terça-feira, 8 de março de 2011

VAMPIROS E EUNUCOS

E voltamos ao Zeca. Parece que se vai tornando inevitável. Desta vez pela mão ou pela pena do Manuel António Pina em artigo publicado no Jornal de Notícias.



"Vampiros e Eunucos

2011-02-24

Há 24 anos, feitos ontem, morreu José Afonso. Entretanto, vindos "em bandos, com pés de veludo", os vampiros foram progressivamente ocupando todos os lugares de esperança inaugurados em 1974, e hoje (basta olhar em volta) os "mordomos do universo todo/ senhores à força, mandadores sem lei", enchem de novo "as tulhas, bebem vinho novo" e "dançam a ronda no pinhal do rei", tendo, em tempos afrontosamente desiguais, ganho inaceitável literalidade o refrão "eles comem tudo, eles comem tudo/ eles comem tudo e não deixam nada".

Talvez, mais do que legisladores, artistas como José Afonso sejam, convocando Pound, "antenas de raça". Ou talvez apenas olhem com olhos mais transparentes e mais fundos. Ou então talvez a sua voz coincida com a voz colectiva por transportar alguma espécie singular de verdade. Pois, completando Novalis, também o mais verdadeiro é necessariamente mais poético.

O certo é que a "fauna hipernutrida" de "parasitas do sangue alheio" que José Afonso entreviu na sociedade portuguesa de há mais de meio século está aí de novo, nem sequer com diferentes vestes; se é que alguma vez os seus vultos deixaram de estar "pousa[dos] nos prédios, pousa[dos] nas calçadas". E, com ela, o cortejo venal dos "eunucos" que "em vénias malabares à luz do dia/ lambuzam da saliva os maiorais".

Lembrar hoje José Afonso pode ser, mais do que um ritual melancólico, um gesto de fidelidade e inconformismo."

2 comentários:

António Branco disse...

já vimos que a generalidade das pessoas que chega ao poder não é boa gente.
já vimos que a generalidade dos que são boa gente não quer ir para o poder.
parece-me que a generalidade daqueles que ainda vota gosta de gente que tenha muita lábia.
parece-me que a generalidade daqueles que têm lábia a aproveitam em benefício próprio, fazendo parte do grupo que não é boa gente.
parece-me que aqueles que são boa gente não têm, no geral, grandes dotes oratórios...
como é que resolveremos isto?
pessoalmente, não vejo solução a médio prazo...

Bruxinha disse...

Aulas de retórica para todos?...
Afinal porque é defendemos acérrima e democraticamente a literacia?
O Saber é um caminho para muitas soluções.
O poder é um meio não um fim em si.
Boa gente, que o seja de verdade, não teme o poder mas usa-o em proveito do bem comum.
Utopia?
É pelas utopias que vale a pena a vida.