sábado, 16 de agosto de 2014

MARGARIDA FONSECA SANTOS

Quem anda pelas escolas deste país e sabe o esforço que algumas pessoas fazem para a promoção do livro e da leitura conhece o trabalho fantástico da Margarida Fonseca Santos.

Há tempos descobri um livro dela absolutamente delicioso. Nunca o tinha visto em nenhuma livraria.

Quem tem filhos ou netos pequenos procurem este livro e leiam-no com eles. vai ser uma festa.


quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Ó ÁGUAS DAS NUVENS

Natural do Alvito, Raúl de Carvalho, construiu nos seus anos de poeta uma obra delicada e intensa. É inesquecível para quem o lê o longo poema "SERENIDADE ÉS MINHA" que Mário Viegas gravou com a arte notável que era a sua. É um daqueles poetas que é preciso lembrar quando pululam por aí alguns tantos poetas que nunca serão lembrados.



Na rua molhada,
No vão de uma escada,
Envolto na sombra
Silente da noite,
Um menino dorme
Deitado no azul
Da noite estrelada,
Um menino sonha
Com fadas e luas
E um sol pequenino
Brincando e brilhando
No céu de menino…

Ó águas das nuvens
Descei devagar…
Se o menino acorda
Tem medo da chuva
E fica a chorar…

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

POEMAS DO PESCADOR


Um dos mais belos livros de poesia das últimas décadas em Portugal é "SENHORA DAS TEMPESTADES" de Manuel Alegre.

Nesse livro, além do longo e extraordinário poema que lhe dá o título, conta-se também um conjunto de poemas sob o tìtulo de "Poemas do Pescador". Aqui fica um deles. E do autor deste poema poderíamos porventura dizer como diz o Mia Couto de si próprio: "Ateu, não praticante"


QUARTO POEMA DO PESCADOR



Sei agora que Deus rola nas ondas
vem na última onda ei-lo na espuma
é reflexo brilho incandescência.
Se vou à pesca é para o procurar
se lanço a linha é para ver se o pesco
quando pesco um robalo eu pesco Deus
e é com ele que falo em frente ao mar
ele é seixo a alga o vento leste
a nuvem que lentamente cobre a lua
ele é a minha dispersão e a minha comunhão
o fragmento de estrela que se vê ainda
a tainha que salta
ele é o grão de areia e a imensidão da noite
o finito e o infinito
vai na corrente corre-me no sangue
não sei que nome dar-lhe
digo Deus
ele é o laço que me prende e me desprende
o que palpita em mim e o que em mim morre
vem na sétima onda e bate no meu pulso

ele é o aqui o agora o nunca mais
a morte que está dentro
rola na onda
bate na sétima costela do meu corpo
chamo-lhe Deus porque ele é o tudo e é o nada
eternidade que não dura sequer o eu dizê-la
ei-lo na espuma na lua no reflexo
de repente um esticão a cana curva-se
é talvez um robalo de seis quilos
isto é a pesca
o meu falar com Deus ou com ninguém
sozinho frente ao mar.

Ele é o vento a noite a solidão
O robalo que luta contra a morte
E é a minha ligação magnética com Deus
Esse umbigo do mundo
Que rola sobre as ondas e cai do firmamento
Com sua espuma e sua luz e sua noite
Chamo-lhe Deus porque não sei como chamar
Ao meu ser e não ser
De noite junto ao mar
Quando regulo a amostra e sua fluorescência
Pescando robalos
Ou talvez Deus
E sua ausência.

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

O MAR EM VOLTA


Poeta discreto, o João Rui de Sousa. E exigente, rigoroso no traçado dos seus versos. Escritor com muitos anos de ofício e leitor generoso e atento dos outros poetas.



VIA ABERTA OU O MAR EM VOLTA

Ter o destino em aberto
para o impulso do salto.
Ter sempre o olhar mais perto
daquilo que está mais alto.

Ter a seiva e ter o fito
Das palavras em semente.
Ter o sonho sempre rente
aos ombros do infinito.

Ter das coisas todo o lume
Desde o fim ao seu começo.
Ter as mãos que se entreabrem
à ilha que seja berço,

ao espaço que seja infindo,
à praia que seja o mundo
de um amor que não tem preço
nem superfície nem fundo.

E seguir no desalinho
dos navios fora de rumo
por mares sem endereço.
João Rui de Sousa


VIA ABERTA OU O MAR EM VOLTA

Ter o destino em aberto
para o impulso do salto.
Ter sempre o olhar mais perto
daquilo que está mais alto.

Ter a seiva e ter o fito
Das palavras em semente.
Ter o sonho sempre rente
aos ombros do infinito.

Ter das coisas todo o lume
Desde o fim ao seu começo.
Ter as mãos que se entreabrem
à ilha que seja berço,

ao espaço que seja infindo,
à praia que seja o mundo
de um amor que não tem preço
nem superfície nem fundo.

E seguir no desalinho
dos navios fora de rumo
por mares sem endereço.

domingo, 3 de agosto de 2014

AVENTURA MARÍTIMA


A moda na poesia é terrível. Cria pquenas divindades de pés de barro nascidas anteontem e deixa na sombra poetas com anos de consistência, dimensão e trabalho. É o caso da minha amiga Rosa Alice Branco, poeta do Porto que vale muito a pena ser lida.


Aventura Marítima

É à noite que as traineiras descem o rio,
o ruído do motor não abafa o marulhar da água,
parecem pirilampos com nome de mulher:
Rosinha, Salette, Princesa dos Mares,
deslizam por entre esgotos, sacos
e garrafas de plástico, a aventura marítima
está povoada com novos artefactos. É preciso
sacudir o petróleo do peixe, escová-lo, desligar
o interruptor para que o mercúrio se torne invisível
e as peixeiras mostrem as guelras do saudável
cherne de boa linhagem. Já nada é o que era
e eu creio que nunca foi. Que romântico é olhar o rio,
a procissão da traineiras, Cristo crucificado e a mãe
chorando. É sexta-feira de paixão, fim-de-semana,
a foz enche-se de carros, pessoas acotoveladas
nos bares da praia. Ao fim da noite virá o palio
e um halo de santidade descerá aos peixes,
à sardinha, à pescada, ao robalo,
que rezem por nós, agora que estão iluminados a petróleo
e que o mercúrio brilha no coração dos eleitos.

Rosa Alice Branco

domingo, 27 de julho de 2014

GILDA


Continuando à volta da língua que falamos e dos seus poetas, um dos grandes da literatura brasileira




MURILO MENDES (1901-1975)

GILDA

Não ponha o nome de Gilda
na sua filha, coitada,
Se tem filha pra nascer
Ou filha pra batisar.
Minha mãe se chama Gilda,
Não se casou com meu pai.
Sempre lhe sobra desgraça,
Não tem tempo de escolher.
Também eu me chamo Gilda,
E, pra dizer a verdade
Sou pouco mais infeliz.
Sou menos do que mulher,
Sou uma mulher qualquer.
Ando à-toa pelo mundo.
Sem força pra me matar.
Minha filha é também Gilda,
Pro costume não perder
É casada com o espelho
E amigada com o José.
Qualquer dia Gilda foge
Ou se mata em Paquetá
Com José ou sem José.
Já comprei lenço de renda
Pra chorar com mais apuro
E aos jornais telefonei.
Se Gilda enfim não morrer,
Se Gilda tiver uma filha
Não põe o nome de Gilda,
Na menina, que não deixo.
Quem ganha o nome de Gilda
Vira Gilda sem querer.
Não ponha o nome de Gilda
No corpo de uma mulher.

sexta-feira, 25 de julho de 2014

FEITICEIRO DAS IMAGENS E DAS PALAVRAS


Grande feiticeiro das imagens e das palavras, o Malangatana era um muito querido amigo.

Nestes tempos em que é preciso defender a língua portuguesa dos muitos acordos e desacordos, são os poetas da lusofonia que anunciam e sempre anunciaram o caminho do futuro desta língua tão antiga em que todos amamos, rimos, gritamos e sonhamos.


MALANGATANA VALENTE NGENYA (1936-2011)


ÁFRICA GRITA AO LINDO HLONGO


Quem é que te fez negro
desde Cabo até aos Pirâmides?
Quem é que na noite escura gritou
um grito cujo eco fugiu pelo ar?
Quem é que rasgou a capulana
encarnada do templo negro?
Quem é que fez as lagoas de casas espectaculares?
Quem é que pariu o mulato sem pai?
Quem é que na rua à meia-noite
gritou sem grito?
Quem untou na cara do preto asfalto?
Quem é que na noite do feitiço
rasgou as portas da palhota do Xikwembu?
Quem é que partiu a cabeça de suruma?
Quem fumou o rapé sagrado do avô?
Quem untou de banha
a lata vazia
em que o feiticeiro guarda
os seus segredos?

terça-feira, 22 de julho de 2014

MARGARIDA VALE DE GATO



Outra bela poeta entre os surgidos neste século.
Margarida Vale de Gato, investigadora universitária, e (magnífica tradutora O seu livro "Mulher ao mar" vai na 4ª edição.


COM PAIXÃO E HIPOCONDRIA

Confortamo-nos com histórias laterais,
evitamos o toque, há risco de contágio;
por mais que preservemos a franqueza
passou o estágio já da frontal alegria:
estamos bem, obrigada, embora aquém
de antes – entretanto admitimos não
saber, e enquanto resta isto indefinido,
mesmo com luvas, pinças de parafina,
não sondamos mais, sob pena de crescer
um quisto nesse incisivo sítio onde
achámos sem tacto que menos doía

domingo, 20 de julho de 2014

O CAMINHO MARÍTIMO PARA A ÍNDIA




A Catarina Nunes de Almeida é, quanto a mim, uma das mais interessantes poetas surgidas já neste século e acaba de publicar um pequeno livro comovente.

No início deste livrinho lê-se:

"Para o Miguel, que durante 9 meses carregou comigo um filho.
E durante outros tantos, este livro."

E aqui fica um poema

"então a mulher aceNdeu uma velinha sobre a palavra homem
era uma palavra homem sem carta de marear e sem corrigenda -
onde se lia homem devia ler-se homem.

o homem era o limite de cada oração
estava na fluência da mulher como uma vírgula.
sempre que a mulher percorria palavra homem
estava descoberto o caminho marítimo para a índia."


domingo, 6 de julho de 2014

JUAN MANUEL ROCA


Depois de alguns poemas meus, alguns poemas que me emocionaram de poetas lidos por aqui e por ali.

JUAN MANUEL ROCA

Poeta Colombiano



BREVE HISTÓRIA DE NINGUÉM

Diz o senhor Nabokov que a literaura não nasceu
quando uma criança de um vale do Neandertal chegou a
gritar: Um lobo! Um lobo!, e atrás dele , as quatro patas no
ar, um lobo cinzento brandia a sua língua estralejante.

Diz, melhor, que a literatura nasceu quando uma
criança de um vale do Neandertal chegou a gritar: Um
lobo! Um lobo!, e atrás dele não vinha ninguém.

Desde então, ninguém é um perasonagem eterno, um
fantasma nos vales do poema.


(In " OS CINCO ENTERROS DE PESSOA", tradução de Nuno Júdice)

quinta-feira, 26 de junho de 2014

O SENTIDO

O SENTIDO

(Sobre pinturas de Joaquim Rodrigo)

I

Um dia, de manhã, ao acordar,
tomamos conhecimento
de que nada faz sentido.

Riso ou neve,
nada faz sentido.

Olhamos em redor,
encontramos o quê?

Fragmentos submersos,
membranas calcificadas,
palavras ázimas,
incêndios brancos sem qualquer correspondência
com a música nascida desse imenso continente
que é e foi e será sempre a comoção.

Um dia, de manhã, ao acordar,
o mundo torna-se inesperadamente estreito
e o tempo dos assassinos
começa a instalar-se
com seu doce sorriso sedutor.

Tudo fica ao rés de um fogo que se extingue
e Deus, tenha o nome que tiver,
terra ou mar ou vento,
não é mais que uma peça encravada
no remoer desdentado
de algum mecanismo inútil.


II

Um dia, de manhã, ao acordar,
tomamos conhecimento
de que tudo faz sentido
se soubermos encontrar o ovo essencial,
a fonte, o nome da alegria.

Rejubilamos, então.
Voltamos ao calor da terra.
Beijamos a raiz do cedro
E partimos a arder através da noite.

Aprendemos o caminho antigo
na palma da mão dos ferreiros,
dos oleiros,
os que inventam pássaros de vidro
no esconso da solidão.

É o momento em que as cores da terra
nos vêm chamar
para nos instilar a chama
do arco do seu saber.

Vermelho e sangue,
preto e ocre
são as cores
e dela somos feitos.

E há um risco demarcando
o território do silêncio
e outro
anunciando a chuva.

Barro, lama, lume,
tudo quanto somos
vinha anunciado em cada grão.

E a estrela brota cinco vezes
por dentro do coração.

E basta ler o relâmpago
e soltar a palavra
e declinar o verbo de que nasce a cor.

(de "Marinheiros de outras luas", a publicar)

segunda-feira, 23 de junho de 2014

AS AVESTRUZES BAILARINAS

AS AVESTRUZES BAILARINAS

(Sobre uma pintura de Paula Rego)


Perderam no ovo
a memória do voar.

As avestruzes.

Têm desejos aerodinâmicos.

Dormem numa febre de sentir
encostado ao peito
o mecânico ruído de turbinas
hélices
motores.

Têm sonhos que nunca confessarão
nem sequer á própria sombra.

Aspiram soluçando à forma das fuselagens.

Perderam no ovo a inclinação
à travessia das nuvens.

Vão dançar a noite inteira
procurando tristemente a memória
de uma estrela de um cometa
ou de uma asa.

(de "Marinheiros de outras luas", a publicar)

sábado, 21 de junho de 2014

PAI

PAI

(Sobre uma escultura de João Cutlieiro)


“Aos 16 anos uma pessoa ainda pensa que pode fugir ao pai.”

Salman Rushdie

Busco um pai ausente aqui,
na pedra,
na severa e segura presença
da pedra,
um pai de pedra,
um chão de onde partir.

Busco duas asas de granito
vigiando o descaminho
dos meus passos,
duas asas ou um pai
de pedra erecta e justa,
resistindo eternamente
ao trabalho da ferrugem.

Busco a profissão do guerreiro
grávido de fé e de furor.

Busco à beira-mar
um pai de pedra
onde possa descansar
a febre do olhar.

Busco um fio de prumo,
um pai definitivo
amável e bondoso
surgindo vertical
do puro espanto da terra.

quarta-feira, 18 de junho de 2014

LABIRINTO

LABIRINTO

(Sobre uma gravura de Bartolomeu Cid dos Santos)

“Sabemos agora que não é necessário que os átomos tenham um objectivo.”

Umberto Eco, “A linha e o labirinto”


Vou fazer um labirinto
no outro lado da lua.

Com palavras ou pedras
ou nuvens ou fios de lã.

Tenho de fazer um labirinto
para lá da esquina do vento.

Um labirinto entre o céu e a terra
onde alguém tropece
no cheiro quente
das castanhas em Outubro.

É urgente construir um labirinto
em Outubro ou em Fevereiro.

Um labirinto onde a lua
em cada noite se tinja
de um vermelho escandaloso.

Tenho de inventar a geometria
sem fuga nem distância.

Tenho de fazer acontecer um labirinto.

E soltar o touro essencial.

E acender o olho do falcão.

E rasgar a carne até ouvir
na cor do sangue
a flauta de Mozart.

Tenho de inventar um labirinto,
o lugar onde venha, porventura,
a encontrar-me um dia com todos os que amo,
filhos ou amigos,
pássaros felizes sobre o mar.
´

domingo, 15 de junho de 2014

A CABEÇA DOS PINTORES

A CABEÇA DOS PINTORES

(Sobre pinturas de Cruzeiro Seixas)

“Põe a ordem no seu lugar, desarruma as pedras da estrada.”

André Breton e Paul Éluard




Abre a porta. Entra.
Ouve pela última vez
o aviso asséptico dos homens
sem espinhos nos olhos
nem rosas no coração.
Ouviste? Apesar de tudo vais entrar?
Estás tomado pelo vírus do sangue
e da loucura dos cavalos.
Já não há marcha atrás.
É aqui que começa o céu
e o inferno.

Anda ver.

Na cabeça dos pintores
voam aves amputadas
da brancura imaculada
dos seus sonhos verticais.
Aves doidas aves mansas
que deixam enferrujar
as garras com que rasgaram
a seda do firmamento.

Anda ver este mar que te anuncia
barcos de cal corroída
na cabeça dos pintores!

E não tremas! Não te enganes!
Tu abriste a porta dos mistérios.

Não podes voltar atrás.

Deixa aqui a tua pele e o que resta do tecido
de uma inocência maior.
Tu estás perdido para sempre.
Só te resta mergulhar.

Na cabeça dos pintores
crescem cidades nocturnas
como ausências preenchidas
por restos maravilhosos
da refeição dos chacais!
E em cada esquina descansam
ossaturas descarnadas
dos construtores de ruínas.
E as palavras ficam nuas
sem ter onde germinar.

Na cabeça dos pintores
um touro desembolado
a cuspir um sangue negro
avança no seu martírio
às cinco da tarde em ponto.
E os circos trazem bandejas
onde vêm oferecer
a morte da mágoa verde
ao vício das gargalhadas.
E as bocas pedindo amor
arrastam algas ao vento
à porta das catedrais
nos domingos de manhã.

Na cabeça dos pintores
os odores alaranjados
entregam-se intensamente
ao gozo das oliveiras.
E as mãos negras dos ceifeiros
sob um sol abrasador
semeiam bocas gretadas
nos campos rasos do Sul.
E a água que vem de Deus
acende solenemente
um fogo imenso no céu.

Na cabeça dos pintores
as esferas enlouquecem
dissolvidas lentamente
no suave despotismo
das areias dos desertos.
E ao vento voam crianças
e mantilhas sevilhanas.
E os beduínos caminham
no sentido inverso aos olhos
dispersos pelas lixeiras.

Na cabeça dos pintores
há cães que transpiram cores
e uma música calcária
vai pingando sobre os ossos.
E há navalhas competentes
desenhando cuidadosos
arquipélagos de sangue.
E uma planta tropical
devora virgens cantando.
E os fantasmas insepultos
vêm levar-nos pela mão
a uma sala de cinema
onde os anjos se apagaram.

Anda ver e ver e ver
como tudo pode arder
e nascer e renascer
na geografia de guelras
da cabeça dos pintores!


(De "Marinheiro de outras liuas", a publicar)

sábado, 7 de junho de 2014

BRANCO

BRANCO

(Sobre desenhos de Lagoa Henriques)

Branco é o oceano a beijar os pés da deusa.
Branco o meu olhar caminhando
por ruas onde o peixe vem dizer bom dia
ao meu país.

Branco o arrepio a concha
o búzio.

E a sombra branca do sol

E o fruto sumarento do amor.

Branco é o meu ofício
em frente à pedra ou à palavra,
branco o meu destino branco
entregue à brisa quente
das noites brancas de Junho.

No entanto
devo confessar
que muitas vezes me vesti
de ferro e grito
quando o céu se turvava
de adagas afiadas
e metais sombrios.

Respondi à chamada urgente
de lilases dolorosos
de escarlates abrasivos
de vermelhos palpitantes
de magentas arrancados ao choro dos vulcões.

Aprendi como é indispensável
esconder dentro do peito
os atavios da doçura
quando as botas cardadas
vêm esmagar as nuvens
e a fome acampa
sobre os ombros de esqueletos reduzidos
e o sangue de crianças se mistura
à brasa do fim do dia

Sei também
sei intensamente
que é preciso alguém
que em cada dia
levante o branco e diga o branco
e cante o branco e vista de branco o coração.
Alguém de terra.
Alguém de mar.
Alguém marinheiro de mistérios transparentes.
Alguém que derrame sobre o branco de uma pedra
a sua enorme e branca comoção.

(De "Marinheiro de outras luas" a sair em breve)

quarta-feira, 4 de junho de 2014

DESOLAÇÃO

DESOLAÇÃO

(Sobre uma pintura de Dominguez Alvarez)

Não tenho nada mais a acrescentar
a estas cores.
Nem gente, nem ladrar de cães.
A severa paisagem não pede mais palavras.

Nada mexe.
Apenas a brisa leve despenteia
a imutável cabeleira
deste tempo esguio.

A dor aqui é dura
e a nuvem cinzenta ´
como se houvera nascido
de uma lareira apagada.

Os sinos desolados
não se cansam de bater
nas faldas da serrania
e varrer
as paredes ora frias
do meu peito.


sábado, 31 de maio de 2014

O TIGRE

O TIGRE

(Sobre uma pintura de Júlio Pomar)

“… este é um sonho, uma pura diversão da minha vontade e, já que tenho um poder ilimitado, vou causar um tigre.”

Jorge Luís Borges


Posso causar um tigre.

E dizer um tigre.

E como Borges posso
abrir a cegueira ao tigre.

Vem, tigre.

Esta casa não é só a minha selva.
Aqui podes rugir
e experimentar a cor.

Aqui podes fugir ao destino
com que a nossa mãe natura
te aprisionou a pele às grades.

Aqui poderás para sempre
ser apenas tigre.
Sumptuosa faísca a rasgar a noite.
Raio
relâmpago fendendo o ar
arco voltaico
curva eléctrica
pássaro de tinta
cálice de pura geometria
em cada salto.

(De "Marinheiro de outras luas" a sair em breve)

quarta-feira, 28 de maio de 2014

AS COISAS SIMPLES

AS COISAS SIMPLES


(Sobre pinturas de Nuno de San Payo)


Gosto das coisas sólidas. Sem brilho.
Coisas de linho ou de pedra
desmesuradamente agarradas ao chão.

Gosto das coisas brancas
lavadas pelo ar fresco da manhã
e varridas pela memória recente
da espuma, do sal ou da gaivota.

Coisas simples e serenas:
o pão quente e farto, o café tomado em família,
as meninas chilreando sobre a relva
ao sol da primavera.

Gosto da música suave que,
quase sem de si nos dar presença,
se desprende levemente
de uma flor irrepetível.

Gosto dos pequenos gestos,
os simples, tranquilos e altivos gestos.

Gosto de saber que essa altivez
transporta um incêndio discreto,
um canto de alaúde, um perfume de alfazema.

Gosto das coisas simples, sólidas serenas:
um momento de obscura comoção, um resto de luz
a estender-se na mesa,
a folha de jornal já lido que se desprende e vai
na desmedida ambição
de se tornar borboleta.


José Fanha

(de "Marinheiro de outras luas", a publicar)

domingo, 25 de maio de 2014

AZUL

AZUL


(Sobre uma pintura de Pedro Chorão)


Falei, falo, falarei
de um tempo azul, um tempo transparente,
um tempo de traineiras cheias de alegria e prata.

Falei, falo, falarei
de um tempo de telhados preguiçosos,
um tempo obsessivamente azul
com a Primavera a pousar
no tímido suspiro das rosas
pela manhã.

Aprendo uma e outra vez
como é diferente o tempo azul em cada idade,
em cada inquietação,
em cada tempo.

Relembro
o carrossel de todos os azuis,
nos rasgões da herança sonâmbula
que os deuses deixam
a quem queira desvendar os caminhos obscuros
desta vida.

Relembro o primeiro azul na cicatriz polar,
o índigo com seu corpo de caju e peixe seco,
o azul dos meus 6 anos na ilha de todos os piratas,
o azul Neruda, Ilha Negra, Patagónia,
o altivo e frio azul
no rosto de porcelana
das dinastias chinesas.
E o triste, o negro azul
das plantações de algodão.
E o mentiroso azul argentino,
escondendo em si o tango que é vermelho,
feito de veludo ou vinho
ou sangue coalhado.

Cada azul acorda vestido de outras sedas.
Cada azul carrega seu navio, seu mar, seu sonho,
seu cardume de espigas e searas,
sua pequena azeitona no bolso do coração.

De todos os azuis que visitei
guardo no mais doce da lembrança
o azul dos rodapés das casas alentejanas,
o azul da digna respiração das casas alentejanas,
o azul com que as casas alentejanas
oferecem, em cada sombra, um mar inventado
à dolorosa secura do chão.


José Fanha

(DE "Marinheiro de outras luas", a publicar)


(Pintura de Pedro Chorão)

quinta-feira, 15 de maio de 2014

SERRA DA LUA


SERRA DA LUA


Sou exactamente como o vento
um homem que nascesse
do húmus do poema
ou de um ninho de pedras
e subisse até ao alto
sobre um chão de sombras e sussurros.

Sou um homem
que pára passo a passo em cada verde irmão
e toca o tronco de ciprestes e abetos
castanheiros
para ouvir nas suas verdes veias
o som da sílaba que voa
na breve respiração do mundo.

Serei um dia como eles
vegetal ou mineral
mas hoje sou um homem que caminha
com braços de vento
um homem a subir a Serra
com um saco onde recolhe silêncios e cristais
e o bater de asas das mais pequenas aves
e as gotas inquietas de uma luz envergonhada.

Sou um homem
que juntando tudo e nada
no ofício do olhar
vai traçando uma palavra e outra e outra
uma música redonda e circular
um delírio de águas
a descer para cima até ao alto
muito para lá das brumas
que vêm engolir telhados e janelas
e apagar castelos
palácios
e vaidades.´

Sou um homem
que depois de todo o chão
ainda sobe
através do ar puro e prateado.
Um homem
ou um vento feito de sonhos
de ossos
nervos
e de incertos passos.

Um homem
que vai para lá da Serra
e sobe até tocar
a lua branca
a grande mãe
a forja de todos os mistérios
que habitam o nosso sangue.

José Fanha

segunda-feira, 12 de maio de 2014

ERRÂNCIA

ERRÂNCIA


Tu que nasces hoje ou amanhã,
António ou Manuel
ou seja qual for o nome
de vento
que em lusa língua te for dado,
serás marcado
com o ferrete da distância.

Seja o teu olhar de barro ou de granito,
buscarás para sempre
a estrela ou a palavra
que te entregue o corpo ao mar.

Aí acenderás o lume e serás abandonado
à tua condição de viajante,
trabalhando eternamente
sobre os mapas justos e perfeitos
onde se traçam as rotas para chegar
à mais bela de todas as ilhas inexistentes.

José Fanha


(Pintura de Lima de Freitas)

sábado, 10 de maio de 2014

UM POEMA PARA ESCREVER

UM POEMA PARA ESCREVER

Tenho um poema para escrever
à sombra de um salgueiro.

Um poema
um comboio de memórias
que me sai dos olhos
a caminho da estação da luz.

Tenho um poema para escrever
e uma mão para escrevê-lo.

Um poema,
rosa, peixe ou ave,
um poema
um rio de palavras
que me una
ao palpitante coração da terra.

José Fanha

quarta-feira, 7 de maio de 2014

EU NESSE TEMPO

EU NESSE TEMPO


Eu nesse tempo voava
tanto quanto me permito recordar.

Coleccionava bonecos
e cromos para colar
e mitos
e voava no espaço da sala
evitando sair pela janela.

O mundo era enorme
terrível
e eu voava.

Ainda hoje por vezes
a horas mortas
abraço o ar
e dou comigo a voar
afastado dos caminhos
para que não digam que as asas
são apenas ornamento

José Fanha


(Autor desconhecido)

quinta-feira, 24 de abril de 2014

25 DE ABRIL - POEMA DE PARABÉNS


POEMA DE PARABÉNS


- a quem, pelos 40 anos do 25 de Abril?
A ti, que como eu sofreste na pele
a orfandade da pátria
de acordar todos os dias
sem o seu colo materno
por mais pobre que fosse
sem o seu céu claro embora carregado
de ameaças.
A ti sobretudo que comeste o duro pão
da prisão
e a injúria de ser batido e humilhado
e impedido de dormir e até de te sentares no chão
desses dias sórdidos em que vomitavas
confissões até de coisas nunca acontecidas
para que deixassem o teu pobre corpo
se acoitar no sono.
A ti também, anónimo filho desta terra que então
ainda tinha aldeias e campos semeados
e rebanhos pastando e moinhos moendo
e pescadores pescando.
(Compraram-te o barco para não pescares mais
a enxada para deixares de cavar
o moinho para deixares de moer
e largaram-te errante
no campo de refugiados em que esta terra
se tornou
para que os ricos façam os seus ricos
negócios
no monumental casino que é o mundo
dos que mandam no mundo.)
Vivias de tão pouco
homem pré-histórico
de antes do 25 de Abril
moirejando
do nascer ao pôr do Sol
mas vivo filho da Vida
com um lugar nesta terra e no mundo.
Um dia recebeste e carregaste o caixão
e o luto do filho morto em combate
lá nessas longínquas áfricas
de que só para tua desgraça ouviste falar.
Parabéns ah sim a ti também! que abalaste a salto
para a estranja
que viveste em bidonviles
atolado em lama e tristeza
a trabalhar mais duro ainda do que na tua aldeia
mas mantendo o hábito de assobiar durante a faina.
Parabéns também a ti
filho desses párias
a ter vergonha de dizer na escola onde moravas
e que língua falavas
e a ti também a ti a da mala de cartão
a emigrar como os homens para ganhar o pão dos filhos
sem pai
a todos vós a todos nós
parabéns!
Os cravos da nossa Liberdade continuam símbolos
mas não deram fruto!
Todas as flores deviam frutificar
não servir apenas para enfeitar e cheirar bem!
Os nossos cravos tornaram-se mortos símbolos
de uma liberdade precária
que a história regista!
Os Capitães de Abril são
para os mais novos
jovens heróis de lenda
como o Homem Aranha!
Envelhecemos, nós, os que vivemos esses dias
essas mágoas, opressões e alegrias!
As imagens que temos desse tempo são fotografias
a preto e branco
por isso mais intensas!
Mas a nostalgia não compensa:
O elo que nos une quando digo Nós
o que é? Uma bandeira? Um mapa? Uma bola
de futebol?
O balbuciar de uma língua?
Que testemunho passar aos jovens que nos perguntam
o que foi o 25 de Abril?
Que casa é esta que lhes faz de lar?
Que futuro lhes preparamos?
Que herança lhes legamos?
Que família somos nós?
Deixamos impunes os gatunos domésticos
que metem ao bolso os nossos pobres cobres!
E aceitamos
de braços caídos
a derrota perante a Finança Internacional
- esse Dragão das mil cabeças que governa o mundo.
Que Nós é este que nos faz de pátria?
Que Nós é este que nos faz de Mundo?

Teresa Rita Lopes

quarta-feira, 23 de abril de 2014

SÉRGIO GODINHO OS VAMPIROS

Há coisas que nascem perfeitas. A colher, por exemplo. Diz o Unberto Eco, e creio que tem razão, que é um objecto com milhares de anos que nunca sofreu alteração desde que foi inventada. Nasceu perfeita Para comer a sopa não tem alternativa.

Há cações que também parecem nascer perfeitas. Não admitem outras versões, outras tonalidades, outros arranjos.

Para mim era o caso de "OS VAMPIROS", a actualíssima canção do Zeca Afonso No entanto, o talento do Sérgio Godinho deu origem a uma nova, fortíssima e emocionante nova versão.

Precisamos de voltar a chamar os bois pelos nomes. Os bois, quer dizer, os vampiros que assolam o nosso país.


segunda-feira, 21 de abril de 2014

CALAI-VOS QUE PODE O POVO...

António Aleixo foi cantado antes, durante e, de novo, depois de Abril. É uma luz na poesia portuguesa. Uma luz que acende a palavra liberdade.


Há tantos burros mandando
Em homens de inteligência,
Que às vezes fico pensando
Que a burrice e uma ciência!

Engraxadores sem caixa
Há aos centos na cidade
Que só usam da tal graxa
Que envenena a sociedade

Vós que lá do vosso império
Prometeis um mundo novo
Calai-vos, que pode o povo
Querer um mundo novo a sério.

sábado, 19 de abril de 2014

NÃO VERGUES O DORSO

João Apolinário foi um destacado militante anti-fascista tanto em Portugal como no Brasil onde se exilou.

Os seus poemas mais conhecidos foram musicados pelo filho João Ricardo e gravados pelos famosos SECOS e MOLHADOS onde começou também Ney Matogrosso.

Este poema creio ser inédito e foi-me dado a conhecer pelo meu amigo Adelino Castro, editor da lÁPIS DE MEMÓRIA.

POEMA

Não vergues o dorso
não estendas a mão
não faças o esforço
da tua razão

Recusa esse preço
confere a balança
e pesa do avesso
o avesso da esperança.

O valor que te dão
pela venda - rejeita -
é a troca de um grão
por toda a colheita

A moeda corrente
só terá valor
se incluir a semente
e dividir a flor.

(1961)

quinta-feira, 17 de abril de 2014

COISAS QUE NÃO HÁ QUE HÁ


O Manuel António Pina escreveu alguns dos mais deliciosos textos e poemas para a infância. "Gigões & anantes", "OTêpluquê" e vários outros.

Era um grande poeta. E um homem de bem. Publicou um livro de poesia para meninos. Talvez não só para meninos. Poemas para gente capaz de se encantar com a maravilha das palavras quando são bem tratadas. "O PÁSSARO NA CABEÇA". É obrigatorio em todas as casas, em todas as bibliotecas, em todos os cantos onde se faça viver a poesia



COISAS QUE NÃO HÁ QUE HÁ

Uma coisa que me põe triste
é que não exista o que não existe
(Se é que não existe, e isto é que existe!)
Há tantas coisas bonitas que não há:
coisas que não há, gente que não há,
bichos que já houve e já não há,
livros por ler, coisas por ver,
feitos desfeitos, outros feitos por fazer,
pessoas tão boas ainda por nascer
e outras que morreram há tanto tempo!
Tantas lembranças de que não me lembro,
sítios que não sei, invenções que não invento,
gente de vidro e de vento, países por achar,
paisagens, plantas, jardins de ar,
tudo o que eu nem posso imaginar
porque se o imaginasse já existia
embora num lugar onde só eu via...

terça-feira, 15 de abril de 2014

EM ALCÁCER ERAM VERDES


Este poema foi uma bandeira nos tempos a seguir ao 25 de Abril, nos tempos em havia que bandeiras, nos tempos tão breves em que Portugal respirava.

O Joaquim Pessoa escreveu o poema. O Carlos Mendes fez a música. Quem não traz esta Alcácer que vier no coração?


ALCÁCER QUE VIER

Em Alcácer eram verdes
as aves do pensamento.
Eram tão leves tão leves
como as lanternas do vento.

Em Alcácer eram verdes
os cavalos encarnados.
Eram tão fortes tão negros
como os punhos decepados.

Em Alcácer eram verdes
as armas que eu inventei.
Eram tão leves tão leves
tão leves que nem eu sei.

Em Alcácer eram verdes
os homens que não voltaram.
Eram tão verdes tão verdes
como os campos que deixaram.

Em Alcácer eram verdes
as maçãs feitas de lume.
Eram tão frias tão frias
como as dobras do ciúme.

Em Alcácer eram verdes
estas palavras que agora
são tão caladas tão cernes
tão feitas desta demora.

Em Alcácer eram verdes
as flores da sepultura.
Eram tão verdes tãoverdes
tão verdes como a loucura.

Em Alcácer era verde
meu amor o teu olhar.
Era tão verde tão verde
quase à beira de cegar.


Em Alcácer eram verdes
os lençóis onde morri.
Eram tão frios tão verdes
como os campos que eu não vi.

Em Alcácer eram verdes
as feridas do meu país.
Eram tão fundas tão verdes
como este mal de raiz.

domingo, 13 de abril de 2014

PODERÍAMOS TER COMEÇADO A APRENDER...

O Amadeu Baptista é um poeta com vasta obra publicada em várias línguas e com uma impressionante lista de prémios.

Poeta de Abril, também na sua poesia aparece esta dor de um Abril por cumprir.


AMADEU BAPTISTA

25 DE ABRIL DE 1974


A partir desse dia poderíamos ter começado a aprender
[a crescer
e a desafiar os enigmas puríssimos da palavra liberdade
[ - no auge da paisagem
a ave indócil a que não renunciámos
é um símbolo fortíssimo contra os símbolos precários,
[os malogros
antigos,
a fome a que nos querem condenados
sempre que a morte ronda e o exílio
dói
como um cravo recentemente apunhalado.

A partir desse dia poderíamos ter começado a aprender
[a enfrentar o medo
que durante tanto tempo nos manteve separados
sem que soubéssemos como e quando acabaria – na
[terra e no amor
brilham profundamente as lágrimas dos pobres
e o sangue é uma flor misteriosa
que floresce de súbito
quando um grito se ouve no deserto
e uma gaivota volta
para nos contactar.

A partir desse dia poderíamos ter começado a
[distribuir o coração
e a partir nesse barco em busca de límpidas aventuras
onde enfeitássemos a vida com sonhos realizáveis
e a solidão fosse completamente impossível – o
[silêncio abria-se
num manancial de palavras profundamente comovidas
[que nos enchiam de ternura
e nos aproximavam
dos incontáveis registos da fraternidade, a noite
era expulsa para sempre
e os braços davam-se e ardiam.

A partir desse dia poderíamos ter começado a aprender
[que a felicidade
é algo muito mais tangível do que o que nós
[pensávamos
se se constrói pedra a pedra e palmo e a palmo se
[conquista
quando uma vontade solar e a solidariedade
não deixam ninguém ficar desprevenido – o assombro
principia a exercer o seu poder admirável, chega como
uma chuva benigna com o perfil da paz, tem o odor
interminável
da alegria.

A partir desse dia poderíamos ter começado a aprender
[a conjugar um futuro
um pouco mais perfeito, a erguer
a cabeça, a defendermo-nos
das múltiplas armadilhas que o ódio arma –
[entrávamos pela manhã
ainda com maior vitalidade
e com um pouco do azul da primavera progredíamos
como um par de namorados:
a proliferante espontaneidade dos seus beijos
transformaria o mundo…

A partir desse dia poderíamos ter começado a aprender
[que a frescura
é um bem vertiginoso que é necessário preservar cada
[vez mais
e que não basta a um homem
o benefício das mãos limpas perante a enternecedora
[figura de esperança
quando os lobos são os mais acérrimos inimigos da
[exclusiva claridade que há nas praias
e com falsos dentes de oiro esperam um mínimo
[descuido
para que possam destruir de um só golpe os sonhos e a
[beleza
de quem abre as portas de par em par a bens muito
[maiores
para que a volúpia entre e alvorece o ar.

A partir desse dia poderíamos ter começado a aprender
[a agir conclusivamente
sobre o passado, a prevenir
o mal do desencanto.

sexta-feira, 11 de abril de 2014

NÃO POSSO ADIAR O CORAÇÃO


Amar era proibido no regime salazarista. Ofendia a boa moral, a pouca vergonha encapotada de moral, a moralo como instrumento de dominação.

Amar, amar a sério, amar intensamente, amar deslumbrantemente à luz do sol sempre foi uma ofensa aos ditadores. O corpo sempre foi um lugar de interditos mesmo quando reina como agora a pornografia das casas dos segredos e outras que tais

Amar à luz do dia era uma forma de rsistência. Como aqui no-lo mostra António Ramos Rosa com um poema de 1960.



Não posso adiar o amor para outro século
não posso
ainda que o grito sufoque na garganta
ainda que o ódio estale e crepite e arda
sob montanhas cinzentas
e montanhas cinzentas

Não posso adiar este abraço
que é uma arma de dois gumes
amor e ódio

Não posso adiar
ainda que a noite pese séculos sobre as costas
e a aurora indecisa demore
não posso adiar para outro século a minha vida
nem o meu amor
nem o meu grito de libertação

Não posso adiar o coração

quarta-feira, 9 de abril de 2014

A MOSCA E O MOSQUITO


Abril é mês de poesia. De toda a poesia. Também da poesia para meninos. E quem desistir de ser menino tem, também, provagvelmente, de desistir da poesia.

Aqui temos um poeta de Abril, que muito escreveu para meninos.

A mosca olhou
o mosquito
e não gostou.
O mosquito prometeu
eu grito!
E gritou
Então a mosca fugiu,
e o mosquito
nunca mais a viu.

(O que a mosca não sabia
é que o mosquito não falava
nem gritava: só zumbia).


segunda-feira, 7 de abril de 2014

PARA QUÊ POETAS EM TEMPO DE INDIGÊNCIA?

Não sei se os poetas da minha geração têm o cimento humano, ético e estético que faz uma geração literária. Mas têm em comum ter vivido os tempos de mudança e poesia, de sonho e respiração colectiva, de decência e paixão, que foi o 25 de Abril.

O meu amigo Luís Filipe Castro Mendes é um poeta que sempre admirei nas várias facetas e degraus do seu caminho de poeta.

Traz-nos agora um belo livro profundamente desencantado. Belo porque doloroso, porque vai às entranhas, porque também para o Luís Filipe, creio eu, não era nada da bandalheira em que se transformou este país que sonhou para os seus filhos.



Levantar a gola do casaco,
esconder os punhos da camisa já puídos
e defender, com os dentes cerrados, as palavras:
mas quem aguenta mais este murmúrio vão,
que não colhe as flores do mal nem a luz radiosa na própria miséria?
Resistir, como sempre fizeram os humilhados.
Decorar palavras antigas.
Repeti-las, para que não sejam esquecidas,
aos vindouros.



sábado, 5 de abril de 2014

PÓ DOS LIVROS

Às vezes vida complica-se e o tempo estica, estica, mas não dá para tudo.

Este blog tem ficado para trás.

Mas cá estou de novo com livros e poesia e etc.

Hoje é para falar da magnífca livraria Pó dos Livros na Av. Marquês de Tomar em Lisboa.

É um espaço caloroso, um espaço de resistência cultural onde se fala de livros e se encontram livros difíceis de encontrar noutros sítios. Sobretudo poesia.

Volta e meia, mesmo quando não fica em caminho, sabe-me bem lá ir.

Fui lá hoje e trouxe dois ou três livros de poesia daqueles que não se encontram com facilidade António Ramos Rosa, Amadeu Baptista, ambos de uma nova colecção da editora lua de Papel (Parabéns Paulo, bela colecção), mais o último do meu querido amigo Jaime Rocha, edição Mão Morta.

Bem bom.

terça-feira, 4 de março de 2014

MÓNICA CID


No lançamento da 2ª edição de "A PORTA" e no dia da estreia da peça com o mesmo nome no Teatro Nacional D Maria II, aqui estão a Mónica Cid, o meu querido amigo actor e encenador Paulo Oom (que encenou a peça "ZARABADIM" na Malaposta)
e a muito querida amiga e escritora Luísa Ducla Soares.

E todos estão de volta dos magníficoas desenhos da Mónica Cid para o livro e que serviram de base também para os figurinos da peça.

Uma pequena grande delícia.


quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

A PORTA


Faz por agora 25 anos que escrevi "A Porta". Ainda é hoje, entre tudo o que escrevi, o livro que mais me entusiasma e emociona.

Tem muito que ver com uma infância e uma juventude em que saltitei de casa em casa e em que sonhava com uma onde ficasse, uma casa amiga, um sítio de consolo, onde coubesse tudo o que as palavras e a imaginação podiam fazer acontecer.

O meu grande amigo João Mota gostou do texto, transformei-o em texto de teatro e o João encenou-o com o talento que todos lhe admiramos. Fui ver um enaio há 15 dias e chorei que nem uma Madalena. Estou ansioso pela estreia no próximo sábado dia 1

É um texto que não tem uma idade-alvo. Ou melhor tem todas todas as idades-alvo. É dos 5 aos 555 anos.