terça-feira, 10 de março de 2009

QUÊ DE CÃO



(Desenho de um menino do Jardim de Infância do Alvor)


QUÊ DE CÃO


Atenção muita atenção
É preciso ter cuidado com o cão!

Ter cuidado com o quê com o quê com o quê?
Ter cuidado
com o quê
de cão!

É preciso ter cuidado
com a corda com o cardo
com a queda e com o calo
o costado do camelo
o cabrito e o cavalo
a quina do cotovelo
a cabeça a cabeçada
o cachucho a caldeirada
o caldinho o caldeirão

Atenção muita atenção
É preciso ter cuidado com o cão!

Ter cuidado com o quê com o quê com o quê?
Ter cuidado
com o quê
de cão!

É preciso ter cuidado
com o quê e com o cê
com o dê de dromedário
quem te viu e quem te vê
escreve lá este sumário
com a causa e o porquê
o motivo e a razão
deste cão ter o seu quê
à boca do coração.

Atenção muita atenção
É preciso ter cuidado com o cão!

Ter cuidado com o quê com o quê com o quê?
Ter cuidado
com o quê
de cão!

(Do livro no prelo: "CANTIGAS E CANTIGOS PARA FORMIGAS E FORMIGOS")

domingo, 8 de março de 2009

RECEITA DE MULHER




A fotografia roubei-a ao blog: http://leonorcordeiro.blogspot.com/

Juntei-lhe o poema para rememorar um grande poeta que trouxe sempre a poesia à Praça Pública. E vem a propósito da data esta...


Receita de mulher


As muito feias que me perdoem
Mas beleza é fundamental. É preciso
Que haja qualquer coisa de dança, qualquer coisa de haute couture
Em tudo isso (ou então
Que a mulher se socialize elegantemente em azul, como na República [Popular Chinesa).
Não há meio-termo possível. É preciso
Qu tudo isso seja belo. É preciso que súbito
Tenha-se a impressão de ver uma garça apenas pousada e que um rosto
Adquira de vez em quando essa cor só encontrável no terceiro minuto da [aurora.
É preciso que tudo isso seja sem ser, mas que se reflita e desabroche
No olhar dos homens. É preciso, é absolutamente preciso
Que tudo seja belo e inesperado. É preciso que umas pálpebras cerradas
Lembrem um verso de Eluard e que se acaricie nuns braços
Alguma coisa além da carne: que se os toque
Como ao âmbar de uma tarde. Ah, deixai-e dizer-vos
Que é preciso que a mulher que ali está como a corola ante o pássaro
Seja bela ou tenha pelo menos um rosto que lembre um templo e
Seja leve como um resto de nuvem: mas que seja uma nuvem
Com olhos e nádegas. Nádegas é importantíssimo. Olhos, então
Nem se fala, que olhem com certa maldade inocente. Uma boca
Fresca (nunca úmida!) e também de extrema pertinência.
É preciso que as extremidades sejam magras; que uns ossos
Despontem, sobretudo a rótula no cruzar das pernas, e as pontas pélvicas
No enlaçar de uma cintura semovente.
Gravíssimo é, porém, o problema das saboneteiras: uma mulher sem [saboneteiras
É como um rio sem pontes. Indispensável
Que haja uma hipótese de barriguinha, e em seguida
A mulher se alteie em cálice, e que seus seios
Sejam uma expressão greco-romana, mais que gótica ou barroca
E possam iluminar o escuro com uma capacidade mínima de 5 velas.
Sobremodo pertinaz é estarem a caveira e a coluna vertebral
Levemente à mostra; e que exista um grande latifúndio dorsal!
Os membros que terminem como hastes, mas bem haja um certo volume de [coxas
E que elas sejam lisas, lisas como a pétala e cobertas de suavíssima [penugem
No entanto, sensível à carícia em sentido contrário.
É aconselhável na axila uma doce relva com aroma próprio
Apenas sensível (um mínimo de produtos farmacêuticos!)
Preferíveis sem dúvida os pescoços longos
De forma que a cabeça dê por vezes a impressão
De nada ter a ver com o corpo, e a mulher não lembre
Flores sem mistério. Pés e mãos devem conter elementos góticos
Discretos. A pele deve ser fresca nas mãos, nos braços, no dorso e na face
Mas que as concavidades e reentrâncias tenham uma temperatura nunca [inferior
A 37° centígrados podendo eventualmente provocar queimaduras
Do 1° grau. Os olhos, que sejam de preferência grandes
E de rotação pelo menos tão lenta quanto a da Terra; e
Que se coloquem sempre para lá de um invisível muro da paixão
Que é preciso ultrapassar. Que a mulher seja em princípio alta
Ou, caso baixa, que tenha a atitude mental dos altos píncaros.
Ah, que a mulher dê sempre a impressão de que, se se fechar os olhos
Ao abri-los ela não mais estará presente
Com seu sorriso e suas tramas. Que ela surja, não venha; parta, não vá
E que possua uma certa capacidade de emudecer subitamente e nos fazer [beber
O fel da dúvida. Oh, sobretudo
Que ele não perca nunca, não importa em que mundo
Não importa em que circunstâncias, a sua infinita volubilidade
De pássaro; e que acariciada no fundo de si mesma
Transforme-se em fera sem perder sua graça de ave; e que exale sempre
O impossível perfume; e destile sempre
O embriagante mel; e cante sempre o inaudível canto
Da sua combustão; e não deixe de ser nunca a eterna dançarina
Do efêmero; e em sua incalculável imperfeição
Constitua a coisa mais bela e mais perfeita de toda a criação inumerável.

quarta-feira, 4 de março de 2009

BOXE E LARANJAS



Na sua juventude de estudante de Belas Artes, o Rolando Sá Nogueira teve a tentação do boxe, desporto muito popular pelos anos 40, e foi praticar num famoso clube de então, o Mouraria.

Ao fim de algum tempo de treinos foi-lhe marcado o primeiro combate, julgo que no Coliseu.

Os colegas de Belas Artes estavam entusiasmadíssimos tanto mais que o Rolando era muito alto e tinha aquilo que se chama um belo caparro.

João Abel Manta (outro grande Mestre tão esquecido)era e foi durante toda a vida um grande ou mesmo o maior amigo de Rolando Sá Nogueira. Foi ele ue me contou esta história.

João Abel não pôde ir assitir ao combate do amigo na noite anterior, mas na manhã seguinte estava de pedra e cal à porta das Belas Artes à espera do, esperava ele, vitorioso amigo Sá Nogueira.

Quando Rolando Sá Nogueira apareceu à esquina, vinha cabisbaixo, macambúzio, pouco glorioso.

- Então, pá, ganhaste? - perguntou-lhe João Abel.

- Não... Perdi...

- Perdeste? Porquê? O adversário era um grande calmeirão?

- Não... O gajo era muito pequenino... Eu é que não fui capaz de bater num tipo daquele tamanho.

Assim terminou a aventura do Rolando como boxeur. A sua obra, essa permanece, por exemplo, nos azulejos da estação de Metro das Laranjeiras.

As suas laranjas são tão doces como era envergonhadamente irónico o riso com que tornava todas as desgraças relativas.


segunda-feira, 2 de março de 2009

ROLANDO SÁ NOGUEIRA



Já aqui falei várias vezes do Rolando Sá Nogueira.

Mas insisto.

Foi o grande professor da minha vida. Como professor eu gostava de ser como ele. Um homem que não ensinava. Ajudava a aprender. A voar. Um homem que vivia atento às coisas importantes da vida: uma folha de erva, o desenho das pedrinhas na calçada, a curva de uma gaivota no céu, as rugas de um velho num portal, o olhar de uma prostituta, o ridículo dos homens importantes nas suas poses para a fotografia.

Saí em 68 do Colégio Militar com destino ao curso de Arquitectura na escola Superior de Belas Artes. Na admissão havia um exame obrigatório em que chumbei redondamente. Coisa que nunca tinha visto, nem praticado, nem desconfiado: Desenho de Estátua.

Chumbar nessa cadeira implicava um ano de espera para voltar a tentar entrar.

Fiquei com um ano vazio pela frente. E afinal não foi nada vazio. Terá sido mesmo o ano mais importante da minha vida.

68/69. Lá fora o mundo abanava, fervia, cantava, gritava, protestava, erguia barricadas. E aqui em Portugal o ar tornava-se irespirável.

Eu tinha 17 anos. O sangue a ferver nas veias. E sabia tão pouco...

Fui para a um curso de Formação Artística na Sociedade Nacional de Belas Artes. Frequentei então uma quantidade enorme de cadeiras, seminários, conferências. Imagine-se ter aulas com José Augusto França, Rui Mário Gonçalves, Ernesto de Sousa, António Sena, Manuel Tainha, Fernando Conduto e outros.

Mas o professor dos professores era o Rolando. Todas as manhãs, três horas. Um luxo.

Não tinha receitas. Seguia um programa inglês de abordagem às Artes Visuais. Mas fazia permanentes desvios ao sabor das circunstâncias da vida. Estava profundamente ligado ao mundo, interessado pelo que se passava à sua volta, apaixonado por tudo o que o mundo lhe trazia às mãos, revoltado pela humilhação a que os homens deste país eram permentemente sujeitos.

Era um professor. Mais que um professor. Um Mestre. Há outros assim. São inavaliáveis, inclassificáveis. Ajudam-nos a crescer até às estrelas.

sábado, 28 de fevereiro de 2009

MARX BROTHERS



Diz o meu amigo Carlos Mendes que só há duas maneiras de funcionar dentro deste Estado no estado de falta de vergonha a que chegou (não é preciso dizer porquê, posi não?)

A primeira é tornarmo-nos muito mais burocratas que os burocratas e levar até às últimas consequências todas as avaliações, evidências, relatórios, registos, relógios de ponto, decretos-lei, normas, normativos, regras, artigos, etc, etc, até á total paralisação deste monstro em que nos mergulham.

A segundo é a o uso sistemático do absurdo e da desobideciência civil que são belíssimas formas de poesia activa.

Neste campo a inspiração terá sempre de passar pelos Irmãos Marx. Quem é que dizia que era marxista, linha Grouxo? Leio as notícias e apetece-me subscrever.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

EB 1 de VILA VERDE - BUARCOS



Todos nós estamos anisosos por histórias e poesia, mesmo quando julgamos que não.

Às vezes, muito injustamente, esqueço-me das mãos amigas que me fizeram chegar as fotografias. Esta foi a Tina Abrantes. Muito obrigado.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

ESTAMOS VIVOS, SOMOS LINDOS



Foi num programa do Nicolau Breyner há uns 12... 15 anos, talvez. Vesti a pele do palhaço, em referência ao sonho de vir um dia, uma noite a acturar como tal na pista de um circom, um sonho que guardo apenas para quando for grande.eira de Carnaval.

Fiva bem numa 3ª f

Ainda de palhaço declamei este poema que se chama "BALANÇO GERAL" e que acaba com a frase "ESTAMOS VIVOS SOMOS LINDOS".

Um beijinho à minha amiga Helena Correia que me fez chegar o endereço no You Tube.

sábado, 21 de fevereiro de 2009

SOUZELAS



Há escolas assim, onde a emoção do encontro nos fica dentro do peito. Escolas como esta onde, em condições difíceis, alguns professores se transcendem e esquecem o desprezo com que são tratados para construir um trabalho cheio de dignidade e seriedade que vai muito para além dos relatórios, das avaliações, dos programas.

Ser professor é uma arte fina e rara. Quando encontramos um ou uma professora devemos tirar-lhe solenemente o chapéu e agradecer o que fazem pelo futuro deste país.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

THE WEAVERS




Grupo americano famoso formado em Novembro de 1948 por Ronnie Gilbert, Lee Hays, Fred Hellerman e Pete Seeger e estão na base do impacto e da popularidade da música folk nos anos 50 e 60.

As suas canções de protesto, canções de apoio aos sindicatos americanos, as suas posições de esquerda valeram-lhes proibições, perseguições por parte do FBI e a colocação dos seus nomes na Lista Negra do chamado macartismo que anunciava os nomes daqueles a quem os estúdios de cinema, as cadeias de televisão e as gravadoras de discos, não podiam dar trabalho e que incluia nomes de actores, realizadores de cinema, músicos como Charlie Chaplin, Aaron Copland, Dashiell Hammett, Joseph Losey, Zero Mostel, Orson Wells, Dalton Trumbo, etc, etc.

Pete Seeger continuou a sua carreira a solo quando o grupo se disfez em 1952. No entanto, em 1955 o grupo voltou a juntar-se para cantar em público e em 1958 Pete Seeger voltou a sair por discordãncias diversas, nomeadamente quanto ao desejo de alguns elementos do grupo de aceitar canções de publicidade ao tabaco.

O grupo continuou a cantar e teve várias formações. Em 2005 receberam o Lifetime Achievement Award na entrega dos Grammys.

domingo, 15 de fevereiro de 2009

UMA MENINA COM UM LIVRO





“Às vezes sentava-me na rede, balançando-me com o livro aberto no colo, sem tocá-lo, em êxtase puríssimo. Não era mais uma menina com um livro: era uma mulher com o seu amante.”

Clarice Lispector, escritora brasileira, “A descoberta do mundo”

sábado, 14 de fevereiro de 2009

O TROMBONE



Pela segunda vez vai á cena este divertimento teatral que escrevi há meia dúzia de anos.

Trata-se de uma "Clownerie para 87 grandiosos cenários, 72 cenas de arrepiar os cabelos, 35 personagens arrasadores, 9 sinfonias incompletas, 3 actos e meio, dois actores e um Trombone".

Desta vez é encenado pelo Paulo Matos, produzido pelo Miguel Pedra e interpretado pelos actores Vítor Emanuel e Luís Viegas.

Estreia-se hoje em Oliveira de Azemeis e vai andar em digressão pelo país.

BIBLIOTECA LÍDIA JORGE



De regresso à Biblioteca Lídia Jorge na EB23 Aníbal Cavaco Silva de Boliqueime.

Uma das muitas Bibliotecas escolares onde o trabalho dos professores é excelente e enorme a adesão dos meninos.

E é nos lugares de excelência que mais se sente a dor dos professores e a sua revolta.

sábado, 7 de fevereiro de 2009

O MAR É AZUL AZUL




Eu, João Lourenço e a Vera San Payo Lemos, ou só eles os dois, trabalhámos vários textos de Bertolt Brecht. Surgiu então a ideia de escrever uma peça que fosse a reflexão sobre o conjunto desses textos, os seus temas e a própria figura de Brecht e constituísse uma pequena antologia de canções e cenas das peças do grande autor alemão.

O resultado foi "O MAR É AZUL AZUL" levado à cena em 1998 no Teatro Aberto.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

SWEENY TODD




Um musical da Broadway de Steven Sondheim, que já fora autor das letras de "West Side Story".

Produção conjunta do teatro Nacional D. maria II e do Teatro Aberto, o espectáculo foi levado à cena no teatro Nacional D. Maria em 1997 e de novo no Teatro Aberto em 2007

Tive novamente um imenso prazer em trabalhar este texto. Mas foi talvez o mais difícil que trabalhei em teatro. Porque a língua inglesa é muito mais sintética que a portuguesa e tem muitas palavras monosilábicas e agudas, enquanto o português está cheio de palavras graves e algumas exdrúxulas. Foi necessário trabalhar e retrabalhar, fazer grandes equilibrismos, para conjugar a tradução portuguesa com o magnífidesenho musical de Sondheim.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

ASCENSÃO E QUEDA DA CIDADE DE MAHAGONNY



Uma ópera de Brecht e Weill encenada pelo João Lourenço e levada à cena em 1985 no Teatro Nacional de S. Carlos

Uma canção que ficou famosa cantada pelos Doors e por outros, "Alabama song" ("O show me the way to the next whisky bar...")

Um trabalho exaustivo para colocar as palavras no desenho da música. Sempre em companhia da Vera san Payo Lemos e do João.

Foi um espectáculo verdadeiramente grandioso.

domingo, 1 de fevereiro de 2009

ÓPERA DE 3 VINTÉNS



Outro trabalho que me deu imenso prazer. Novamente Brecht. Um texto mítico. Uma canção que ficou famosíssima pelo seu título em inglês "Mac the Knife" e que é tocado e cantado por imensos músicos e cantores de Jazz.

Novamente trabalhei as letras das canções para se adaptarem em português à música de Kurt Weill. Foi um grande espectáculo, levado à cena em 1992 e de novo em 2005.

"A ópera de 3 vinténs" é inspirada na "The Beggar's Opera" de John Gay e inspirou a "Ópera do malandro" de Chico Buarque de Holanda.