quarta-feira, 22 de outubro de 2008

O ENTERRO DA ESCOLA



Outro amigo com quem me vou encontrando por aqui e sobretudo por ali desde os 18 anos. Fizemos canções juntos, entrámos em espectáculos, almoçámos, jantámos, rimos muito e trocamos um imenso abraço amigo, mais que amigo, irmão, sempre que nos reencontramos.

Tudo começou em 1969. Pelo mundo ia o movimento hippy, o Make Love not war, a guerra do Vietname, os Beatles, os Stones, Woodstock, os restos do Maio de 68 em Paris. Ser jovem era sonhar. Ser diferente. Ser irreverente. Questionar. cantar. Mudar. Experimentar.

Por cá, havia a guerra colonial, 4 anos de tropa e guerra a que nós, jovens, estávamos condenados e cuja única alternativa era a fuga a salto e o exílio.

E havia o protesto estudantil que crescia a olhos vistos no cinzentismo com alguma esperança de abertura política trazidos pela doença de Salazar e chegada ao poder de Marcelo Caetano.

Em 1969 entrei para a Escola Superior de Belas Artes de Lisboa, ESBAL, ao Chiado, para estudar Arquitectura.

Aí conheci o Carlos Mendes, uma grande vedeta à época. Músico dos Sheiks, vencedor de dois Festivais da Canção RTP e, acima de tudo, um tipo sem peneiras, um jovem cheio de vontade de partir a loiça, de rir, de fazer de cada dia de vida uma festa. Um pouco como muitos de nós.

Quando cheguei á Escola alguns alunos, e entre ele o Carlos, estavam a organizar o enterro da Escola. Consideravam que ali já pouco se ensinava, a escola estava morta e, portanto, havia que lhe fazer o enterro.

Eu não quis saber de mais nada e juntei-me logo ao alegre funeral. Metia um artístico caixão que era levado em ombros pelos corredores e salas de aula. À frente, numa lenga-lenga divertidíssima, o sacerdote oficiante, vestido a preceito segundo me lembro, era o Pedro Brandão.

O caixão entrava nas salas de aula e os professores eram informados de que as aulas tinham de parar porque a Escola tinha morrido e portanto...

Os professores alinhavam na coisa. Era Belas Artes e, apesar de tudo, havia uma maior capacidade de aceitar a irreverência jovem. Ao fim de uma meia hora
éramos uns 400 estudantes na procissão do enterro. Em coro cantávamos os estribilhos: "ESBAL ESBAL está podre e cheira mal" e "A escola é nossa!A escola é nosssa" sobre ao ritmo a marcha oficial que dizia "Angola é nossa! Angola é nossa!"

Apenas um professor resistiu, o Pinheiro, que estava a fazer um teste de Geometria Descritiva numa sala da cave do velho convento de S. Francisco onde a Escola está instalada.

Bateu-se à porta e quem veio atender foi um colega nosso pouco recomendável, filho de uma personagem qualquer do fascismo brasileiro, um matulão do caraças que fez peito à malta toda, a armar-se em paladino de alguma Guerra Santa.

Teve azar. À frente vinham logo o Carlos Mendes, o Catita e o João Paulo Bessa (na altura jogador de rugby...), tudo gente que "disparava primeiro e perguntava depois".
Não sei quem foi que lhe deu um "encontrão". Só sei que o rapaz brasileiro deu três voltas no ar e entrou pela aula de trambulhão.

Depois entrou-se na sala e informou-se delicadamente os 12 colegas que estavam a fazer teste que a Escola tinha morrido e, portanto, não havia razão para fazer testes. E tirou-se-lhes as folhas de teste não fosse algum deles não entender o fundamento da questão.

O enterro continuou, saiu à rua, deu algumas voltas e regressou ao pátio da escola onde o caixão foi atirado à cisterna.

E é nestes alicerces que assenta a minha grande amizade pelo Carlos Mendes. Andamos agora a fazer mais umas canções. E a concordar com o O'Neill:

"...
neste reino de Pacheco,
ó meus senhores que nos resta
senão ir aos maus costumes,
às redundâncias, bem-pensâncias,
com alfinetes e lumes,
fazer rebentar a besta,
pô-la de pernas prò ar?"

7 comentários:

Maria disse...

As várias formas de luta que encetávamos, então...

Vou ficar à espera do resultado desse trabalho com o Carlos Mendes.

Beijo

Lúcia disse...

Novo enterro precisa-se. Por uma melhor educação. Cerne da evolução de um povo.

o escriba disse...

Gostei de ler essas recordações e esse enterro. Não era mal pensado tratar-se de um funeral para a educação de hoje. Ainda não morreu mas está nos estertores finais.

Um abraço
Esperança

samuel disse...

Como tinham razão!... A escola continua a morrer um pouco todos os dias.

Abraço

Caçadora de Emoções disse...

Faço minhas as palavras do Samuel. É lamentável uma situação destas. Precisamos de agir.
Gostei muito da partilha destas memórias...

Um sorriso :)

mariam disse...

José Fanha,
Obrigada por estas partilhas...

é sempre um gosto passar por aqui.

bom fim-de-semana
um sorriso :)
mariam

Madalena S. disse...

Nada como um bom enterro para consolidar amizades.
Os melhores enterros em que participei na vida foram aqueles de gente já bem entrada nos anos, aqueles tios e tios-avôs muito velhinhos, que já estavam muito mais para lá do que para cá, e de quem se diz suspirando e abanando a cabeça com ar compungido: "Foi melhor assim, para não sofrer!"
Também a Escola, agora como então, precisa de ser enterrada, não tanto para não sofrer mas mais para não fazer sofrer os que nela vivem.
E o melhor destes enterros é que, normalmente, servem para encontrar velhos amigos que já não víamos desde o último enterro.
Então, lá pela uma da manhã, quando o velório começa a decair vergado pela cansaço natural a que a luz das velas não dá grande animação, juntam-se os amigos num cantinho e contam-se anedotas daquelas capazes de fazer levantar o morto. Aliás, muitas contam-se em memória do morto que nos seus bons tempos era, ele próprio, um grande pândego. E dali parte-se para um qualquer tasco que ainda esteja aberto para se aquecer a alma com uns tragos.
Eu estou convencida, plenamente convencida, que o enterro da Escola de agora seria uma grande reunião de amigos, com muita história divertida pelo meio e uma grande sensação de alívio no final.
Espero, com ansiedade, que o O'Neil vos inspire. É preciso mesmo "fazer rebentar a besta".
E cantar todos os dias.