Não sei se os poetas da minha geração têm o cimento humano, ético e estético que faz uma geração literária. Mas têm em comum ter vivido os tempos de mudança e poesia, de sonho e respiração colectiva, de decência e paixão, que foi o 25 de Abril.
O meu amigo Luís Filipe Castro Mendes é um poeta que sempre admirei nas várias facetas e degraus do seu caminho de poeta.
Traz-nos agora um belo livro profundamente desencantado. Belo porque doloroso, porque vai às entranhas, porque também para o Luís Filipe, creio eu, não era nada da bandalheira em que se transformou este país que sonhou para os seus filhos.
Levantar a gola do casaco,
esconder os punhos da camisa já puídos
e defender, com os dentes cerrados, as palavras:
mas quem aguenta mais este murmúrio vão,
que não colhe as flores do mal nem a luz radiosa na própria miséria?
Resistir, como sempre fizeram os humilhados.
Decorar palavras antigas.
Repeti-las, para que não sejam esquecidas,
aos vindouros.
segunda-feira, 7 de abril de 2014
sábado, 5 de abril de 2014
PÓ DOS LIVROS
Às vezes vida complica-se e o tempo estica, estica, mas não dá para tudo.
Este blog tem ficado para trás.
Mas cá estou de novo com livros e poesia e etc.
Hoje é para falar da magnífca livraria Pó dos Livros na Av. Marquês de Tomar em Lisboa.
É um espaço caloroso, um espaço de resistência cultural onde se fala de livros e se encontram livros difíceis de encontrar noutros sítios. Sobretudo poesia.
Volta e meia, mesmo quando não fica em caminho, sabe-me bem lá ir.
Fui lá hoje e trouxe dois ou três livros de poesia daqueles que não se encontram com facilidade António Ramos Rosa, Amadeu Baptista, ambos de uma nova colecção da editora lua de Papel (Parabéns Paulo, bela colecção), mais o último do meu querido amigo Jaime Rocha, edição Mão Morta.
Bem bom.
Este blog tem ficado para trás.
Mas cá estou de novo com livros e poesia e etc.
Hoje é para falar da magnífca livraria Pó dos Livros na Av. Marquês de Tomar em Lisboa.
É um espaço caloroso, um espaço de resistência cultural onde se fala de livros e se encontram livros difíceis de encontrar noutros sítios. Sobretudo poesia.
Volta e meia, mesmo quando não fica em caminho, sabe-me bem lá ir.
Fui lá hoje e trouxe dois ou três livros de poesia daqueles que não se encontram com facilidade António Ramos Rosa, Amadeu Baptista, ambos de uma nova colecção da editora lua de Papel (Parabéns Paulo, bela colecção), mais o último do meu querido amigo Jaime Rocha, edição Mão Morta.
Bem bom.
terça-feira, 4 de março de 2014
MÓNICA CID
No lançamento da 2ª edição de "A PORTA" e no dia da estreia da peça com o mesmo nome no Teatro Nacional D Maria II, aqui estão a Mónica Cid, o meu querido amigo actor e encenador Paulo Oom (que encenou a peça "ZARABADIM" na Malaposta)
e a muito querida amiga e escritora Luísa Ducla Soares.
E todos estão de volta dos magníficoas desenhos da Mónica Cid para o livro e que serviram de base também para os figurinos da peça.
Uma pequena grande delícia.
quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014
A PORTA
Faz por agora 25 anos que escrevi "A Porta". Ainda é hoje, entre tudo o que escrevi, o livro que mais me entusiasma e emociona.
Tem muito que ver com uma infância e uma juventude em que saltitei de casa em casa e em que sonhava com uma onde ficasse, uma casa amiga, um sítio de consolo, onde coubesse tudo o que as palavras e a imaginação podiam fazer acontecer.
O meu grande amigo João Mota gostou do texto, transformei-o em texto de teatro e o João encenou-o com o talento que todos lhe admiramos. Fui ver um enaio há 15 dias e chorei que nem uma Madalena. Estou ansioso pela estreia no próximo sábado dia 1
É um texto que não tem uma idade-alvo. Ou melhor tem todas todas as idades-alvo. É dos 5 aos 555 anos.
domingo, 23 de fevereiro de 2014
ECONOMIA, POESIA E AMIZADE
Sempre que me meto com a falta de sensibilidade e cultura dos gestores e dos economistas recebo um mail ou um SMS do meu amigo Nicolau Santos a embrar-me que há economistas que lêem poesia e até há os que escrevem e dizem poesia como ele próprio.
É uma excepção, penso eu. Mas talvez não seja único. Talvez haja outros economistas e gestores que têm outros caminhos para entender o mundo que não sejam apenas as estatísticas e os computadores.
A página semanal do Nicolau no supolemento de economia do Expresso é uma exemplo delicioso em que ele sempre junta poesia ao seu comentário sobre economia.
E eu gosto de lhe dizer que enquanto houver uma economista que goste de poesia, há uma réstea de esperança para este mundo tão tristemente neo-liberalizado.
E aqui deixo um poema do Nicolau do último livro que escreveu a meias com o António Costa Silva.
ANTES ERA A WALL STREET
Nos anos 80 escrevi um poema a dizer:
A Wall Street é uma rua estreita.
E comprida.
Tão comprida que atravessa o meu país.
Nos anos 90 adoptei o poema.
A Castellana é uma avenida larga.
E comprida.
Tão comprida que atravessa o meu país.
Agora está na altura de escrever:
O Bundestag é um edifício muito grande.
E pesado.
Tão pesado que esmaga o meu país.
segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014
MÃOS NO CHÃO E PÉS NO AR
Com o excelente amigo e músico Daniel Completo fizemos um livro de canções e poemas para crianças dos 3 aos 11/12 anos.
O livro saiu há 4 ou 5 dias. O espectáculo já está na estrada há pouco mais de um mês.
Quem quiser adquirir o livro pode fazê-lo atrabés do site abaixo e ser-lhe-á enviado pelo correio.
http://www.cantodascores.com/#!livros/mainPage
sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014
POETAS & MAÇONS - ALMEIDA GARRETT
Almeida Garrett, personagem de grande dimensão intelectual, literária e política.
Grande vulto do romantismo português, poeta e dramaturgo, político liberal, conhece a prisão, exilado várias vezes, criador do Teatro Nacional D. Maria II e do Conservatório, dedicando-se com empenho às actividades maçónicas.
A um Amigo
Fiel ao costume antigo,
Trago ao meu jovem amigo
Versos próprios deste dia.
E que de os ver tão singelos,
Tão simples como eu, não ria:
Qualquer os fará mais belos,
Ninguém tão d’alma os faria.
Que sobre a flor de seus anos
Soprem tarde os desenganos;
Que em torno os bafeje amor,
Amor da esposa querida,
Prolongando a doce vida
Fruto que suceda à flor.
Recebe este voto, amigo,
Que eu, fiel ao uso antigo,
Quis trazer-te neste dia
Em poucos versos singelos.
Qualquer os fará mais belos,
Ninguém tão d’alma os faria.
segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014
POETAS & MAÇONS - MARQUESA DE ALORNA
A Marquesa de Alorna, poetisa conhecida por "Alcipe", foi uma intelectual de rara dimensão, com reconhecimento em Portugal e na Europa do séc. XVIII.
Atribui-se-lhe a introdução em Portugal da chamada Maçonaria de Adopção. conspiradora contra Napoleão, e mostrou ser um alto espirito a que Alexandre Herculano chamou a Madame Staël portuguesa e grande vulto das nossas letras na transição do velho para o novo regime.
Se me aparto de ti, Deus da bondade,
Que ausência tão cruel! Como é possível
Que me leve a um abismo tão terrível
O pendor infeliz da humanidade!
Conforta-me, Senhor, que esta saudade
Me despedaça o coração sensível;
Se a teus olhos na cruz sou desprezível,
Não olhes para a minha iniquidade!
À suave esperança me entregaste,
E o preço de teu sangue precioso
Me afiança que não me abandonaste.
Se, justo, castigar-me te é forçoso,
lembra-te que te amei, e me criaste
para habitar contigo o Céu lustroso!
Atribui-se-lhe a introdução em Portugal da chamada Maçonaria de Adopção. conspiradora contra Napoleão, e mostrou ser um alto espirito a que Alexandre Herculano chamou a Madame Staël portuguesa e grande vulto das nossas letras na transição do velho para o novo regime.
Se me aparto de ti, Deus da bondade,
Que ausência tão cruel! Como é possível
Que me leve a um abismo tão terrível
O pendor infeliz da humanidade!
Conforta-me, Senhor, que esta saudade
Me despedaça o coração sensível;
Se a teus olhos na cruz sou desprezível,
Não olhes para a minha iniquidade!
À suave esperança me entregaste,
E o preço de teu sangue precioso
Me afiança que não me abandonaste.
Se, justo, castigar-me te é forçoso,
lembra-te que te amei, e me criaste
para habitar contigo o Céu lustroso!
quarta-feira, 29 de janeiro de 2014
POETAS & MAÇONS - JOSÉ GOMES FERREIRA
Seu pai terá sido maçon e deu inclusivamente terrenos seus para a construção do Lar dos Inválidos do Comércio.
José Gomes Ferreira, nascido em 1900, poeta grande, terá seguido o pai como maçon nos tempos da República. ´
Na sua poesia, a militância alia-se a um gosto poético com raízes de mistério, tingido por influências do surrealismo.
JOSÉ GOMES FERREIRA (1900-1985)
PANFLETO CONTRA A PAISAGEM
(Futuro: este poema foi cortado pela Censura na revista «Vértice» de Coimbra. Acontecia isto no tempo do tiranete Salazar.)
Apaga-te, lua!
- lâmpada dos lírios e dos cães.
Não finjas de alma
esta realidade violenta
que me dói até às raízes.
Não pintes de mistério
estas bocas de fome
onde só há metafísicas de pão negro.
Não abras asas
na planície das pedras
de fogo apodrecido.
Apaga-te lua!
Peço-te que te apagues!
Para os tímidos poderem amar-se à vontade na sombra sem olhos,
para os humilhados de botas rotas cantarem serenatas às castelãs de carne invisível,
para as feias se entregarem nuas e abertas ao sexo da noite,
para os trémulos morrerem heróicos em barricadas de imaginação,
para os famintos devorarem com volúpia de vergonha o pão verde dos caixotes,
para os cegos dizerem: «Não vemos porque não há luar!»,
para os mendigos sonharem em voz alta que são reis a arrastar mantos negros,
para os escorraçados saírem dos canos lôbregos
e forrarem o mundo de luz própria como as estrelas,
para os ladrões velhinhos arrombarem as caixas das esmolas
onde só os pobres deitaram moedas falsas,
para os visionários mergulharem as mãos na noite
em busca de outra lua sem vincos de caveira,
para as mães das caves convencerem os filhos: «Moramos num palácio às escuras»...
Ouviste, lua?
Apaga-te!
- lâmpada dos cães e dos poetas magros.
José Gomes Ferreira, nascido em 1900, poeta grande, terá seguido o pai como maçon nos tempos da República. ´
Na sua poesia, a militância alia-se a um gosto poético com raízes de mistério, tingido por influências do surrealismo.
JOSÉ GOMES FERREIRA (1900-1985)
PANFLETO CONTRA A PAISAGEM
(Futuro: este poema foi cortado pela Censura na revista «Vértice» de Coimbra. Acontecia isto no tempo do tiranete Salazar.)
Apaga-te, lua!
- lâmpada dos lírios e dos cães.
Não finjas de alma
esta realidade violenta
que me dói até às raízes.
Não pintes de mistério
estas bocas de fome
onde só há metafísicas de pão negro.
Não abras asas
na planície das pedras
de fogo apodrecido.
Apaga-te lua!
Peço-te que te apagues!
Para os tímidos poderem amar-se à vontade na sombra sem olhos,
para os humilhados de botas rotas cantarem serenatas às castelãs de carne invisível,
para as feias se entregarem nuas e abertas ao sexo da noite,
para os trémulos morrerem heróicos em barricadas de imaginação,
para os famintos devorarem com volúpia de vergonha o pão verde dos caixotes,
para os cegos dizerem: «Não vemos porque não há luar!»,
para os mendigos sonharem em voz alta que são reis a arrastar mantos negros,
para os escorraçados saírem dos canos lôbregos
e forrarem o mundo de luz própria como as estrelas,
para os ladrões velhinhos arrombarem as caixas das esmolas
onde só os pobres deitaram moedas falsas,
para os visionários mergulharem as mãos na noite
em busca de outra lua sem vincos de caveira,
para as mães das caves convencerem os filhos: «Moramos num palácio às escuras»...
Ouviste, lua?
Apaga-te!
- lâmpada dos cães e dos poetas magros.
segunda-feira, 27 de janeiro de 2014
POETAS & MAÇONS - FERNANDO PESSOA
Fernando Pessoa, o poeta maçon que ao que se sabe nunca foi iniciado nos mistérios da maçanoria e, no entanto, conhecia-os a fundo
Famosa é a sua carta a Salazar quando o ditador proibiu as organizações secretas e, nomeadamente, a Maçonaria.
Vários são os poemas em que Pessoa navega nas subtilezas esotóricas dos conhecimentos maónicos como no caso deste que transcrevo.
FERNANDO PESSOA (1888 – 1935)
EROS E PSIQUE
... E assim vedes, meu Irmão, que as verdades que vos foram dadas no Grau de Neófito, e aquelas que vos foram dadas no Grau de Adepto Menor, são, ainda que opostas, a mesma verdade.
Do Ritual do Grau de Mestre do Átrio
na Ordem Templária de Portugal
Conta a lenda que dormia
Uma Princesa encantada
A quem só despertaria
Um Infante, que viria
De além do muro da estrada.
Ele tinha que, tentado,
Vencer o mal e o bem,
Antes que, já libertado,
Deixasse o caminho errado
Por o que à Princesa vem.
A Princesa Adormecida,
Se espera, dormindo espera.
Sonha em morte a sua vida,
E orna-lhe a fronte esquecida,
Verde, uma grinalda de hera.
Longe o Infante, esforçado,
Sem saber que intuito tem,
Rompe o caminho fadado.
Ele dela é ignorado.
Ela para ele é ninguém.
Mas cada um cumpre o Destino -
Ela dormindo encantada,
Ele buscando-a sem tino
Pelo processo divino
Que faz existir a estrada.
E, se bem que seja obscuro
Tudo pela estrada fora,
E falso, ele vem seguro,
E, vencendo estrada e muro,
Chega onde em sono ela mora.
E, inda tonto do que houvera,
À cabeça, em maresia,
Ergue a mão, e encontra hera,
E vê que ele mesmo era
A Princesa que dormia.
Famosa é a sua carta a Salazar quando o ditador proibiu as organizações secretas e, nomeadamente, a Maçonaria.
Vários são os poemas em que Pessoa navega nas subtilezas esotóricas dos conhecimentos maónicos como no caso deste que transcrevo.
FERNANDO PESSOA (1888 – 1935)
EROS E PSIQUE
... E assim vedes, meu Irmão, que as verdades que vos foram dadas no Grau de Neófito, e aquelas que vos foram dadas no Grau de Adepto Menor, são, ainda que opostas, a mesma verdade.
Do Ritual do Grau de Mestre do Átrio
na Ordem Templária de Portugal
Conta a lenda que dormia
Uma Princesa encantada
A quem só despertaria
Um Infante, que viria
De além do muro da estrada.
Ele tinha que, tentado,
Vencer o mal e o bem,
Antes que, já libertado,
Deixasse o caminho errado
Por o que à Princesa vem.
A Princesa Adormecida,
Se espera, dormindo espera.
Sonha em morte a sua vida,
E orna-lhe a fronte esquecida,
Verde, uma grinalda de hera.
Longe o Infante, esforçado,
Sem saber que intuito tem,
Rompe o caminho fadado.
Ele dela é ignorado.
Ela para ele é ninguém.
Mas cada um cumpre o Destino -
Ela dormindo encantada,
Ele buscando-a sem tino
Pelo processo divino
Que faz existir a estrada.
E, se bem que seja obscuro
Tudo pela estrada fora,
E falso, ele vem seguro,
E, vencendo estrada e muro,
Chega onde em sono ela mora.
E, inda tonto do que houvera,
À cabeça, em maresia,
Ergue a mão, e encontra hera,
E vê que ele mesmo era
A Princesa que dormia.
sábado, 25 de janeiro de 2014
POETAS & MAÇONS - VITORINO NEMÉSIO
VITORINO NEMÉSIO (1901-1978)
VERBO E EQUÍVOCO
Chamo verbo ao equívoco falado
Que em tábuas decorei de tempo e modo,
Mas o Verbo é unívoco e sagrado,
Junto a Deus, mesmo Deus, único e todo.
Lá do sempre arrancando e nunca nado,
O eterno abarca o mundo e a vida a rodo:
É no que foi e no devir, tornado
Por amor novo Adão, limpo de todo.
Desse Verbo de que falo, mal declino
O caso do meu nome, nele divino;
Anónimo, sem ele, vagueio mudo:
Mas, chamem-no os vestígios da parábola,
E brilho como a pérola da fábula,
Homem, menos que nada e mais que tudo.
quarta-feira, 22 de janeiro de 2014
POETAS & MAÇONS - CAMILO PESSANHA
Outro Poeta que também foi maçon e, ao que sei integrou a Loja Luís de Camões em Macau
CAMILO PESSANHA (1867-1926)
CAMINHO II
Encontraste-me um dia no caminho
Em procura de quê, nem eu o sei.
- Bom dia, companheiro, te saudei,
Que a viagem é maior indo sozinho.
É longe, é muito longe, há muito espinho!
Paraste a descansar, eu descansei...
Na venda onde poisaste, onde poisei,
Bebemos cada um do mesmo vinho.
É no monte escabroso, solitário,
Corta os pés como a rocha de um calvário,
E queima como a areia!... Foi no entanto
Que chorámos a dor de cada um...
E o vinho em que choraste era comum:
Tivemos que beber do mesmo pranto.
CAMILO PESSANHA (1867-1926)
CAMINHO II
Encontraste-me um dia no caminho
Em procura de quê, nem eu o sei.
- Bom dia, companheiro, te saudei,
Que a viagem é maior indo sozinho.
É longe, é muito longe, há muito espinho!
Paraste a descansar, eu descansei...
Na venda onde poisaste, onde poisei,
Bebemos cada um do mesmo vinho.
É no monte escabroso, solitário,
Corta os pés como a rocha de um calvário,
E queima como a areia!... Foi no entanto
Que chorámos a dor de cada um...
E o vinho em que choraste era comum:
Tivemos que beber do mesmo pranto.
domingo, 19 de janeiro de 2014
POETAS & MAÇONS - BOCAGE
Maçon num tempo em que a maçonaria ganhava grande popularidade entre as elites portuguesas, Bocage anunciou com o seu coração de poeta os primeiros alvores do romantismo, propagando os ideais fde liberdade, igualdade e fraternidade, saídos da Revolução Francesa, e que tão caros foram aos maçons de todo o mundo.
MANUEL MARIA BARBOSA DU BOCAGE (1765 – 1805)
ASPIRAÇÕES DO LIBERALISMO, EXCITADAS PELA REVOLUÇÃO FRANCESA, E CONSOLIDAÇÃO DA REPÚBLICA EM 1797
Liberdade, onde estás? Quem te demora?
Quem faz que o teu influxo em nós não caia?
Porque (triste de mim)! porque não raia
Já na esfera de Lísia a tua aurora?
De santa redenção é vinda a hora
A esta parte do mundo, que desmaia:
Oh! Venha... Oh! Venha, e trémulo descaia
Despotismo feroz, que nos devora!
Eia! Acode ao mortal, que frio e mudo
Oculta o pátrio amor, torce a vontade,
E em fingir, por temor, empenha estudo:
Movam nossos grilhões tua piedade;
Nosso numen tu és, e glória, e tudo,
Mãe do génio e prazer, oh Liberdade!
MANUEL MARIA BARBOSA DU BOCAGE (1765 – 1805)
ASPIRAÇÕES DO LIBERALISMO, EXCITADAS PELA REVOLUÇÃO FRANCESA, E CONSOLIDAÇÃO DA REPÚBLICA EM 1797
Liberdade, onde estás? Quem te demora?
Quem faz que o teu influxo em nós não caia?
Porque (triste de mim)! porque não raia
Já na esfera de Lísia a tua aurora?
De santa redenção é vinda a hora
A esta parte do mundo, que desmaia:
Oh! Venha... Oh! Venha, e trémulo descaia
Despotismo feroz, que nos devora!
Eia! Acode ao mortal, que frio e mudo
Oculta o pátrio amor, torce a vontade,
E em fingir, por temor, empenha estudo:
Movam nossos grilhões tua piedade;
Nosso numen tu és, e glória, e tudo,
Mãe do génio e prazer, oh Liberdade!
quinta-feira, 16 de janeiro de 2014
POETAS & MAÇONS - TEIXEIRA DE PASCOAES
Continuando a visita por poetas que eram simultaneamente maçons, teixeira de pascoaes com o seu lirismo cheio de uma espiritualidade telúrica.
TEIXEIRA DE PASCOAES (1877-1952)
OS MEUS OLHOS E UMA PEDRA
Porque é que vós, meus olhos, de repente,
Comovidos, ficais, a contemplar
Uma pedra qualquer, se toda a gente
Era incapaz de nela reparar?
Uma pedra gelada, inconsciente,
Que nada vê; mas vosso claro olhar
Cobre-a de tal ternura, que ela sente
Como um calor de vida a despontar...
E uma oculta visão misteriosa
Transparece na pedra, que, medrosa,
Avista um indeciso nevoeiro...
Ah, foi decerto assim que a luz dos céus,
A luz que vem do Sol e vem de Deus,
Ergueu da terra, um dia, o ser primeiro!
TEIXEIRA DE PASCOAES (1877-1952)
OS MEUS OLHOS E UMA PEDRA
Porque é que vós, meus olhos, de repente,
Comovidos, ficais, a contemplar
Uma pedra qualquer, se toda a gente
Era incapaz de nela reparar?
Uma pedra gelada, inconsciente,
Que nada vê; mas vosso claro olhar
Cobre-a de tal ternura, que ela sente
Como um calor de vida a despontar...
E uma oculta visão misteriosa
Transparece na pedra, que, medrosa,
Avista um indeciso nevoeiro...
Ah, foi decerto assim que a luz dos céus,
A luz que vem do Sol e vem de Deus,
Ergueu da terra, um dia, o ser primeiro!
segunda-feira, 13 de janeiro de 2014
POETAS & MAÇONS - ANTERO DE QUENTAL
Foram muitos os poetas maçons ou os maçons poetas. Cito alguns:
Marquesa de Alorna
Bocage
Filinto Elísio
Almeida Garrett
Camilo Castelo Branco
Feliciano de Castilho
Antero de Quental
Jaime Cortesão
Teixeira de Pascoais
Camilo Pessanha
Vitorino Nemésio
José Gomes Ferreira
Para muitos será surpreendente esta lista a que há que acrescentar Fernando Pessoa que não deixando qualquer evidência sobre a sua eventual iniciação e participação nalguma Loja Maçónica concreta, era um maçon de convicção e vasta cultura maçónica como o atestam os muitos textos e poemas onde essa cultura circula, nomeadamente a famosa carta a Salazar em que fortemente contesta a proibição da Ordem Maçónica.
Sabemos que é muito diverso o grau de empenhamento no trabalho maçónico destes poetas. Alguns dedicaram-lhe de alma e coração parte importante das suas vidas. Outros não terão passado da Iniciação ou pouco mais.
Vou trazer para aqui alguns poemas, tentando entender o que é que pode haver de comum entre a condição do poeta e a do maçon.
ANTERO DE QUENTAL (1842 – 1891)
MAIS LUZ !
Amem a noite os magros crapulosos,
E os que sonham com virgens impossíveis,
E os que se inclinam, mudos e impassíveis,
À borda dos abismos silenciosos...
Tu, lua, com teus raios vaporosos,
Cobre-os, tapa-os e torna-os insensíveis,
Tanto aos vícios cruéis e inextinguíveis,
Como aos longos cuidados dolorosos!
Eu amarei a santa madrugada,
E o meio-dia, em vida refervendo,
E a tarde rumorosa e repousada.
Viva e trabalhe em plena luz: depois,
Seja-me dado ainda ver, morrendo,
O claro sol, amigo dos heróis!
Marquesa de Alorna
Bocage
Filinto Elísio
Almeida Garrett
Camilo Castelo Branco
Feliciano de Castilho
Antero de Quental
Jaime Cortesão
Teixeira de Pascoais
Camilo Pessanha
Vitorino Nemésio
José Gomes Ferreira
Para muitos será surpreendente esta lista a que há que acrescentar Fernando Pessoa que não deixando qualquer evidência sobre a sua eventual iniciação e participação nalguma Loja Maçónica concreta, era um maçon de convicção e vasta cultura maçónica como o atestam os muitos textos e poemas onde essa cultura circula, nomeadamente a famosa carta a Salazar em que fortemente contesta a proibição da Ordem Maçónica.
Sabemos que é muito diverso o grau de empenhamento no trabalho maçónico destes poetas. Alguns dedicaram-lhe de alma e coração parte importante das suas vidas. Outros não terão passado da Iniciação ou pouco mais.
Vou trazer para aqui alguns poemas, tentando entender o que é que pode haver de comum entre a condição do poeta e a do maçon.
ANTERO DE QUENTAL (1842 – 1891)
MAIS LUZ !
Amem a noite os magros crapulosos,
E os que sonham com virgens impossíveis,
E os que se inclinam, mudos e impassíveis,
À borda dos abismos silenciosos...
Tu, lua, com teus raios vaporosos,
Cobre-os, tapa-os e torna-os insensíveis,
Tanto aos vícios cruéis e inextinguíveis,
Como aos longos cuidados dolorosos!
Eu amarei a santa madrugada,
E o meio-dia, em vida refervendo,
E a tarde rumorosa e repousada.
Viva e trabalhe em plena luz: depois,
Seja-me dado ainda ver, morrendo,
O claro sol, amigo dos heróis!
segunda-feira, 6 de janeiro de 2014
BOM ANO NOVO ATRASADO MAS SINCERO
Há coisas assim, Em forma de assim. Esta era a mensagem que eu queria ter enviado no dia 1. Ficou no tinteiro, mas cá vai, atrasada mas vai.
Para trazer de novo a Teresa Rita Lopes a dar notícia da luz dos seus olhos e da dança das palavras na ponta do seu lápis.
Poesia também é isto: dar notícias. Notícias de um perfume, de uma imagem, de uma mão, de um Ano que começa.
Bom Ano para todos
BOM ANO NOVO!
Muito quietinhos
e muito quentinhos
(os que têm com
que fazer calor)
os portuguesinhos
votam – coitadinhos!
por um Ano Novo
de paz e amor!
Até Dona Merckel
baixa o tom de voz
até à compaixão
pra falar de nós
na televisão.
Ela sabe bem
que no ano que vem
será o funeral
do jardim plantado
à beira do mar
- “pais adiado
à procura de vez”
dizia o O’Neill
poeta português
que lembrou também :
“Neste país em diminutivo
respeitinho é que é preciso!”
Só que nesse então
tínhamos o azar
de ter Salazar
.como nosso algoz.
Agora já não
mora cá na terra
o nosso patrão
mas tem cá um cão
por sinal feroz
que cuida de nós
isto é, um governo
com a vocação
de meter a mão
no bolso dos pobres
que dos ricos não!
A nossa nação
respeita o ladrão
de mais de um milhão!
Se for de um tostão
vai para a prisão.
Que ricos que somos
De rimas em –ão!
Nosso Portugal
nisso é campeão!
Pena que não sirvam
para exportação
que assim nossa crise
tinha solução!
Teresa Rita Lopes
Para trazer de novo a Teresa Rita Lopes a dar notícia da luz dos seus olhos e da dança das palavras na ponta do seu lápis.
Poesia também é isto: dar notícias. Notícias de um perfume, de uma imagem, de uma mão, de um Ano que começa.
Bom Ano para todos
BOM ANO NOVO!
Muito quietinhos
e muito quentinhos
(os que têm com
que fazer calor)
os portuguesinhos
votam – coitadinhos!
por um Ano Novo
de paz e amor!
Até Dona Merckel
baixa o tom de voz
até à compaixão
pra falar de nós
na televisão.
Ela sabe bem
que no ano que vem
será o funeral
do jardim plantado
à beira do mar
- “pais adiado
à procura de vez”
dizia o O’Neill
poeta português
que lembrou também :
“Neste país em diminutivo
respeitinho é que é preciso!”
Só que nesse então
tínhamos o azar
de ter Salazar
.como nosso algoz.
Agora já não
mora cá na terra
o nosso patrão
mas tem cá um cão
por sinal feroz
que cuida de nós
isto é, um governo
com a vocação
de meter a mão
no bolso dos pobres
que dos ricos não!
A nossa nação
respeita o ladrão
de mais de um milhão!
Se for de um tostão
vai para a prisão.
Que ricos que somos
De rimas em –ão!
Nosso Portugal
nisso é campeão!
Pena que não sirvam
para exportação
que assim nossa crise
tinha solução!
Teresa Rita Lopes
domingo, 5 de janeiro de 2014
OS POETAS DE QUEM NÃO SE FALA MUITO
A poesia tem modas Há poetas de quem fica bem falar-se e ter-se opiniões definitivas em certos locais e em certas páginas de jornal mesmo quando não se leu a sua obra.
Eu gosto de lembrar os poetas de quem não se fala muito. Poetas. Sabem, meus amigos, o que são poetas? Gente perigosa. gente que cabe mal nos fatos por medida.
Este é um dos poetas de que se fala muito pouco e de que eu gosto de lembrar.
A PULGA
Um ponto somente
é este animal
que pouco se vê
e muito se sente.
E a gente não gosta
da pulga.
Porquê?
A pulga,
afinal,
só de animais gosta
e gosta
da gente.
A gente que o diga…
Gosta, morde e pica.
Mas que rica
amiga!
Pica
por ser má?
Pica
por prazer?
Lá prazer terá,
sabe-se isso bem…
mas, se a pulga
pica,
é para comer,
não mata ninguém.
O pobre animal
precisa de sangue…
Mas é natural
que a gente se zangue.
Quem dera apanhá-la,
mordê-la,
pisá-la!
Vai a gente ver
e ela
já se foi…
e sempre a morder.
Será que ela
julga
que aquilo não dói?
E assim é a pulga:
maluca, malvada,
mas tão pequenina,
ladina e rabina,
que a acho engraçada.
Leonel Neves, “O elefante e a pulga”, Livros Horizonte
Eu gosto de lembrar os poetas de quem não se fala muito. Poetas. Sabem, meus amigos, o que são poetas? Gente perigosa. gente que cabe mal nos fatos por medida.
Este é um dos poetas de que se fala muito pouco e de que eu gosto de lembrar.
A PULGA
Um ponto somente
é este animal
que pouco se vê
e muito se sente.
E a gente não gosta
da pulga.
Porquê?
A pulga,
afinal,
só de animais gosta
e gosta
da gente.
A gente que o diga…
Gosta, morde e pica.
Mas que rica
amiga!
Pica
por ser má?
Pica
por prazer?
Lá prazer terá,
sabe-se isso bem…
mas, se a pulga
pica,
é para comer,
não mata ninguém.
O pobre animal
precisa de sangue…
Mas é natural
que a gente se zangue.
Quem dera apanhá-la,
mordê-la,
pisá-la!
Vai a gente ver
e ela
já se foi…
e sempre a morder.
Será que ela
julga
que aquilo não dói?
E assim é a pulga:
maluca, malvada,
mas tão pequenina,
ladina e rabina,
que a acho engraçada.
Leonel Neves, “O elefante e a pulga”, Livros Horizonte
domingo, 29 de dezembro de 2013
UM CAVALO DE VÁRIAS CORES
Reinaldo Ferreira, filho do famoso Repórter X, nasceu em Barcelona e morreu em Lourenço Marques antes dos 40 anos.
A sua poesia colorida e musical não chegou a ser publicada em vida. Muito referido nos anos 60/70, está agora de novo entregue ao esquecimento, tendo sido em tempos emparceirado, algo exageradamente, com Fernando Pessoa. Muitos dos seus poemas foram cantados por autores como Manuel Freire ou Fausto.
QUERO UM CAVALO DE VÁRIAS CORES
Quero um cavalo de várias cores,
Quero-o depressa, que vou partir.
Esperam-me prados com tantas flores,
Que só cavalos de várias cores
Podem servir.
Quero uma sela feita de restos
Dalguma nuvem que ande no céu.
Quero-a evasiva – nimbos e cerros –
Sobre os valados, sobre os aterros,
Que o mundo é meu.
Quero que as rédeas façam prodígios:
Voa, cavalo, galopa mais,
Trepa às camadas do céu sem fundo,
Rumo àquele ponto, exterior ao mundo,
Para onde tendem as catedrais.
Deixem que eu parta, agora, já,
Antes que murchem todas as flores.
Tenho a loucura, sei o caminho,
Mas como posso partir sozinho
Sem um cavalo de várias cores?
sexta-feira, 27 de dezembro de 2013
QUE BELA "GAVETA DO FUNDO"
Às vezes acontece: aparece um poema que nos bate no peito e nos faz parar no meio do bulício emaranhado dos dias. E torna-nos melhores. Mais felizes. Mais gente.Neste caso não é só um poema, é um livro inteiro. Um luxo, neste tempo de fraca poesia. É o caso desta "Gaveta do fundo" do escritor transmontano A. M. Pires Cabral, dado à estampa numa recente e bela colecção de poesia (parabéns pela coragem à Tinta da China, editora, parabéns ao Pedro Mexia, coordenador).
Livro de grande maturidade, de amor à terra, de balanço de uma vida. Li-o emocionado, por vezes comovido. E acredito que esta é a poesia que vale a pena. A que emociona e nos leva para um patamar superior da música das palavras.
AOS MEUS ÓCULOS
Se um dia vos partirdes ficarei
mais à mercê do escuro.
Provavelmente poderei então
nem ler nem escrever nem cortejar
as flores silvestres, as nuvens em castelo,
os pardais disputando uma migalha
- esses frustes amores de fim de tempo.
Deixarei de poder distinguir
um abismo de um simples degrau.
Por isso, vós que sois de vidro quebradiço
como o meu próprio barro,
cuidai-vos em nome de mim.
Paguei-vos, sois meus, deveis-me utilidade.
Faça-se em vós segundo
a minha vontade.
quarta-feira, 25 de dezembro de 2013
BEM HAJAS POR VIRES TODOS OS ANOS, MENINO
A Teresa Rita Lopes enviou este poema de Natal aos seus amigos, entre os quais me conto com orgulho
Gosto muito da sua poesia. Professora universitária de grande prestígio, académica distinta e distinguida, uma das maiores especialistas em Fernando Pessoa, Teresa Rita Lopes não se perde em tiques, escreve como quem respira, como quem devolve à terra a sua frescura e aos seres humanos o melhor da sua humanidade.
Gosto muito da sua poesia e sinto-me privilegiado pela sua amizade. Por isso partilho a beleza sencilha do seu poema.
De presépios gosto
desde menina.
De construir por minhas mãos um pequenino mundo
a meu jeito.
A moda do Pai Natal só veio mais tarde
assim como a da Árvore de Natal.
Com ele nunca engracei
postiço das barbas até à barriga.
Quem trazia presentes à minha infância era o Menino Jesus
- cedo percebi que era uma maneira de dizer
como as fadas.
Como podia alguém como eu descer pela chaminé
sem se sujar nem se aleijar?!
Da Árvore de Natal só gosto por ser árvore
e verde.
(Pensar que as há de plástico!)
Hoje tenho presépios pela casa toda
todo o ano!
Que vou comprando por onde ando.
O meu Menino Jesus gosta de ser muitos
e de diferentes sítios como o Pessoa!
No Natal limito-me a actualizá-los com musgo.
E líquenes. E pinhas que trouxe ontem da Fonte do Sol.
Povoo esse mini-mundo também com conchas
que combinam com a cor do barro rosado
do presépio de Viana.
Mas do que mais gosto
é do musgo:
cheira a terra molhada
a verde
a vida.
Sorrio para o Menino (o mesmo em todos os presépios)
e digo-lhe:
Bem hajas por vires todos os anos
festejar com os homens o dia dos teus anos!
Invento para ti mundos simples e pacíficos
para eles se envergonharem das suas ambições
e guerras.
Ámen.
Teresa Rita Lopes
terça-feira, 24 de dezembro de 2013
NATAL DE 2013 - PORQUE ELES SABEM O QUE FAZEM
NATAL DE 2013
SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN
AS PESSOAS SENSÍVEIS
As pessoas sensíveis não são capazes
De matar galinhas
Porém são capazes
De comer galinhas
O dinheiro cheira a pobre e cheira
À roupa do seu corpo
Aquela roupa
Que depois da chuva secou sobre o corpo
Porque não tinham outra
O dinheiro cheira a pobre e cheira
A roupa
Que depois do suor não foi lavada
Porque não tinham outra
«Ganharás o pão com o suor do teu rosto»
Assim nos foi imposto
E não:
«Com o suor dos outros ganharás o pão»
Ó vendilhões do templo
Ó construtores
Das grandes estátuas balofas e pesadas
Ó cheios de devoção e de proveito
Perdoai-lhes Senhor
Porque eles sabem o que fazem
domingo, 22 de dezembro de 2013
BOM NATAL
Não sei se o Natal era melhor neste tempo. É provável que não.
Estávamos ligados pela palavra que era levada nas cartas e postais pelos CTT.
Sempre tive simpatia pelos CTT. Faziam parte da nossa vida. Sempre gostei de receber cartas e enviar cartas. Aerogramas com letrinha cuidada para o meu Pai em Moçambique e Angola, postais enviados a meio da semana do Colégio Militar para a minha Avó e a minha Mãe, cartas adolescentes para as amigas, namoradas, correspondentes, na Suécia, no Brasil, a Austrália, os relatos assombrados sobre os tempos em que fui arquitecto na Guiné ou guionista em Cabo Verde, os abraços aos amigos nos aniversártios e nas Festas.
Às vezes punha as cartas nos marcos de correio, outras nas próprias estações. E sabia que mais cedo ou mais tarde o carteiro havia de ir entregar a minha carta a pé ou de bicicleta.
Agora temos os mails e os SMS's. Não é melhor nem pior. Perdemos o gesto, o desenho da letra e o seu afecto. É diferente. Mas o importante são mesmo as palavras, a sua doçura e a sua magia.
De qualquer maneira, lá que tenho pena que os CTT já não sejam os nossos CTT, tenho.
Estávamos ligados pela palavra que era levada nas cartas e postais pelos CTT.
Sempre tive simpatia pelos CTT. Faziam parte da nossa vida. Sempre gostei de receber cartas e enviar cartas. Aerogramas com letrinha cuidada para o meu Pai em Moçambique e Angola, postais enviados a meio da semana do Colégio Militar para a minha Avó e a minha Mãe, cartas adolescentes para as amigas, namoradas, correspondentes, na Suécia, no Brasil, a Austrália, os relatos assombrados sobre os tempos em que fui arquitecto na Guiné ou guionista em Cabo Verde, os abraços aos amigos nos aniversártios e nas Festas.
Às vezes punha as cartas nos marcos de correio, outras nas próprias estações. E sabia que mais cedo ou mais tarde o carteiro havia de ir entregar a minha carta a pé ou de bicicleta.
Agora temos os mails e os SMS's. Não é melhor nem pior. Perdemos o gesto, o desenho da letra e o seu afecto. É diferente. Mas o importante são mesmo as palavras, a sua doçura e a sua magia.
De qualquer maneira, lá que tenho pena que os CTT já não sejam os nossos CTT, tenho.
sábado, 14 de dezembro de 2013
PINGA O PINGO
Pinga o pingo da torneira
Pinga pinga
Pinga o pingo
Que amanhã já é domingo
E depois segunda feira
Pinga o pingo da torneira
na banheira
terça feira
quarta feira
Pinga de toda a maneira
quinta feira
sexta feira
Falta pouco p’ra domingo
Pinga o pingo
Pinga pinga
Pingo o pingo da torneira.
José Fanha (1951)
“Cantigas e cantigos para formigas e formigos”, Terramar
segunda-feira, 9 de dezembro de 2013
QUANTAS MARGENS TEM O MAR
Há pessoas de quem somos amigos antes de nos conhecermos. DE quando nos conhecemos percebemos que somos amigos há muito tempo.~
Com o Nuno Higino aconteceu-me isso.Poucas vezes nos encontrámos mas sempre com muita alegria e emoção.
A ALEGRIA
Perguntar se a alegria
é inteira ou tem medida
se é oval ou circular
de que maneira a contém
o olhar quando a anuncia
é o mesmo que perguntar:
-Quantas margens tem o mar?
Nuno Higino, “Versos diversos”
terça-feira, 3 de dezembro de 2013
INQUOCIENTE
Que saudades tenho do meu amigo Manuel António Pina e daquela ironia que tão bem derramava sobre coisas aparentemente muito sérias mas que podem e devem ser tratadas com a ternura dos grandes poetas.
UMA HISTÓRIA DE DIVIDIR
Um divisor dividia
muitíssimo devagar.
A divisão bem podia,
por ele esperar.
O dividendo, mais lesto,
não podendo perder tempo,
dia a dia ia perdendo
a paciência e o resto.
E, encarando o amigo,
falava-lhe duramente:
“Não posso contar contigo,
és um inquociente!”
Manuel António Pina
quinta-feira, 28 de novembro de 2013
A CRIANÇA E A VIDA
Enfermeira e professora, Maria Rosa Colaço publicou um livro único em pleno Estado Novo com poemas de crianças
Pedrada no charco, "A criança e a vida" veio pôr em causa a forma como se promovia a leitura e a escrita junto dos mais pequenos.
O livro atingiu uma imensa popularidade e atingiu até agora 47 edições. No entan to, muitos dos mais jovens professores ignoram a sua existência.
"...Ensinaram-me que , quando se é humilhado naquilo que em nós é claridade e certeza, aprende-se mais depressa o sentido exacto da liberdade, da paz, do ódio,do amor e do ridículo do quotidiano. Eles revelaram-me que a miséria transforma as crianças ,mais que os adultos, em anjos implacáveis de lucidez e que a fome os ateia e lhes faz crescer nos olhos brancas e terríveis asas de sonho ou destruição.E há nestes anjos de fogo uma voz oculta e violenta em que é preciso,é urgente, meditarmos. Ela pode denunciar, construir ou semear, a alegria , a vergonha ou o remorso.
Ela pode ser a semente da Esperança, da Paz entre os homens.
Ela pode ser o Ódio.
Ela pode ser o Amor."
Mª Rosa Colaço
O AMOR
O amor é como duas borboletas que estivessem
Sobre uma rosa, a mias lindas de todas do jardim.
O amor tem que haver.
Se não houvesse amor, não havia nada mais bonito.
O amor são duas estrelas a brilhar, a brilhar.
A rosa e o sol são o amor.
A amor é poesia.
O amor são dois passarinhos a construir a sua casinha.
O amor é não haver polícias.
Inácio da silva Cruz – 10 anos
terça-feira, 19 de novembro de 2013
A VELHA DA GATA E A GATA DA VELHA
António Fernando dos Santos (Vila Real de Santo António, 1918 - Lisboa, Agosto de 1991), mais conhecido por Tóssan, foi um pintor, ilustrador, decorador e gráfico português.
Ligado ao teatro, à ceografia, desenhador notável, ilustrador de primeira água, declamador delicioso dado a conhecer ao país no programa ZIP-ZIP da RTP.
Dele posso dizer que era um ser humano magnífico, um homem de humor delirante, um amigo fantástico que me apoiou e incentivou quando, jovenzito, me abalancei a dizer poesia em público. Por duas ou três vezes partilhei com ele o palco e guardo uma ternura sem fim desses momentos únicos.
A VELHA DA GATA E A GATA DA VELHA
Uma velha tinha um gato
e o gato tinha uma velha
mas o gato que a velha tinha
tinha a tinha que tinha a velha.
E não era gato, era gata.
A velha da gata
de velha que era,
sofria da telha ou da pinha
e a gata da velha, de tão velha,
já era velhinha.
A velha, de velha, já andava de gatas
e a gata já andava de velhas.
Quando a velha andava de gatas
parecia a gata da velha,
e como a velha dobrava a espinha
a gata queria comer a espinha da velha.
Tudo pela gata ter tinha
e a velha sofrer da pinha.
Quando a gata chorava,
a velha miava.
Ficava sem se saber
qual era a gata ou qual era a velha
que debaixo da cama vinha,
em cima da cama estava,
debaixo da cama dormia,
e por cima ressonava.
A velha tinha fôlego de gata!
E junto à cabeceira
a gaita de foles estava.
Quando a velha gaiteia
tocava na velha gaita,
chorava a gata da velha
por causa dos foles da gaita.
A velha que tinha gôta
caiu no goto da gata
morrendo a gata de gôta,
ficando a velha gótica
sem gôta e sem gata.
Mas como ainda tinha tinha
e sobria da velha telha,
juntou-se a tinha na pinha
e morreu careca a velha
sexta-feira, 15 de novembro de 2013
AOS QUADRADINHOS
Sidónio Muralha começa a ser redescoberto como poeta e como autor de literatura para crianças. E ainda bem. Vale muito a pena revisitá-lo.
XADREZ
É branca a gata gatinha
É branca como farinha.
É preto o gato gatão
É preto como o carvão.
E os filhos, gatos gatinhos,
São todos aos quadradinhos.
Os quadradinhos branquinhos
Fazem lembrar mãe gatinha
Que é branca como a farinha.
Os quadradinhos pretinhos
Fazem lembrar pai gatão
Que é preto como carvão
Se é branca a gata gatinha
E é preto o gato gatão,
Como é que são os gatinhos?
Os gatinhos eles são,
São todos aos quadradinhos.
quarta-feira, 13 de novembro de 2013
HÁ CASOS ASSIM
O António Torrado é um querido amigo e um mestre. A escrita dele transborda de ternura e, sobretudo, de ironia.
ANÚNCIO -I
Quarenta poetas
que dizem que são,
quarenta poetas
no cais da estação
Quarenta poetas
são mais do que as uvas!
Que dor, que tormenta,
perderam as luvas.
Quarenta poetas
de finas bengalas
e mais finos versos
perderam as malas.
Quarenta poetas
quem lhes leva a palma?
Quarenta poetas
perderam a calma.
Quarenta poetas
nervosos, com pressa…
E vai um poeta
perdeu a cabeça.
Perdeu a cabeça,
perdeu, de repente,
no cais da estação…
O caso é urgente.
A quem encontrar
avise para mim.
Fui eu que a perdi.
Há casos assim!
António Torrado, “À Esquina da rima Buzina”
ANÚNCIO -I
Quarenta poetas
que dizem que são,
quarenta poetas
no cais da estação
Quarenta poetas
são mais do que as uvas!
Que dor, que tormenta,
perderam as luvas.
Quarenta poetas
de finas bengalas
e mais finos versos
perderam as malas.
Quarenta poetas
quem lhes leva a palma?
Quarenta poetas
perderam a calma.
Quarenta poetas
nervosos, com pressa…
E vai um poeta
perdeu a cabeça.
Perdeu a cabeça,
perdeu, de repente,
no cais da estação…
O caso é urgente.
A quem encontrar
avise para mim.
Fui eu que a perdi.
Há casos assim!
António Torrado, “À Esquina da rima Buzina”
segunda-feira, 11 de novembro de 2013
O MELHOR QUE ACONTECEU
Quem se lembra da maria Rosa Colaço? Quem se lembra das suas histórias e poemas? Quem se lembra desse extraordinário livrinho que se chama "A CRIANÇA E A VIDA" que ela fez com os seus alunos?
DIA DE ANOS DO PEDRO
No ano em que eu nasci
tanta coisa aconteceu!
Caiu chuva, houve sol
e muito pão se comeu.
No ano em que eu nasci,
já outros corriam mundo,,
já outros estavam em guerra,
já barcos iam ao fundo.
No ano em que eu nasci
a vida, tal como hoje,
é uma luz, é um vento
que passa por nós e foge.
Nesse dia tão distante,
descobri que é bom viver.
Hei-de fazer dos meus dias
Todos, dias de nascer!
No ano em que eu nasci
não tinha medo de nada:
o colo da minha Mãe
era o ninho, era a estrada!
Mas no ano em que eu nasci
o melhor que aconteceu
fui eu! Fui eu! Fui eu
Fui eu!
Maria Rosa Colaço, “Versos diversos para meninos travessos”
sexta-feira, 8 de novembro de 2013
DÓI-DÓI
Era uma querida e linda amiga, a Matilde Rosa Araújo. Faz-nos muita falta com a sua doçura e a sua simplicidade
AVENTURA PEQUENINA
É tão linda a palavra dói-dói!
Dóis… Dós…
Mas um dói-dói dói.
Dói!
Que pena o dói-dói doer
Até o menino chorar.
Mas que foi?
É um dói-dói pequenino
No joelho
Do menino,
Que pulou,
Caiu,
E se feriu.
Pulou,
Caiu,
Esfolou,
Mas já passou…
Matilde Rosa Araújo, “Anjos de pijama”
AVENTURA PEQUENINA
É tão linda a palavra dói-dói!
Dóis… Dós…
Mas um dói-dói dói.
Dói!
Que pena o dói-dói doer
Até o menino chorar.
Mas que foi?
É um dói-dói pequenino
No joelho
Do menino,
Que pulou,
Caiu,
E se feriu.
Pulou,
Caiu,
Esfolou,
Mas já passou…
Matilde Rosa Araújo, “Anjos de pijama”
quarta-feira, 6 de novembro de 2013
A BRUXA
Conto da Luísa Ducla Soares.
Já o tinha anunciado aqui. Mas só agora consegui publicar a gravação.
Já o tinha anunciado aqui. Mas só agora consegui publicar a gravação.
segunda-feira, 4 de novembro de 2013
DLIM-DLIM
Mário Castrim sempre foi um homem de fortes convicções, atraindo facilmente as controvérsias, mas também autor de alguns belíssimos textos para crianças. Como este poema.
DLIM-DLIM
Nasce a menina
dlim-dlim
não é Jesus
dlim-dlim
nem Jesuíina
dlim-dlim
ela é a filha
de uma vizinha
não teve burro
nem vaquinha
porque em Lisboa
era difícil
ser assim.
De qualquer modo
dlim-dlim.
DLIM-DLIM
Nasce a menina
dlim-dlim
não é Jesus
dlim-dlim
nem Jesuíina
dlim-dlim
ela é a filha
de uma vizinha
não teve burro
nem vaquinha
porque em Lisboa
era difícil
ser assim.
De qualquer modo
dlim-dlim.
sábado, 2 de novembro de 2013
AS PEDRAS FALAM?
Da poesia para adultos à poesia para crianças vou trazer por aqui alguns poemas mais esquecidos ultimamente.
Para quem trabalha com crianças e para as crianças que resistem no peito de alguns adultos.
Desta vez da minha muito querida amiga Maria Alberta Menéres.
AS PEDRAS FALAM?
As pedras falam? Pois falam
mas não à nossa maneira,
que todas as coisas sabem
uma história que não calam
Debaixo dos nossos pés
ou dentro da nossa mão
o que pensarão de nós?
O que de nós pensarão?
As pedras cantam nos lagos
choram no meio da rua
tremem de frio e de medo
quando a noite é fria e escura.
Riem nos muros ao sol,
no fundo do mar se esquecem.
Umas partem como as aves
e nem mais tarde regressam.
Brilham quando a chuva cai.
Vestem-se de musgo verde
em casa velha ou em fonte
que saiba matar a sede.
Foi de duas pedras duras
que a faísca rebentou:
uma germinou em flor
e a outra nos céus voou.
As pedras falam? Pois falam.
Só as entende quem quer,
que todas as coisas têm
uma coisa para dizer.
terça-feira, 29 de outubro de 2013
UM CONTO POR MÊS
A Luísa Ducla Soares começou a publicar um conto por mês no sítio da Oficina Canto das Cores. E quem o grava sou eu. O primeiro é "A BRUXA"
Se quiserem ver a gravação e ouvir o texto é aqui em baixo.
http://www.cantodascores.com/#!historia/c1enf
domingo, 27 de outubro de 2013
ASSIM NÃO
Poeta experimental, inquieto, interrogador de certezas, ligado ao desenvolvimento em Portugal da poesia visual.
E. M. DE MELO E CASTRO (1932)
AFIRMAÇÕES
ou sim / ou não
mas assim, não
nem sim / nem não
mas assim, não
pelo sim / pelo não
mas assim, não
do sim / ao não
mas assim, não
sim, sim / não, não
mas assim, não
se sim / se não
mas assim, não
não não / não não
mas assim, não.
E. M. DE MELO E CASTRO (1932)
AFIRMAÇÕES
ou sim / ou não
mas assim, não
nem sim / nem não
mas assim, não
pelo sim / pelo não
mas assim, não
do sim / ao não
mas assim, não
sim, sim / não, não
mas assim, não
se sim / se não
mas assim, não
não não / não não
mas assim, não.
sexta-feira, 25 de outubro de 2013
DESCALÇA VAI PARA A FONTE
Poeta, ensaísta, daramaturgo, António Cabral desdobrou-se em vários géneros. Transmontano dos sete costados, foi fundador de várias revistas de carácter cultural e literário. Colaborou em inúmeros jornais nacionais e estrangeiros. Professor da Universidade de Trás-os-Montes.
Este poema ouvi-o pela primeira vez na voz do meu amigo Francisco Fanhais. E sempre que ele o canta, ouço-o comovido.
ANTÓNIO CABRAL (1931-2007)
DESCALÇA VAI PARA A FONTE
I
Descalça vai para a fonte
Leonor pela verdura:
vai formosa e não segura.
II
Se tivesse umas chinelas
iria melhor..., mas não:
c’o dinheiro das chinelas
compra um pouco mais de pão.
Virá o dia em que os pés
não sintam a terra dura?
Leonor sonha de mais:
vai formosa e não segura.
Formosa! Não vale a pena
ter nos olhos uma aurora
quando na vida – que vida! –
o sol já se foi embora.
Se os filhos se alimentassem
com a sua formosura...
Leonor pensa de mais:
vai formosa e não segura.
Há verdura pelos prados,
há verdura no caminho;
no olmo de ao pé da fonte
cantas, livre, um passarinho.
Mas ela não canta, não,
que a voz perdeu a doçura.
Leonor sofre de mais:
vai formosa e não segura.
Porque sofre? Nunca soube
nem saberá a razão.
Vai encher a talha de água,
só não enche o coração.
Virá um dia... virá...
Os olhos voam na altura.
Leonor não anda: sonha.
Vai formosa e não segura.
Este poema ouvi-o pela primeira vez na voz do meu amigo Francisco Fanhais. E sempre que ele o canta, ouço-o comovido.
ANTÓNIO CABRAL (1931-2007)
DESCALÇA VAI PARA A FONTE
I
Descalça vai para a fonte
Leonor pela verdura:
vai formosa e não segura.
II
Se tivesse umas chinelas
iria melhor..., mas não:
c’o dinheiro das chinelas
compra um pouco mais de pão.
Virá o dia em que os pés
não sintam a terra dura?
Leonor sonha de mais:
vai formosa e não segura.
Formosa! Não vale a pena
ter nos olhos uma aurora
quando na vida – que vida! –
o sol já se foi embora.
Se os filhos se alimentassem
com a sua formosura...
Leonor pensa de mais:
vai formosa e não segura.
Há verdura pelos prados,
há verdura no caminho;
no olmo de ao pé da fonte
cantas, livre, um passarinho.
Mas ela não canta, não,
que a voz perdeu a doçura.
Leonor sofre de mais:
vai formosa e não segura.
Porque sofre? Nunca soube
nem saberá a razão.
Vai encher a talha de água,
só não enche o coração.
Virá um dia... virá...
Os olhos voam na altura.
Leonor não anda: sonha.
Vai formosa e não segura.
terça-feira, 22 de outubro de 2013
ISTO VAI
João Rui de Sousa é um poeta discreto e de grande qualidade. Nasceu em 1928. Continua a publicar. O seu último livro é "Quarteto para as próximas chuvas", ed D. Quixote. Iniciou a publicação de poesia na revista CASSIOPEIA que fundou com António Ramos Rosa e José Bento.
ÇA IRA
Isto vai, caro amigo.
Não como nós queremos, é certo,
mas isto vai.
Por noites de insónia e alcatrão
por laranjas e lábios ressequidos
por desespero na voz e escuridão
isto vai, caro amigo.
Por mágoas acesas e relógios
pelo sabor dos braços na alegria
pelo odor das plantas venenosas
isto vai, caro amigo.
Pelo cabo axial que liga a nossa esperança
pela luz dos cabelos, pelo sal
pela palavra remo, pela palavra ódio
isto vai, caro amigo.
Pela ternura e pela confiança
pela vontade e força, as nossas casas
pelo fervor com que inventamos (e depois calamos)
isto vai, caro amigo.
Pelos carris do medo, pelas árvores
pela inocência e fome, pelos perigos
pelos sinais fraternos, pelas lágrimas
isto vai, caro amigo.
Pela rudeza do espaço
e em jardins falsíssimos
isto vai, caro amigo.
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