo sábado dia 1

É um texto que não tem uma idade-alvo. Ou melhor tem todas todas as idades-alvo. É dos 5 aos 555 anos.


domingo, 23 de fevereiro de 2014

ECONOMIA, POESIA E AMIZADE



Sempre que me meto com a falta de sensibilidade e cultura dos gestores e dos economistas recebo um mail ou um SMS do meu amigo Nicolau Santos a embrar-me que há economistas que lêem poesia e até há os que escrevem e dizem poesia como ele próprio.

É uma excepção, penso eu. Mas talvez não seja único. Talvez haja outros economistas e gestores que têm outros caminhos para entender o mundo que não sejam apenas as estatísticas e os computadores.

A página semanal do Nicolau no supolemento de economia do Expresso é uma exemplo delicioso em que ele sempre junta poesia ao seu comentário sobre economia.

E eu gosto de lhe dizer que enquanto houver uma economista que goste de poesia, há uma réstea de esperança para este mundo tão tristemente neo-liberalizado.

E aqui deixo um poema do Nicolau do último livro que escreveu a meias com o António Costa Silva.

ANTES ERA A WALL STREET


Nos anos 80 escrevi um poema a dizer:

A Wall Street é uma rua estreita.
E comprida.
Tão comprida que atravessa o meu país.

Nos anos 90 adoptei o poema.

A Castellana é uma avenida larga.
E comprida.
Tão comprida que atravessa o meu país.

Agora está na altura de escrever:
O Bundestag é um edifício muito grande.
E pesado.
Tão pesado que esmaga o meu país.


segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

MÃOS NO CHÃO E PÉS NO AR


Com o excelente amigo e músico Daniel Completo fizemos um livro de canções e poemas para crianças dos 3 aos 11/12 anos.

O livro saiu há 4 ou 5 dias. O espectáculo já está na estrada há pouco mais de um mês.

Quem quiser adquirir o livro pode fazê-lo atrabés do site abaixo e ser-lhe-á enviado pelo correio.


http://www.cantodascores.com/#!livros/mainPage

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

POETAS & MAÇONS - ALMEIDA GARRETT


Almeida Garrett, personagem de grande dimensão intelectual, literária e política.

Grande vulto do romantismo português, poeta e dramaturgo, político liberal, conhece a prisão, exilado várias vezes, criador do Teatro Nacional D. Maria II e do Conservatório, dedicando-se com empenho às actividades maçónicas.



A um Amigo

Fiel ao costume antigo,
Trago ao meu jovem amigo
Versos próprios deste dia.
E que de os ver tão singelos,
Tão simples como eu, não ria:
Qualquer os fará mais belos,
Ninguém tão d’alma os faria.

Que sobre a flor de seus anos
Soprem tarde os desenganos;
Que em torno os bafeje amor,
Amor da esposa querida,
Prolongando a doce vida
Fruto que suceda à flor.

Recebe este voto, amigo,
Que eu, fiel ao uso antigo,
Quis trazer-te neste dia
Em poucos versos singelos.
Qualquer os fará mais belos,
Ninguém tão d’alma os faria.

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

POETAS & MAÇONS - MARQUESA DE ALORNA

A Marquesa de Alorna, poetisa conhecida por "Alcipe", foi uma intelectual de rara dimensão, com reconhecimento em Portugal e na Europa do séc. XVIII.

Atribui-se-lhe a introdução em Portugal da chamada Maçonaria de Adopção. conspiradora contra Napoleão, e mostrou ser um alto espirito a que Alexandre Herculano chamou a Madame Staël portuguesa e grande vulto das nossas letras na transição do velho para o novo regime.



Se me aparto de ti, Deus da bondade,
Que ausência tão cruel! Como é possível
Que me leve a um abismo tão terrível
O pendor infeliz da humanidade!

Conforta-me, Senhor, que esta saudade
Me despedaça o coração sensível;
Se a teus olhos na cruz sou desprezível,
Não olhes para a minha iniquidade!

À suave esperança me entregaste,
E o preço de teu sangue precioso
Me afiança que não me abandonaste.

Se, justo, castigar-me te é forçoso,
lembra-te que te amei, e me criaste
para habitar contigo o Céu lustroso!

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

POETAS & MAÇONS - JOSÉ GOMES FERREIRA

Seu pai terá sido maçon e deu inclusivamente terrenos seus para a construção do Lar dos Inválidos do Comércio.

José Gomes Ferreira, nascido em 1900, poeta grande, terá seguido o pai como maçon nos tempos da República. ´

Na sua poesia, a militância alia-se a um gosto poético com raízes de mistério, tingido por influências do surrealismo.



JOSÉ GOMES FERREIRA (1900-1985)



PANFLETO CONTRA A PAISAGEM

(Futuro: este poema foi cortado pela Censura na revista «Vértice» de Coimbra. Acontecia isto no tempo do tiranete Salazar.)

Apaga-te, lua!
- lâmpada dos lírios e dos cães.

Não finjas de alma
esta realidade violenta
que me dói até às raízes.

Não pintes de mistério
estas bocas de fome
onde só há metafísicas de pão negro.

Não abras asas
na planície das pedras
de fogo apodrecido.

Apaga-te lua!
Peço-te que te apagues!
Para os tímidos poderem amar-se à vontade na sombra sem olhos,
para os humilhados de botas rotas cantarem serenatas às castelãs de carne invisível,
para as feias se entregarem nuas e abertas ao sexo da noite,
para os trémulos morrerem heróicos em barricadas de imaginação,
para os famintos devorarem com volúpia de vergonha o pão verde dos caixotes,
para os cegos dizerem: «Não vemos porque não há luar!»,
para os mendigos sonharem em voz alta que são reis a arrastar mantos negros,
para os escorraçados saírem dos canos lôbregos
e forrarem o mundo de luz própria como as estrelas,
para os ladrões velhinhos arrombarem as caixas das esmolas
onde só os pobres deitaram moedas falsas,
para os visionários mergulharem as mãos na noite
em busca de outra lua sem vincos de caveira,
para as mães das caves convencerem os filhos: «Moramos num palácio às escuras»...


Ouviste, lua?
Apaga-te!
- lâmpada dos cães e dos poetas magros.

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

POETAS & MAÇONS - FERNANDO PESSOA

Fernando Pessoa, o poeta maçon que ao que se sabe nunca foi iniciado nos mistérios da maçanoria e, no entanto, conhecia-os a fundo

Famosa é a sua carta a Salazar quando o ditador proibiu as organizações secretas e, nomeadamente, a Maçonaria.

Vários são os poemas em que Pessoa navega nas subtilezas esotóricas dos conhecimentos maónicos como no caso deste que transcrevo.



FERNANDO PESSOA (1888 – 1935)


EROS E PSIQUE


... E assim vedes, meu Irmão, que as verdades que vos foram dadas no Grau de Neófito, e aquelas que vos foram dadas no Grau de Adepto Menor, são, ainda que opostas, a mesma verdade.

Do Ritual do Grau de Mestre do Átrio
na Ordem Templária de Portugal

Conta a lenda que dormia
Uma Princesa encantada
A quem só despertaria
Um Infante, que viria
De além do muro da estrada.

Ele tinha que, tentado,
Vencer o mal e o bem,
Antes que, já libertado,
Deixasse o caminho errado
Por o que à Princesa vem.

A Princesa Adormecida,
Se espera, dormindo espera.
Sonha em morte a sua vida,
E orna-lhe a fronte esquecida,
Verde, uma grinalda de hera.

Longe o Infante, esforçado,
Sem saber que intuito tem,
Rompe o caminho fadado.
Ele dela é ignorado.
Ela para ele é ninguém.

Mas cada um cumpre o Destino -
Ela dormindo encantada,
Ele buscando-a sem tino
Pelo processo divino
Que faz existir a estrada.

E, se bem que seja obscuro
Tudo pela estrada fora,
E falso, ele vem seguro,
E, vencendo estrada e muro,
Chega onde em sono ela mora.

E, inda tonto do que houvera,
À cabeça, em maresia,
Ergue a mão, e encontra hera,
E vê que ele mesmo era
A Princesa que dormia.

sábado, 25 de janeiro de 2014

POETAS & MAÇONS - VITORINO NEMÉSIO





VITORINO NEMÉSIO (1901-1978)


VERBO E EQUÍVOCO



Chamo verbo ao equívoco falado
Que em tábuas decorei de tempo e modo,
Mas o Verbo é unívoco e sagrado,
Junto a Deus, mesmo Deus, único e todo.

Lá do sempre arrancando e nunca nado,
O eterno abarca o mundo e a vida a rodo:
É no que foi e no devir, tornado
Por amor novo Adão, limpo de todo.

Desse Verbo de que falo, mal declino
O caso do meu nome, nele divino;
Anónimo, sem ele, vagueio mudo:

Mas, chamem-no os vestígios da parábola,
E brilho como a pérola da fábula,
Homem, menos que nada e mais que tudo.


quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

POETAS & MAÇONS - CAMILO PESSANHA

Outro Poeta que também foi maçon e, ao que sei integrou a Loja Luís de Camões em Macau





CAMILO PESSANHA (1867-1926)



CAMINHO II

Encontraste-me um dia no caminho
Em procura de quê, nem eu o sei.
- Bom dia, companheiro, te saudei,
Que a viagem é maior indo sozinho.

É longe, é muito longe, há muito espinho!
Paraste a descansar, eu descansei...
Na venda onde poisaste, onde poisei,
Bebemos cada um do mesmo vinho.

É no monte escabroso, solitário,
Corta os pés como a rocha de um calvário,
E queima como a areia!... Foi no entanto

Que chorámos a dor de cada um...
E o vinho em que choraste era comum:
Tivemos que beber do mesmo pranto.

domingo, 19 de janeiro de 2014

POETAS & MAÇONS - BOCAGE

Maçon num tempo em que a maçonaria ganhava grande popularidade entre as elites portuguesas, Bocage anunciou com o seu coração de poeta os primeiros alvores do romantismo, propagando os ideais fde liberdade, igualdade e fraternidade, saídos da Revolução Francesa, e que tão caros foram aos maçons de todo o mundo.


MANUEL MARIA BARBOSA DU BOCAGE (1765 – 1805)


ASPIRAÇÕES DO LIBERALISMO, EXCITADAS PELA REVOLUÇÃO FRANCESA, E CONSOLIDAÇÃO DA REPÚBLICA EM 1797

Liberdade, onde estás? Quem te demora?
Quem faz que o teu influxo em nós não caia?
Porque (triste de mim)! porque não raia
Já na esfera de Lísia a tua aurora?

De santa redenção é vinda a hora
A esta parte do mundo, que desmaia:
Oh! Venha... Oh! Venha, e trémulo descaia
Despotismo feroz, que nos devora!

Eia! Acode ao mortal, que frio e mudo
Oculta o pátrio amor, torce a vontade,
E em fingir, por temor, empenha estudo:

Movam nossos grilhões tua piedade;
Nosso numen tu és, e glória, e tudo,
Mãe do génio e prazer, oh Liberdade!

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

POETAS & MAÇONS - TEIXEIRA DE PASCOAES

Continuando a visita por poetas que eram simultaneamente maçons, teixeira de pascoaes com o seu lirismo cheio de uma espiritualidade telúrica.



TEIXEIRA DE PASCOAES (1877-1952)


OS MEUS OLHOS E UMA PEDRA

Porque é que vós, meus olhos, de repente,
Comovidos, ficais, a contemplar
Uma pedra qualquer, se toda a gente
Era incapaz de nela reparar?

Uma pedra gelada, inconsciente,
Que nada vê; mas vosso claro olhar
Cobre-a de tal ternura, que ela sente
Como um calor de vida a despontar...

E uma oculta visão misteriosa
Transparece na pedra, que, medrosa,
Avista um indeciso nevoeiro...

Ah, foi decerto assim que a luz dos céus,
A luz que vem do Sol e vem de Deus,
Ergueu da terra, um dia, o ser primeiro!

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

POETAS & MAÇONS - ANTERO DE QUENTAL

Foram muitos os poetas maçons ou os maçons poetas. Cito alguns:

Marquesa de Alorna
Bocage
Filinto Elísio
Almeida Garrett
Camilo Castelo Branco
Feliciano de Castilho
Antero de Quental
Jaime Cortesão
Teixeira de Pascoais
Camilo Pessanha
Vitorino Nemésio
José Gomes Ferreira

Para muitos será surpreendente esta lista a que há que acrescentar Fernando Pessoa que não deixando qualquer evidência sobre a sua eventual iniciação e participação nalguma Loja Maçónica concreta, era um maçon de convicção e vasta cultura maçónica como o atestam os muitos textos e poemas onde essa cultura circula, nomeadamente a famosa carta a Salazar em que fortemente contesta a proibição da Ordem Maçónica.

Sabemos que é muito diverso o grau de empenhamento no trabalho maçónico destes poetas. Alguns dedicaram-lhe de alma e coração parte importante das suas vidas. Outros não terão passado da Iniciação ou pouco mais.

Vou trazer para aqui alguns poemas, tentando entender o que é que pode haver de comum entre a condição do poeta e a do maçon.


ANTERO DE QUENTAL (1842 – 1891)



MAIS LUZ !



Amem a noite os magros crapulosos,
E os que sonham com virgens impossíveis,
E os que se inclinam, mudos e impassíveis,
À borda dos abismos silenciosos...

Tu, lua, com teus raios vaporosos,
Cobre-os, tapa-os e torna-os insensíveis,
Tanto aos vícios cruéis e inextinguíveis,
Como aos longos cuidados dolorosos!

Eu amarei a santa madrugada,
E o meio-dia, em vida refervendo,
E a tarde rumorosa e repousada.

Viva e trabalhe em plena luz: depois,
Seja-me dado ainda ver, morrendo,
O claro sol, amigo dos heróis!

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

BOM ANO NOVO ATRASADO MAS SINCERO

Há coisas assim, Em forma de assim. Esta era a mensagem que eu queria ter enviado no dia 1. Ficou no tinteiro, mas cá vai, atrasada mas vai.

Para trazer de novo a Teresa Rita Lopes a dar notícia da luz dos seus olhos e da dança das palavras na ponta do seu lápis.

Poesia também é isto: dar notícias. Notícias de um perfume, de uma imagem, de uma mão, de um Ano que começa.

Bom Ano para todos

BOM ANO NOVO!


Muito quietinhos
e muito quentinhos
(os que têm com
que fazer calor)
os portuguesinhos
votam – coitadinhos!
por um Ano Novo
de paz e amor!

Até Dona Merckel
baixa o tom de voz
até à compaixão
pra falar de nós
na televisão.
Ela sabe bem
que no ano que vem
será o funeral
do jardim plantado
à beira do mar
- “pais adiado
à procura de vez”
dizia o O’Neill
poeta português
que lembrou também :
“Neste país em diminutivo
respeitinho é que é preciso!”

Só que nesse então
tínhamos o azar
de ter Salazar
.como nosso algoz.
Agora já não
mora cá na terra
o nosso patrão
mas tem cá um cão
por sinal feroz
que cuida de nós
isto é, um governo
com a vocação
de meter a mão
no bolso dos pobres
que dos ricos não!
A nossa nação
respeita o ladrão
de mais de um milhão!
Se for de um tostão
vai para a prisão.

Que ricos que somos
De rimas em –ão!
Nosso Portugal
nisso é campeão!
Pena que não sirvam
para exportação
que assim nossa crise
tinha solução!

Teresa Rita Lopes

domingo, 5 de janeiro de 2014

OS POETAS DE QUEM NÃO SE FALA MUITO

A poesia tem modas Há poetas de quem fica bem falar-se e ter-se opiniões definitivas em certos locais e em certas páginas de jornal mesmo quando não se leu a sua obra.

Eu gosto de lembrar os poetas de quem não se fala muito. Poetas. Sabem, meus amigos, o que são poetas? Gente perigosa. gente que cabe mal nos fatos por medida.

Este é um dos poetas de que se fala muito pouco e de que eu gosto de lembrar.


A PULGA

Um ponto somente
é este animal
que pouco se vê
e muito se sente.

E a gente não gosta
da pulga.
Porquê?
A pulga,
afinal,
só de animais gosta
e gosta
da gente.

A gente que o diga…
Gosta, morde e pica.
Mas que rica
amiga!
Pica
por ser má?
Pica
por prazer?
Lá prazer terá,
sabe-se isso bem…
mas, se a pulga
pica,
é para comer,
não mata ninguém.

O pobre animal
precisa de sangue…
Mas é natural
que a gente se zangue.

Quem dera apanhá-la,
mordê-la,
pisá-la!

Vai a gente ver
e ela
já se foi…
e sempre a morder.

Será que ela
julga
que aquilo não dói?

E assim é a pulga:
maluca, malvada,
mas tão pequenina,
ladina e rabina,
que a acho engraçada.

Leonel Neves, “O elefante e a pulga”, Livros Horizonte