sábado, 5 de novembro de 2011

PRECISAMOS DE LITERATURA E NÃO DE RESUMOS



Precisamos de literatura como de pão para a boca. Para ser. Para crescer. Para voar.

Dizia noutro dia a minha amiga Margarida Botelho que "A leitura é a didáctica dos afectos". Estou de acordo.

Mas ler é duro, por vezes. E bom. É muito bom esta descoberta da palavra e da sua força carnal, telúrica, transcendente.

Tenho a certeza de que fazer reduções, resumos ou caricaturas das grandes obras para que as crianças se vão "habituando", é um caminho perverso, espertalhote e safardanas.

Que me desculpem os confrades da escrita que resumiram grandes obras para os meninos se irem "habituando" aos "Maias", ao "Auto da Barca do inferno", às "Lendas e Narrativas", ao "Memorial do Convento", etc etc.

Este caminho esquece que as grandes obras da literatura não são só a narrativa que contêm. Literatura é linguagem, mergulho na palavra, escrita que serve para narrar uma história.

Os meninos que ficam a saber a história dos Maias não ficam a conhecer o sumo, o desenvolvimento da frase, o uso brilhante do adjectivo, a festa da língua em que Eça era mestre.

Saber apenas uma história é curto e perigoso. Permite até que as crianças pensem que já não precisam de ler os "Maias" porque já sabem a história.

Mais idiota ainda é transformar os "Maias" em gatos e coisas tão destravadas como esta que já vi. É transformar alta culinária em comida de fast food.

Não podemos baixar a exigência neste campo.

Não acredito que quem se habitue à fast food passe um dia a gostar de chanfana, arroz de lingueirão ou feijoada à transmontana. Por isso também sempre achei que habituar as crianças a lerem obras menores e redutoras as leve algum dia a gostar das grandes obras com tanto de complexidade como de capacidade para nos maravilharem de forma única.

Desconfio ainda que os professores, editores e outros que gostam muito destes resumos e caricaturas que vou encontrando por algumas Bibliotecas Escolares, são pessoas que nunca leram os originais e que lá no fundo, no fundo, não gostam mesmo de ler.



Quem lê escreve-se a si próprio.

Quem gosta de ler, a sério a sério, quem ama os clássicos, leva aos seus meninos essa paixão, dá-lhes chaves para entrarem nessa festa intensa e saborosa, das obras que muito acrescenta à nossa humanidade e que nos foram deixadas por Cervantes, Eça, Melville, García Marquez, Hemingway, etc, etc, etc

Ler é bom e só quem gosta de ler é capaz de passar o vício aos outros. Esta parece-me ser a questão fundamental.

6 comentários:

tetisq disse...

Concordo.
Não me parecem correctos os resumos das obras, que são muitas vezes recomendados por professores de língua portuguesa, para facilitar o trabalho dos seus alunos ou quem sabe o seu.
Quanto às adaptações para a infância, foi com as que me chegavam na biblioteca móvel da Calouste Gulbenkian, que desenvolvi o gosto pela leitura. Anos mais tarde li clássicos para os quais a curiosidade me foi despertada na infância.
Por isso, concordo que a chave é “só quem gosta de ler é capaz de passar o vício” sendo educador, assim como só quem gosta de ler pode fazer uma boa adaptação no caso de se tratar de um escritor.

JOSÉ FANHA disse...

Cara amiga,

Não sou fundamentalista. E creio que alguns autores fazem adaptações de grandes obras com muito saber, respeito pelo original, e encanto.
Maria Alberta Menéres fez algumas adaptações respeitabilíssimas. Andando mais para trás no tempo poderemos citar outros casos, entre os quais o de Adolfo Simões Muller.
Mas esses autores amavam a obra que adaptaram. Não a transformaram em pastilha elástica.
Nas tenhamos em conta a diferença entre "adaptar" e "resumir" ou caricaturar.
O fundamental é aprender a gostar e não aprender a mastigar e deitar fora rapidamente.
Penso que estamos de acordo com isto, não estamos?
Obrigado pelas suas palavras.
Beijinhos


Só que hoje em dia começam a abundar

tetisq disse...

Completamente de acordo.
Beijinhos!

samuel disse...

Em cheio!

Há algum tempo, para caricaturar a ideia do Humberto Eco, de fazer ele próprio uma versão "light" de "O nome da rosa"... para melhor chegar às novas gerações (disse ele), prontifiquei-me a fazer, já que o autor não pode, um "resumo do meu romance favorito do Saramago. Ficou mais ou menos assim:

"Man... o Ricardo estava bué mal... morreu. Fim."

Acho que ilustra o que penso sobre os "resumos". :-)))

Abraço.

Filoxera disse...

Amigo:
A questão é que hoje é tudo fast, não só esta tendência da literatura.
É fast living em tudo: fast food, fast driving, fast growing, fast sex; nem a educação escapa a esta mania de roubar o tempo devido a todas estas actividaes.
Para quê?...

JOSÉ FANHA disse...

Fantástico Samuel! tens de dedicar-te a essa arte de grande subtileza e futuro!

E tens razão. Temos de voltar a juntar poemas e canções e andar por aí fora.

O último a arranjar um espectáculo é maricas!

Grande abraço