quinta-feira, 27 de novembro de 2014

MORRI MIL VEZES



VALTER HUGO MÃE (1971)


o super homem


vesti o meu fato de
super homem por baixo da
roupa de todos os dias quando
fui ouvir o que o médico
tinha para dizer sobre a
operação da minha
mãe. eu morri mil vezes
quando a operaram, iam
partir-lhe o osso do peito e
isso é tão avesso ao que
espero dela. até digo às
crianças que não corram em seu
redor, tem quase setenta anos e
está cansada e não é bom que caia ou
sequer se aflija. partiram-lhe o
osso do peito. fizeram-no porque
é assim que se faz, dizem, e eu,
secretamente com o meu fato de
super homem, supostamente
preparado para tudo, morri mil vezes
e, mesmo depois das boas palavras do
médico, ando lento, tão atrasado
nas ressurreições


segunda-feira, 24 de novembro de 2014

VENHA DOUTOR ENSINAR-ME


Três poetas se seguem e três poemas sobre doença.






ROSA ALICE BRANCO (1950)

IMAGERIE CEREBRAL


Venha doutor ensinar-me a distinguir
a emoção do sentimento. Guie-me para que a mente
se torne clara, o espírito lúcido e a alma
- ah, talvez possamos dispensar a alma.
Enquanto espero ficarei escondida no armário
entre a roupa de verão e a de inverno
terei calor de um lado, termerei do outro,
mas no centro o coração estará a boa temperatura,
a uma tépida esperança. Porém se demorar a imobilidade
mudará as estações da roupa, as fases da lua. Esta atracção
por si é uma maré viva, uma maré cega se não vier
ensinar-me o que é a emoção e o sentimento. Faremos
uma ressonância antes do chá, uma sonda perfurando
o insondável. Venha doutor dizer-me se sinto fome, se
tenho sede, ou se não passo de uma ilusão dos sentidos.

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

APETECE SER AVE

Foi um privilégio para quem o pôde ver no seu programa "Se bem me lembro" na RTP dos anos 60, ou assistiu às suas aulas na Faculdade de Letras.

Sendo um poeta complexo, com uma música muita própria, por vezes pousava na grande simplicidade e dava-nos pequenas pérolas como esta.



VITORINO NEMÉSIO (1901-1978)


O sol fechou o dia
Sem mão nem chave;
A pouca luz que havia
Deu-a para uma ave.

Então a ave selou
Com seu sono seu ninho,
E a terra toda amou
Na casa do passarinho.


Um ovo é como uma chave,
Mas só abre a vida às penas.
Apetece ser ave,
Ter as mágoas pequenas.

domingo, 16 de novembro de 2014

ENCANTA-ME

O Abel Neves é um amigo, companheiro de ofício(s), dramaturgo, romancista e poeta. Segundo diz a música da poesia está presente em tudo o que escreve.

Este poema diz exactamente o que eu gostaria de dizer tantas vezes a algumas, não sei se muitas, pessoas.


ABEL NEVES (1956)


Faz o favor encanta-me
olha como faz Marte aos engenheiros
e está a tantos milhões de distância

Não te peço órbitas ao largo nem que venhas
mapear a casa um perfume que seja teu
só isso
e encanta-me

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

AMOR BIG AMOR



FERNANDO ASSIS PACHECO (1937-1995)


Amor amor big amor
eu dizia shazam e tu não me ligavas

pus Mandrake a seguir-te hábil nos truques
e tu não me ligavas

em qualquer planeta verde e avançadíssimo
tu não me ligavas

estendi o meu braço Homem de Borracha até S. Martinho do Bispo
e tu não me ligavas ponta nenhuma

tu querias era casar na Sé Nova
branquingénua abusar do meu livre alvedrio

fiz-te pois um manguito do tamanho dum choupo
e cá estou pai de filhos um bocado estragado

mas não por tua causa que já não existes
ó sombra de sombra à esquina da farmácia


segunda-feira, 10 de novembro de 2014

NÃO EMPURREM, IRMÃOS!


Um dos mais irónicos e divertidos poemas do Zé Gomes Ferreira.



LÉCTRICO

XLII



E se eu de súbito gritasse
nesta voz de lágrimas sem face!:

Eh! companheiros da plataforma
presos ao apagar do mesmo pavio!
Porque não nos amamos uns aos outros
e damos as mãos
- sim as nossas mãos
onde apodrecem aranhas de bafio?

Eh! companheiros da plataforma!
(Não empurrem Irmãos.)


sábado, 8 de novembro de 2014

VAGAS E LUMES

O livro saiu na semana passada. E é para ler e chorar por mais.

O meu muito amigo e companheiro de nuvens e sonhos, Mia Couto, feiticeiro das palavras, mostra-se cada vez mais poeta, apesar de não deixar de ser um maravilhoso contador de histórias.

Falávamos há uns dias. Perante este mundo estranho que não sabemos para onde vai e onde muitos dos nossos sonhos de humanidade parecem demasiado adiados, afogados no "tem que ser" das economias, o que nos resta a nós se não SER, apenas SER, continuar a SER, com o mesmo olhar em fogo e água e as mãos a moldar o barro das palavras para as oferecer a quem delas mais precisa?



ERRATA

Quem é mortal, mente.

Mentirosos,
ainda mais,
os tais
imortais.

Sem culpa uns e outros.

O verbo morrer
é que é sujeito falso
e de duvidosa acção.

Mais verdadeiro seria
se não fosse verbo.

Ou se conjugasse apenas
em forma passiva: ser morrido.

Como eu,
mais que as vezes que nasci,
fui morrido por ti.

E, assim, findo
num engano de rio:
simulando que morre
mas sendo água eterna.


segunda-feira, 3 de novembro de 2014

TEJO


Passei à beira Tejo. Há muito que não nos encontrávamos. Ficámos à conversa. Pouco tempo que esta vida que levamos não nos deixa parar muito.

Mas logo me veio à cabeça o O'Neill. O primeiro poeta das minhas leituras de adolescente. E que me ficou para sempre. Cheguei a saber a obra dele quase toda de cor. Da cuore. Do coração.



O Tejo Corre no Tejo


Tu que passas por mim tão indiferente,
no teu correr vazio de sentido,
na memória que sobes lentamente,
do mar para a nascente,
és o curso do tempo já vivido.

Não, Tejo,
não és tu que em mim te vês,
- sou eu que em ti me vejo!

Por isso, à tua beira se demora
aquele a saudade ainda trespassa,
repetindo a lição, que não decora,
de ser, aqui e agora,
só um homem a olhar para o que passa.

Não, Tejo,
não és tu que em mim te vês,
- sou eu que em ti me vejo!

Um voo desferido é uma gaivota,
não é um voo da imaginação;
gritos não são agoiros, são a lota…
Vá, não faças batota,
deixa ficar as coisas onde estão…

Não, Tejo,
não és tu que em mim te vês,
- sou eu que em ti me vejo!

Tejo desta canção, que o teu correr
não seja o meu pretexto de saudade.
Saudade tenho, sim, mas de perder,
sem as poder deter,
as águas vivas da realidade!

Não, Tejo,
não és tu que em mim te vês,
- sou eu que em ti me vejo!


sexta-feira, 31 de outubro de 2014

CANTIGA DE MÃE



A obra da Alice está cheia de pequenas e grandes coisas deliciosas Este divertido poeminha é uma delas. Adoro dizê-lo nas escolas. As palavras e a poesia servem também para brincar. E, quando são bem entretecidas, como é o caso, tornam-se numa festa

CANTIGA DE MÃE

Olha as horas!
Sai da cama!
Não demores
a acordar!
Lava os dentes
muito bem.
- Mas… ó mãe!…

Não inventes
mais desculpas
p’ra atrasar!
Passa o pente
na cabeça!
Bebe o leite
mais depressa!
E não te esqueças
também..
- Mas… ó mãe!…

…de levar
a papelada
assinada
que a professora
mandou.
Vai lá buscar
a mochila
e vê, se por esta vez,
estão prontos
os TPC!
E fecha bem…
- Mas… ó mãe!…
A torneira
da banheira!
Olha o pingo…

- Mas ó mãe!...
Mas ó mãe!...
Hoje é domingo!

terça-feira, 28 de outubro de 2014

PINGA O PINGO



PINGA O PINGO

E cá vou andando eu a brincar com a música das palavras.

Pinga o pingo da torneira
Pinga pinga
Pinga o pingo
Que amanhã já é domingo
E depois segunda feira
Pinga o pingo da torneira
na banheira
terça feira
quarta feira
Pinga de toda a maneira
quinta feira
sexta feira
Falta pouco p’ra domingo
Pinga o pingo
Pinga pinga
Pingo o pingo da torneira.


sábado, 25 de outubro de 2014

CANTILENA


Os menos jovens lembrar-se-ão deste poema cantado pelo Xico Fanhais.

Talvez nem todos saibam que o poema foi escrito por Sebastião da Gama, professor e poeta de rara sensibilidade e delicadeza, falecido demasiado jovem.


CANTILENA

Cortaram as asas
ao rouxinol.
Rouxinol sem asas
não pode voar.

Quebraram-te o bico,
rouxinol!
Rouxinol sem bico
não pode cantar.

Que ao menos a Noite
ninguém, rouxinol!,
ta queira roubar.
Rouxinol sem noite
não pode viver.

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

PORTUGAL



Num tempo de feroz ditadura da economia, dos mercados, dos bancos e de tudo o mais que nos encharca pesarosamente o quotidiano, é bom relembrar aos nossos filhos de onde viemos e para onde improvavelmente vamos.

PORTUGAL

O teu destino é nunca haver chegada
O teu destino é outra Índia e outro mar
E a nova nau lusíada apontada
A um país
que só há no verbo achar.


domingo, 19 de outubro de 2014

UM BURRINHO MEU AMIGO


Escrever para crianças implica deixar sair cá para fora a criança que nunca deixou de nos habitar. Quem não trouxer consigo esse espanto da vida, essa alegria, essa vontade de tornar as palavras numa festa, como o Vírgílio Alberto Vieira, é melhor escolher outro caminho.

HISTÓRIA DE UM CHAPÉU

Tinha um chapéu tirolês
Feito com palha de trigo
Por distracção outra vez
Comeu-o com avidez
Um burrinho meu amigo


quinta-feira, 16 de outubro de 2014

O SENHOR MAR




A poesia da Matilde Rosa Araújo para crianças era de uma raríssima e muito delicada singeleza. Há muita gent que tnta escrever para crianças usando muitos "inhos", muitos "carinhos", muitos "passarinhos", mas poucos são os que conseguem essa qualidade das palavras quase cristalinas que saÍam da pena da Matilde.



HISTÓRIA DO SENHOR DO MAR

Deixa contar…
Era uma vez
O Senhor do Mar
Com muita onda…
Com muita onda…

E depois?
E depois…
Ondinha vai…
Ondinha vem…
Ondinha vai…
Ondinha vem…
E depois…

A menina adormeceu
Nos braços da sua mãe…

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

AS MÃOS DA MINHA MÃE


O meu amigo Hugo Santos é um poeta com um trabalho comovente mas pouco divulgado. Publicou há tempo este livrinho. Poesia para menino com uma crta toada alentejana em fundo.

AS MÃOS DA MINHA MÃE

Pelas mãos de minha Mãe passam todos os rios da casa.
É aí que os pássaros vêm beber.
Voam à volta da sua cabeça, aninham-se no seu colo
e cantam.

- Vem – diz minha Mãe.
E eu sinto que os rios começam a passar
das suas para as minhas mãos
e aí começam a matar a sede todos os pássaros
da terra.

sábado, 11 de outubro de 2014

RIMA BUZINA


Um dia, quando a Matilde Rosa Araújo, avançada na idade, andava já de bengala, o António Torrado disse-lhe referindo-se aos escritores de literatura infanto-juvenil "A Matilde é a nossa decana!"

E a Matilde, com o seu sorriso de menina marota, respondeu-lhe "De cana não, filho. De bengala!"

Não há dúvida de que um dos elementos fundamentais da escrita para crianças é o prazer em brincar com palavras.

E o António, que é agora o nosso decano, mas sem bengala, é daqueles que sabem brincar como poucos com palavras.

ANÚNCIO – II

Troco uma dor no peito
por uma dor no braço.

Negócio feito,
disse o braço ao peito.
Mas como era uma dor de respeito
o braço pôs um anúncio a dizer:

TROCO A DOR NO BRAÇO
POR OUTRA QUALQUER
INCLUSIVAMENTE DE BARRIGA.

Mas ninguém foi na cantiga.

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

OS ANOS QUE FAZEMOS TAMBÉM NOS FAZEM



O Álvaro Magalhães está entre os que melhor escrevem para crianças jovens, entre aqueles que fazem literatura, mesmo literatura, para os mais jovens.


ANIVERSÁRIOS


7.

Os anos que fazemos
também nos fazem a nós.
Os anos que fizemos nos fizeram.
Os anos que faremos nos farão.
É de anos que somos feitos,
de breve e misterioso tempo.
Em nós estão os anos que já fomos .
Esses anos, que fizemos, somos nós,
do cimo da cabeça à ponta dos pés.
Quanto tempo somos?
Quantos anos és?

De que é feito o tempo que nos faz?
Quanto tempo há?
Para onde vai o tempo que já foi?
Onde está o tempo que virá?



segunda-feira, 6 de outubro de 2014

DA CIÊNCIA DE VOAR



Eduardo White, poeta moçambicano, embora com várias obras publicadas em Portugal, é daqueles poetas só referidos pelos "iniciados. Quer dizer, pelos que andam sempre à procura de vozes verdadeiramente comunicantes. Esta era uma delas Foi-se embora cedo de mais há cerca de mês meio.



Uma mão relampeja na casa da escrita.
Faísca Troveja.
Procura um claro instante para a aparição.

Pode-se vê-la correr pelo dorso do papel,
deitada do seu lado ou do seu modo rastejante,
pode-se vê-la provando o ruminante delírio das palavras,
a sua rasante arrumação,
e leva vozes aquela mão em cada delicada passagem,
rítmica, latejante
ou um nervo animal que faz lembrar
a textura pedestre do papel.
Mas a mão voa, explosiva,
e não cai nem agoniza no espaço vibrante onde se comunica.

Voar é um fervoroso recolhimento.
E no que é quase a medida elementar do esquecimento
a escrita navega
num estuário de silêncio.
Escrever é uma droga antiga,
uma bebedeira que queima com lentidão
a cabeça,
traz as luzes desde as vísceras,
o sangue a ferver nas vias tubulantes,
traz a natureza estimulante das paisagens
que temos dentro.

sábado, 4 de outubro de 2014

O CAMARADA BURRO



Este livro, aparecido logo a seguir ao fim da guerra independência não mencionava autor Dizia-se que era escrito por um anónimo guerrilheiro da Frelimo.

O autor era de facto António Quadros, português e moçambicano, poeta de vários heterónimos e pintor.

O livrinho é uma pérola que bem merecia sr reeditada.

MUTIMATI BARBABÉ JOÃO


O BURRO


Vejam o burro, Camaradas
Esta zebra pequena vestida de lama bonita fofa
Tem quatro pernas de andar aos saltinhos
Duas orelhas ouvidoras de ouvir tudo bem
Dois olhos espertos cheios até às lágrimas
[de paciência
O nariz do focinho muito fresco e macio.


O burro é burro, Camaradas?
Quem diz que é burro e despreza este companheiro?
Quem quiser ofender-me não me chame de burro
Quem quiser ofender-me não seja tão amável!
Quem quiser ofender-me inventa outra palavra
Porque chamar-me burro lembra-me burro mesmo
E não posso magoar-me com simpatia.


Não estou a defender o amigo útil somente
Não estou a pensar bem deste que faz o meu esforço
[e puxa
Não penso que ele me ouve tudo e puxa mais forte
[assim.
Há coisas deste companheiro para pensar melhor
[e espalhar.
Falo agora somente só de simpatia.


quarta-feira, 1 de outubro de 2014

OS OLHOS DOS ANIMAIS


Vários poetas contemporâneos de Fernando Pessoa ficaram na sombra da sua imensa figura e obra. Talvez o primiro d todos eles seja este extraordinário poeta de Amarante que é Teixeira de Pascoaes.

TEIXEIRA DE PASCOAES (1877 – 1952)




OS OLHOS DOS ANIMAIS

Que triste o olhar do cão! Até parece
Mais um queixume, um íntimo lamento
Da noite interior que lhe escurece
O coração, que é todo sentimento.

E os mansos bois soturnos! Que tormento,
Em seus olhos, tão calmos, transparece...
E os olhos da ovelhinha e do jumento!
Que tristes! Só o vê-los entristece...

Chora, em todo o crepúsculo, a tristeza.
E, além do ser humano, a Natureza
É lívida penumbra feita de ais...

Por isso, o vosso olhar de escuridão
É mais lágrima ainda que visão,
Ó pobres e saudosos animais!

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

CARTA AOS AMIGOS MORTOS

Nos últimos tempos foram-se embora alguns amigos muito queridos. Tenho-me recordado muito deste poema da nossa grande Sophia.




CARTA AOS AMIGOS MORTOS

Eis que morrestes – agora já não bate
O vosso coração cujo bater
Dava ritmo e esperança ao meu viver
Agora estais perdidos para mim
- O olhar não atravessa esta distância –
Nem irei procurar-vos pois não sou
Orpheu tendo escolhido para mim
Estar presente aqui onde estou viva.
Eu vos desejo a paz nesse caminho
Fora do mundo que respiro e vejo.
Porém aqui eu escolhi viver
Nada me resta senão olhar em frente
Neste país de dor e incerteza.
Aqui eu escolhi permanecer
Onde a visão é dura e mais difícil.

Aqui me resta apenas fazer frente
Ao rosto sujo de ódio e de injustiça
A lucidez me serve para ver
A cidade a cair muro por muro
E as faces a morrerem uma a uma
E a morte que me corta ela me ensina
Que o sinal do homem não é uma coluna.

E eu vos peço por este amor cortado
Que vos lembreis de mim lá onde o amor
Já não pode morrer nem ser quebrado.
Que o vosso coração que já não bate
O tempo denso de sangue e de saudade
Mas vive a perfeição da claridade
Se compadeça de mim e de meu pranto
Se compadeça de mim e de meu canto.


sábado, 27 de setembro de 2014

O QUE FAZEMOS NÓS, RAPAZES D' HOJE?

Durante algum tempo embirrei solenemente com a poesia de António Nobre e com os seus "inhos" todos. Achava-o kitsch, piroso, associava-o àqueles poemas que nos obrigavam a decorar na escola primária nos idos dos anos 50.

Mais tarde, talvez com outra maturidade, comecei a lê-lo de forma diferente e a perceber a emoção de um lirismo levado quase ao limite da lágrima. E creio que ganhei muito com esta mudança. À distância de 150 anos apesar de todas as diferenças, a poesia de Nobre fala-nos ainda de nós portugueses, de como, continuamos iguaizinhos a nós próprios e iguais na relação umbilical à terra, ao sol, ao mar, à humanidade multifacetada que nos fez e continua a fazer.

E veja-se se este soneto não podia quase ter sido escrito hoje ou ontem.


ANTÓNIO NOBRE (1867- 1900)



Quisera ser um grande marinheiro,
Um novo astro entre os milhões de sóis!
Ser de Albuquerque um filho aventureiro,
Pertencer à família dos Heróis!

Ou então ser um simples pegureiro,
Viver, ao Sol, no monte com os bois...
Ou, antes, ser um pescador trigueiro:
Nascer no Oceano e ficar, lá, depois!

Quisera ser “alguém”: para isso creio
Que vim ao mundo, a Humanidade veio,
E à Vida nos lançaram nossos Pais:

Mas o que faço eu, (e o tempo foge),
O que fazemos nós, rapazes d’hoje?
Bebemos e fumamos, nada mais!... 

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

O MAR INVADE TUDO


Ao longo da vida tenho acompanhado colecções de poesia mais ou menos breves, mais ou menos duradouras, que têm publicado livros inesquecíveis e têm divulgado poetas de outras línguas que de outra forma não teríamos conhecido.

Lembro-me dos Cadernos de Poesia da D. Quixote, da colecção de poesia da Campo das Letras, da Presença, da Limiar, da Nova Realidade e, entre muitas outras, desta colecção da Quetzal doutros tempos.

"Lisboas" será seguramente um dos livros que eu guardaria entre os mais importantes que se publicaram nas últimas décadas.

O seu autor é um poeta que acompanho a par e passo há muitos anos. Gosto da sua escrita, complexa, por vezes dura, mas trazida cá para fora no fio da urgência de tornar palavra cada degrau da vida



A INUNDAÇÃO

O mar invade Lisboa mas por dentro
enquanto o vento enfeita
as filhas dos polícias
e há um vago frio nos olhos
mais dementes
destas tardes.

As crianças vestem
coloridamente
seu mórbido e inesperado
séquito.

Mas nas ruas da Raiva
nota-se uma abundância
palpável

um rio vagamente doloroso

um mar por dentro.

Nas lojas de fazendas
na menina da caixa
no fastio amarfanhado
dos porteiros.

Gotas marítimas notavam-se
no brilho das pulseiras
de uma amante
líquido miúdo mas brilhante
até nas varizes das peixeiras.

Há quem diga do sol
um sol insólito é bem certo
mas nota-se até na cauda dos insectos
piedosas solícitas gotas de humi ( l ) dade.

O mar invade tudo mas por dentro.

Armando Silva Carvalho


domingo, 21 de setembro de 2014

FELICIDADE

Há poemas a que não se deve acrescentar nem um suspiro. É o caso deste de Jorge de Sena.




FELICIDADE


A felicidade sentava-se todos os dias no peitoril da janela.

Tinha feições de menino inconsolável.
Um menino impúbere
ainda sem amor para ninguém,
gostando apenas de demorar as mãos
ou de roçar lentamente o cabelo pelas faces humanas.

E, como menino que era,
achava um grande mistério no seu próprio nome.

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

MORTE E VIDA SEVERINA



Este poema dramático relata a dura trajectória de um migrante nordestino (retirante) em busca de uma vida mais fácil e favorável no litoral.

Em 1965, Roberto Freire, director do teatro TUCA da PUC de São Paulo pediu ao então muito jovem Chico Buarque que musicasse a obra. Poema e música constituem das mais belas obras brasileiras de sempre.


Em 1966, para grande espanto dos mais atentos, escapando à censura, o espectáculo é apresentado em Lisboa com um tremendo êxito



MORTE E VIDA SEVERINA

(O retirante explica ao leitor quem é e a que vai)

— O meu nome é Severino,
como não tenho outro de pia.
Como há muitos Severinos,
que é santo de romaria,
deram então de me chamar
Severino de Maria
como há muitos Severinos
com mães chamadas Maria,
fiquei sendo o da Maria
do finado Zacarias.
Mais isso ainda diz pouco:
há muitos na freguesia,
por causa de um coronel
que se chamou Zacarias
e que foi o mais antigo
senhor desta sesmaria.
Como então dizer quem fala
ora a Vossas Senhorias?
Vejamos: é o Severino
da Maria do Zacarias,
lá da serra da Costela,
limites da Paraíba.
Mas isso ainda diz pouco:
se ao menos mais cinco havia
com nome de Severino
filhos de tantas Marias
mulheres de outros tantos,
já finados, Zacarias,
vivendo na mesma serra
magra e ossuda em que eu vivia.
Somos muitos Severinos
iguais em tudo na vida:
na mesma cabeça grande
que a custo é que se equilibra,
no mesmo ventre crescido
sobre as mesmas pernas finas
e iguais também porque o sangue,
que usamos tem pouca tinta.
E se somos Severinos
iguais em tudo na vida,
morremos de morte igual,
mesma morte severina:
que é a morte de que se morre
de velhice antes dos trinta,
de emboscada antes dos vinte
de fome um pouco por dia
(de fraqueza e de doença
é que a morte severina
ataca em qualquer idade,
e até gente não nascida).
Somos muitos Severinos
iguais em tudo e na sina:
a de abrandar estas pedras
suando-se muito em cima,
a de tentar despertar
terra sempre mais extinta,
a de querer arrancar
alguns roçado da cinza.
Mas, para que me conheçam
melhor Vossas Senhorias
e melhor possam seguir
a história de minha vida,
passo a ser o Severino
que em vossa presença emigra.


terça-feira, 16 de setembro de 2014

OS PÁSSAROS QUANDO MORREM





Lembro-me de o ver passar, pelas ruas de Lisboa, cabelo ao vento, de tudo distraído, transformando em poesia qualquer folha de árvore, qualquer brilho de lua.

Os oficiais da de serviço à poesia, fazedores de pés de barro, deixam-no esquecido na prateleira dos poetas militantes. Por isso é preciso recordá-lo. Uma e outra e outra vez.


Nunca encontrei um pássaro morto na floresta

Em vão andei toda a a manhã
a procurar entre as árvores
um cadáver pequenino
que desse o sangue às flores
e as asas às folhas secas...

Os pássaros quando morrem
caem no céu.

domingo, 14 de setembro de 2014

ALBA


Há uma quantidade de belos poetas açoreanos injustamente pouco referidos

Um deles é o meu amigo Vasco Pereira da Costa, meio dos Açores, meio de Coimbra, xcelente poeta e fantástico dezedor de poesia.


ALBA


Após a chuva desta noite
há um verde que insulta de tão vrde.

Espantam-se as aves com a luz desconhecida.
O sol vai abrir a cancela do mundo.
As baleias espreguiçam ondas sonolentas.

A montanha do Pico afasta o lençol de névoa
e revolteia a sua nudez libertina.

Após a chuva desta noite
há um verde que tanto insulta
que exulta de tão verde.

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

QUIPROQUÓ



Arménio Vieira é um poeta determinante da geração literária caboverdeana de 60.

Foi-lhe atribuído o Prémio Camões em 2009.

Tantas vezes nos esquecemos de beber nos nossos melhores... E o Arménio é um dos nossos melhores, quer dizer, um dos melhores da língua portuguesa.



QUIPROQUÓ

Há uma torneira sempre a dar horas

há um relógio a pingar no lavabo

há um candelabro que morde na isca

há um descalabro de peixe no tecto


Há um boticário pronto para a guerra

há um soldado vendendo remédios

há um veneno (tão mau) que não mata

há um antídoto para o suicído de um poeta



Senhor, Senhor, que digo eu (?)

que ando vestido pelo avesso

e furto chapéu e roubo sapatos

e sigo descalço e vou descoberto.