quarta-feira, 12 de novembro de 2008

"XÁCARA DAS BRUXAS DANÇANDO" OU O SEU A SEU DONO



Há muito quem pense que a letra da excelente canção "Xácara das bruxas dançando" dos Trovante é de João Gil ou de Luís Represas. Há pouco passei por um blog que atribuía a um dos dois a autoria do poema que foi escrito, de facto, pelo poeta e romancista Carlos de Oliveira. Assinale-se ainda que o poema é composto por 4 partes e a canção só usa a 3ª parte. Porque é um poema muito especial, de um grande autor, porque os Trovante foram um grupo notável que de alguma forma se prolonga nas obras excelentes dos que o constituíram e que, obviamente, não precisam de autorias indevidas, aqui fica devolvido o seu a seu dono


XÁCARA DAS BRUXAS DANÇANDO


I

Era outrora um conde
que fez um país,
com sangue de moiro,
com laranjas de oiro,
como a sorte quis.

Há bruxas que dançam
quando a noite dança,
são unhas de nojo
são bicos de tojo,
no tambor da esperança.

Ventos sem destino
que dizeis às ramas?
Desgraça bramindo
é a nós que chamas.

No país que outrora
um conde teceu,
as laranjas de oiro
são bruxas de agoiro
e fúrias do céu.

Anda o sol de costas
e as bruxas dançando
e os ventos do norte
sobre nós espalhando
as tranças de morte.

As estrelas mortas
apagam-se aos molhos:
vem, lume perdido,
florir-nos nos olhos.


II

Ama, estás ouvindo
a história que vou contando?
Ó ama pátria dormindo
desde quando?

Desde tempos e memórias,
desde lágrimas e histórias,
desde raivas e glórias,
agora te estou chorando
e tu dormindo
até quando?

As bruxas andam lá fora
e eu chorando
versos do país de outrora.

Dançam bruxas a ganir
de mãos dadas com o vento.
Ama, acorda; sopra o lume;
e não me deixes dormir
na noite do pensamento.


III
Ó castelos moiros,
armas e tesoiros
quem vos escondeu?
Ó laranjas de oiro,
que ventos de agoiro
vos apodreceu?

Há choros, ganidos,
à luz da caverna
onde as bruxas moram,
onde as bruxas dançam
quando os mochos amam
e as pedras choram

Caravelas, caravelas
mortas sob as estrelas
como candeias sem luz
E os padres da inquisição
fazendo dos vossos mastros
os braços da nossa cruz

As bruxas dançam de roda
entre o visco dos morcegos,
dançam de roda raspando
as unhas podres de tojo
na noite morta do povo
como num tambor de rojo.

IV

E o tempo murchando
a luz de idos loiros.
Ama, até quando
estaremos chorando
os castelos moiros?

Lá vão naus da Índia,
lá se vão tesoiros.
E as bruxas dançando
e os ventos secando
as laranjas de oiro.

Ama até quando?

Na noite das bruxas
o lume no fim
e o vento ganindo.

Amas estás ouvindo?

O lume no fim
e os homens dispersos.

Ama, tens frio;
cinge-te a mim
e aquece-te ao lume
queimando os meus versos.

Carlos de Oliveira

(in “Turismo”, 1942)

4 comentários:

Caçadora de Emoções disse...

Gosto demais dos Trovante e também desta canção.
Desconhecia o autor da letra.
Obrigada por ter partilhado connosco esta informação. E pelo poema completo, que é belo!
Um óptimo fim-de-semana. Fique bem.

Beijos mil e um grande sorriso :)

Júlio Pêgo disse...

Neste mundo globalizado torna-se urgente que a identidade do autor seja sempre respeitada. A originalidade é o magma da verdade, da criatividade e da procura de ser vivo para além da sua existência física, na sempre luta contra a morte na busca da imortalidade.
Júlio

girassol disse...

"Bem Trabalhado!"
O Carlos de Oliveira tem poemas lindíssimos. Eu bem sei que pouca importância lhe é dada.
Um beijo José Fanha

blogas disse...

Nem mais. E acho que a malta dos trovante já poderia ter esclarecido isso. Mas pronto...