domingo, 15 de fevereiro de 2015

OMBELA

Durante duas semanas andei envolvido no 1º ENCONTRO DA LITERATURA INFANTO-JUVENIL DA LUSOFONIA

Foram dia muito intensos e com intervenções de grande qualidade.

No final tivemos a apresentação do novo livro de ONDJAKI com ilustração de Rachel Caiano.


É uma beleza e começa assim:

"Dizem os mais-velhos
que a chuva nasceu
das lágrimas de Ombela,
uma deusa que estava triste."



quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

APALPAR MANHÃS



“apalpar manhãs”

sonhei que estava enamorado pela palavra antigamente.
eu sorria muito nesse sonho – fossem gargalhadas. aproveitei a ponta desse sorriso e fiz um escorrega. deslizei. tombei no início de uma manhã.
pensei ver duas borboletas mas [riso] eram duas ramelas. peguei nas duas: o peso delas dizia que eu estava acordado. [a partir do tom amarelado das ramelas é possível apalpar manhãs].
então vi: nos dedos, na pele do corpo por acordar, estavam manchas muito enormes: eram manchas de infância
gosto muito desse tipo de varicela.


ONDJAKI

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

DEPOIMENTO

Maria Teresa Horta desenvolve uma música muito própria ligada à própria música do corpo, sendo uma das poetas que traz o corpo e o desejo de uma forma clara e livre para dentro do poema.


MARIA TERESA HORTA (1938)


DEPOIMENTO



Eis que desço
as mãos
os dedos nus

Eis que empunho
o vidro
pela face

Eis que te utilizo
e te
destruo

Eis que te construo
e te
desfaço

Eis o gume novo
desta
pedra

Eis a faca aberta
na
manhã

as árvores
ocultas
nas palavras

o couro – a violência
o trilho
a lã

Eis o linho bordado
numa cama

a linha na fímbria
da toalha

o fuso – o feltro
o fundo da memória

Eis a água
dita
como vã

depostos objectos
de batalha:

a tenda
a espada
a sela
a sede
a vela

Eis que deponho
aquilo
que me ganha

e que retomo
a seda com que visto
a faca da sede
com que rasgo

o rigor da calma
o rigor das pernas
o rigor dos seios
quando minto

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

CANTO DO GÉNESIS

E de novo Fiama.



CANTO DO GÉNESIS

Ao princípio era a luz, depois o céu
azul porque a luz se embebe
nas camadas do ar que olhamos.
Ao princípio era a Paixão e engendrou
Do seu sangue os animais, da sua
Cruz as plantas. Era, ao princípio,
O animal-vegetal minúsculo, oculto
No Paraíso, mas omnipresente
desde o ante-princípio. E da argila
ou terra adâmica formou-se a Natureza
e o Homem, banhados pela luz
que recortou linhas e volumes vagos.
Ao princípio era o martírio
e a bênção daquele que trabalha
e seu corpo e o seu pão de sol a sol.
E os frutos fulguraram nessa luz
Quando as águas se apartaram
e o mar, até hoje, quebra e requebra a onda
para eu ouvir o som do início.


sábado, 17 de janeiro de 2015

BARCAS NOVAS

Fiama Hasse Pais Brandão (1938-2007), poeta próxima do grupo Poesia 61, foi senhora de uma elegância e de uma contenção invulgares na poesia portuguesa. Ensaísta, tradutora e dramaturga, desenvolveu uma actividade intensa e de grande qualidade.

"Barcas Novas", foi um poema inspirado na poesia medieval de João Zorro mas que tinha óbvia relação com outras barcas, os navios que levavam soldados e armas para a guerra colonial.


Barcas novas


Em Lixboa sobre lo mar
barcas novas mandei lavrar,
ay mia senhora velida!

Em Lisboa sobre lo ler
barcas novas mandei fazer,
ay mia senhora velida!

Barcas novas mandei lavrar
e no mar as mandei deitar,
ay mia senhora velida!

Barcas novas mandei fazer
e no mar as mandei meter,
ay mia senhora velida!


João Zorro, trovador português ou galego do séc. XIII


BARCAS NOVAS

Lisboa tem suas barcas
agora lavradas de armas

Lisboa tem barcas novas
agora lavradas de homens

Barcas novas levam guerra
as armas não lavram terra

São de guerra as barcas novas
no mar deitadas com homens

Barcas novas são mandadas
sobre o mar com suas armas

Não lavram terra com elas
os homens com sua guerra

Nelas mandaram meter
os homens com sua guerra

Ao mar mandaram as barcas
novas lavradas de armas

Em Lisboa sobre o mar
armas novas são mandadas

Fiama Hasse Pais Brandão, in Barcas Novas, 1967

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

O JORRO DA FONTE QUE ME IRROMPE



Salette Tavares teve formação em filosofia, desenvolveu estudos no âmbito da Estética, dedicou-se com mais profundidade a partir de 1949 aos problemas da linguagem e da teoria da arte. Publicou nos anos 60, na revista Brotéria, importantes ensaios de estética. Colaborou nos cadernos Poesia Experimental, estreando-se poeticamente com o livro Espelho Cego (1957). Em 1974 e 1975, realizou happenings em várias galerias, ligando sempre a palavra e a intervenção artística de vanguarda.


SALETTE TAVARES (1922-1994)


NASCENTE


Em gotas de ametista e de mamilo
sorvendo hoje nos favos da romã
escorro vale extenso e, de tranquilo,
o grande olhar de ontem amanhã.

Firme de barco, de terra e de castelo
navegando com o rosto no levante
na paisagem do tempo te congelo
ó múltiplo de ser, ó cada instante!

Com raízes de partida e de chegada
eu bemdigo o dia e dou-lhe a mão
abrindo em flor na crua madrugada
para beber o céu e conhecer o chão.

Na pupila do tempo me suspendo,
espero o rio para invadir o monte
e no fervor da sede e do tormento
sou o jorro da fonte que me irrompe.


terça-feira, 6 de janeiro de 2015

MATILDE, MATILDINHA

Matilde, Matildinha, a querida Matilde de meninos e escritores, ficou muito mais conhecida como escritora para a infância do que como poetisa para adultos.

Não deixou obra vasta neste campo.Mas é importante visitá-la pois pertence a uma geração de mulheres que marcou sigmnificativamente a sua presença como uma uma força na poesia portuguesa.


MATILDE ROSA ARAÚJO (1921-2010)


MEU PAÍS


Meu país turístico de doce clima tão frio
De negras neves a caiar os montes
E os prados cansados
Tenho uma capa de degredo larvas de água triste
Nos cabelos húmidos
E pés descalços pelos sapatos do desengano
Meu país de água com o mar à beira
Meteste-me no fogo do ventre um coração parado
Pelas águas geladas de poluídos rios e gastos mares
E sou (fui) a emigrada presente que nem parte nem partiu
Não partirá
Arbusto mal plantado no suicídio do vento
Cobrindo o rosto com as folhas das mãos

domingo, 4 de janeiro de 2015

ASSIM

Natércia Freire é um casos Professora, colabora com a Emissora Nacional e dirige as Artes e Letras do Diário de Notícias até 74.

Amiga de poetas como Carlos Queiroz, David Mourão-Ferreira ou Egito Gonçalves, começou a publicar a sua poesia num tempo em que a mulher era aconselhada pelo Estado Novo a guardar as suas ambições de ser apenas dona de casa e mãe de família.

Diz-se que nos anos a seguir a 74 terá sido ostracizada, o que terá sido injusto pela qualidade da sua obra e pela dimensão humana que sempre revelou. No início do século foi publicada a sua obra que merec muito ser revisitada.




NATÉRCIA FREIRE (1920-2004)



ASSIM


Assim por muito mais e muito menos
Assim por heroísmo e cobardia.
Assim a tarde a noite no momento.
Assim pensar em mim quando vivias.

Assim os dedos longos nos cabelos
Dos mortos abraçados e cativos.
Assim esta miséria de estar viva
E não saber estar viva quando vivo.

Assim nas brancas árvores o tempo
Assim ter acabado o meu destino
E ler-me noutros versos, noutros nomes,
Assim desconhecer aonde habito.

Assim por muito mais e muito menos
Se acaba, em vida, a vida ao suicida.

Assim por ser a hora mais cinzenta,
O desamparo assim da minha vida.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

AMÁLIA - POETA


Amáila Rodrigues, talvez pelo convívio com poetas, em poeta se tornou. Pouco conhecida como tal, com uma obra breve que balança entre os temas mais ligados ao fado e a proximidade de gente como Pedro Homem de Melo, David Mourão-Ferreira ou Nemésio, como é o caso.


CARTA A VITORINO NEMÉSIO (1)

Talvez que o anjo esquecido,
O anjo da poesia,
Se tenha de mim perdido
Sem reparar que o fazia...
Por isso me faltam asas
E me sobejam as penas
De um desejo inalcançado:
Que eu gostava de voar
Até ao anjo perdido
O anjo de mim esquecido,
Que por mim é tão lembrado.
Ai se eu tivesse voado
Aonde queria voar
Não estava agora a rimar
Versos de asas cortadas.
Voava junto de si
Assim fico aonde me vê
Mesmo pregadinha ao chão
Com asas de papelão
E sem entender porquê,
Pois a uns faltam-lhe as asas
Mas por ter asas cortadas
Sofrem uns e outros não?
Eu tenho sofrido muito
Nos meus voos ensaiados
Que ao querer sair do chão
Ficam-me os pés agarrados.
...E por falar dos pés
Com versos de pés quebrados
Perdoe lá a quem os fez
Pelo mal dos meus pecados
Só os fiz por timidez
Que tenho em me dirigir
A quem tem por lucidez
Razão para distinguir
O bom e o mau português.
Assim à minha maneira
Aqui venho responder
Desta forma tão ligeira
Que a sério não pode ser!

quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

TU DORMES

Não serão muitos os poemas em que Sophia de Mello Breyner Andersen traz a intimidade dos afectos para a mesa da poesia.

A sua poesia visita mais os terrenos dos mitos e da polis. Brilha nela uma altivez, um limpeza das palavras que nunca se perde mesmo quando raramente se aproxima de temas mais pessoais e reservados.


TU DORMES


Tu dormes embalado nos rochedos
E aos meus ouvidos vem falar o vento.
Escuto, busco, chamo e não respondes,
E todo o mundo se tornou fantasma.

Estou fechada, suspensa, prisioneira
Queria voltar para fora, para o dia
Ressurgir, respirar, tornar a ver,
Mas todo o mundo se tornou fantasma.

E a voz do mar encheu o céu e a terra
Uma voz que está cheia e que se quebra
E nunca mais acaba.

Pássaros brancos cortam as janelas,
Anémonas cintilam nos rochedos:
Terror de estar sozinha e de escutar
Com este tempo morto entre os meus dedos.

domingo, 28 de dezembro de 2014

A NOSSA CASA

Na poesia moderna, e depois de um século XIX em que a poesia feminina pouco ou nada se tornou pública, foi Florbela a primeira poetisa a falar da mulher por inteiro, do amor, do desejo, do corpo.

Seguiram-se-lhe outras. As mais conhecidas são Natália e Maria Teresa Horta. Mas é ela que rompe a situação de marginalidade das vozes femininas, sofrendo na pele as dores dessa mesma marginalidade a que estava condenada a condição e a escrita das mulheres.



FLORBELA ESPANCA (1894-1930)


A NOSSA CASA


A nossa casa. Amor, a nossa casa!
Onde está ela. Amor, que não a vejo?
Na minha doida fantasia em brasa
Constrói-a, num instante, o meu desejo!

Onde está ela. Amor, a nossa casa,
O bem que neste mundo mais invejo?
O brando ninho aonde o nosso beijo
Será mais puro e doce que uma asa?

Sonho... que eu e tu, dois pobrezinhos,
Andamos de mãos dadas, nos caminhos
Duma terra de rosas, num jardim,

Num país de ilusão que nunca vi...
E que eu moro – tão bom – dentro de ti
E tu, ó meu Amor, dentro de mim...

quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

NATAL



Três momentos em volta do Natal e da Fé.

MÁRIO CASTRIM


DLIM-DLIM

Nasce a menina
dlim-dlim
não é Jesus
dlim-dlim
nem Jesuíina
dlim-dlim
ela é a filha
de uma vizinha
não teve burro
nem vaquinha
porque em Lisboa
era difícil
ser assim.

De qualquer modo
dlim-dlim.




FERNANDO PESSOA


NATAL


Nasce um Deus. Outros morrem. A verdade
Nem veio nem se foi: o Erro mudou.
Temos agora outra Eternidade,
E era sempre melhor o que passou.

Cega, a Ciência a inútil gleba lavra.
Louca a Fé vive o sonho do seu culto.
Um novo Deus é só uma palavra.
Não procures nem creias: tudo é oculto.




FREI BENTO DOMINGUES

"Creio que a linguagem religiosa só pode viver no símbolo e na metáfora. Naquilo que é inizível."


terça-feira, 23 de dezembro de 2014

COMO ESTÁ SERENO O CÉU

Leonor de Almeida Portugal de Lorena e Lencastre, Condessa de Oeynhausen, Marquesa de Alorna, fundadora da maçonaria feminina, foi uma das maiores ou talvez a maior figura feminina da cultura portuguesa.

Aristocrata de vastos pergaminhos, poetisa, pensadora, frequentadora da melhor e mais culta sociedade europeia do iluminismo.


MARQUESA DE ALORNA (1750-1839)


Como está sereno o Céu,
como sobe mansamente
a lua resplandecente,
e esclarece este jardim!

Os ventos adormeceram;
das frescas águas do rio
interrompe o murmúrio
de longe o som de um clarim.

Acordam minhas ideias,
que abrangem a Natureza,
e esta nocturna beleza
vem meu estro incendiar.

Mas se à lira lanço a mão,
apagadas esperanças
me apontam cruéis lembranças,
e choro em vez de cantar.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

COMO O QUE CONSOME ALENTA

Outra religiosa nascida já em finais do séc XVII, Soror Madalena da Glória, uma das 3 grandes poetisas do séc. XVII com Soror Violante do Céu e Soror Maria do Céu.

Soror Madalena da Glória era também pintora, o que levou Natália Correia a acentuar que a pintura, bastante cultivada neste período por mulheres artistas, hoje ignoradas, teve o seu expoente feminino em Josefa de Óbidos.


(Pintura de Josefa de Óbidos)

SOROR MADALENA DA GLÓRIA (1672- data da morte desconhecida)


MOTE E GLOSA



Como dá vida o que mata,
Como o que consome, alenta.

Já que morro, ingrata sorte,
Às mãos da tua porfia,
Deixa-me inquirir um dia
A causa da minha morte:
Se amor com impulso forte
Me rendeu, como me aparta
Do bem, que na alma retrata
Minha doce saudade,
Que em lágrimas persuade,
Como dá vida o que mata.

Nesta aflição importuna,
Em que meu coração passa,
Tudo é rigor que trespassa,
Nada golpe que desuna:
Que infausta a minha fortuna
Um bem, que me representa,
Cruel da vista me ausenta,
E não sabe a minha dor
Definir em tal rigor
Como o que consome, alenta.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

ANTES QUE O VOSSO AMOR MEU PEITO VENÇA

Vale a pena visitar a poesia portuguesa no feminino.

De entre todas as poetisas, a primeira será por certo Soror Violante do CéU professou a 29 de Agosto de 1630 no Convento de Nossa Senhora da Rosa, em Lisboa, convento de monjas da Ordem dos Pregadores, ali vindo a falecer.

Conhecida pelos meios culturais da época como Décima Musa e Fénix dos Engenhos Lusitanos, foi um dos máximos expoentes da poesia barroca portuguesa.




SOROR VIOLANTE DO CÉU (1601 – 1693)




Será brando o rigor, firme a mudança,
Humilde a presunção, vária a firmeza,
Fraco o valor, cobarde a fortaleza,
Triste o prazer, discreta a confiança;

Terá a ingratidão firme lembrança,
Será rude o saber, sábia a rudeza,
Lhana a ficção, sofística a lhaneza,
Áspero o amor, benigna a esquivança;

Será merecimento a indignidade,
Defeito a perfeição, culpa a defensa,
Intrépito o temor, dura a piedade,

Delito a obrigação, favor a ofensa,
Verdadeira a traição, falsa a verdade,
Antes que vosso amor meu peito vença.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

QUAL A COR DA LIBERDADE


E a propósito de Abril...


JORGE DE SENA

CANTIGA DE ABRIL



Às Forças Armadas e ao povo de Portugal
«Não hei-de morrer sem saber qual a cor da liberdade»
J. de S.


Qual a cor da liberdade?
É verde, verde e vermelha.

Quase, quase cinquenta anos
reinaram neste país,
a conta de tantos danos,
de tantos crimes e enganos,
chegava até à raiz.

Qual a cor da liberdade?
É verde, verde e vermelha.

Tantos morreram sem ver
o dia do despertar!
Tantos sem poder saber
com que letras escrever
com que palavras gritar!

Qual a cor da liberdade?
É verde, verde e vermelha.

Essa paz do cemitério
toda prisão ou censura,
e o poder feito galdério,
sem limite e sem cautério,
todo embófia e sinecura.

Qual a cor da liberdade?
É verde e vermelha.

Esse ricos sem vergonha,
esses pobres sem futuro,
essa emigração medonha,
e a tristeza uma peçonha
envenenando o ar puro.

Qual a cor da liberdade?
É verde, verde e vermelha.

Essas guerras de além-mar
gastando as armas e a gente,
esse morrer e matar
sem sinal de se acabar
por política demente.

Qual a cor da liberdade?
É verde, verde e vermelha.

Esse perder-se no mundo
o nome de Portugal,
essa amargura sem fundo,
só miséria sem segundo
só desespero fatal.

Qual a cor da liberdade?
É verde, verde e vermelha.

Quase, quase cinquenta anos
durou esta eternidade,
numa sombra de gusanos
e em negócios de ciganos,
entre mentira e maldade.

Qual a cor da liberdade?
É verde, verde e vermelha.


quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

MANHÃ INICIAL E LíMPIDA


Ainda do 40xABRIL, um poema de Fernando Luís Sampaio e uma ilustração de Luís Manuel Gaspar.


FERNANDO LUÍS SAMPAIO

CODA

Da manhã inicial e límpida
Homens de palha destronaram
A chama a favor da combustão
E as palavras de que nascemos
Ladram em matilha silenciosa.

domingo, 7 de dezembro de 2014

40XABRIL


Neste mundo literário à portuguesa, onde reinam pequenos príncipes com balcão de secos e molhados nas páginas pouco literárias dos jornais, se alguém diz muito bem de alguém, vai-se logo pensar aquele role das suspeitas rascas do costume e que, infelizmente, quase sempre, são verdadeiras.

Mal conheço a Catarina Nunes de Almeida. Mas gosto da sua poesia. Gosto cada vez mais. Vai crescendo a cada publicação. Neste excelente livro editado pela ABYSMO, brilha entre vários outros excelentes trabalhos de poetas e ilustradores que, ouvindo a música de José Mário Branco, celebraram os 40 anos do 25 de ABRIL longe e para a frente e para cima dos discursos oficiais.


E se eu não dissesse nada
não me atrevesse mais a escrever
ignorasse todas as tâmaras do mundo os pontos de fuga
nos grandes quadros renascentistas
mais a poluição que ainda vai no adro
e toda a gama de tectos falsos e de capachinhos
disponível na internet?

E se eu fechasse os olhos e o útero e a conta bancária
a todo o anjo que viesse com anunciações
e tarifários ilimitados?

E se eu partisse o antebraço e nunca mais erguesse cartazes
nem cravos nem percorresse a selva que resta com o meu filho
ao colo?
E se eu me recusasse a proferir para sempre uma ave que fosse
uma das que dividem o tempo
uma entre as que salvam?

Ainda assim temo bem
a palavra cegonha romperia a minha mão
em pleno Abril


sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

UMA MENINA TINHA UM CÃO QUE TINHA UMA PULGA




Entre os poetas surrealistas, às vezes tão mal conhecidos, podemos encontrar momentos verdadeiramente gloriosos em que a escrita pões a vida ao contrário, ou seja, como ela devia ser.

ANTÓNIO JOSÉ FORTE (1931-1988)

A PULGUINHA DANÇARINA

Uma menina tinha um cão que tinha
uma pulga no focinho.
O nome da menina era Gisela.
O cão chamava-se Piloto.
Só a pulguinha
não tinha
um nome
que fosse pequenino como ela.

Quando a menina cantava
e o cão Piloto ladrava
a pulguinha
que havia de fazer ela?
Como não cantava nem ladrava
a pulguinha
dava pulos e dançava
apesar de pequenina
lhe puseram
o nome de dançarina.


quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

POSTERIDADES


A Ana Luísa é uma poetisa de grande consistência na escrita e de olhar subtil sobre o mundo que nos cerca.

ANA LUÍSA AMARAL (1956)

POSTERIDADES


Escrevo para a posteridade
do que é nada:
uma lupa tombada
sobre o corpo,
uma almofada lisa,
pequeno pára-quedas
de ternura

[Devia estar amarrotada,
a almofada,
mas não está: está lisa.
Se não, ficaria espraiada
por futuro]

Escrevo para o meu filho
que é de nada,
varão que não possuo:
uma filha com olhos
de transparência tal
de pára-quedas
que um nó de vento
os tornaria muros

[Devia ter mil nós
o pé
da minha filha,
mas não tem: é livre.
Por isso é que é
de tudo]

E em relação
à lupa,
façam os entendidos
o que quer:
um século daqui,
descubram-lhe a
verdade.

[Ponha-se aí a rima
que quiser:
coberta de veludo]