segunda-feira, 2 de março de 2009

ROLANDO SÁ NOGUEIRA



Já aqui falei várias vezes do Rolando Sá Nogueira.

Mas insisto.

Foi o grande professor da minha vida. Como professor eu gostava de ser como ele. Um homem que não ensinava. Ajudava a aprender. A voar. Um homem que vivia atento às coisas importantes da vida: uma folha de erva, o desenho das pedrinhas na calçada, a curva de uma gaivota no céu, as rugas de um velho num portal, o olhar de uma prostituta, o ridículo dos homens importantes nas suas poses para a fotografia.

Saí em 68 do Colégio Militar com destino ao curso de Arquitectura na escola Superior de Belas Artes. Na admissão havia um exame obrigatório em que chumbei redondamente. Coisa que nunca tinha visto, nem praticado, nem desconfiado: Desenho de Estátua.

Chumbar nessa cadeira implicava um ano de espera para voltar a tentar entrar.

Fiquei com um ano vazio pela frente. E afinal não foi nada vazio. Terá sido mesmo o ano mais importante da minha vida.

68/69. Lá fora o mundo abanava, fervia, cantava, gritava, protestava, erguia barricadas. E aqui em Portugal o ar tornava-se irespirável.

Eu tinha 17 anos. O sangue a ferver nas veias. E sabia tão pouco...

Fui para a um curso de Formação Artística na Sociedade Nacional de Belas Artes. Frequentei então uma quantidade enorme de cadeiras, seminários, conferências. Imagine-se ter aulas com José Augusto França, Rui Mário Gonçalves, Ernesto de Sousa, António Sena, Manuel Tainha, Fernando Conduto e outros.

Mas o professor dos professores era o Rolando. Todas as manhãs, três horas. Um luxo.

Não tinha receitas. Seguia um programa inglês de abordagem às Artes Visuais. Mas fazia permanentes desvios ao sabor das circunstâncias da vida. Estava profundamente ligado ao mundo, interessado pelo que se passava à sua volta, apaixonado por tudo o que o mundo lhe trazia às mãos, revoltado pela humilhação a que os homens deste país eram permentemente sujeitos.

Era um professor. Mais que um professor. Um Mestre. Há outros assim. São inavaliáveis, inclassificáveis. Ajudam-nos a crescer até às estrelas.

5 comentários:

DruKZ disse...

Tal como a professora Mariazinha :D

Maria disse...

Que texto tão bonito...

Neno disse...

Parabéns pelo texto sobre o "meu" professor (ESAP, Desenho, 1986-89). Tropeço na sua memória com frequência. Recordo com saudade o seu profundo conhecimento despido de pedantismo e as estórias com que emoldurava, - a propósito das diversas insignificâncias significantes - a nossa aprendizagem.

Aida disse...

Com muita pena minha não cheguei a conhecer Sá Nogueira, mas o seu carisma enquanto Homem, professor e mestre tem-me sido transmitido por muitas pessoas, de forma muito forte.
Este texto é mais um desses exemplos.
Não quero que a importância de Sá Nogueira na história de muitos (alunos)caia no completo esquecimento. Por isso a minha tese de mestrado é: Sá Nogueira - Ensinar Desenho.
Espero contar com os depoimentos de antigos alunos de Sá Nogueira, para que para além da reconstrução da sua teria pedagógica, tb possa fazer uma reconstrução da sua prática.
Em que medida posso contar com a sua colaboração?

joao moreira disse...

Mestre Sá Nogueira , ainda hoje que já tenho quase cinquenta anos, creio que sem a sua ajuda não teria encontrado o caminho.Tive o privilegio de frequentar o seu atelier e dele ter acompanhado o meu trabalho de 1981 até o seu falecimento. Estive como seu assistente nas pinturas que realizou para a sala das sessões da Câmara Municipal de Lisboa e como calculam foi fantástico estar dois meses a conviver com o homem daquela dimensão. João Moreira