Não serão muitos os poemas em que Sophia de Mello Breyner Andersen traz a intimidade dos afectos para a mesa da poesia.
A sua poesia visita mais os terrenos dos mitos e da polis. Brilha nela uma altivez, um limpeza das palavras que nunca se perde mesmo quando raramente se aproxima de temas mais pessoais e reservados.
TU DORMES
Tu dormes embalado nos rochedos
E aos meus ouvidos vem falar o vento.
Escuto, busco, chamo e não respondes,
E todo o mundo se tornou fantasma.
Estou fechada, suspensa, prisioneira
Queria voltar para fora, para o dia
Ressurgir, respirar, tornar a ver,
Mas todo o mundo se tornou fantasma.
E a voz do mar encheu o céu e a terra
Uma voz que está cheia e que se quebra
E nunca mais acaba.
Pássaros brancos cortam as janelas,
Anémonas cintilam nos rochedos:
Terror de estar sozinha e de escutar
Com este tempo morto entre os meus dedos.
quarta-feira, 31 de dezembro de 2014
domingo, 28 de dezembro de 2014
A NOSSA CASA
Na poesia moderna, e depois de um século XIX em que a poesia feminina pouco ou nada se tornou pública, foi Florbela a primeira poetisa a falar da mulher por inteiro, do amor, do desejo, do corpo.
Seguiram-se-lhe outras. As mais conhecidas são Natália e Maria Teresa Horta. Mas é ela que rompe a situação de marginalidade das vozes femininas, sofrendo na pele as dores dessa mesma marginalidade a que estava condenada a condição e a escrita das mulheres.
FLORBELA ESPANCA (1894-1930)
A NOSSA CASA
A nossa casa. Amor, a nossa casa!
Onde está ela. Amor, que não a vejo?
Na minha doida fantasia em brasa
Constrói-a, num instante, o meu desejo!
Onde está ela. Amor, a nossa casa,
O bem que neste mundo mais invejo?
O brando ninho aonde o nosso beijo
Será mais puro e doce que uma asa?
Sonho... que eu e tu, dois pobrezinhos,
Andamos de mãos dadas, nos caminhos
Duma terra de rosas, num jardim,
Num país de ilusão que nunca vi...
E que eu moro – tão bom – dentro de ti
E tu, ó meu Amor, dentro de mim...
Seguiram-se-lhe outras. As mais conhecidas são Natália e Maria Teresa Horta. Mas é ela que rompe a situação de marginalidade das vozes femininas, sofrendo na pele as dores dessa mesma marginalidade a que estava condenada a condição e a escrita das mulheres.
FLORBELA ESPANCA (1894-1930)
A NOSSA CASA
A nossa casa. Amor, a nossa casa!
Onde está ela. Amor, que não a vejo?
Na minha doida fantasia em brasa
Constrói-a, num instante, o meu desejo!
Onde está ela. Amor, a nossa casa,
O bem que neste mundo mais invejo?
O brando ninho aonde o nosso beijo
Será mais puro e doce que uma asa?
Sonho... que eu e tu, dois pobrezinhos,
Andamos de mãos dadas, nos caminhos
Duma terra de rosas, num jardim,
Num país de ilusão que nunca vi...
E que eu moro – tão bom – dentro de ti
E tu, ó meu Amor, dentro de mim...
quinta-feira, 25 de dezembro de 2014
NATAL
Três momentos em volta do Natal e da Fé.
MÁRIO CASTRIM
DLIM-DLIM
Nasce a menina
dlim-dlim
não é Jesus
dlim-dlim
nem Jesuíina
dlim-dlim
ela é a filha
de uma vizinha
não teve burro
nem vaquinha
porque em Lisboa
era difícil
ser assim.
De qualquer modo
dlim-dlim.
FERNANDO PESSOA
NATAL
Nasce um Deus. Outros morrem. A verdade
Nem veio nem se foi: o Erro mudou.
Temos agora outra Eternidade,
E era sempre melhor o que passou.
Cega, a Ciência a inútil gleba lavra.
Louca a Fé vive o sonho do seu culto.
Um novo Deus é só uma palavra.
Não procures nem creias: tudo é oculto.
FREI BENTO DOMINGUES
"Creio que a linguagem religiosa só pode viver no símbolo e na metáfora. Naquilo que é inizível."
terça-feira, 23 de dezembro de 2014
COMO ESTÁ SERENO O CÉU
Leonor de Almeida Portugal de Lorena e Lencastre, Condessa de Oeynhausen, Marquesa de Alorna, fundadora da maçonaria feminina, foi uma das maiores ou talvez a maior figura feminina da cultura portuguesa.
Aristocrata de vastos pergaminhos, poetisa, pensadora, frequentadora da melhor e mais culta sociedade europeia do iluminismo.
MARQUESA DE ALORNA (1750-1839)
Como está sereno o Céu,
como sobe mansamente
a lua resplandecente,
e esclarece este jardim!
Os ventos adormeceram;
das frescas águas do rio
interrompe o murmúrio
de longe o som de um clarim.
Acordam minhas ideias,
que abrangem a Natureza,
e esta nocturna beleza
vem meu estro incendiar.
Mas se à lira lanço a mão,
apagadas esperanças
me apontam cruéis lembranças,
e choro em vez de cantar.
Aristocrata de vastos pergaminhos, poetisa, pensadora, frequentadora da melhor e mais culta sociedade europeia do iluminismo.
MARQUESA DE ALORNA (1750-1839)
Como está sereno o Céu,
como sobe mansamente
a lua resplandecente,
e esclarece este jardim!
Os ventos adormeceram;
das frescas águas do rio
interrompe o murmúrio
de longe o som de um clarim.
Acordam minhas ideias,
que abrangem a Natureza,
e esta nocturna beleza
vem meu estro incendiar.
Mas se à lira lanço a mão,
apagadas esperanças
me apontam cruéis lembranças,
e choro em vez de cantar.
quarta-feira, 17 de dezembro de 2014
COMO O QUE CONSOME ALENTA
Outra religiosa nascida já em finais do séc XVII, Soror Madalena da Glória, uma das 3 grandes poetisas do séc. XVII com Soror Violante do Céu e Soror Maria do Céu.
Soror Madalena da Glória era também pintora, o que levou Natália Correia a acentuar que a pintura, bastante cultivada neste período por mulheres artistas, hoje ignoradas, teve o seu expoente feminino em Josefa de Óbidos.
(Pintura de Josefa de Óbidos)
SOROR MADALENA DA GLÓRIA (1672- data da morte desconhecida)
MOTE E GLOSA
Como dá vida o que mata,
Como o que consome, alenta.
Já que morro, ingrata sorte,
Às mãos da tua porfia,
Deixa-me inquirir um dia
A causa da minha morte:
Se amor com impulso forte
Me rendeu, como me aparta
Do bem, que na alma retrata
Minha doce saudade,
Que em lágrimas persuade,
Como dá vida o que mata.
Nesta aflição importuna,
Em que meu coração passa,
Tudo é rigor que trespassa,
Nada golpe que desuna:
Que infausta a minha fortuna
Um bem, que me representa,
Cruel da vista me ausenta,
E não sabe a minha dor
Definir em tal rigor
Como o que consome, alenta.
Soror Madalena da Glória era também pintora, o que levou Natália Correia a acentuar que a pintura, bastante cultivada neste período por mulheres artistas, hoje ignoradas, teve o seu expoente feminino em Josefa de Óbidos.
(Pintura de Josefa de Óbidos)
SOROR MADALENA DA GLÓRIA (1672- data da morte desconhecida)
MOTE E GLOSA
Como dá vida o que mata,
Como o que consome, alenta.
Já que morro, ingrata sorte,
Às mãos da tua porfia,
Deixa-me inquirir um dia
A causa da minha morte:
Se amor com impulso forte
Me rendeu, como me aparta
Do bem, que na alma retrata
Minha doce saudade,
Que em lágrimas persuade,
Como dá vida o que mata.
Nesta aflição importuna,
Em que meu coração passa,
Tudo é rigor que trespassa,
Nada golpe que desuna:
Que infausta a minha fortuna
Um bem, que me representa,
Cruel da vista me ausenta,
E não sabe a minha dor
Definir em tal rigor
Como o que consome, alenta.
segunda-feira, 15 de dezembro de 2014
ANTES QUE O VOSSO AMOR MEU PEITO VENÇA
Vale a pena visitar a poesia portuguesa no feminino.
De entre todas as poetisas, a primeira será por certo Soror Violante do CéU professou a 29 de Agosto de 1630 no Convento de Nossa Senhora da Rosa, em Lisboa, convento de monjas da Ordem dos Pregadores, ali vindo a falecer.
Conhecida pelos meios culturais da época como Décima Musa e Fénix dos Engenhos Lusitanos, foi um dos máximos expoentes da poesia barroca portuguesa.
SOROR VIOLANTE DO CÉU (1601 – 1693)
Será brando o rigor, firme a mudança,
Humilde a presunção, vária a firmeza,
Fraco o valor, cobarde a fortaleza,
Triste o prazer, discreta a confiança;
Terá a ingratidão firme lembrança,
Será rude o saber, sábia a rudeza,
Lhana a ficção, sofística a lhaneza,
Áspero o amor, benigna a esquivança;
Será merecimento a indignidade,
Defeito a perfeição, culpa a defensa,
Intrépito o temor, dura a piedade,
Delito a obrigação, favor a ofensa,
Verdadeira a traição, falsa a verdade,
Antes que vosso amor meu peito vença.
De entre todas as poetisas, a primeira será por certo Soror Violante do CéU professou a 29 de Agosto de 1630 no Convento de Nossa Senhora da Rosa, em Lisboa, convento de monjas da Ordem dos Pregadores, ali vindo a falecer.
Conhecida pelos meios culturais da época como Décima Musa e Fénix dos Engenhos Lusitanos, foi um dos máximos expoentes da poesia barroca portuguesa.
SOROR VIOLANTE DO CÉU (1601 – 1693)
Será brando o rigor, firme a mudança,
Humilde a presunção, vária a firmeza,
Fraco o valor, cobarde a fortaleza,
Triste o prazer, discreta a confiança;
Terá a ingratidão firme lembrança,
Será rude o saber, sábia a rudeza,
Lhana a ficção, sofística a lhaneza,
Áspero o amor, benigna a esquivança;
Será merecimento a indignidade,
Defeito a perfeição, culpa a defensa,
Intrépito o temor, dura a piedade,
Delito a obrigação, favor a ofensa,
Verdadeira a traição, falsa a verdade,
Antes que vosso amor meu peito vença.
sexta-feira, 12 de dezembro de 2014
QUAL A COR DA LIBERDADE
E a propósito de Abril...
JORGE DE SENA
CANTIGA DE ABRIL
Às Forças Armadas e ao povo de Portugal
«Não hei-de morrer sem saber qual a cor da liberdade»
J. de S.
Qual a cor da liberdade?
É verde, verde e vermelha.
Quase, quase cinquenta anos
reinaram neste país,
a conta de tantos danos,
de tantos crimes e enganos,
chegava até à raiz.
Qual a cor da liberdade?
É verde, verde e vermelha.
Tantos morreram sem ver
o dia do despertar!
Tantos sem poder saber
com que letras escrever
com que palavras gritar!
Qual a cor da liberdade?
É verde, verde e vermelha.
Essa paz do cemitério
toda prisão ou censura,
e o poder feito galdério,
sem limite e sem cautério,
todo embófia e sinecura.
Qual a cor da liberdade?
É verde e vermelha.
Esse ricos sem vergonha,
esses pobres sem futuro,
essa emigração medonha,
e a tristeza uma peçonha
envenenando o ar puro.
Qual a cor da liberdade?
É verde, verde e vermelha.
Essas guerras de além-mar
gastando as armas e a gente,
esse morrer e matar
sem sinal de se acabar
por política demente.
Qual a cor da liberdade?
É verde, verde e vermelha.
Esse perder-se no mundo
o nome de Portugal,
essa amargura sem fundo,
só miséria sem segundo
só desespero fatal.
Qual a cor da liberdade?
É verde, verde e vermelha.
Quase, quase cinquenta anos
durou esta eternidade,
numa sombra de gusanos
e em negócios de ciganos,
entre mentira e maldade.
Qual a cor da liberdade?
É verde, verde e vermelha.
quarta-feira, 10 de dezembro de 2014
MANHÃ INICIAL E LíMPIDA
Ainda do 40xABRIL, um poema de Fernando Luís Sampaio e uma ilustração de Luís Manuel Gaspar.
FERNANDO LUÍS SAMPAIO
CODA
Da manhã inicial e límpida
Homens de palha destronaram
A chama a favor da combustão
E as palavras de que nascemos
Ladram em matilha silenciosa.
domingo, 7 de dezembro de 2014
40XABRIL
Neste mundo literário à portuguesa, onde reinam pequenos príncipes com balcão de secos e molhados nas páginas pouco literárias dos jornais, se alguém diz muito bem de alguém, vai-se logo pensar aquele role das suspeitas rascas do costume e que, infelizmente, quase sempre, são verdadeiras.
Mal conheço a Catarina Nunes de Almeida. Mas gosto da sua poesia. Gosto cada vez mais. Vai crescendo a cada publicação. Neste excelente livro editado pela ABYSMO, brilha entre vários outros excelentes trabalhos de poetas e ilustradores que, ouvindo a música de José Mário Branco, celebraram os 40 anos do 25 de ABRIL longe e para a frente e para cima dos discursos oficiais.
E se eu não dissesse nada
não me atrevesse mais a escrever
ignorasse todas as tâmaras do mundo os pontos de fuga
nos grandes quadros renascentistas
mais a poluição que ainda vai no adro
e toda a gama de tectos falsos e de capachinhos
disponível na internet?
E se eu fechasse os olhos e o útero e a conta bancária
a todo o anjo que viesse com anunciações
e tarifários ilimitados?
E se eu partisse o antebraço e nunca mais erguesse cartazes
nem cravos nem percorresse a selva que resta com o meu filho
ao colo?
E se eu me recusasse a proferir para sempre uma ave que fosse
uma das que dividem o tempo
uma entre as que salvam?
Ainda assim temo bem
a palavra cegonha romperia a minha mão
em pleno Abril
sexta-feira, 5 de dezembro de 2014
UMA MENINA TINHA UM CÃO QUE TINHA UMA PULGA
Entre os poetas surrealistas, às vezes tão mal conhecidos, podemos encontrar momentos verdadeiramente gloriosos em que a escrita pões a vida ao contrário, ou seja, como ela devia ser.
ANTÓNIO JOSÉ FORTE (1931-1988)
A PULGUINHA DANÇARINA
Uma menina tinha um cão que tinha
uma pulga no focinho.
O nome da menina era Gisela.
O cão chamava-se Piloto.
Só a pulguinha
não tinha
um nome
que fosse pequenino como ela.
Quando a menina cantava
e o cão Piloto ladrava
a pulguinha
que havia de fazer ela?
Como não cantava nem ladrava
a pulguinha
dava pulos e dançava
apesar de pequenina
lhe puseram
o nome de dançarina.
quarta-feira, 3 de dezembro de 2014
POSTERIDADES
A Ana Luísa é uma poetisa de grande consistência na escrita e de olhar subtil sobre o mundo que nos cerca.
ANA LUÍSA AMARAL (1956)
POSTERIDADES
Escrevo para a posteridade
do que é nada:
uma lupa tombada
sobre o corpo,
uma almofada lisa,
pequeno pára-quedas
de ternura
[Devia estar amarrotada,
a almofada,
mas não está: está lisa.
Se não, ficaria espraiada
por futuro]
Escrevo para o meu filho
que é de nada,
varão que não possuo:
uma filha com olhos
de transparência tal
de pára-quedas
que um nó de vento
os tornaria muros
[Devia ter mil nós
o pé
da minha filha,
mas não tem: é livre.
Por isso é que é
de tudo]
E em relação
à lupa,
façam os entendidos
o que quer:
um século daqui,
descubram-lhe a
verdade.
[Ponha-se aí a rima
que quiser:
coberta de veludo]
domingo, 30 de novembro de 2014
DORES
Alexandre O'Neill é um bom remédio para qualquer doença.
ALEXANDRE O’NEILL (1924-1986)
DORES
Às dores inventadas
Prefere as reais.
Doem muito menos
Ou então muito mais.
In No Reino da Dinamarca, 1958
quinta-feira, 27 de novembro de 2014
MORRI MIL VEZES
VALTER HUGO MÃE (1971)
o super homem
vesti o meu fato de
super homem por baixo da
roupa de todos os dias quando
fui ouvir o que o médico
tinha para dizer sobre a
operação da minha
mãe. eu morri mil vezes
quando a operaram, iam
partir-lhe o osso do peito e
isso é tão avesso ao que
espero dela. até digo às
crianças que não corram em seu
redor, tem quase setenta anos e
está cansada e não é bom que caia ou
sequer se aflija. partiram-lhe o
osso do peito. fizeram-no porque
é assim que se faz, dizem, e eu,
secretamente com o meu fato de
super homem, supostamente
preparado para tudo, morri mil vezes
e, mesmo depois das boas palavras do
médico, ando lento, tão atrasado
nas ressurreições
segunda-feira, 24 de novembro de 2014
VENHA DOUTOR ENSINAR-ME
Três poetas se seguem e três poemas sobre doença.
ROSA ALICE BRANCO (1950)
IMAGERIE CEREBRAL
Venha doutor ensinar-me a distinguir
a emoção do sentimento. Guie-me para que a mente
se torne clara, o espírito lúcido e a alma
- ah, talvez possamos dispensar a alma.
Enquanto espero ficarei escondida no armário
entre a roupa de verão e a de inverno
terei calor de um lado, termerei do outro,
mas no centro o coração estará a boa temperatura,
a uma tépida esperança. Porém se demorar a imobilidade
mudará as estações da roupa, as fases da lua. Esta atracção
por si é uma maré viva, uma maré cega se não vier
ensinar-me o que é a emoção e o sentimento. Faremos
uma ressonância antes do chá, uma sonda perfurando
o insondável. Venha doutor dizer-me se sinto fome, se
tenho sede, ou se não passo de uma ilusão dos sentidos.
quarta-feira, 19 de novembro de 2014
APETECE SER AVE
Foi um privilégio para quem o pôde ver no seu programa "Se bem me lembro" na RTP dos anos 60, ou assistiu às suas aulas na Faculdade de Letras.
Sendo um poeta complexo, com uma música muita própria, por vezes pousava na grande simplicidade e dava-nos pequenas pérolas como esta.
VITORINO NEMÉSIO (1901-1978)
O sol fechou o dia
Sem mão nem chave;
A pouca luz que havia
Deu-a para uma ave.
Então a ave selou
Com seu sono seu ninho,
E a terra toda amou
Na casa do passarinho.
Um ovo é como uma chave,
Mas só abre a vida às penas.
Apetece ser ave,
Ter as mágoas pequenas.
Sendo um poeta complexo, com uma música muita própria, por vezes pousava na grande simplicidade e dava-nos pequenas pérolas como esta.
VITORINO NEMÉSIO (1901-1978)
O sol fechou o dia
Sem mão nem chave;
A pouca luz que havia
Deu-a para uma ave.
Então a ave selou
Com seu sono seu ninho,
E a terra toda amou
Na casa do passarinho.
Um ovo é como uma chave,
Mas só abre a vida às penas.
Apetece ser ave,
Ter as mágoas pequenas.
domingo, 16 de novembro de 2014
ENCANTA-ME
O Abel Neves é um amigo, companheiro de ofício(s), dramaturgo, romancista e poeta. Segundo diz a música da poesia está presente em tudo o que escreve.
Este poema diz exactamente o que eu gostaria de dizer tantas vezes a algumas, não sei se muitas, pessoas.
ABEL NEVES (1956)
Faz o favor encanta-me
olha como faz Marte aos engenheiros
e está a tantos milhões de distância
Não te peço órbitas ao largo nem que venhas
mapear a casa um perfume que seja teu
só isso
e encanta-me
Este poema diz exactamente o que eu gostaria de dizer tantas vezes a algumas, não sei se muitas, pessoas.
ABEL NEVES (1956)
Faz o favor encanta-me
olha como faz Marte aos engenheiros
e está a tantos milhões de distância
Não te peço órbitas ao largo nem que venhas
mapear a casa um perfume que seja teu
só isso
e encanta-me
quinta-feira, 13 de novembro de 2014
AMOR BIG AMOR
FERNANDO ASSIS PACHECO (1937-1995)
Amor amor big amor
eu dizia shazam e tu não me ligavas
pus Mandrake a seguir-te hábil nos truques
e tu não me ligavas
em qualquer planeta verde e avançadíssimo
tu não me ligavas
estendi o meu braço Homem de Borracha até S. Martinho do Bispo
e tu não me ligavas ponta nenhuma
tu querias era casar na Sé Nova
branquingénua abusar do meu livre alvedrio
fiz-te pois um manguito do tamanho dum choupo
e cá estou pai de filhos um bocado estragado
mas não por tua causa que já não existes
ó sombra de sombra à esquina da farmácia
segunda-feira, 10 de novembro de 2014
NÃO EMPURREM, IRMÃOS!
Um dos mais irónicos e divertidos poemas do Zé Gomes Ferreira.
LÉCTRICO
XLII
E se eu de súbito gritasse
nesta voz de lágrimas sem face!:
Eh! companheiros da plataforma
presos ao apagar do mesmo pavio!
Porque não nos amamos uns aos outros
e damos as mãos
- sim as nossas mãos
onde apodrecem aranhas de bafio?
Eh! companheiros da plataforma!
(Não empurrem Irmãos.)
sábado, 8 de novembro de 2014
VAGAS E LUMES
O livro saiu na semana passada. E é para ler e chorar por mais.
O meu muito amigo e companheiro de nuvens e sonhos, Mia Couto, feiticeiro das palavras, mostra-se cada vez mais poeta, apesar de não deixar de ser um maravilhoso contador de histórias.
Falávamos há uns dias. Perante este mundo estranho que não sabemos para onde vai e onde muitos dos nossos sonhos de humanidade parecem demasiado adiados, afogados no "tem que ser" das economias, o que nos resta a nós se não SER, apenas SER, continuar a SER, com o mesmo olhar em fogo e água e as mãos a moldar o barro das palavras para as oferecer a quem delas mais precisa?
ERRATA
Quem é mortal, mente.
Mentirosos,
ainda mais,
os tais
imortais.
Sem culpa uns e outros.
O verbo morrer
é que é sujeito falso
e de duvidosa acção.
Mais verdadeiro seria
se não fosse verbo.
Ou se conjugasse apenas
em forma passiva: ser morrido.
Como eu,
mais que as vezes que nasci,
fui morrido por ti.
E, assim, findo
num engano de rio:
simulando que morre
mas sendo água eterna.
O meu muito amigo e companheiro de nuvens e sonhos, Mia Couto, feiticeiro das palavras, mostra-se cada vez mais poeta, apesar de não deixar de ser um maravilhoso contador de histórias.
Falávamos há uns dias. Perante este mundo estranho que não sabemos para onde vai e onde muitos dos nossos sonhos de humanidade parecem demasiado adiados, afogados no "tem que ser" das economias, o que nos resta a nós se não SER, apenas SER, continuar a SER, com o mesmo olhar em fogo e água e as mãos a moldar o barro das palavras para as oferecer a quem delas mais precisa?
ERRATA
Quem é mortal, mente.
Mentirosos,
ainda mais,
os tais
imortais.
Sem culpa uns e outros.
O verbo morrer
é que é sujeito falso
e de duvidosa acção.
Mais verdadeiro seria
se não fosse verbo.
Ou se conjugasse apenas
em forma passiva: ser morrido.
Como eu,
mais que as vezes que nasci,
fui morrido por ti.
E, assim, findo
num engano de rio:
simulando que morre
mas sendo água eterna.
segunda-feira, 3 de novembro de 2014
TEJO
Passei à beira Tejo. Há muito que não nos encontrávamos. Ficámos à conversa. Pouco tempo que esta vida que levamos não nos deixa parar muito.
Mas logo me veio à cabeça o O'Neill. O primeiro poeta das minhas leituras de adolescente. E que me ficou para sempre. Cheguei a saber a obra dele quase toda de cor. Da cuore. Do coração.
O Tejo Corre no Tejo
Tu que passas por mim tão indiferente,
no teu correr vazio de sentido,
na memória que sobes lentamente,
do mar para a nascente,
és o curso do tempo já vivido.
Não, Tejo,
não és tu que em mim te vês,
- sou eu que em ti me vejo!
Por isso, à tua beira se demora
aquele a saudade ainda trespassa,
repetindo a lição, que não decora,
de ser, aqui e agora,
só um homem a olhar para o que passa.
Não, Tejo,
não és tu que em mim te vês,
- sou eu que em ti me vejo!
Um voo desferido é uma gaivota,
não é um voo da imaginação;
gritos não são agoiros, são a lota…
Vá, não faças batota,
deixa ficar as coisas onde estão…
Não, Tejo,
não és tu que em mim te vês,
- sou eu que em ti me vejo!
Tejo desta canção, que o teu correr
não seja o meu pretexto de saudade.
Saudade tenho, sim, mas de perder,
sem as poder deter,
as águas vivas da realidade!
Não, Tejo,
não és tu que em mim te vês,
- sou eu que em ti me vejo!
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