quinta-feira, 28 de maio de 2015

CARLOS PINHÃO

É importante guardar memória. Das coisas boas e também das coisas más.

Conheci o Carlos Pinhão, homem bom, sempre com um sorriso na cara. Jornalista da Bola e escritor de histórias e poemas para crianças.

Contou-me o Vítor Serpa, director do velho e magnífico jornal desportivo, que o Pinhão fartava-se de dizer aos jovens que por ali se iniciavam que deviam ler poesia se queriam ser bons jornalistas desportivos. A poesia trata de emoções. O desporto trata também de emoções.

E aqui fica uma lição talvez inesperada mas que sublinha que a poesia tem a ver com tudo. Mesmo com tudo. E coitados dos que não o entenderem...


RECADO À FORMIGA

Aqui para nós
que a cigarra não nos scuta
pára um bocadinho
com essa labuta.
Qualquer dia
ó desgraçada
tens o celeiro cheio
e não tens mais nada.

segunda-feira, 25 de maio de 2015

O ESCAFANDRO QUE EU TECI PARA TI

À
Gosto de descobrir poetas. Hoje em dia, as pequenas edições multiplicam-se e a maior parte das livrarias deixaram de ser lugar de poesia e deixaram mesmo, em muitos casos, de ser lugar de literatura.

O meu amigo Nicolau Santos insiste em divulgar poesia na sua página do suplemento de Economia do Expresso. E fá-lo de uma forma diversa, divulgando os consagrados e também os novos. Não é a primeira vez que descubro poetas que não conhecia através dele. Por isso tenho de lhe agradecer comovidamente. Se não é a única é das muito poucas páginas dos jornais que publicam poesia. Bm hajas, car´ssimo Nicolau.

Apanhei há alg7mas semanas este poema de José Luís Costa que aqui entendi partilhar.



sábado, 9 de maio de 2015

LIVRO DE RECLAMAÇÕES

Insisto neste delicioso livrinho.



Yasiko Wing

morreu a primeira vez
e gostou muito.

Quando lá regressou
o preço era quase o triplo
e extensa a fila.

Infignada, Yasiko
chamou o gerente
exigiu livro de reclamações.

Ficou viva a contragosto.
Passava dias à janela
a ver se chovia um piano.

E nunca mais mostrou
a amigos nenhuns
fotos dos sítios que visita.

quarta-feira, 6 de maio de 2015

YUKI-ONNA BLUES

Razões de uma ausência.

Quando nos metemos a fazer um blog descobrimos que há pessoas, amigos conhecidos e outros desconhecidos que nos lêem.
Ficamos a sentir que temos perante eles uma obrigação.

tenho procurado fazer deste blog sobretudo um lugar de partilha de poesia e de leituras.

No entanto, por vezes, as vidas com as suas economias que matam, tropeçam-nos o passo e fazem-nos perder muito do nosso precioso tempo em coisas muito inúteis e oficiais e financeiras e etc.

Voltei, caros amigos leiores. Não é que me ache um sujeito importante. Mas sinto que em silêncio a nossa comunicação me faz falta.

Obrigado por isso.


Às vezes há um livro ou um poeta que chegam inesperadamente e nos surpreendem.

Este livrinho encontrei-o na livraria "Pó dos Livros". Folhe-o e trouxe-o. Li-o e reli-o. E gostei muito.

Fui saber quem era o autor Renato Filipe Cardoso. Locutor do Porto Canal. Trocámos mensagens muito calorosas.

Um abraço, caro amigo. E mande mais que nós, os da tribo da poesia, agradecemos.


Yasiko Wing
aprecia caminhar descalça
sobre o esquecimento.

Uma vidente adivinhou-lhe
o passado imprevisível
no vidro mágico.

Acidentalmente
Yasiko Wing
sofreu golpes no pé.

A caminho do hospital
a infância ensanguentada
infeccionou.



domingo, 22 de março de 2015

O LIMPA-PALAVRAS

Álvaro de Magalhães tem uma obra de enorme qualidade em que trata os meninos como gente adulto e não como patetinhas incapazes de passar além das metas redutoras que lhes querem impor. Este é um poema delicioso que tive o prazer de ouvir na rua do dia 20 durante a peregrinação poética na POESIA À MESA em S. João da Madeira.


O LIMPA-PALAVRAS

Limpo palavras.
Recolho-as à noite, por todo o lado:
a palavra bosque, a palavra casa, a palavra flor.
Trato delas durante o dia
enquanto sonho acordado.
A palavra solidão faz-me companhia.

Quase todas as palavras
precisam de ser limpas e acariciadas:
a palavra céu, a palavra nuvem, a palavra mar.
Algumas têm mesmo de ser lavadas,
é preciso raspar-lhes a sujidade dos dias
e do mau uso.
Muitas chegam doentes,
outras simplesmente gastas, estafadas,
dobradas pelo peso das coisas
que trazem às costas.

A palavra pedra pesa como uma pedra.
A palavra rosa espalha o perfume no ar.
A palavra árvore tem folhas, ramos altos.
Podes descansar à sombra dela.
A palavra gato espeta as unhas no tapete.
A palavra pássaro abre as asas para voar.
A palavra coração não pára de bater.
Ouve-se a palavra canção.
A palavra vento levanta os papeis no ar
e é preciso fechá-la na arrecadação.

No fim de tudo voltam os olhos para a luz
e vão para longe,
leves palavras voadoras
sem nada que as prenda à terra,
outra vez nascidas pela minha mão:
a palavra estrela, a palavra ilha, a palavra pão.

A palavra obrigado agradece-me.
As outras não.
A palavra adeus despede-se.
As outras já lá vão, belas palavras lisas
e lavadas como seixos do rio:
a palavra ciúme, a palavra raiva, a palavra frio.

Vão à procura de quem as queira dizer,
de mais palavras e de novos sentidos.
Basta estenderes a mão para apanhares
a palavra barco ou a palavra amor.

Limpo palavras.
A palavra búzio, a palavra lua, a palavra palavra.
Recolho-as à noite, trato delas durante o dia.
A palavra fogão cozinha o meu jantar.
A palavra brisa refresca-me.
A palavra solidão faz-me companhia.

sexta-feira, 20 de março de 2015

POESIA À MESA


Mais uma edição da "POESIA À MESA", grande festa da poesia anual em S. João da Madeira e de que me orgulho muito de ser cúmplice de há muitos anos.

Este ano são especialmente homenageados Álvaro Magalhães, Ana Marques Gastão, Inês Fonseca Santos, José Régio, Manuel Bandeira e Mário Cláudio.

quarta-feira, 18 de março de 2015

É EVIDENTE

E mais um poema do Sidónio Muralha.



É EVIDENTE

Quem vê um papa-formigas
talvez consiga entender
porque razão as formigas
não foram suas amigas
e nunca poderão ser.

segunda-feira, 16 de março de 2015

HISTÓRIA SEM FIM

E continuamos com poemas do Sidónio Muralha e a continuação da sua biografia.


HISTÓRIA SEM FIM

Do ovo da rola
saiu uma rola
que botou de novo
um ovo de rola
que tinha uma rola
que botou um ovo.

Quebra-se o ovo de rola
sai uma rola do ovo
que bota um ovo de rola
e tudo começa de novo.

Ovo de rola tem rola
tem rola que bota ovo.

(Continuaç~ºao)

No início dos anos 60, Sidónio Muralha chega ao Brasil, país que viria a adoptar até ao fim da vida. Primeiramente, estabelece-se com a família em São Paulo. Nesse cidade, com o escritor Fernando Correia da Silva e o pintor Fernando Lemos (ambos portugueses) funda a Editora Giroflé, a qual irá revolucionar e criar um novo padrão para as publicações dirigidas às crianças. O seu projecto editorial não vinga, mas Muralha vai publicando livros para crianças como A Televisão da Bicharda (1962 o I Prêmio da Bienal do Livro de São Paulo) e para adultos como Esse Congo que foi Belga (1969). A par da sua vida literária continuará trabalhando para a Unilever no Brasil, prestando assessoria financeira e proferindo conferências por todo o país todo. Nos anos 70, Sidónio Muralha regressa a Portugal, primeiro para publicitar a sua antologia de poesia Poemas (1971), depois para celebrar o Portugal libertado pela revolução dos cravos. Em 1976 recebe o “Prêmio Meio Ambiente na Literatura Infantil” pelo seu livro Valéria e Vida, ilustrado por Fernando Lemos e que marcou o início de um profícua parceria com a Livros Horizonte. A sua esposa, Maria Fernanda d’Almeida Muralha, faleceu em 1978. Em 1979, Sidónio Muralha recebeu mais um prémio de literatura infantil, o “Prémio Portugal 79 – Livro para Crianças” pelo seu "Helena e a Cotovia". Nesse mesmo ano, casa novamente com a médica obstetra Dra. Helen Butler Muralha, com quem passou a viver em Curitiba.

A 8 de dezembro de 1982, o poeta e escritor Sidónio Muralha faleceu em Curitiba (Paraná, Brasil). Sidónio Muralha foi um dos precursores do neo-realismo português e um grande divulgador da literatura infantil. Em vida, publicou 21 livros em prosa (contos, um romance, ensaio e depoimento) e versos para adultos e 15 livros para crianças, por editoras portuguesas e brasileiras. É considerado um dos melhores poetas para crianças de sempre em língua portuguesa.

sexta-feira, 13 de março de 2015

OS CAMELOS


O meu querido amigo Maurício Leite trouxe-me do Brasil sete-livrinhos-sete da excelente obra de Sidónio Muralha para crianças. Pois cá vão alguns desses poemas e uma notícia da vida de um homem que vale a pena recordar.



OS CAMELOS


No deserto
no deserto,

cem camelos,
mil camelos.

De longe e de perto
todos dizem ao vê-los:

- Como pode ser deserto
se está cheio de camelos?


Sidónio Muralha foi um escritor português com obra significativa como poeta e autor de histórias e poesia para a infância(Lisboa 1920-Curitiba1982).

Pedro Sidónio de Aráujo Muralha nasceu a 28 de Julho de 1920, no bairro da Madragoa, em Lisboa, filho do jornalista e escritor Pedro Muralha.

Ainda muito jovem colaborou com revistas e publicações literárias de algum modo associados ao que viria a ser o neo-realismo português (como por exemplo "Mocidade Académica" e "Solução").

Em 1941, incentivado por Bento de Jesus Caraça, publicou o seu primeiro livro de poesia: Beco. Integrou o movimento neo-realista e os agrupamentos lisboetas desta corrente literária, onde em conjunto com Armindo Rodrigues, Joaquim Namorado, Fernando Namora ou Mário Dionísio foi uma das figuras de proa. Com a obra Passagem de Nível (Coimbra, 1942) fez parte do chamado Novo Cancioneiro, colecção que reuniu obras poéticas de vários autores contestatários do regime salazarista.

Em 1943, desembarca no Congo Belga, em exílio voluntário, para onde partiu com Alexandre Cabral. Nesse país, chegou a ser diretor geral da Unilever Internacional (em Lisboa, Sidónio Muralha estudara Ciências Económicas e Financeiras, mais tarde, cursou Administração de Empresas na Universidade de Louvain, na Bélgica). Em 1944, casou, por procuração (ela em Portugal, ele no Congo) com Maria Fernanda d’Almeida. O casal terá quatro filhos: Alexandre, José Ricardo, Beatriz e Mário Jorge. No Natal de 1949 volta a Portugal, publicando nesse ano a segunda edição de Beco - Passagem de Nível em volume conjunto e no ano seguinte uma obra magistral do seu percurso poético Companheira dos Homens. Ambas as edições de autor contaram com ilustrações da capa do pintor Júlio Pomar com quem manteve uma duradora amizade. Ainda em 1950, com desenhos de Júlio Pomar e músicas de Francine Benoit publica o seu primeiro livro de poemas para crianças: Bichos, Bichinhos e Bicharocos.

No ano de 1960, face aos acontecimentos tumultuosos na vida social do Congo Belga, a família Muralha regressa à Europa fixando residência em Bruxelas durante dois anos. Neste período, continua a trabalhar para a Unilever, viajando constantemente pelo mundo, Muralha estagia e trabalha em Bafatá, (Guiné-Bissau), Ostende, Dakar, Londres e Paris.

No início dos anos 60, Sidónio Muralha chega ao Brasil, país que viria a adoptar até ao fim da vida.

(Continua)

domingo, 8 de março de 2015

FRANCISCO



Estudante de arquitectura, no final dos anos 60, sempre que podia ia até casa da minha colega e grande amiga Isabel Manta, ali ao Bairro Alto, a dois passos da Escola de Belas Artes.
Era e continua a ser uma casa muito especial. Uma casa de arquitecto, de artista, uma casa de livros e música, de palavras e encontros. A casa do pai, o arquitecto, pintor, desenhador, cartoonista João Abel Manta, um homem pelo qual eu tinha e continuo a ter uma imensa admiração.
Foi lá que, fascinado, ouvi os primeiros discos de Jazz, de João Gilberto e da Bossa Nova. Foi lá que fiquei embasbacado perante serigrafias de Rauschenberg. Foi lá ainda que convivi de longe com pessoas como o pintor Rolando Sá Nogueira, o poeta Alexandre O’Neill, o escultor Fernando Conduto, o romancista José Cardoso Pires. E todos nós, os amigos da Isabel, ficávamos a ouvi-los à distância, porque éramos uns miúdos e ainda não tínhamos bagagem para meter o bedelho.
Os anos foram passando e aquela casa continuou a ser para mim um ponto de referência, um lugar de inteligência e bom gosto, onde tudo tinha o seu lugar e a sua razão de ser e não havia nenhuma cedência ao arrebique ou ao enfeite que enche o olho e esvazia o sentido.
Conheci e falei muitas vez com o avô e a avó da Isabel, o pintor Abel Manta e a avó, também pintora, Clementina Carneiro de Moura Manta, que me deixava em brasa quando me contava as visitas a um sobrinho preso pela PIDE no Forte de Peniche
A pouco e pouco, com muito respeito e admiração, fui-me tornando amigo do João Abel Manta. Os seus cartoons e cartazes foram uma das mais ácidas críticas à ditadura ronceira de Salazar e, também, a mais perfeita língua a falar e a rir durante os tempos fantásticos do 25 de Abril. Os seus desenhos para as primeiras capas do JL são absolutamente admiráveis, a sua pintura menos conhecida do que merece será fundamental quando se quiser fazer um balanço do Portugal em que vivemos durante muitas das últimas décadas.
A vida aproximou-me e afastou-me da Isabel. Mas, com mais ou menos proximidade, a profunda amizade continuou sempre.
Até que um dia a Isabel me telefonou a pedir que eu escrevesse uns poemas, coisa pouca, para juntar a uns “trabalhitos” do pai. Para um presente de Natal à filha, a Ana. E ao marido dela, o João. E à filha, a Maria, e ao filho, o Francisco.
Tudo isto porque o Francisco que tinha 3 anos sofre de paralisia cerebral e toda aquela família o estimula, o embala, o faz crescer e ultrapassar os limites impostos pela doença. E aquelaes “trabalhitos” e poemas seriam, de alguma maneira, a prenda de Natal para todos.


Quando chegaram os “trabalhitos” do João Abel Manta não eram “trabalhitos” eram trabalhões, uma sequência de 31 colagens intervencionadas em torno do rosto do Francisco.
Fiquei eufórico, primeiro. Vou escrever para colocar as minhas palavras ao lado de trabalhos do João Abel! Mas logo depois fiquei muito aflito. Como escrever para a família daquela criança? Com que voz? Em que língua? O que é que eu podia encontrar em mim que permitisse construir uma ponte de palavras e silêncios entre o meu ofício de poeta e aquele menino que eu nem conhecia?
Em tempos, o meu filho João, formado em Pintura, deu aulas de Educação Visual (!) a meninos com paralisia cerebral e dizia-me: “Pai, aqueles meninos são lindos!” E eu pensava “Bolas! O meu filho é ainda mais poeta do que eu!”
Mas mal conheci o Francisco, percebi que o meu filho tinha toda a razão. Num ápice fiquei apaixonado pelo Francisco, pela sua inteligência, pela sua alegria transbordante, pela expressão dos seus olhos carregados de misterioso entendimento do mundo em seu redor.
Depois, foi uma busca do menino que ainda posso ter dentro de mim e das minhas palavras. Do menino que gostaria de ter tido uma mãe, um pai, uma avó, um bisavô assim à sua volta. De um menino feliz, carregado do talento de descobrir coisas novas, coisas estranhas, de mil cores, coisas por vezes inatingíveis, por vezes assustadoras, coisas maravilhosas que vai conhecendo e interligando numa mantinha de sentidos e emoções.
Deste passeio de mim para o Francisco foram nascendo os poemas. Pequenos apontamentos, sorrisos, inquietações, ironias, brisas, brincadeiras breves, jogos de palavras, caminhos possíveis entre um homem e um menino muito especial tornados em livro graças ao talento do excelente designer que é o Zé Brandão e ao interesse, amabilidade e empenho da Fundação Calouste Gulbenkian.
E só tenho de agradecer à vida por me dar a oportunidade de aprender um pouco mais deste ofício de construtor de pontes de palavras que vão da mão que escreveu ao olhar deslumbrado dos meninos e dos homens que, por serem diferentes, nos permitem aperfeiçoar a nossa tão frágil humanidade.


De ti para mim vêm as palavras pelo ar
e dizem quase tudo, mãe.

Por dentro das palavras que me envias
moram aves e sereias,
moram pedras e baleias
e estrelas do mar sem fundo.

Pega nos teus lábios, mãe.
Faz nascer de novo o mundo.

domingo, 1 de março de 2015

O LIVRO DOS CANSAÇOS

A a minha amiga Licínia Quitério é uma excelente poeta que tem vindo a tornar-se mais profunda e brilhante a cada livro que publica, aliando a emoção e o trabalho da palavra numa voz sólida e forte mas também profundamente feminina.

"O LIVRO DOS CANSAÇOS" foi apresentado ontem sábado 28, na "nossa" Biblioteca da Ericieira.



Os poetas morrem cedo
Morrem com a luz da madrugada
ou com a noite a que chamam madrugada.
Não se sabe que idade têm
os poetas quando morrem.
Têm a idade do primeiro ou do
último poema que foram.
Os poetas morrem muito.
Quando morrem acrescentam
estrelas às estrelas.
Morrem e brilham os poetas.

Licínia Quitério


domingo, 15 de fevereiro de 2015

OMBELA

Durante duas semanas andei envolvido no 1º ENCONTRO DA LITERATURA INFANTO-JUVENIL DA LUSOFONIA

Foram dia muito intensos e com intervenções de grande qualidade.

No final tivemos a apresentação do novo livro de ONDJAKI com ilustração de Rachel Caiano.


É uma beleza e começa assim:

"Dizem os mais-velhos
que a chuva nasceu
das lágrimas de Ombela,
uma deusa que estava triste."



quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

APALPAR MANHÃS



“apalpar manhãs”

sonhei que estava enamorado pela palavra antigamente.
eu sorria muito nesse sonho – fossem gargalhadas. aproveitei a ponta desse sorriso e fiz um escorrega. deslizei. tombei no início de uma manhã.
pensei ver duas borboletas mas [riso] eram duas ramelas. peguei nas duas: o peso delas dizia que eu estava acordado. [a partir do tom amarelado das ramelas é possível apalpar manhãs].
então vi: nos dedos, na pele do corpo por acordar, estavam manchas muito enormes: eram manchas de infância
gosto muito desse tipo de varicela.


ONDJAKI

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

DEPOIMENTO

Maria Teresa Horta desenvolve uma música muito própria ligada à própria música do corpo, sendo uma das poetas que traz o corpo e o desejo de uma forma clara e livre para dentro do poema.


MARIA TERESA HORTA (1938)


DEPOIMENTO



Eis que desço
as mãos
os dedos nus

Eis que empunho
o vidro
pela face

Eis que te utilizo
e te
destruo

Eis que te construo
e te
desfaço

Eis o gume novo
desta
pedra

Eis a faca aberta
na
manhã

as árvores
ocultas
nas palavras

o couro – a violência
o trilho
a lã

Eis o linho bordado
numa cama

a linha na fímbria
da toalha

o fuso – o feltro
o fundo da memória

Eis a água
dita
como vã

depostos objectos
de batalha:

a tenda
a espada
a sela
a sede
a vela

Eis que deponho
aquilo
que me ganha

e que retomo
a seda com que visto
a faca da sede
com que rasgo

o rigor da calma
o rigor das pernas
o rigor dos seios
quando minto

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

CANTO DO GÉNESIS

E de novo Fiama.



CANTO DO GÉNESIS

Ao princípio era a luz, depois o céu
azul porque a luz se embebe
nas camadas do ar que olhamos.
Ao princípio era a Paixão e engendrou
Do seu sangue os animais, da sua
Cruz as plantas. Era, ao princípio,
O animal-vegetal minúsculo, oculto
No Paraíso, mas omnipresente
desde o ante-princípio. E da argila
ou terra adâmica formou-se a Natureza
e o Homem, banhados pela luz
que recortou linhas e volumes vagos.
Ao princípio era o martírio
e a bênção daquele que trabalha
e seu corpo e o seu pão de sol a sol.
E os frutos fulguraram nessa luz
Quando as águas se apartaram
e o mar, até hoje, quebra e requebra a onda
para eu ouvir o som do início.


sábado, 17 de janeiro de 2015

BARCAS NOVAS

Fiama Hasse Pais Brandão (1938-2007), poeta próxima do grupo Poesia 61, foi senhora de uma elegância e de uma contenção invulgares na poesia portuguesa. Ensaísta, tradutora e dramaturga, desenvolveu uma actividade intensa e de grande qualidade.

"Barcas Novas", foi um poema inspirado na poesia medieval de João Zorro mas que tinha óbvia relação com outras barcas, os navios que levavam soldados e armas para a guerra colonial.


Barcas novas


Em Lixboa sobre lo mar
barcas novas mandei lavrar,
ay mia senhora velida!

Em Lisboa sobre lo ler
barcas novas mandei fazer,
ay mia senhora velida!

Barcas novas mandei lavrar
e no mar as mandei deitar,
ay mia senhora velida!

Barcas novas mandei fazer
e no mar as mandei meter,
ay mia senhora velida!


João Zorro, trovador português ou galego do séc. XIII


BARCAS NOVAS

Lisboa tem suas barcas
agora lavradas de armas

Lisboa tem barcas novas
agora lavradas de homens

Barcas novas levam guerra
as armas não lavram terra

São de guerra as barcas novas
no mar deitadas com homens

Barcas novas são mandadas
sobre o mar com suas armas

Não lavram terra com elas
os homens com sua guerra

Nelas mandaram meter
os homens com sua guerra

Ao mar mandaram as barcas
novas lavradas de armas

Em Lisboa sobre o mar
armas novas são mandadas

Fiama Hasse Pais Brandão, in Barcas Novas, 1967

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

O JORRO DA FONTE QUE ME IRROMPE



Salette Tavares teve formação em filosofia, desenvolveu estudos no âmbito da Estética, dedicou-se com mais profundidade a partir de 1949 aos problemas da linguagem e da teoria da arte. Publicou nos anos 60, na revista Brotéria, importantes ensaios de estética. Colaborou nos cadernos Poesia Experimental, estreando-se poeticamente com o livro Espelho Cego (1957). Em 1974 e 1975, realizou happenings em várias galerias, ligando sempre a palavra e a intervenção artística de vanguarda.


SALETTE TAVARES (1922-1994)


NASCENTE


Em gotas de ametista e de mamilo
sorvendo hoje nos favos da romã
escorro vale extenso e, de tranquilo,
o grande olhar de ontem amanhã.

Firme de barco, de terra e de castelo
navegando com o rosto no levante
na paisagem do tempo te congelo
ó múltiplo de ser, ó cada instante!

Com raízes de partida e de chegada
eu bemdigo o dia e dou-lhe a mão
abrindo em flor na crua madrugada
para beber o céu e conhecer o chão.

Na pupila do tempo me suspendo,
espero o rio para invadir o monte
e no fervor da sede e do tormento
sou o jorro da fonte que me irrompe.


terça-feira, 6 de janeiro de 2015

MATILDE, MATILDINHA

Matilde, Matildinha, a querida Matilde de meninos e escritores, ficou muito mais conhecida como escritora para a infância do que como poetisa para adultos.

Não deixou obra vasta neste campo.Mas é importante visitá-la pois pertence a uma geração de mulheres que marcou sigmnificativamente a sua presença como uma uma força na poesia portuguesa.


MATILDE ROSA ARAÚJO (1921-2010)


MEU PAÍS


Meu país turístico de doce clima tão frio
De negras neves a caiar os montes
E os prados cansados
Tenho uma capa de degredo larvas de água triste
Nos cabelos húmidos
E pés descalços pelos sapatos do desengano
Meu país de água com o mar à beira
Meteste-me no fogo do ventre um coração parado
Pelas águas geladas de poluídos rios e gastos mares
E sou (fui) a emigrada presente que nem parte nem partiu
Não partirá
Arbusto mal plantado no suicídio do vento
Cobrindo o rosto com as folhas das mãos

domingo, 4 de janeiro de 2015

ASSIM

Natércia Freire é um casos Professora, colabora com a Emissora Nacional e dirige as Artes e Letras do Diário de Notícias até 74.

Amiga de poetas como Carlos Queiroz, David Mourão-Ferreira ou Egito Gonçalves, começou a publicar a sua poesia num tempo em que a mulher era aconselhada pelo Estado Novo a guardar as suas ambições de ser apenas dona de casa e mãe de família.

Diz-se que nos anos a seguir a 74 terá sido ostracizada, o que terá sido injusto pela qualidade da sua obra e pela dimensão humana que sempre revelou. No início do século foi publicada a sua obra que merec muito ser revisitada.




NATÉRCIA FREIRE (1920-2004)



ASSIM


Assim por muito mais e muito menos
Assim por heroísmo e cobardia.
Assim a tarde a noite no momento.
Assim pensar em mim quando vivias.

Assim os dedos longos nos cabelos
Dos mortos abraçados e cativos.
Assim esta miséria de estar viva
E não saber estar viva quando vivo.

Assim nas brancas árvores o tempo
Assim ter acabado o meu destino
E ler-me noutros versos, noutros nomes,
Assim desconhecer aonde habito.

Assim por muito mais e muito menos
Se acaba, em vida, a vida ao suicida.

Assim por ser a hora mais cinzenta,
O desamparo assim da minha vida.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

AMÁLIA - POETA


Amáila Rodrigues, talvez pelo convívio com poetas, em poeta se tornou. Pouco conhecida como tal, com uma obra breve que balança entre os temas mais ligados ao fado e a proximidade de gente como Pedro Homem de Melo, David Mourão-Ferreira ou Nemésio, como é o caso.


CARTA A VITORINO NEMÉSIO (1)

Talvez que o anjo esquecido,
O anjo da poesia,
Se tenha de mim perdido
Sem reparar que o fazia...
Por isso me faltam asas
E me sobejam as penas
De um desejo inalcançado:
Que eu gostava de voar
Até ao anjo perdido
O anjo de mim esquecido,
Que por mim é tão lembrado.
Ai se eu tivesse voado
Aonde queria voar
Não estava agora a rimar
Versos de asas cortadas.
Voava junto de si
Assim fico aonde me vê
Mesmo pregadinha ao chão
Com asas de papelão
E sem entender porquê,
Pois a uns faltam-lhe as asas
Mas por ter asas cortadas
Sofrem uns e outros não?
Eu tenho sofrido muito
Nos meus voos ensaiados
Que ao querer sair do chão
Ficam-me os pés agarrados.
...E por falar dos pés
Com versos de pés quebrados
Perdoe lá a quem os fez
Pelo mal dos meus pecados
Só os fiz por timidez
Que tenho em me dirigir
A quem tem por lucidez
Razão para distinguir
O bom e o mau português.
Assim à minha maneira
Aqui venho responder
Desta forma tão ligeira
Que a sério não pode ser!