quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

AMESTERDÃO 1970



Já muito perto dos 60 anos, às vezes dá-me para umas viagens ao passado. Nada de saudosismo. Mas o passado, os passados são para lembrar.

Encontrei por aí esta foto. Amesterdão, 1970, 19 anos, a bordo de um barco pelos canais. Estou ao lado de uma portuguesa, um português e um holandês.

Foi a primeira vez que saí sozinho para o mundo. Sozinho não. Fui com o meu amigo Manuel Botelho. Estudava arquitectura e tinha trabalhado o ano inteiro no Ministério das Obras Públicas como desenhador. Deu para a viagem de um mês.

Portugal era triste, sujo, pequenino, mesquinho, bolorento, dominado por bufos. Vivíamos de frente para uma guerra que parecia não ter fim. E a gente da minha idade barafustava, protestava, conspirava e sentia-se às vezes muito triste.

Lá fora havia tanta coisa, as revoltas estudantis, os hippies, o rock, o Make Love not War, o Guevara, o Vietname e o protesto contra a guerra (com muitas parecenças com a nossa Guerra Colonial) e mais e mais e mais.

A chegada a Amesterdão foi um deslumbre. Respirava-se liberdade, festa, delírio. E havia o mercado das flores. A Casa de Anne Frank. A juventude ocupava a cidade vestida das formas para nós mais deliciosas. Havia música nas ruas, nos parques, havia gente de Itália, da Dinamarca, da América, de toda a parte. E era fácil falar. E cantar. E fazer amigos. E...

Não se tem duas vezes 19 anos. Mas é nessa idade que estabelecemos as nossas pátrias.

Amesterdão, a Cidade-de-Todos-os-Espantos-de-Amesterdão ficou a ser uma das minhas pátrias para sempre.

É claro que tenho outras pátrias. Umas mais pequenas, outras maiores. Um dia falarei delas.

4 comentários:

Maria disse...

Ai como te entendo...
Nessa época a minha cidade era Leuven, um pouco nais abaixo.
Memórias e vivências que ficam sempre dentro de nós.
Beijo.

Tião disse...

Partilhando esta pátria e os teus dizeres, aqui fica um abraço do "português" da fotografia.

Maria José Vitorino disse...

Belo post, belíssima foto.
Partilho contigo esta pátria, feita de mar e de canais e encruzilhadas, resolvida em liberdade e pelas liberdades todas de todos. Para mim também memória e exílios vários, em muitos séculos espalhados, e a vozes que esperam nos livros para tomarem de assalto a mente e o coração: Spinoza, Van Gogh, Rembrandt...

Compatriotemos pois Amsterdam e as suas cores. Mesmo à distância, aconchega-se a saudade :)

António Branco disse...

Ah! Quem me dera ter uma pátria, pequena que fosse. Será que aos 60 a tenho? É que só faltam 13...

Por vezes sinto-me marciano... que merda.