PAI
(Sobre uma escultura de João Cutlieiro)
“Aos 16 anos uma pessoa ainda pensa que pode fugir ao pai.”
Salman Rushdie
Busco um pai ausente aqui,
na pedra,
na severa e segura presença
da pedra,
um pai de pedra,
um chão de onde partir.
Busco duas asas de granito
vigiando o descaminho
dos meus passos,
duas asas ou um pai
de pedra erecta e justa,
resistindo eternamente
ao trabalho da ferrugem.
Busco a profissão do guerreiro
grávido de fé e de furor.
Busco à beira-mar
um pai de pedra
onde possa descansar
a febre do olhar.
Busco um fio de prumo,
um pai definitivo
amável e bondoso
surgindo vertical
do puro espanto da terra.
sábado, 21 de junho de 2014
quarta-feira, 18 de junho de 2014
LABIRINTO
LABIRINTO
(Sobre uma gravura de Bartolomeu Cid dos Santos)
“Sabemos agora que não é necessário que os átomos tenham um objectivo.”
Umberto Eco, “A linha e o labirinto”
Vou fazer um labirinto
no outro lado da lua.
Com palavras ou pedras
ou nuvens ou fios de lã.
Tenho de fazer um labirinto
para lá da esquina do vento.
Um labirinto entre o céu e a terra
onde alguém tropece
no cheiro quente
das castanhas em Outubro.
É urgente construir um labirinto
em Outubro ou em Fevereiro.
Um labirinto onde a lua
em cada noite se tinja
de um vermelho escandaloso.
Tenho de inventar a geometria
sem fuga nem distância.
Tenho de fazer acontecer um labirinto.
E soltar o touro essencial.
E acender o olho do falcão.
E rasgar a carne até ouvir
na cor do sangue
a flauta de Mozart.
Tenho de inventar um labirinto,
o lugar onde venha, porventura,
a encontrar-me um dia com todos os que amo,
filhos ou amigos,
pássaros felizes sobre o mar.
´
(Sobre uma gravura de Bartolomeu Cid dos Santos)
“Sabemos agora que não é necessário que os átomos tenham um objectivo.”
Umberto Eco, “A linha e o labirinto”
Vou fazer um labirinto
no outro lado da lua.
Com palavras ou pedras
ou nuvens ou fios de lã.
Tenho de fazer um labirinto
para lá da esquina do vento.
Um labirinto entre o céu e a terra
onde alguém tropece
no cheiro quente
das castanhas em Outubro.
É urgente construir um labirinto
em Outubro ou em Fevereiro.
Um labirinto onde a lua
em cada noite se tinja
de um vermelho escandaloso.
Tenho de inventar a geometria
sem fuga nem distância.
Tenho de fazer acontecer um labirinto.
E soltar o touro essencial.
E acender o olho do falcão.
E rasgar a carne até ouvir
na cor do sangue
a flauta de Mozart.
Tenho de inventar um labirinto,
o lugar onde venha, porventura,
a encontrar-me um dia com todos os que amo,
filhos ou amigos,
pássaros felizes sobre o mar.
´
domingo, 15 de junho de 2014
A CABEÇA DOS PINTORES
A CABEÇA DOS PINTORES
(Sobre pinturas de Cruzeiro Seixas)
“Põe a ordem no seu lugar, desarruma as pedras da estrada.”
André Breton e Paul Éluard
Abre a porta. Entra.
Ouve pela última vez
o aviso asséptico dos homens
sem espinhos nos olhos
nem rosas no coração.
Ouviste? Apesar de tudo vais entrar?
Estás tomado pelo vírus do sangue
e da loucura dos cavalos.
Já não há marcha atrás.
É aqui que começa o céu
e o inferno.
Anda ver.
Na cabeça dos pintores
voam aves amputadas
da brancura imaculada
dos seus sonhos verticais.
Aves doidas aves mansas
que deixam enferrujar
as garras com que rasgaram
a seda do firmamento.
Anda ver este mar que te anuncia
barcos de cal corroída
na cabeça dos pintores!
E não tremas! Não te enganes!
Tu abriste a porta dos mistérios.
Não podes voltar atrás.
Deixa aqui a tua pele e o que resta do tecido
de uma inocência maior.
Tu estás perdido para sempre.
Só te resta mergulhar.
Na cabeça dos pintores
crescem cidades nocturnas
como ausências preenchidas
por restos maravilhosos
da refeição dos chacais!
E em cada esquina descansam
ossaturas descarnadas
dos construtores de ruínas.
E as palavras ficam nuas
sem ter onde germinar.
Na cabeça dos pintores
um touro desembolado
a cuspir um sangue negro
avança no seu martírio
às cinco da tarde em ponto.
E os circos trazem bandejas
onde vêm oferecer
a morte da mágoa verde
ao vício das gargalhadas.
E as bocas pedindo amor
arrastam algas ao vento
à porta das catedrais
nos domingos de manhã.
Na cabeça dos pintores
os odores alaranjados
entregam-se intensamente
ao gozo das oliveiras.
E as mãos negras dos ceifeiros
sob um sol abrasador
semeiam bocas gretadas
nos campos rasos do Sul.
E a água que vem de Deus
acende solenemente
um fogo imenso no céu.
Na cabeça dos pintores
as esferas enlouquecem
dissolvidas lentamente
no suave despotismo
das areias dos desertos.
E ao vento voam crianças
e mantilhas sevilhanas.
E os beduínos caminham
no sentido inverso aos olhos
dispersos pelas lixeiras.
Na cabeça dos pintores
há cães que transpiram cores
e uma música calcária
vai pingando sobre os ossos.
E há navalhas competentes
desenhando cuidadosos
arquipélagos de sangue.
E uma planta tropical
devora virgens cantando.
E os fantasmas insepultos
vêm levar-nos pela mão
a uma sala de cinema
onde os anjos se apagaram.
Anda ver e ver e ver
como tudo pode arder
e nascer e renascer
na geografia de guelras
da cabeça dos pintores!
(De "Marinheiro de outras liuas", a publicar)
(Sobre pinturas de Cruzeiro Seixas)
“Põe a ordem no seu lugar, desarruma as pedras da estrada.”
André Breton e Paul Éluard
Abre a porta. Entra.
Ouve pela última vez
o aviso asséptico dos homens
sem espinhos nos olhos
nem rosas no coração.
Ouviste? Apesar de tudo vais entrar?
Estás tomado pelo vírus do sangue
e da loucura dos cavalos.
Já não há marcha atrás.
É aqui que começa o céu
e o inferno.
Anda ver.
Na cabeça dos pintores
voam aves amputadas
da brancura imaculada
dos seus sonhos verticais.
Aves doidas aves mansas
que deixam enferrujar
as garras com que rasgaram
a seda do firmamento.
Anda ver este mar que te anuncia
barcos de cal corroída
na cabeça dos pintores!
E não tremas! Não te enganes!
Tu abriste a porta dos mistérios.
Não podes voltar atrás.
Deixa aqui a tua pele e o que resta do tecido
de uma inocência maior.
Tu estás perdido para sempre.
Só te resta mergulhar.
Na cabeça dos pintores
crescem cidades nocturnas
como ausências preenchidas
por restos maravilhosos
da refeição dos chacais!
E em cada esquina descansam
ossaturas descarnadas
dos construtores de ruínas.
E as palavras ficam nuas
sem ter onde germinar.
Na cabeça dos pintores
um touro desembolado
a cuspir um sangue negro
avança no seu martírio
às cinco da tarde em ponto.
E os circos trazem bandejas
onde vêm oferecer
a morte da mágoa verde
ao vício das gargalhadas.
E as bocas pedindo amor
arrastam algas ao vento
à porta das catedrais
nos domingos de manhã.
Na cabeça dos pintores
os odores alaranjados
entregam-se intensamente
ao gozo das oliveiras.
E as mãos negras dos ceifeiros
sob um sol abrasador
semeiam bocas gretadas
nos campos rasos do Sul.
E a água que vem de Deus
acende solenemente
um fogo imenso no céu.
Na cabeça dos pintores
as esferas enlouquecem
dissolvidas lentamente
no suave despotismo
das areias dos desertos.
E ao vento voam crianças
e mantilhas sevilhanas.
E os beduínos caminham
no sentido inverso aos olhos
dispersos pelas lixeiras.
Na cabeça dos pintores
há cães que transpiram cores
e uma música calcária
vai pingando sobre os ossos.
E há navalhas competentes
desenhando cuidadosos
arquipélagos de sangue.
E uma planta tropical
devora virgens cantando.
E os fantasmas insepultos
vêm levar-nos pela mão
a uma sala de cinema
onde os anjos se apagaram.
Anda ver e ver e ver
como tudo pode arder
e nascer e renascer
na geografia de guelras
da cabeça dos pintores!
(De "Marinheiro de outras liuas", a publicar)
sábado, 7 de junho de 2014
BRANCO
BRANCO
(Sobre desenhos de Lagoa Henriques)
Branco é o oceano a beijar os pés da deusa.
Branco o meu olhar caminhando
por ruas onde o peixe vem dizer bom dia
ao meu país.
Branco o arrepio a concha
o búzio.
E a sombra branca do sol
E o fruto sumarento do amor.
Branco é o meu ofício
em frente à pedra ou à palavra,
branco o meu destino branco
entregue à brisa quente
das noites brancas de Junho.
No entanto
devo confessar
que muitas vezes me vesti
de ferro e grito
quando o céu se turvava
de adagas afiadas
e metais sombrios.
Respondi à chamada urgente
de lilases dolorosos
de escarlates abrasivos
de vermelhos palpitantes
de magentas arrancados ao choro dos vulcões.
Aprendi como é indispensável
esconder dentro do peito
os atavios da doçura
quando as botas cardadas
vêm esmagar as nuvens
e a fome acampa
sobre os ombros de esqueletos reduzidos
e o sangue de crianças se mistura
à brasa do fim do dia
Sei também
sei intensamente
que é preciso alguém
que em cada dia
levante o branco e diga o branco
e cante o branco e vista de branco o coração.
Alguém de terra.
Alguém de mar.
Alguém marinheiro de mistérios transparentes.
Alguém que derrame sobre o branco de uma pedra
a sua enorme e branca comoção.
(De "Marinheiro de outras luas" a sair em breve)
(Sobre desenhos de Lagoa Henriques)
Branco é o oceano a beijar os pés da deusa.
Branco o meu olhar caminhando
por ruas onde o peixe vem dizer bom dia
ao meu país.
Branco o arrepio a concha
o búzio.
E a sombra branca do sol
E o fruto sumarento do amor.
Branco é o meu ofício
em frente à pedra ou à palavra,
branco o meu destino branco
entregue à brisa quente
das noites brancas de Junho.
No entanto
devo confessar
que muitas vezes me vesti
de ferro e grito
quando o céu se turvava
de adagas afiadas
e metais sombrios.
Respondi à chamada urgente
de lilases dolorosos
de escarlates abrasivos
de vermelhos palpitantes
de magentas arrancados ao choro dos vulcões.
Aprendi como é indispensável
esconder dentro do peito
os atavios da doçura
quando as botas cardadas
vêm esmagar as nuvens
e a fome acampa
sobre os ombros de esqueletos reduzidos
e o sangue de crianças se mistura
à brasa do fim do dia
Sei também
sei intensamente
que é preciso alguém
que em cada dia
levante o branco e diga o branco
e cante o branco e vista de branco o coração.
Alguém de terra.
Alguém de mar.
Alguém marinheiro de mistérios transparentes.
Alguém que derrame sobre o branco de uma pedra
a sua enorme e branca comoção.
(De "Marinheiro de outras luas" a sair em breve)
quarta-feira, 4 de junho de 2014
DESOLAÇÃO
DESOLAÇÃO
(Sobre uma pintura de Dominguez Alvarez)
Não tenho nada mais a acrescentar
a estas cores.
Nem gente, nem ladrar de cães.
A severa paisagem não pede mais palavras.
Nada mexe.
Apenas a brisa leve despenteia
a imutável cabeleira
deste tempo esguio.
A dor aqui é dura
e a nuvem cinzenta ´
como se houvera nascido
de uma lareira apagada.
Os sinos desolados
não se cansam de bater
nas faldas da serrania
e varrer
as paredes ora frias
do meu peito.
(Sobre uma pintura de Dominguez Alvarez)
Não tenho nada mais a acrescentar
a estas cores.
Nem gente, nem ladrar de cães.
A severa paisagem não pede mais palavras.
Nada mexe.
Apenas a brisa leve despenteia
a imutável cabeleira
deste tempo esguio.
A dor aqui é dura
e a nuvem cinzenta ´
como se houvera nascido
de uma lareira apagada.
Os sinos desolados
não se cansam de bater
nas faldas da serrania
e varrer
as paredes ora frias
do meu peito.
sábado, 31 de maio de 2014
O TIGRE
O TIGRE
(Sobre uma pintura de Júlio Pomar)
“… este é um sonho, uma pura diversão da minha vontade e, já que tenho um poder ilimitado, vou causar um tigre.”
Jorge Luís Borges
Posso causar um tigre.
E dizer um tigre.
E como Borges posso
abrir a cegueira ao tigre.
Vem, tigre.
Esta casa não é só a minha selva.
Aqui podes rugir
e experimentar a cor.
Aqui podes fugir ao destino
com que a nossa mãe natura
te aprisionou a pele às grades.
Aqui poderás para sempre
ser apenas tigre.
Sumptuosa faísca a rasgar a noite.
Raio
relâmpago fendendo o ar
arco voltaico
curva eléctrica
pássaro de tinta
cálice de pura geometria
em cada salto.
(De "Marinheiro de outras luas" a sair em breve)
(Sobre uma pintura de Júlio Pomar)
“… este é um sonho, uma pura diversão da minha vontade e, já que tenho um poder ilimitado, vou causar um tigre.”
Jorge Luís Borges
Posso causar um tigre.
E dizer um tigre.
E como Borges posso
abrir a cegueira ao tigre.
Vem, tigre.
Esta casa não é só a minha selva.
Aqui podes rugir
e experimentar a cor.
Aqui podes fugir ao destino
com que a nossa mãe natura
te aprisionou a pele às grades.
Aqui poderás para sempre
ser apenas tigre.
Sumptuosa faísca a rasgar a noite.
Raio
relâmpago fendendo o ar
arco voltaico
curva eléctrica
pássaro de tinta
cálice de pura geometria
em cada salto.
(De "Marinheiro de outras luas" a sair em breve)
quarta-feira, 28 de maio de 2014
AS COISAS SIMPLES
AS COISAS SIMPLES
(Sobre pinturas de Nuno de San Payo)
Gosto das coisas sólidas. Sem brilho.
Coisas de linho ou de pedra
desmesuradamente agarradas ao chão.
Gosto das coisas brancas
lavadas pelo ar fresco da manhã
e varridas pela memória recente
da espuma, do sal ou da gaivota.
Coisas simples e serenas:
o pão quente e farto, o café tomado em família,
as meninas chilreando sobre a relva
ao sol da primavera.
Gosto da música suave que,
quase sem de si nos dar presença,
se desprende levemente
de uma flor irrepetível.
Gosto dos pequenos gestos,
os simples, tranquilos e altivos gestos.
Gosto de saber que essa altivez
transporta um incêndio discreto,
um canto de alaúde, um perfume de alfazema.
Gosto das coisas simples, sólidas serenas:
um momento de obscura comoção, um resto de luz
a estender-se na mesa,
a folha de jornal já lido que se desprende e vai
na desmedida ambição
de se tornar borboleta.
José Fanha
(de "Marinheiro de outras luas", a publicar)
(Sobre pinturas de Nuno de San Payo)
Gosto das coisas sólidas. Sem brilho.
Coisas de linho ou de pedra
desmesuradamente agarradas ao chão.
Gosto das coisas brancas
lavadas pelo ar fresco da manhã
e varridas pela memória recente
da espuma, do sal ou da gaivota.
Coisas simples e serenas:
o pão quente e farto, o café tomado em família,
as meninas chilreando sobre a relva
ao sol da primavera.
Gosto da música suave que,
quase sem de si nos dar presença,
se desprende levemente
de uma flor irrepetível.
Gosto dos pequenos gestos,
os simples, tranquilos e altivos gestos.
Gosto de saber que essa altivez
transporta um incêndio discreto,
um canto de alaúde, um perfume de alfazema.
Gosto das coisas simples, sólidas serenas:
um momento de obscura comoção, um resto de luz
a estender-se na mesa,
a folha de jornal já lido que se desprende e vai
na desmedida ambição
de se tornar borboleta.
José Fanha
(de "Marinheiro de outras luas", a publicar)
domingo, 25 de maio de 2014
AZUL
AZUL
(Sobre uma pintura de Pedro Chorão)
Falei, falo, falarei
de um tempo azul, um tempo transparente,
um tempo de traineiras cheias de alegria e prata.
Falei, falo, falarei
de um tempo de telhados preguiçosos,
um tempo obsessivamente azul
com a Primavera a pousar
no tímido suspiro das rosas
pela manhã.
Aprendo uma e outra vez
como é diferente o tempo azul em cada idade,
em cada inquietação,
em cada tempo.
Relembro
o carrossel de todos os azuis,
nos rasgões da herança sonâmbula
que os deuses deixam
a quem queira desvendar os caminhos obscuros
desta vida.
Relembro o primeiro azul na cicatriz polar,
o índigo com seu corpo de caju e peixe seco,
o azul dos meus 6 anos na ilha de todos os piratas,
o azul Neruda, Ilha Negra, Patagónia,
o altivo e frio azul
no rosto de porcelana
das dinastias chinesas.
E o triste, o negro azul
das plantações de algodão.
E o mentiroso azul argentino,
escondendo em si o tango que é vermelho,
feito de veludo ou vinho
ou sangue coalhado.
Cada azul acorda vestido de outras sedas.
Cada azul carrega seu navio, seu mar, seu sonho,
seu cardume de espigas e searas,
sua pequena azeitona no bolso do coração.
De todos os azuis que visitei
guardo no mais doce da lembrança
o azul dos rodapés das casas alentejanas,
o azul da digna respiração das casas alentejanas,
o azul com que as casas alentejanas
oferecem, em cada sombra, um mar inventado
à dolorosa secura do chão.
José Fanha
(DE "Marinheiro de outras luas", a publicar)
(Pintura de Pedro Chorão)
(Sobre uma pintura de Pedro Chorão)
Falei, falo, falarei
de um tempo azul, um tempo transparente,
um tempo de traineiras cheias de alegria e prata.
Falei, falo, falarei
de um tempo de telhados preguiçosos,
um tempo obsessivamente azul
com a Primavera a pousar
no tímido suspiro das rosas
pela manhã.
Aprendo uma e outra vez
como é diferente o tempo azul em cada idade,
em cada inquietação,
em cada tempo.
Relembro
o carrossel de todos os azuis,
nos rasgões da herança sonâmbula
que os deuses deixam
a quem queira desvendar os caminhos obscuros
desta vida.
Relembro o primeiro azul na cicatriz polar,
o índigo com seu corpo de caju e peixe seco,
o azul dos meus 6 anos na ilha de todos os piratas,
o azul Neruda, Ilha Negra, Patagónia,
o altivo e frio azul
no rosto de porcelana
das dinastias chinesas.
E o triste, o negro azul
das plantações de algodão.
E o mentiroso azul argentino,
escondendo em si o tango que é vermelho,
feito de veludo ou vinho
ou sangue coalhado.
Cada azul acorda vestido de outras sedas.
Cada azul carrega seu navio, seu mar, seu sonho,
seu cardume de espigas e searas,
sua pequena azeitona no bolso do coração.
De todos os azuis que visitei
guardo no mais doce da lembrança
o azul dos rodapés das casas alentejanas,
o azul da digna respiração das casas alentejanas,
o azul com que as casas alentejanas
oferecem, em cada sombra, um mar inventado
à dolorosa secura do chão.
José Fanha
(DE "Marinheiro de outras luas", a publicar)
(Pintura de Pedro Chorão)
quinta-feira, 15 de maio de 2014
SERRA DA LUA
SERRA DA LUA
Sou exactamente como o vento
um homem que nascesse
do húmus do poema
ou de um ninho de pedras
e subisse até ao alto
sobre um chão de sombras e sussurros.
Sou um homem
que pára passo a passo em cada verde irmão
e toca o tronco de ciprestes e abetos
castanheiros
para ouvir nas suas verdes veias
o som da sílaba que voa
na breve respiração do mundo.
Serei um dia como eles
vegetal ou mineral
mas hoje sou um homem que caminha
com braços de vento
um homem a subir a Serra
com um saco onde recolhe silêncios e cristais
e o bater de asas das mais pequenas aves
e as gotas inquietas de uma luz envergonhada.
Sou um homem
que juntando tudo e nada
no ofício do olhar
vai traçando uma palavra e outra e outra
uma música redonda e circular
um delírio de águas
a descer para cima até ao alto
muito para lá das brumas
que vêm engolir telhados e janelas
e apagar castelos
palácios
e vaidades.´
Sou um homem
que depois de todo o chão
ainda sobe
através do ar puro e prateado.
Um homem
ou um vento feito de sonhos
de ossos
nervos
e de incertos passos.
Um homem
que vai para lá da Serra
e sobe até tocar
a lua branca
a grande mãe
a forja de todos os mistérios
que habitam o nosso sangue.
José Fanha
segunda-feira, 12 de maio de 2014
ERRÂNCIA
ERRÂNCIA
Tu que nasces hoje ou amanhã,
António ou Manuel
ou seja qual for o nome
de vento
que em lusa língua te for dado,
serás marcado
com o ferrete da distância.
Seja o teu olhar de barro ou de granito,
buscarás para sempre
a estrela ou a palavra
que te entregue o corpo ao mar.
Aí acenderás o lume e serás abandonado
à tua condição de viajante,
trabalhando eternamente
sobre os mapas justos e perfeitos
onde se traçam as rotas para chegar
à mais bela de todas as ilhas inexistentes.
José Fanha
(Pintura de Lima de Freitas)
Tu que nasces hoje ou amanhã,
António ou Manuel
ou seja qual for o nome
de vento
que em lusa língua te for dado,
serás marcado
com o ferrete da distância.
Seja o teu olhar de barro ou de granito,
buscarás para sempre
a estrela ou a palavra
que te entregue o corpo ao mar.
Aí acenderás o lume e serás abandonado
à tua condição de viajante,
trabalhando eternamente
sobre os mapas justos e perfeitos
onde se traçam as rotas para chegar
à mais bela de todas as ilhas inexistentes.
José Fanha
(Pintura de Lima de Freitas)
sábado, 10 de maio de 2014
UM POEMA PARA ESCREVER
UM POEMA PARA ESCREVER
Tenho um poema para escrever
à sombra de um salgueiro.
Um poema
um comboio de memórias
que me sai dos olhos
a caminho da estação da luz.
Tenho um poema para escrever
e uma mão para escrevê-lo.
Um poema,
rosa, peixe ou ave,
um poema
um rio de palavras
que me una
ao palpitante coração da terra.
José Fanha
Tenho um poema para escrever
à sombra de um salgueiro.
Um poema
um comboio de memórias
que me sai dos olhos
a caminho da estação da luz.
Tenho um poema para escrever
e uma mão para escrevê-lo.
Um poema,
rosa, peixe ou ave,
um poema
um rio de palavras
que me una
ao palpitante coração da terra.
José Fanha
quarta-feira, 7 de maio de 2014
EU NESSE TEMPO
EU NESSE TEMPO
Eu nesse tempo voava
tanto quanto me permito recordar.
Coleccionava bonecos
e cromos para colar
e mitos
e voava no espaço da sala
evitando sair pela janela.
O mundo era enorme
terrível
e eu voava.
Ainda hoje por vezes
a horas mortas
abraço o ar
e dou comigo a voar
afastado dos caminhos
para que não digam que as asas
são apenas ornamento
José Fanha
(Autor desconhecido)
Eu nesse tempo voava
tanto quanto me permito recordar.
Coleccionava bonecos
e cromos para colar
e mitos
e voava no espaço da sala
evitando sair pela janela.
O mundo era enorme
terrível
e eu voava.
Ainda hoje por vezes
a horas mortas
abraço o ar
e dou comigo a voar
afastado dos caminhos
para que não digam que as asas
são apenas ornamento
José Fanha
(Autor desconhecido)
segunda-feira, 5 de maio de 2014
sexta-feira, 25 de abril de 2014
quinta-feira, 24 de abril de 2014
25 DE ABRIL - POEMA DE PARABÉNS
POEMA DE PARABÉNS
- a quem, pelos 40 anos do 25 de Abril?
A ti, que como eu sofreste na pele
a orfandade da pátria
de acordar todos os dias
sem o seu colo materno
por mais pobre que fosse
sem o seu céu claro embora carregado
de ameaças.
A ti sobretudo que comeste o duro pão
da prisão
e a injúria de ser batido e humilhado
e impedido de dormir e até de te sentares no chão
desses dias sórdidos em que vomitavas
confissões até de coisas nunca acontecidas
para que deixassem o teu pobre corpo
se acoitar no sono.
A ti também, anónimo filho desta terra que então
ainda tinha aldeias e campos semeados
e rebanhos pastando e moinhos moendo
e pescadores pescando.
(Compraram-te o barco para não pescares mais
a enxada para deixares de cavar
o moinho para deixares de moer
e largaram-te errante
no campo de refugiados em que esta terra
se tornou
para que os ricos façam os seus ricos
negócios
no monumental casino que é o mundo
dos que mandam no mundo.)
Vivias de tão pouco
homem pré-histórico
de antes do 25 de Abril
moirejando
do nascer ao pôr do Sol
mas vivo filho da Vida
com um lugar nesta terra e no mundo.
Um dia recebeste e carregaste o caixão
e o luto do filho morto em combate
lá nessas longínquas áfricas
de que só para tua desgraça ouviste falar.
Parabéns ah sim a ti também! que abalaste a salto
para a estranja
que viveste em bidonviles
atolado em lama e tristeza
a trabalhar mais duro ainda do que na tua aldeia
mas mantendo o hábito de assobiar durante a faina.
Parabéns também a ti
filho desses párias
a ter vergonha de dizer na escola onde moravas
e que língua falavas
e a ti também a ti a da mala de cartão
a emigrar como os homens para ganhar o pão dos filhos
sem pai
a todos vós a todos nós
parabéns!
Os cravos da nossa Liberdade continuam símbolos
mas não deram fruto!
Todas as flores deviam frutificar
não servir apenas para enfeitar e cheirar bem!
Os nossos cravos tornaram-se mortos símbolos
de uma liberdade precária
que a história regista!
Os Capitães de Abril são
para os mais novos
jovens heróis de lenda
como o Homem Aranha!
Envelhecemos, nós, os que vivemos esses dias
essas mágoas, opressões e alegrias!
As imagens que temos desse tempo são fotografias
a preto e branco
por isso mais intensas!
Mas a nostalgia não compensa:
O elo que nos une quando digo Nós
o que é? Uma bandeira? Um mapa? Uma bola
de futebol?
O balbuciar de uma língua?
Que testemunho passar aos jovens que nos perguntam
o que foi o 25 de Abril?
Que casa é esta que lhes faz de lar?
Que futuro lhes preparamos?
Que herança lhes legamos?
Que família somos nós?
Deixamos impunes os gatunos domésticos
que metem ao bolso os nossos pobres cobres!
E aceitamos
de braços caídos
a derrota perante a Finança Internacional
- esse Dragão das mil cabeças que governa o mundo.
Que Nós é este que nos faz de pátria?
Que Nós é este que nos faz de Mundo?
Teresa Rita Lopes
quarta-feira, 23 de abril de 2014
SÉRGIO GODINHO OS VAMPIROS
Há coisas que nascem perfeitas. A colher, por exemplo. Diz o Unberto Eco, e creio que tem razão, que é um objecto com milhares de anos que nunca sofreu alteração desde que foi inventada. Nasceu perfeita Para comer a sopa não tem alternativa.
Há cações que também parecem nascer perfeitas. Não admitem outras versões, outras tonalidades, outros arranjos.
Para mim era o caso de "OS VAMPIROS", a actualíssima canção do Zeca Afonso No entanto, o talento do Sérgio Godinho deu origem a uma nova, fortíssima e emocionante nova versão.
Precisamos de voltar a chamar os bois pelos nomes. Os bois, quer dizer, os vampiros que assolam o nosso país.
Há cações que também parecem nascer perfeitas. Não admitem outras versões, outras tonalidades, outros arranjos.
Para mim era o caso de "OS VAMPIROS", a actualíssima canção do Zeca Afonso No entanto, o talento do Sérgio Godinho deu origem a uma nova, fortíssima e emocionante nova versão.
Precisamos de voltar a chamar os bois pelos nomes. Os bois, quer dizer, os vampiros que assolam o nosso país.
segunda-feira, 21 de abril de 2014
CALAI-VOS QUE PODE O POVO...
António Aleixo foi cantado antes, durante e, de novo, depois de Abril. É uma luz na poesia portuguesa. Uma luz que acende a palavra liberdade.
Há tantos burros mandando
Em homens de inteligência,
Que às vezes fico pensando
Que a burrice e uma ciência!
Engraxadores sem caixa
Há aos centos na cidade
Que só usam da tal graxa
Que envenena a sociedade
Vós que lá do vosso império
Prometeis um mundo novo
Calai-vos, que pode o povo
Querer um mundo novo a sério.
Há tantos burros mandando
Em homens de inteligência,
Que às vezes fico pensando
Que a burrice e uma ciência!
Engraxadores sem caixa
Há aos centos na cidade
Que só usam da tal graxa
Que envenena a sociedade
Vós que lá do vosso império
Prometeis um mundo novo
Calai-vos, que pode o povo
Querer um mundo novo a sério.
sábado, 19 de abril de 2014
NÃO VERGUES O DORSO
João Apolinário foi um destacado militante anti-fascista tanto em Portugal como no Brasil onde se exilou.
Os seus poemas mais conhecidos foram musicados pelo filho João Ricardo e gravados pelos famosos SECOS e MOLHADOS onde começou também Ney Matogrosso.
Este poema creio ser inédito e foi-me dado a conhecer pelo meu amigo Adelino Castro, editor da lÁPIS DE MEMÓRIA.
POEMA
Não vergues o dorso
não estendas a mão
não faças o esforço
da tua razão
Recusa esse preço
confere a balança
e pesa do avesso
o avesso da esperança.
O valor que te dão
pela venda - rejeita -
é a troca de um grão
por toda a colheita
A moeda corrente
só terá valor
se incluir a semente
e dividir a flor.
(1961)
Os seus poemas mais conhecidos foram musicados pelo filho João Ricardo e gravados pelos famosos SECOS e MOLHADOS onde começou também Ney Matogrosso.
Este poema creio ser inédito e foi-me dado a conhecer pelo meu amigo Adelino Castro, editor da lÁPIS DE MEMÓRIA.
POEMA
Não vergues o dorso
não estendas a mão
não faças o esforço
da tua razão
Recusa esse preço
confere a balança
e pesa do avesso
o avesso da esperança.
O valor que te dão
pela venda - rejeita -
é a troca de um grão
por toda a colheita
A moeda corrente
só terá valor
se incluir a semente
e dividir a flor.
(1961)
quinta-feira, 17 de abril de 2014
COISAS QUE NÃO HÁ QUE HÁ
O Manuel António Pina escreveu alguns dos mais deliciosos textos e poemas para a infância. "Gigões & anantes", "OTêpluquê" e vários outros.
Era um grande poeta. E um homem de bem. Publicou um livro de poesia para meninos. Talvez não só para meninos. Poemas para gente capaz de se encantar com a maravilha das palavras quando são bem tratadas. "O PÁSSARO NA CABEÇA". É obrigatorio em todas as casas, em todas as bibliotecas, em todos os cantos onde se faça viver a poesia
COISAS QUE NÃO HÁ QUE HÁ
Uma coisa que me põe triste
é que não exista o que não existe
(Se é que não existe, e isto é que existe!)
Há tantas coisas bonitas que não há:
coisas que não há, gente que não há,
bichos que já houve e já não há,
livros por ler, coisas por ver,
feitos desfeitos, outros feitos por fazer,
pessoas tão boas ainda por nascer
e outras que morreram há tanto tempo!
Tantas lembranças de que não me lembro,
sítios que não sei, invenções que não invento,
gente de vidro e de vento, países por achar,
paisagens, plantas, jardins de ar,
tudo o que eu nem posso imaginar
porque se o imaginasse já existia
embora num lugar onde só eu via...
terça-feira, 15 de abril de 2014
EM ALCÁCER ERAM VERDES
Este poema foi uma bandeira nos tempos a seguir ao 25 de Abril, nos tempos em havia que bandeiras, nos tempos tão breves em que Portugal respirava.
O Joaquim Pessoa escreveu o poema. O Carlos Mendes fez a música. Quem não traz esta Alcácer que vier no coração?
ALCÁCER QUE VIER
Em Alcácer eram verdes
as aves do pensamento.
Eram tão leves tão leves
como as lanternas do vento.
Em Alcácer eram verdes
os cavalos encarnados.
Eram tão fortes tão negros
como os punhos decepados.
Em Alcácer eram verdes
as armas que eu inventei.
Eram tão leves tão leves
tão leves que nem eu sei.
Em Alcácer eram verdes
os homens que não voltaram.
Eram tão verdes tão verdes
como os campos que deixaram.
Em Alcácer eram verdes
as maçãs feitas de lume.
Eram tão frias tão frias
como as dobras do ciúme.
Em Alcácer eram verdes
estas palavras que agora
são tão caladas tão cernes
tão feitas desta demora.
Em Alcácer eram verdes
as flores da sepultura.
Eram tão verdes tãoverdes
tão verdes como a loucura.
Em Alcácer era verde
meu amor o teu olhar.
Era tão verde tão verde
quase à beira de cegar.
Em Alcácer eram verdes
os lençóis onde morri.
Eram tão frios tão verdes
como os campos que eu não vi.
Em Alcácer eram verdes
as feridas do meu país.
Eram tão fundas tão verdes
como este mal de raiz.
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