domingo, 8 de agosto de 2010

POESIA E VAGABUNDAGEM

Gosto de me surpreender. Sobretudo na poesia. Um pouco por todo o mundo há poetas de que nunca ouvimos falar. Poetas que vão oferecendo a sua arte a quem os souber encontrar.

A net tem algumas vantagens e uma delas é a facilidade com que nos põe nas mãos informação preciosa se soubermos que é que queremos procurar.

É por isso tão importante a vangabundagem que nos faz andar de livro em livro, de citação em entrevista, de conversa em conversa, de jornal de domingo em site, esse cruzar de ideias, palavras, conceitos, nomes de autores que nos chegam daqui e dali. Consegue-se assim, não raras vezes, algumas dessas tais surpresas que dão mais espessura à nossa vida.

Um livro da espanhola, Belén Gopegui, "O Pai da Branca de Neve", já falei dele aqui, traz nas primeiras páginas um poema do poeta Roberto Fernández Retamar. Não o conhecia. E era uma opena não o conhecer...



Nasceu em 1930. Estudou pintura e arquitectura. Doutorou-se em Filosofia. Recebeu inúmeros prémios como poeta e desempenhou diversos cartgos políticos.


"FELIZES OS NORMAIS"

Felizes os normais, esses seres estranhos.
Os que não tiveram uma mãe louca, um pai bêbado, um filho delinquente,
Uma casa em parte nenhuma, uma doença desconhecida,
Os que não foram calcinados por um amor devorador,
Os que viveram os dezassete rostos do sorriso e um pouco mais,
Os cheios de sapatos, os arcanjos com chapéus,
Os satisfeitos, os gordos, os bonitos,
Os trocistas estridentes e os seus sequazes, os é claro que sim, por aqui,
Os que ganham, os que são queridos até ao cabo,
Os flautistas acompanhados pelos ratos,
Os vencedores e os seus compradores,
Os cavalheiros ligeiramente sobre-humanos,
Os homens vestidos de trovões e as mulheres de relâmpagos,
Os delicados, os sensatos, os finos,
Os amáveis, os doces, os comestíveis e os potáveis.

Felizes as aves, o esterco, as pedras.

Mas deixem passar os que fazem os mundois e os sonhos,
As ilusões, as sinfonias, as palavras que nos destroçam
e nos constroem, os meis loucos do que as suas mães, os mais bêbados
do que os seus pais e mais delinquentes do que os seus filhos
e mais devorados por amores calcinantes.

Deixem-nos no seu lugar o inferno, e chega.

(Tradução de Miguel Serras Pereira)

3 comentários:

Licínia Quitério disse...

http://palabravirtual.com/index.php?ir=ver_voz1.php&wid=559&p=Roberto Fernández Retamar&t=Felices los normales&o=Roberto Fernández Retamar

Gostei muito. Fui espreitar e encontrei o poema dito pelo autor neste endereço. Conheces?

Beijinho.

mariam disse...

José fanha,
Fantásticas(sempre), as suas partilhas neste espaço. Obrigada .

um grande abraço :)
mariam

R. disse...

Absolutamente extraordinário. Devorador do leitor. Magnífica descoberta a sua... e a minha também. Parabéns!