quinta-feira, 2 de outubro de 2008

RESPIRAÇÃO ASSISTIDA




DESVERSOS

Trinta anos depois continuo revoltadíssimo
Vª Exª foi de uma grande falta de chá
nem eu precsava de Angola - nunca!
nem Angola de mim - o que hoje parece claro

Vª Exª argumentava nos corredores
que eram ordens do dr. Salazar
ora adeus mandasse-o mas é a ele
tinha bom corpo para apanhar porrada

e mesmo Vª Exª podia ter feito
uma perninha como eu fiz em Zala
não sou de rancores nem pouco mais ou menos~
mas aquela merda estava mesmo parada

sabe Vª Exª o pasmo e a aflição
quando se caía em alguma emboscada?
umas vezes olhava pelo rabo do olho
outras fingia de morto e mijava-me

depois voltava-se ao acampamento
para a ternura dos cães e a tarimba rasa
um duche ao ar livre um cigarro infeliz
o gole de cerveja a atirar para o amargo

houve um fim de dia entre todos cinzento
que eu me senti o maior dos miseráveis
funesta ideia - e fui a correr esconder
a arma de serviço por sinal uma Walther

a esta hora já enterraram Vª Exª
com as competentes honras militares
mas a verdade é sempre para se dizer
trinta anos passados não me esqueço de nada


Fernando Assis Pacheco

2 comentários:

Júlio Pêgo disse...

Lembrar Pacheco é não esquecer o poeta, quem viveu o seu tempo e afixou estacas na memória.
Júlio

Méon, disse...

Olá, José Fanha!

Passei por aqui e tive que parar.
Primeiro, pelo "abastecimento de poesia"...
Depois porque ainda ontem falei de si e do Assis Pacheco. Estava com a Lucilina e o Ninéu ("Vaca Cornélia", lembra-se?) e recordámos o famoso concurso mai-las figuras que por lá apareceram e deixaram um imenso rastro.

Fico contente por ver que o José Fanha continua com o fulgor desses tempos.

Abraço da minha parte