segunda-feira, 25 de agosto de 2008

POEMA DA VOZ QUE ESCUTA

Chamam-me lá em baixo.
São as coisas que não puderam decorar-me:
As que ficaram a mirar-me longamente
E não acreditaram;
As que sem coração, no relâmpago do grito,
Não puderam colher-me.
Chamam-me lá em baixo,
Quase ao nível do mar, quase à beira do mar,
Onde a multidão formiga
Sem saber nadar.
Chamam-me lá em baixo
Onde tudo é vigoroso e opaco pelo dia adiante
E transparente e desgraçado e vil
Quando a noite vem, criança distraída,
Que debilmente apaga os traços brancos
Deste quadro negro – a Vida.
Chamam-me lá em baixo:
Voz de coisas, voz de luta.
É uma voz que estala e mansamente cala
E me escuta.

Políbio Gomes dos Santos

2 comentários:

Maria disse...

Belíssimo poema de um autor que não conhecia. Mas é esta a tua função aqui, por agora, dar-nos a conhecer poetas desconhecidos.
O meu Muito obrigada!
Agora vou. Porque me chamam lá em baixo. Vozes de luta, vozes de coisas....

Um beijo, Fanha

elvira carvalho disse...

Gostei do poema. Muito bonito.
Obrigada pela partilha.
Um abraço