quarta-feira, 18 de junho de 2008

ESTE ERA O NOSSO POEMA

(Este foi um dos primeiríssimos poemas que disse em público, corria o ano de 69, em que entrei para a Faculdade - Escola Superior de Belas Artes de Lisboa -, apanhei a chamada Crise Académica e me integrei rapidamente na luta dos estudantes que foi crescendo e teve um papel destacado na criação de condições para que se desse o 25 de Abril.)

Leia-se em tom progressivamente bonzinho, monótono e, finalmente, provocatório.



ESTE É O NOSSO POEMA



Este é o poema do tédio
e da apatia

Este é o poema repetido
dia-a-dia
e já esquecido

Este é o poema do sono
da indiferença
do vazio
Este é o poema sem dor
sem fome
e sem frio

Este é o poema dos relógios
sem ponteiros
este é o poema que nunca chegou
a sair do tinteiro

Este é o poema repetido
nos mesmos sítios
nos mesmos sons
Este é o poema do destino
de quem o segue
dos «homens bons»

Este é o poema lento
quase parado
Este é o poema cinzento
mas agasalhado

Este é o poema com gravata e peúgas
da mesma cor

Este é o poema de entrar e sair
«bom dia» «boa tarde»
Este é o poema do desamor

Este é o poema dos truques
consentidos
pequenas batotas
Este é o poema da morte a conta-gotas

Este é o poema da vida inteira
frente à televisão
Este é o poema da pasmaceira
Este é o poema sem discussão

Este poema é um esquema
Este poema é uma máquina
Este poema é uma festa
Este poema porta-se bem
não contesta nada

Este é o poema que percorre livremente
o caminho permitido
Este é o poema que canta
o amor instituído
Este é o poema do discreto beija-mão
Este é um bonito poema,
batam palmas
porque este poema
não diz que não

Este é o nosso poema
Este é o poema
Este é o nosso poema

ESTE POEMA NÃO ESTÁ PROIBIDO




jOSÉ FANHA

(in, "Cantigas da Dúvida e do Perguntar", 1970, reeditado em "Eu sou Português aqui", 1998, Ulmeiro)

5 comentários:

mariam disse...

Grandioso poema!
"Este é o poema da vida inteira"

resto de boa semana
um sorriso :)

rs disse...

Cuidado com as provocações!...

Já vi a PIDE mais longe de voltar...

Rita

Maria disse...

Não conheço esse teu primeiro livro, de 1970, mas tenho os outros, obviamente, e ainda hoje passei por um blog onde li o "Dói-me o peito, doutor"...
Este poema é fantástico. Mas qual deles não o é? (Gosto de poemas "teimosos")

:)))

Beijos

Caçadora de Emoções disse...

Grande poema!
Contém uma ironia deliciosa!..

Beijo :)

Júlio Pêgo disse...

Este poema ainda tem eco na pasmaceira que os "mass media" nos provocam...