segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

O QUE GANHA UM ESCRITOR?



(Alguns autores para a infância e juventude têm feito nas escolas um papel algo semelhante ao que faziam em tempos idos as carrinhas da Gulbenkian que corriam o país até aos mais abandonados recantos. Falo de companheiros que com maior ou menor frequência "andam na estrada" de escola em escola como Luísa Ducla Soares,António Torrado, José Jorge Letria, António Mota, Margarida Fonseca Santos, Sílvia Alves, Margarida Botelho, eu próprio e uns quantos mais)

Tenho verificado em muitas escolas que há algum desconhecimento por parte de professores, alunos e pais quanto ao que ganha um escritor com os livros que publica.

Esse desconhecimento gera por vezes pequenos e grandes equívocos levando a que, na presunção de que os direitos do autor são vastos e farfalhudos, se espera que o escritor esteja disponível a colaborar com as escolas sem nenhum pagamento em troca, como se fosse sua obrigação dar esse apoio que seria suportado, na imaginação de muitos, pelas vendas de livros e fantásticos direitos daí ade-vindos.

Por isso venho esclarecer em nome meu e dos meus companheiros escritores para a infância e juventude que exercem uma função pedagógica importante, percorrendo as escolas de Norte a Sul do país a contar histórias, conversar com os meninos, colaborar com os professores, promover o livro e a leitura:

Direitos de Autor para livros de prosa: 10% da venda ao público

Direitos de Autor para livros ilustrados no meu caso:

1ª hipótese: 8% do preço de venda ao público até que se considerem pagas as ilustrações; 10% do preço de venda ao público depois de estarem vendidos 5 mil exemplares.

2ª hipótese, quando texto e ilustração se equivalem: 5% do preço de venda ao público.

Estes Direitos são pagos anualmente no mês de Abril a seguir a cada ano. Quer isto dizer que os direitos dos meus livros vendidos em 2012 ser-me-ão pagos na melhor das hipóteses em Abril de 2013.

Considerando que o valor médio de venda ao público de um livro para a infância anda entre os 7 e os 10 euros, será fácil fazer as contas e perceber de que valores se fala quando falamos de Direitos de Autor.

É claro que poderíamos vender milhares ou milhões de livros mas há que sublinhar o facto de que Portugal é um país pequeno e, apesar do muito que se está a fazer através do PNL, da Rede de Leite Pública e da Rede de Bibliotecas Escolares, continua a ser ainda o país da Europa onde menos se lê.

11 comentários:

Maria disse...

Importante este teu esclarecimento.
Para o que der e vier...

Beijo.

Sílvia Alves disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Sílvia Alves disse...

Meu caro amigo, subscrevo o esclarecimento, a reclamação e partilho a batalha...

Considerando tudo não faz sentido o "custo zero" que alguns pretendem para levar um escritor à escola.

Há um custo de deslocação, alimentação, por vezes de alojamento.
Há o custo do tempo: o dispendido a percorrer quilómetros, o tempo do encontro com alunos, o tempo do compasso de espera entre uma sessão e outra... O tempo tem um valor.

Há o esforço de cada escritor para que cada encontro com leitores resulte realmente num acto de mediação da leitura (diferente de ser de promoção de livros).

Um esforço real, fisica e intectualmente falando, quer haja ou não um bom trabalho preparatório da visita (o que nem sempre acontece).
Salvaguardo muitos professores que sabem respeitar esse trabalho. É um trabalho!

Reconheço que muitos professores já preparam exemplarmente estes encontros, tendo em vista o seu principal e último objectivo: motivar as crianças, as familias para leitura e num nível seguinte, e mais exigente, torná-los melhores leitores.

Há muito a fazer para que estes "périplos" sejam considerados como trabalho intelectual a favor da leitura, possam beneficiar todas as escolas, sobretudo as mais distantes e isoladas.Têm um custo que, independentemente das vendas, não é suposto ser suportado pelos direitos de autor.

Sílvia Alves disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Rogério Pereira disse...

Porque sou solidário. Porque conheço escritores e outros autores sem salário, porque apresentei no sábado passado um livro e vou entrar nesse martírio, vou citar-te meu amigo. Um pedido: não desistas pois um escritor deve ser lido.

Abraço

angelina maria pereira disse...

Solidarizo-me com este desabafo/esclarecimento do J Fanha. Acho inadmissível que se encare as deslocações dos escritores às escolas como 'obrigações' porque ganham 'muito' na vendas!
Rogério, não o conheço como autor mas discordo do uso da palavra 'martírio' para se referir às idas às escolas...

Manuela Caeiro disse...

José Fanha: o seu esclarecimento é oportuno; o seu protesto tem razão de ser. Apoio esta causa! Sou professora aposentada, mediadora de leitura voluntária...; a minha situação não é comparável!... Ainda assim, faço-o com a certeza que ninguém seria contratado para fazer o que faço, nas bibliotecas escolares, e que é reconhecido como válido. Entendo-o bem! Também conheço (conhecemos) o "outro lado": à exceção das vendas de livros, tudo o mais que se faz nas escolas depende de boas vontades... E não se avistam grandes perspetivas de mudança, na conjuntura atual! Nem em pagamentos aos escritores nem tão pouco em compras de livros... :-( Pela minha parte, tenho contribuído para divulgar e promover a leitura de muitos escritores de Literatura infanto-juvenil, sobretudo portugueses. Os seus, muitas vezes. Vou continuar!

Margarida Tomaz disse...

Creio que em muitos casos se desconhece o valor da presença de certos escritores nas escolas.
Se fôr a editora a promover, muito bem. A editora paga.
Mas a editora financia quando tem interesse em divulgar publicações de livros, arriscando um encontro de fastfood.
Por último, para além da falta de dinheiro a que estamos votados no presente, não se pode valorizar o que se desconhece.
E o problema nem está nos professores, mas sim na mentalidade reinante.
Quem me dera ter esses escritores na minha escola, em especial José Fanha e José Jorge Letria.
Um beijinho

tétisq disse...

Registo com saudade o quanto adorava a carrinha da Gulbenkian, que trazia livros à minha porta de 15 em 15 dias, no final dos anos 80. Compreendo o protesto. O que ganham é claramente "ridiculo" e quanto ao PNL tendo em conta o trabalho que têm feito e a lista de livros recomendados, a mim que sou apenas leitora parece-me que responde mais a outros interesses comerciais do que à defesa do livro, do leitor e dos escritores.*

samuel disse...

Também eu, nas cantigas, pertenço a uma classe profissional a quem as pessoas perguntam: «para além de cantar... também trabalha? :-) :-)

Grande abraço.

Catarina Garcia disse...

Para não falar das editoras que metem as primeiras centenas de exemplares a pagar o custo da edição deixando o autor só receber depois (basicamente se não se venderem essas todas os autores podem não ganhar um tusto...). Que tal auto-edições?